— AMOR, VOCÊ NÃO ACHA QUE ESTÁ EXAGERANDO? — Amanda murmurou enquanto Íris pressionava o botão do elevador. — Tudo bem, ela furou com a gente no bar... e daí? Várias coisas podem ter acontecido.

A porta fechou e o elevador começou a subir.

— Eu sei — Íris respondeu, encarando o teto. — Só que já faz alguns dias desde a última vez que ela respondeu minhas mensagens. Quero ter certeza de que está tudo bem.

Como se quisesse reforçar o ponto, Íris tirou o celular da bolsa e abriu o aplicativo de mensagens. O contato de Serena apareceu na hora. Offline. Suspirou.

— Ela pode estar ocupada — Amanda pontuou, apoiando a mão em seu ombro. — Mudar de emprego pode ser estressante.

— É por esse motivo que não posso deixá-la sozinha — Íris argumentou, ainda olhando a foto da amiga. — Serena não tem muitos amigos desde o estalo. E a avó...

— Eu sei — Amanda concordou, com um sorriso abúlico. — É uma graça que se importe tanto com sua amiga.

Aquilo não era tudo, mas Íris poupou de dizer a noiva que estava tentando desesperadamente rastrear o paradeiro de Serena desde o momento em que a falta de notícias se tornou preocupante e não tivera retorno algum até então.

Havia algo de muito errado acontecendo, ela sabia.

O sistema de rastreamento dos satélites Stark deveria ser capaz de rastrear o aparelho da Serena de qualquer lugar do mundo, mesmo se estivesse desligado ou sem bateria. Mas desde a última conversa que tiveram, o sinal do celular simplesmente tinha sumido do mapa.

Torcia para que fosse coisa de sua cabeça, mas... Íris sentia que alguma coisa tinha acontecido com a amiga.

— Serena é minha melhor amiga, Amanda. Quase a perdi uma vez. — Ciciou para Amanda, embora não pudesse dizer mais do que aquilo. — Não vou correr o risco de que aconteça de novo.

A noiva deu um olhar doce e aquiesceu.

Quando as portas de metal se abriram e Íris avistou o tapete brega que ficava na porta de Serena — ela sempre tivera o senso estético duvidoso — deu um suspiro. Ao que parecia, tudo continuava igual.

O andar estava exatamente do jeito que se lembrava, nada muito chique, mas aconchegante. O corredor mediano e não muito iluminado, as paredes de tijolos amostra desgastado despontando por toda a parte. Ao fundo via-se três portas; três apartamentos. Dois para direita e um para a esquerda.

Ela então inclinou o corpo para frente e...

— Não — chiou Amanda, puxando Íris de volta para o elevador. — Não faça isso.

— Por quê?

Uma das mãos delicadas da noiva cobriu a boca de Íris.

— Quieta — e fez um gesto pedindo silêncio com a outra mão.

Ela exibia uma expressão de puro terror.

— Por que estamos sussurrando? – tornou Íris, baixinho.

Amanda não disse nada. Em vez disso, apontou para a porta de carvalho envelhecido, escancarada. Íris apertou os olhos. Não percebera até então, mas havia alguém do lado de dentro.

— Está ouvindo? — Amanda murmurou, meio trêmula. — Acho... acho que alguém dentro do apartamento. E as vozes... são dois caras. Serena... ela mora sozinha, não mora?

Íris aquiesceu, engolindo em seco. Amanda começou a apertar o botão do térreo furiosamente.

Mas Íris não permitiu que a porta se fechasse.

— O que pensa que está fazendo, sua tonta? — ralhou Amanda, quando Íris segurou a porta do elevador. — Não vamos entrar em um apartamento com dois estranhos. É melhor descer e falar com o síndico. Com a polícia. Com o Homem-Aranha ou...

Íris ignorou aquilo.

— Fique aqui — respondeu ela enquanto abria a bolsa e tirava um teaser (morava em Nova Iorque, afinal). — Volto em um minuto.

