SAM WILSON ESTAVA SENTADO NO SOFÁ de Serena Valente, com uma bandeja de lasanha congelada nas mãos quando ouviu a porta abrindo. Era Amanda Ortega, cruzando o corredor em passos letárgicos.

—Café? — ofereceu ela à guisa de cumprimento.

Seus olhos estavam cansados, os ombros baixos. Cansada. Como todos eles.

— Não, obrigado — ele murmurou, apontando para a bandeja fumegante em suas mãos e sorriu. Um sorriso amargo é claro. Mas, ainda assim, um sorriso.

Ela deu a volta pela sala e estendeu um segundo copo a Íris Miller que estava esparramada sobre o tapete, o notebook de trabalho apoiado nas pernas. Atrás do aparelho, uma bolinha de pelos brancos se aprumava. Alpine. A gata, na ausência de Bucky, se mostrava bem sociável com outras pessoas.

O completo oposto do outro gato, o de pelos pretos, que tirava uma soneca em uma pelúcia enorme de um personagem de Star Wars estacionada no canto da sala. Não, aquele bicho se recusava em aceitar qualquer tipo de contato físico e sibilava para qualquer um que tentasse. James, o gato — nas palavras de Bucky — endiabrado de Serena Valente. O apelido fazia justiça a ele.

Ironicamente, o sargento era o único que conseguia se aproximar.

— Alguma novidade? — Amanda perguntou enquanto se sentava ao lado da noiva.

Sam virou o rosto na direção das mulheres. Silêncio sepulcral irrompeu a sala.

Um mês inteiro havia se passado desde que Íris Miller e Amanda Ortega tinham se juntado a investigação, mas nada havia mudado.

Erika Jones, a principal — única, na verdade — suspeita pelo suposto sequestro de Serena Valente continuava desaparecida. E, apesar de terem revirado os arquivos do museu, os computadores e aparelhos eletrônicos pessoais e até mesmo deixado o apartamento chique dela em Manhattan de ponta cabeça, não encontraram nada que confirmasse as suspeitas de Bucky. Absolutamente nada que ligasse Erika Jones as pesquisas de Vronsky ou a Hidra.

É, claro, o desaparecimento dela naquelas condições era — para dizer o mínimo—, um indício de que estava sim envolvida naquela história. Não tinha como não estar. Mas Sam não podia agir até que a encontrasse e — ou — reunisse evidências concludentes dos supostos crimes de Erika — até então, nem o FBI nem a CIA consideraram o sumiço repentino e a ocultação de provas como evidências.

Sam engoliu um pedaço da lasanha em seco e sopesou suas opções. Ainda colaborava esporadicamente em operações de espionagem do governo e, em teoria, tinha a autoridade necessária para ir mais a fundo na investigação, mas não podia abusar. A trégua entre o governo e os Vingadores era tênue e qualquer fagulha poderia desencadear um novo tratado de Sokóvia, ou algo pior. O significava que teria de continuar pisando em ovos com aquele grupo despareado composto por ele, duas civis e Bucky — que graças a liberdade condicional, não poderia simplesmente sair por aí fazendo o que bem entendesse. Eram uma bomba relógio, no melhor dos cenários. Exasperou.

A quem queria enganar? Eram um verdadeiro desastre.

Não tinham nada, estavam perdidos e Sam... estava sem ideias. Tudo que estava em seu alcance já havia sido feito. Usara toda a tecnologia que tinha à disposição desde redwing, os satélites Stark e até o antigo sistema de dados dos Vingadores e não serviu de nada.

Então, em um ato desesperado, Sam pediu pessoalmente ao Homem-Aranha para ficar de olho nas ruas de Nova Iorque e a Stephen Strange paraque tentasse localizar Serena e Erika com seus truques de mágica ou o diabo que fosse seus poderes de mago. Mas, ao que parecia, ambos estavam ocupados demais com seus próprios problemas para ajudá-los no momento. Joaquín Torres, por sua vez, continuava ocupado com a investigação dos Apátridas e o resto... quem sobrara? Wanda Maximoff? Desaparecida. Lang? Indisponível. Rhodey? Não o vira desde a cerimônia em Washington. Os outros estavam fora da galáxia ou em Wakanda — o que era praticamente a mesma coisa no que se referia a alcance.