— Amor? Amor? O que pensa que está fazendo? — balbuciou Amanda. — E se forem perigosos? E se estiverem armados?

— Segura minha bolsa — ela emendou, ignorando completamente a noiva. — Vou tomar cuidado, prometo.

Amanda soltou um palavrão.

— Amor... Íris, volte aqui sua teimosa.

Apesar das reclamações de Amanda, Íris foi andando lentamente em direção a porta com o teaser na mão, as vozes dos homens ficando mais audíveis.

"A culpa é toda minha, Sam," ciciou uma voz grave, "se eu não tivesse sido tão covarde, nada disso estaria acontecendo."

"Não tem como você saber, Bucky," uma segunda vez respondeu, "é melhor continuarmos procurando e... ouviu isso?"

As vozes se interromperam. Era como se soubessem que Íris estava se aproximando. E, talvez, soubessem mesmo.

Logo em seguida, Íris ouviu sons de passos pesados andando em sua direção. Mesmo assim, não se acovardou. Respirou fundo, engatilhou o teaser e avançou até a porta antes que fosse vista. E, quando o primeiro homem cruzou a porta, atirou sem pensar duas vezes.

O estampido de sua arma ribombou pelo corredor, mas...

— Cuidado com essa coisa — disse aquela mesma voz grave. — Vai acabar machucando alguém.

Íris olhou para cima e soltou um palavrão.

Um cara branco enorme, de olhos azuis assustadores a encarava de volta enquanto o som do teaser continuava trovejando corredor afora. O grandalhão, no entanto, parecia inabalado — apesar do choque de cinquenta mil volts no braço esquerdo.

Atrás dela, ouviu um gritinho agudo de Amanda que desistira do elevador, se postando atrás de Íris.

— Quem é você? — disse Íris, à guisa de cumprimento. — O que está fazendo nesse apartamento?

— O que você está fazendo nesse apartamento? — ele devolveu a pergunta, estreitando o olhar. — Sei que não mora aqui.

— Eu perguntei primeiro — ela observou.

— E-estamos procurando nossa amiga. — Amanda interveio por Íris, usando aquele tom manso de advogada, embora continuasse trêmula. — Ela nos disse que morava nesse andar, então achamos que...

— Pare de assustar a pobre mulher, Bucky — disse um segundo homem surgindo da soleira da porta e, ao encarar Íris, emendou: — vamos todos acalmar nossos ânimos e conversar civilizadamente, está bem?

Íris, porém, manteve o teaser apontado na direção do homem de olhos azuis.

— Não vou fazer nada até me explicarem o que porra estão fazendo no apartamento da minha melhor amiga.

O homem de olhos azuis piscou.

— Você é a amiga dela. A que estava com ela na cafeteria. — Ele sussurrou aquilo como se estivesse vendo-a pela primeira vez, como se tivesse despertado de um transe. — Sabe onde Serena está?

— Quem é você? — Íris perguntou pela segunda vez. — De onde conhece Serena?

— Ele mora ao lado — o segundo homem, que parecia um pouco mais centrado, respondeu pelo colega. — E está preocupado. Estamos tentando entender o que aconteceu. Até onde sabemos ela não aparece por aqui há...

— Cinco dias?— Íris completou.

Ele aquiesceu.

Ela então tirou o dedo do gatilho do teaser — embora ainda estivesse apontado na direção do homem de olhos azuis — e o encarou com altivez.

— E vocês são o quê? Policiais? Investigadores? — até que fazia sentido, a julgar pelas roupas. — Que autoridade possuem para violar a privacidade dela desse jeito?

— Não estamos violando nada — o grandalhão grunhiu, encarando-a de volta.

Íris sustentou o olhar. Não confiava nem um pouco naquele cara.

— Então onde está seu mandado? Quem são vocês?

Sob as roupas de couro não havia nenhum distintivo nem nada que indicasse se aqueles caras eram da polícia de Nova Iorque, FBI, GRC ou da CIA. A bem da verdade, olhando com mais atenção, aqueles trajes... já tinha visto antes.

Na televisão.

— Amor — Amanda sussurrou no ouvido dela — olhe as roupas. Eles não são policiais ou da CIA. Tenho quase certeza de esses dois são dos Vingadores.

— Não somos policiais — o homem de pele negra confirmou. — Meu amigo conhece Serena e tem uma cópia da chave.

Íris olhou para o homem que supostamente tinha a chave do apartamento de Serena e depois para o cara que estava conversando e crispou os lábios, o dedo ainda engatilhado no teaser.

— Isso não responde minha pergunta — observou. — Qual o seu nome?

— Sam Wilson. Pode me chamar de Sam.

Íris exasperou. Puta merda.

— Santo Deus — Amanda arfou — eles são dos Vingadores mesmo. Ele é... amor, acho que ele é o Falcão.

Íris, no entanto, fingiu que não estava impressionada com a revelação. Sua mente imediatamente disparou outro alerta.

Problema. Problema. Problema.

Alguma coisa tinha mesmo acontecido com Serena. Ela voltou a encarar o outro homem enquanto fazia uma rápida lista mental de todos os super-heróis que conhecia, tentando identificá-lo.

Homem de ferro? Morto. Capitão América? Desaparecido (e loiro). Homem-formiga? Era mais magro, se bem lembrava. Gavião-Arqueiro? Nem a pau. Hulk? Ele não era verde, então... não.

Analisou o homem de novo. As roupas. O cabelo. O braço esquerdo, que era de... metal?

Braço. De. Metal.

Quando enfim se deu conta, estremeceu.

— Então, você deve ser o... Soldado Invernal — disse Íris, em um esforço monumental para sustentar a expressão desinteressada. — Certo?

— Me chame de Bucky — pediu ele.

Ela estreitou os olhos.

— E qual é a sua relação com Serena, Bucky?

Ele fez uma pausa. Parecia estar sopesando a pergunta.

— Somos vizinhos — ele repetiu a história de Sam Wilson.

Íris, no entanto, não acreditou nele nem por um segundo.

— Se um vizinho invadisse meu apartamento durante minha ausência — ela pontuou, cordialmente — eu chamaria a polícia. Vingador ou não.

Bucky então apertou a ponte de nariz, como se Íris estivesse tomando o precioso tempo de Vingador dele.

Naquele momento, decidiu que o detestava.

Ela abriu a boca para continuar o interrogatório, mas uma risada zombeteira de Amanda a interrompeu.

— Me chame de doida, mas estou com a impressão de que eles são mais que vizinhos — ciciou ela em seu ouvido. — Está na cara que ele está morrendo de preocupação.

Íris alternou o olhar entre o Soldado Invernal e a noiva. Ela tinha um pouco de razão. Havia grandes bolsões debaixo dos olhos dele, a expressão abatida e carrancuda, como se não dormisse direito há dias. Mas o que Amanda insinuara... arg.

— Acha que estão se comendo? — ela ciciou de volta para a noiva.

De soslaio, Bucky olhava para o Falcão, como se pedisse por socorro. Para seu crédito, Sam Wilson apenas o olhou de volta e deu de ombros. Parecia estar segurando o riso.

— Não é óbvio? — Amanda respondeu.

Íris torceu o nariz.

— Serena não transaria com esse sujeito — declarou, um pouco mais alto.

— Por que não, amor? — Amanda replicou, ainda com aquele sorriso malicioso. — Ele até que é bonitinho. Forte... e, bem, é um Vingador.

— E tem cara de cafajeste — Íris comentou, torcendo o nariz. — Vai por mim, ele não faz o tipo dela.

— Eu estou bem aqui do lado de vocês — latiu Bucky — e não estou transando com a amiga de vocês.

— Mas gostaria de estar?— sugeriu Amanda, a sobrancelha arqueada.

Ele arfou e desviou o olhar. Parecia... constrangido?