Estavam sozinhos. Sem apoio. Sem Vingadores. Apenas... eles.

— Onde ele está? — Amanda foi quem quebrou o silêncio. — Bucky?

Sam suspirou.

— Por aí — na terapia, na verdade. Mas não diria aquilo a elas. — Bucky já é bem grandinho, sabe se cuidar.

Deus, Bucky era outro problema.

O sumiço de Serena tinha mexido profundamente com a cabeça dele. O sargento não raciocinava direito. Não comia. Não dormia... só tinha comparecido ao consultório de Raynor naquela tarde porque Sam praticamente o arrastara, usando o pretexto de que se perdesse a sessão acabaria preso — o que, de fato, aconteceria.

Se não encontrassem aquela mulher logo, Bucky ia acabar fazendo algo realmente estúpido.E aquilo o preocupava.

— Conversei com algumas pessoas hoje — Amanda continuou falando, como se quisesse quebrar o gelo. — Eles acionaram as outras delegacias do estado e estão buscando por alguém com as características de Serena. Vão me manter informada.

Por pessoas, pensou Sam, estreitando os olhos, ela provavelmente estava se referindo a peritos e investigadores.

— Que bom — declarou Íris Miller, sem entusiasmo algum. — Agora podemos oficialmente começar a procurar em necrotérios.

Amanda abriu a boca, mas nada disse.

Provavelmente porque tinha lido a tensão e a exaustão nos olhos de Íris e sabia que a menor faísca explodiria em uma longa e desnecessária discussão. A última coisa de que precisavam no momento.

Sam por sua vez, não recriminava Amanda.

Depois de todos aqueles anos — no exército e como Vingador — tinha perdido mais amigos do que podia contar. Por esse motivo, seu ponto de vista sobre situações como aquela se tornara extremamente racional — para não dizer insensível. Entendia perfeitamente o lado da advogada, em circunstâncias comuns, depois de todas aquelas semanas a probabilidade de encontrarem Serena Valente com vida, de fato, era minúscula; quase nula, a bem da verdade.

Não estavam lidando com circunstâncias comuns, no entanto.

Não estavam atrás de um sequestrador, abusador ou um assassino em série. A pessoa que estava por trás daquilo — Erika Jones ou não — tinha um objetivo com ela; um objetivo cruel e que provavelmente envolvia laboratórios ilegais, pesquisas hediondas, cientistas inescrupulosos e muito, muito dinheiro.

Serena Valente sendo um tipo raro de ser humano — ou inumano, de acordo com Bucky — era extremamente valiosa. Aquele sangue... valia milhões. Sam sabia que havia pessoas pelo mundo que matariam para ter acesso a um poder igual ao dela e, só de pensar no que ela poderia estar passando naquele exato momento... era um destino muito pior do que a morte.

Mas Sam não atreveria a dizer aquilo a Íris. Ou a Amanda. Ou a Bucky, sendo bem sincero.

Céus, o que Steve faria se estivesse em seu lugar? Como agiria naquelas circunstâncias? Bom, certamente não desistiria de procurar por Serena. Sam quase sorriu. Aquele era ele. Quando entrava em uma empreitada ia até o fim; se envolvia até os ossos e não descansaria enquanto não a trouxesse de volta sã e salva, especialmente sabendo que Serena Valente significava tanto para Bucky.

Steve também saberia como liderar aquela equipe, apesar de tudo.

Conseguiria manter Bucky sob controle e saberia como levantar o moral daquelas mulheres com um de seus discursos motivadores ou simplesmente com aquela maldita aura imponente de Capitão América. E apesar do beco sem saída, tentaria ver a questão por outro ângulo e, certamente, encontraria algo que ninguém tinha visto. Mas Sam... não era assim.

Estava cansado e perdido. Não sabia o que fazer. Talvez fosse melhor parar por um tempo. Esfriar a cabeça e... não. Desistir não era uma opção.