Íris quase riu do pensamento. Como se um homem daquele tamanho, com toda aquela pose de destruidor de calcinhas pudesse ficar sem graça pelo comentário de Amanda.

— Senhoritas — Sam Wilson tornou, embora estivesse olhando para Bucky quando o fez, com um sorriso de puro escárnio. — Qual exatamente a relação de vocês com Serena Valente?

Íris alternou o olhar entre o Falcão e a noiva como se perguntasse: "o que posso contar aos Vingadores sem me comprometer judicialmente?"

Amanda imediatamente entendeu o recado e acionou seu modo Donna Paulsen.

— Meu nome é Amanda Ortega, sou advogada. — Ressaltou a palavra "advogada", como uma ameaça implícita. — E essa é Íris Miller, minha noiva. Serena e ela dividiram o alojamento universitário durante alguns anos e...

— Serena é minha melhor amiga — Íris corrigiu, de saco cheio de toda aquela babaquice. — E faz cinco dias que não tenho notícias dela. Ninguém a viu; o celular está fora de área. Ela simplesmente sumiu do mapa. E, assim como vocês, quero entender o que aconteceu.

Os homens ficaram tensos. Bucky, em especial, desviou o olhar de Íris, como se fosse impossível encará-la diretamente. Sentiu um arrepio correndo pela espinha.

— Vocês não parecem surpresos — disparou ela. — O que sabem?

Silêncio. Nenhum dos dois disse nada.

Íris começou a tremer, mas foi Amanda quem se manifestou, dizendo:

— Não.

Amanda trabalhava na vara criminal e já tinha presenciado os piores tipos de atrocidades cometidas por seres humanos. Não era difícil de adivinhar os cenários que se passavam na cabeça dela.

— Não me digam que ela foi...

— Não — rosnou o Soldado Invernal, gélido. — Serena está viva.

— Serena não é rica e não tem nenhum parente vivo — Amanda insistiu. — Acho pouco provável que alguém tentasse tirar dinheiro dela. Se está mesmo desaparecida, precisamos ser realistas e considerar todos os cenários.

— Ela não está morta — a frase foi dita em uníssono entre Bucky e Íris.

Amanda apertou a mão da noiva.

— Amor — murmurou ela, complacente. — Eu conheço esse filme. Sei que não quer ouvir isso, mas esse tipo de coisa é mais comum do que imagina, ainda mais com mulheres que vivem sozinhas e... — Ela deixou a frase morrer.

Íris, porém, se desvencilhou de Amanda. Tinha acabado de se dar conta do que acontecera ali. Vizinha ou não, dois Vingadores não estariam tão empenhados em encontrar uma civil qualquer. Havia algo ali.

Cada instinto dela gritava aquilo.

— Serena não está morta, amor — Íris repetiu. — Se estivesse, não haveria dois Vingadores revirando o apartamento dela.

Íris então alternou o olhar entre os dois homens, desafiando-os a inventar outra desculpa esfarrapada. Como eles se mantiveram em silêncio, ela continuou:

— E estão atrás dela não porque Serena é supostamente sua vizinha ou peguete, mas porque é uma aprimorada. Estou no caminho certo, "Bucky"?

Eles não abriram a boca. Era a confirmação que precisava.

Amanda, no entanto, se sobressaltou.

— Serena é o quê? Como você me esconde uma coisa dessas?

Íris ignorou o comentário e continuou falando, os olhos cravados nos olhos azuis daquele homem enorme:

— E uma pessoa como ela desparecida em uma cidade do tamanho de Nova Iorque... — fez uma pausa para respirar, o cérebro a mil. — É bem o tipo de merda que os Vingadores lidam, não é?

— Como sabe sobre isso? — inquiriu o Soldado Invernal.

Íris suspirou e em seguida inteirou os três sobre o que tinha visto Serena fazer no centro poliesportivo da Universidade de Nova Iorque em 2018.

Quando terminou, eles a encaravam, sem saber ao certo o que dizer.