Então deu outra garfada no prato e trocou um olhar com Amanda Ortega, como se dissesse "dê tempo a ela". A advogada, entendendo o recado, acenou com a cabeça e apoiou as costas no sofá, esticando as pernas em seguida.

— Tem uma coisa que eu ainda não consigo entender — Íris comentou despretensiosamente, jogando o copo vazio de café de qualquer jeito em um canto da sala. — Como é possível que o sinal do celular dela tenha simplesmente desaparecido no meio da cidade? É Nova Iorque.

Sam abaixou o prato e virou na direção dela.

— O último registro é de que horas?

— Pouco antes das sete da manhã — disse ela, em um tom abúlico. — Serena respondeu minha mensagem dizendo que aceitaria aquele emprego no centro poliesportivo do Brooklyn e eu a convidei para o Shark's, para comemorar. Combinamos o horário e ela não disse mais nada.

Ele olhou para o notebook de Íris. Era possível que Erika Jones a tivesse interceptado com o celular na mão e usado um bloqueador em seu aparelho, o que explicaria a falta de sinal.

Mesmo assim...

— Serena ao menos deu alguma pista de onde estava antes de desaparecer?

Íris fez que não e abriu o celular, como se estivesse relendo as mensagens em busca de alguma coisa que podia ter deixado passar.

— Serena estava neste quarteirão enquanto conversávamos — e mostrou o mapa da região através tela de seu notebook, com um círculo demarcando o perímetro. — Em movimento, como se fosse estivesse indo para algum lugar. O problema é que o sistema de rastreamento o qual tenho acesso não é tão sofisticado assim. Há uma margem de erro de alguns metros, o que em Nova Iorque significa muitas ruas e becos, mas...

Ela piscou e voltou a rolar a tela do celular.

— Íris? — Amanda ciciou, virando o rosto — amor, o que foi? Encontrou alguma coisa?

Íris emudeceu, os olhos alternando entre os dois aparelhos.

Ela rolou a tela e teclou no notebook por longos minutos, alternando o olhar de um para outro ensandecidamente. Então, parou. Olhou. Piscou. Olhou de novo. Tinha encontrado um vídeo, a julgar pelo som entrecortado. Ouvia-se a voz dela gritando e aplaudindo.

Uma lágrima escorreu de seus olhos.

— Isso foi na primeira vez que Serena entrou naquele prédio... comigo. Ela estava tão feliz..., mas..., mas...

A mulher franziu o rosto e voltou a digitar no notebook. Sam estreitou os olhos.

— Íris?

Mais batidas enfurecidas no teclado. O celular dela exibia o vídeo em looping. Serena fazendo algumas acrobacias em uma trave enquanto Íris gritava no fundo.

Sam apertou os olhos.

— Amor — Amanda insistiu, cutucando Íris. — Você está começando a me preocupar.

— É isso! — Íris declarou em um ímpeto, como se fosse óbvio. — Como não percebi isso antes?

— O que foi, Miller? — Ele perguntou, irritado.

Mas ela continuou balbuciando.

— Estava na minha cara todo esse tempo... e era tão simples.

Íris fez outra pausa. O barulho do teclado estava levando Sam a loucura.

— Íris! — Amanda gritou, perdendo a paciência. — Que merda você descobriu?

— Acho que descobri o último lugar em que Serena esteve e porque não consigo rastreá-la — ela disse como se não fosse nada, os dedos ainda digitando em velocidade desenfreada.

— Onde? — Sam insistiu.

— E onde mais seria? — disse uma voz vinda da janela. Uma pessoa que não estava naquela sala até então. — No centro poliesportivo, é claro.

Os três se viraram na direção da voz.

Sam por puro reflexo tentou levar a mão ao coldre que escondia na cintura, mas não conseguiu. Seu corpo estava travado.

Ele então ergueu o rosto. Havia uma pessoa sentada em um dos colchonetes que ficavam na beirada da janela, encarando-os com olhos penetrantes. Mas foi Íris Miller quem saiu do estado de estupor primeiro, disparando:

— Isabel?

✧❄✧

Um dia, as coisas vão melhorar... Um dia...

— Cinquenta e três minutos — declarou Raynor, encarando o relógio dourado amarrado ao pulso — é um novo recorde, James. Meus parabéns.

Bucky, por sua vez, se manteve calado, o olhar perdido em nenhum lugar em específico.

— Isso já passou o limite do aceitável— ela insistiu. — Eu preciso que me diga alguma coisa. Qualquer coisa.

Silêncio. Tenso e eterno, silêncio.

A terapeuta fez mais anotações em seu caderno e suspirou.

— Não está funcionando, James — declarou depois de um tempo. — Se você não me disser nada, se não levar a terapia a sério... sabe o que significa, não sabe?

Ele, depois de muitas sessões, virou o rosto e olhou nos olhos afiados dela.

— As pessoas estão perguntando sobre seu progresso. Pessoas acima de mim — Raynor emendou. — Nesse ritmo, sua condicional pode entrar em cheque. É isso o quer? Ir para a prisão federal?

Bucky se remexeu na cadeira.

Se aquela pergunta tivesse sido feita há alguns meses, talvez ele dissesse que sim. Talvez ficasse mais do que feliz em apodrecer em uma cela escura e fria. Mas agora... não podia. Tinha um trabalho a fazer.

Ainda assim, as palavras simplesmente não saiam de sua boca.

Falar sobre aquilo com a terapeuta não era uma opção. Se contasse a Raynor o que realmente se passava em sua cabeça, caso dissesse quantas vezes tinha chegado perto de quebrar as regras dela nos últimos dias, se expusesse as tramoias, as paranoias e os pensamentos assassinos... jamais o deixariam solto pela cidade.

Erika Jones era o colega de Vronsky e ele tinha deixado aquele detalhe passar batido. A culpa era toda dele. E, agora Serena...

— Eu não entendo... você estava se saindo tão bem — Raynor continuou falando, enquanto folheava os registros em seu caderno. — Olhe aqui. Isso é de seis meses atrás.

Ela então mostrou as anotações, esperando alguma reação por parte dele. Quando percebeu que Bucky não se manifestaria, no entanto, continuou:

— Você se recusava a sair do apartamento novo e tudo que dizia era sobre a próxima pessoa que queria prender, mas... algumas sessões depois, houve a primeira menção a vizinha — uma pausa. — Você tinha ido jantar com ela. Se lembra disso?

Ele sentiu o peito apertando. Como não lembrar daquela noite?

— No começo não parecia nada — disse, ainda folheando o caderno. — Mas... duas sessões mais tarde, você tinha adotado um gato. Um gato.

Bucky ergueu um lábio para cima, não um sorriso, mas algo parecido.

A bem da verdade, não tinha a menor intenção de ficar com Alpine no começo. A culpa havia sido toda de Serena, que insistia em trazer aqueles petiscos, usando o pretexto de que precisava dar comida de gato de verdade para a gata e o tempo foi passando e... até que ele gostava da companhia de Alpine.

Mas sim, Bucky tinha mencionado àquilo a Raynor em algum momento.

Ela continuou falando:

— Na sessão seguinte, você assistiu a um filme de ficção cientifica. Star Wars, certo? — Bucky quase sorriu. Quase.

A culpa havia sido de Serena outra vez.

Ela o forçara a fazer aquilo, assistir aos filmes — e eram muitos. Dizia que tinha de se "atualizar" com a cultura pop. Mas tinha gostado daquilo, de se sentar no sofá dela enquanto comia pipoca e a ouvia tagarelar sobre Ewoks, androides, mestre Yoda, Grogu, e estrelas da morte, a cabeça dela apoiada em seu ombro e os sapatos de palhaço em seus pés.

— Depois você foi a Coney Island... fez coisas normais, de pessoas normais.— A voz de Raynor o trouxe de volta a sala, parecia aflita. — E, durante todo esse tempo... James, seu olhar estava diferente. Você estava diferente. Estava vivendo ao invés de... sobrevivendo.

Bucky sustentou o olhar.