— Serena é mesmo como vocês? — Amanda quebrou o silêncio. O rosto estava pálido feito papel.

— Não — disse Bucky, combalido. — Ela continua sendo uma civil. Não tem nada a ver com as merdas que lidamos.

— Então por que estão atrás dela? — Íris exigiu saber. — Achei que a caça às bruxas dos aprimorados tivesse acabado com o fim do Tratado de Sokóvia.

O Tratado de Sokóvia. Um acordo assinado por mais de cento e dezessete países. Em teoria, servia para regulamentar as atividades de aprimorados e pessoas superpoderosas como os Vingadores.

A prática foi muito diferente.

Quando o tratado entrou em vigor em 2016, além de ter sido o principal motivo da dissolução dos Vingadores, fora o catalizador dos maiores conflitos geopolíticos daquela década. Dezenas de nações se aproveitaram das brechas impostas pelo tratado como desculpa em disputas de interesses. Guerras foram travadas. Países ricos ameaçaram a soberania de nações menores, forçaram a quebra de sigilo de dados de líderes mundiais, invadiram fronteiras e moveram exércitos com o pretexto de que certas nações ofereciam asilo para "aprimorados não registrados".

E, é claro, qualquer um que pudesse ser considerado como um aprimorado naquela época era forçado a se registrar em um sistema gerido pelo próprio governo, que podia monitorar a circulação do aprimorado em questão. Em teoria, era bom — afinal de contas, ninguém quer estar por perto enquanto o Hulk está por perto destruindo uma nave alienígena.

Mais uma vez, não foi o que aconteceu de verdade.

A maior parte dos registrados sequer possuía habilidades sobre-humanas ou superpoderes; não havia um critério muito claro para definir um aprimorado. Estudiosos, químicos, engenheiros de computação e, muitas vezes, pessoas comuns eram incluídas na lista de aprimorados sem nem saber o motivo. E as restrições do registro atrapalhavam — e muito — a vida daquelas pessoas.

Os registrados frequentemente relatavam dificuldades durante a emissão de passaportes e vistos, embarque em voos internacionais e até mesmo para residir em outros países. Muitos foram deportados, presos ou simplesmente desapareceram por aí.

Então, depois de anos de pressão popular e críticas, o tratado caiu.

Isso não significava, no entanto, que o governo ainda não tentasse mapear aprimorados.

— Não é por isso que estamos aqui — Sam retorquiu. — E nós nunca fomos favoráveis ao tratado.

— Não acredito em vocês. — Ela devolveu.

— Íris — Amanda alertou, como se quisesse dizer "cale a maldita boca ou vamos tomar uma penca de processos".

Íris ignorou aquilo.

Naquele instante, tudo ficou claro.

— Serena escondia isso de todos, inclusive de mim — ela continuou falando. — Eu não tinha parado para pensar, mas... foi por esse motivo? Ela tinha medo de que pessoas mal-intencionadas viessem atrás dela, que vocês e o governo viessem atrás dela?

— Não caçamos aprimorados — Sam Wilson insistiu, ofendido.

— Então me diga onde Serena está agora.

O Falcão desviou o olhar. O Soldado Invernal estreitou os olhos.

— Como eu disse antes — Sam Wilson cuspiu — não sabemos. Eu lamento.

— E o que vocês ganham com isso? Por que o interesse nela?

Ela alternou o olhar entre os dois, mas nenhum deles parecia inclinado a dar uma resposta minimamente satisfatória.

— Por quê... — chiou Íris — se não estão por trás do sumiço de Serena, se não estão caçando-a por ser uma aprimorada, o que querem com minha amiga? Por que ela está desaparecida?

O Soldado Invernal a encarou. Ela o encarou de volta. E ficaram assim por um tempo.

Trinta segundos. Quarenta segundos. Um minuto inteiro.

— Por quê? Porque eu a amo, porra — disse ele, entredentes — e não posso permitir que a machuquem.

A declaração a pegou desprevenida.

Íris então olhou para ele. Olhou de verdade.

Conhecia as histórias cabulosas sobre o Soldado Invernal. Sabia que ele havia sido um dos piores assassinos que pisara na terra. Homens enormes estremeciam a mera menção daquele nome.

Só que olhando-o daquela forma, com os olhos cansados e expressão abatida ele parecia tão humano e, saber que se sentia daquela forma por Serena, sua melhor amiga, que tinha a personalidade de um Golden Retriever...

Quando aquilo tinha acontecido? O que ela tinha perdido?

— O que houve entre vocês dois? — ciciou Íris.

— Me mudei para o Cornelia há aproximadamente oito meses — ele explicou. — Mas faz pouco mais de quatro desde que Serena e eu começamos a interagir.

Bucky continuou falando.

Explicou como começaram a ser amigos, apesar das recusas dele; falou sobre como ela estava sempre por perto aborrecendo-o — o que era bem a cara dela — e o que tinham passado juntos. E enquanto ele falava, Íris percebeu o amor e admiração pela amiga contida naquelas palavras. Quando terminou, sentiu aqueles olhos assustadoramente azuis queimando sobre ela.

— Não sei o que aconteceu com Serena, o querem dela ou quem está por trás disso — murmurou — mas vou trazê-la de volta a salvo. Eu prometo.

Íris olhou para o interior do apartamento de Serena.

Mesmo do corredor, conseguia enxergar a estante de troféus e as fotos penduradas, aquela foto antiga das duas, sobretudo. Sorriu. Aquela coisinha sorridente de um metro e meio era muito mais do que aparentava.

Seria ela uma bruxa? Uma fada? A porra de uma guerreira intergalática?

Não fazia ideia, porque a escrota não havia dito nada.

Nem. Uma. Maldita. Palavra.

Íris havia dividido o alojamento com Serena por anos e ela nunca suspeitara, sequer sonhava, que Serena poderia ser uma aprimorada, alguém com superpoderes, exatamente como os Vingadores que estavam plantados na sua frente.

No começo tinha ficado puta. Queria matá-la por manter uma coisa como aquela em segredo, mas quando Íris percebeu como o mundo que viviam funcionava, no que ser alguém como ela fora da bolha dos Vingadores realmente significava... ela entendeu a amiga. E a perdoou.

Íris suspirou. Sempre que pensava naquele olhar de súplica de Serena enquanto ela literalmente segurava um ginásio nas costas e implorava para que fugisse... ainda tinha pesadelos com aquele olhar.

Cinco anos se passaram desde então. Serena voltou.

Estava viva e Íris estava tão feliz pelo universo ter lhe dado outra chance com a amiga que havia decidido que não se apegaria nos porquês, apenas a queria de volta em sua vida. Mesmo que nunca mais falassem sobre o assunto; mesmo que tivesse de fingir que aquela tarde 2018 nunca havia acontecido... estava bem com aquilo.

Ela então desviou o olhar de volta para o Soldado Invernal, ou melhor dizendo, Bucky.

Ainda não sabia se ele era confiável, mas...

— Em que eu posso te ajudar, Bucky?



Notas finais
Olá, como vão? Eu tenho uma observação sobre esse capítulo. Bem, não sei se vocês repararam, mas eu fiz uma breve menção ao Tratado de Sokóvia e adicionei mais alguns elementos que não foram apresentados originalmente no MCU. O que acontece é que eu sou uma grande (grande mesmo) fã da saga Guerra Civil nos quadrinhos e fico muito frustrada com a forma em que esse arco foi apresentado nos filmes. Claro que em poucos paragráfos eu jamais conseguiria desenvolver de forma satisfatória um assunto tão complexo (e nem caberia nessa história) mas eu senti que traria um pouquinho de profundidade e contexto na relação da Serena e da Íris. Espero que tenha ficado suficientemente clara a mensagem. Por hoje é isso. Espero que estejam gostando e até mais!