Pela primeira vez, não enxergou Raynor como a carcereira pessoal enviada para descobrir se ele estava ou não andando na linha. Não. Aquele olhar era o que mais se aproximava com o de um ser humano preocupado com o acontecia com ele. Uma terapeuta, de fato. E, por um breve instante, Bucky se sentiu tentado em se abrir com ela. Se abrir de verdade.

Raynor completou:

— Então, seis sessões atrás, o silêncio retornou — e fechou o caderno outra vez. — O que diabos aconteceu com você, James?

A bolha estourou. O tom complacente havia voltado.

— Sabe o que aconteceu — pela primeira vez em muito tempo, Bucky ousou abrir a boca para dizer algo além de sim, não ou estou bem. — Sei que anda conversando com Sam pelas minhas costas.

— Sam Wilson não é meu paciente — ela retorquiu, olhando no fundo dos olhos dele. — Você é. Eu apenas tenho ciência do que você me conta. Faz parte do código de ética.

— Como checar as mensagens pessoais de seu paciente? — cuspiu.

Raynor respirou fundo. Seria contra o código de ética estrangulá-lo? Porque ela parecia a um passo de fazer aquilo.

— Não estou aqui para julgar se você deve ou não voltar para a prisão — destacou, suavizando o tom de voz outra vez. — Meu trabalho é te ajudar a superar seus traumas. Mas se você continuar se recusando a fazer o tratamento...

— Vai me colocar na solitária? — e esticou os lábios. Um sorriso amargo.

— Isso não é engraçado.

Ele discordava.

— São os pesadelos? — deduziu. — Estão piores?

Sim, tinham piorado. O sargento não parava de sonhar com a agente IV morta nos braços do Soldado Invernal. Um maldito looping assombrando-o noite após noite. A pior parte daquilo tudo era que o rosto da agente assumira outra forma.

E enquanto o sangue escorria, era rosto dela que Bucky enxergava. Serena.

Um dia, as coisas vão melhorar... Um dia...

— Não — ele respondeu.

— Então, tem a ver com a sua vizinha? — tornou a terapeuta.

Bucky trincou o maxilar.

— Vocês estão com algum tipo de relacionamento mal resolvido? —insistiu.

— Acha mesmo que tenho um ego tão frágil? — ele quase rosnou. — Que sou mesquinho a esse ponto?

— Me diga você, James. Conte o que está acontecendo aí dentro — exigiu a terapeuta. — Por favor.

Silêncio outra vez. Ele não diria. Não podia.

— Ouça — Raynor exasperou, encarando-o de um jeito emblemático. — O que quer que esteja acontecendo entre vocês... o que quer que esteja planejando... apenas tome cuidado, tudo bem? Há pessoas por aí de olho em você e no que anda fazendo.

Bucky se ajeitou no sofá e desviou o olhar.

— Sei onde estou me metendo. Obrigada pelo aviso.

Ela endireitou a postura e tirou os óculos. Em seus olhos, havia um olhar cansado.

— Mesmo horário semana que vem — como sempre, não era uma pergunta.

Dispensado enfim. Ele disparou em direção a porta, de volta para a investigação. De volta a única coisa que importava no momento.

— E, James — disse Raynor, quando ele estava com a mão na maçaneta —sei que não enxerga isso agora, mas... um dia, as coisas vão melhorar. Apenas... viva um dia de cada vez, ok?

Ele piscou.

Uma memória arranhou seu cérebro.

...um dia, as coisas vão melhorar...

...um dia, as coisas vão melhorar...

...um dia, as coisas vão melhorar...

A frase que sempre ouvia saindo da agente IV, momentos antes de morrer sufocada pelo Soldado Invernal. A frase que o atormentava toda noite, mas...

...Um dia... um dia, as coisas vão melhorar. Um dia, homens como Orlov terão o que merecem.

Aquela memória... aquilo tinha acontecido? Quando? Não era o que ele se lembrava.

O chão sumiu de seus pés.

— James?— Raynor ergueu o rosto — precisa de mais alguma coisa?

Ele fez que não com a cabeça e saiu do consultório de sua terapeuta a passos largos, atormentado.