Apartamento de Serena Valente,

Edifício Cornélia,

Brooklyn, NYC,

2024


— QUANTO TEMPO ÍRIS — disse a mulher de cabelos louro-acinzentados e corte pixie, à guisa de cumprimento.

Íris piscou. Aquilo... não estava acontecendo.

Estava?

— Parabéns pelo noivado, aliás. — Completou a mulher, endireitando a postura.

— Isso não... não é possível.

Isabel Valente. A mulher que estava sentada nos colchonetes da janela encarando-a com aqueles olhos penetrantes de raposa era ninguém menos que Isabel Valente. A avó de Serena.

Mas..., mas... como? Isabel estava morta. Morta, porra.

— Sei que tem muitas perguntas a meu respeito, querida — Isabel prosseguiu. — Mas não temos tempo para discutir.

— Quem é você? — disparou Sam Wilson do outro lado da sala. — Como entrou aqui? E porque eu não consigo...

— Se mexer? — Isabel completou por ele. — Posso soltá-lo se prometer soltar a arma. E pelo amor de Deus, lasanha congelada? Sabia que essa porcaria é cheia de ingredientes ultraprocessados?

O Falcão olhou para o prato e depois para Isabel.

— Sim, eu sei o que está pensando — ela revelou. — E não, eu não sou uma bruxa. Ou um robô. E, até onde sei, nasci em Turim. Francamente, seria pedir demais um pouco de criatividade a respeito das suposições?

— Como? — Íris tornou. — Como isso é possível? Você... você morreu.

Aquilo não fazia o menor sentido. Isabel tinha morrido três meses depois do estalo. E sabia que havia sido depois por quê... bem, Íris se encontrara com aquela mulher.

Passado o caos no centro poliesportivo, a dolorosa compreensão de que metade do universo havia sido dizimado e que Serena estava entre as vítimas, Isabel Valente fora pessoalmente até o dormitório compartilhado da Universidade de Nova Iorque para buscar os pertences da neta.

Na ocasião, Íris buscou em seu peito palavras para confortá-la, alguma explicação para o que tinha visto ou um pedido de desculpas por não ter impedido. Mas não havia nada a ser dito. Nem se tentasse muito conseguiria expressar o que presenciara naquela tarde.

Então, sem dizer nenhuma palavra, Íris entregou um baú com todos os pertences da amiga, tentando se manter firme na frente de Isabel.

Ainda assim chorou. Chorou pela dor da perda e chorou porque sabia exatamente o que tinha ali dentro. Collants, troféus, fotografias, um par de crocs de Star Wars horroroso (o favorito dela), um ursinho de pelúcia... todos os indícios de que Serena havia sido uma pessoa real, de que sua melhor amiga havia sido mais que um delírio de sua cabeça, encaixotados.

Com o baú em mãos, Isabel deu um aceno de cabeça resignado e saiu porta afora. A pobre mulher tinha um semblante vazio, como se uma parte do próprio coração tivesse partido junto com a neta.

Aquela havia sido a última vez que Íris havia visto Isabel Valente.

— Quando eu fui ao seu apartamento, alguns meses depois — Íris continuou falando — me disseram que você tinha morrido. Uma parada cardiorrespiratória. Houve um funeral. Eu... eu deixei flores no seu túmulo.

— Sei disso — ela respondeu em um tom irritantemente complacente. — Foi muito atencioso de sua parte, querida.

— Então o que...

— É uma história, muito, muito longa e não temos tempo para discussões desnecessárias.

Íris, no entanto, fechou o notebook e endireitou a postura. Assustada, Alpine pulou de suas pernas e se deitou no sofá.

— Ah, temos tempo sim — contrapôs. — Me recuso a fazer qualquer coisa até me explicar por que diabos você forjou a própria morte e por onde esteve durante os últimos cinco anos.

Sam Wilson e Amanda não moveram nenhum músculo enquanto Íris sustentava o olhar para a mulher. Isabel, por sua vez, esquadrinhava a sala com um olhar tenro, como se fosse a única pessoa ali dentro. Olhou para os gatos espalhados em cantos opostos do cômodo; para o sofá; para alguns dos porta-retratos e se manteve ali por um tempo.

— Eu não consegui lidar muito bem com o estalo — disse Isabel, o olhar perdido em uma das fotos de Serena. — O luto me cegou e eu tomei decisões... extremas.

— Extremas tipo forjar a própria morte? — Íris desdenhou .— Por que faria uma coisa dessas? Onde esteve por todos esses anos?

Isabel suspirou e virou o rosto na direção de Íris.

— Talvez seja um pouco difícil de acreditar Íris, mas eu era uma pessoa diferente antes de conhecer Serena — revelou. — Presa em uma vida perigosa e solitária; de luta a luta, sem descanso por décadas. Então nossos destinos se cruzaram e... tudo mudou. Eu mudei. E, depois de Thanos, quando minha menina desapareceu diante de meus olhos... eu... eu perdi a razão.

— Quando diz vida perigosa — a voz era de Sam Wilson e soara cautelosa, quase como se estivesse tentando não pisar em ovos — está querendo dizer que era das Forças Especiais... ou outra coisa?

— S.H.I.E.L.D, querido — Isabel esclareceu, torcendo os lábios. — Eu era da S.H.I.E.L.D. Meu codinome era agente quatro.

Silêncio preencheu a sala. Sam abaixou os olhos, encarando a lasanha, o rosto pálido.

— Isso... não faz sentido — ele ciciou depois de um tempo. — O Soldado Invernal... matou a agente quatro há vinte anos. Bucky... ele... ele disse que... Deus.

Íris apertou os olhos, tentando assimilar aquela informação nova. As duas, na verdade. E quando decidiu qual era mais importante, perguntou:

— Forjou sua morte mais de uma vez? — era a especialidade dela, ao que parecia.

— Não tive muita escolha — Isabel respondeu em um tom quase ofendido, olhando fixamente para Íris. — Se não o fizesse, aquele homem nunca nos deixaria em paz.

— O Soldado Invernal — sussurrou Íris, tentando se esquivar daquele olhar penetrante.

E não era exatamente uma pergunta. Se o Soldado Invernal das histórias de fato estivesse atrás de Isabel, atrás de Serena... era um milagre que sequer estivessem vivas para contar a história.

Isabel, no entanto, fez que não com a cabeça.

— Me refiro a Nikolai Orlov — a voz soara sombria, carregada de rancor. — Ou Senador Orlov, como devem conhecê-lo.

A garganta de Íris se fechou.

Senador Orlov. Serena o havia mencionado mais de uma vez. Havia sido ele quem oferecera o novo emprego a ela e... puta merda. De repente, tudo se encaixou. Ao seu lado, Amanda e Sam Wilson estavam igualmente transtornados.

— Aquele homem também era da S.H.I.E.L.D — Isabel continuou, o nariz torcido. — Ou, melhor dizendo, um agente da Hidra infiltrado na S.H.I.E.L.D. Me perseguiu por anos. Décadas. Moveu mundos para tentar me eliminar.

— Por quê? — Íris ciciou.

Isabel torceu os lábios.

— Porque eu havia descoberto o segredinho dele; porque eu estava tentando desmascará-lo; porque eu conhecia o potencial dos cristais terrígenos; por causa de minhas habilidades... pode escolher, a lista é bem grande.

— Então você tem habilidades — Sam interrompeu. — Isso é um floreio para dizer que é uma inumana assim como Serena?

As reações foram diversas. Íris contraiu o rosto e olhou para esquerda; Isabel deu um sorriso amargo; Amanda arfou e apertou a mão da noiva; o Falcão, por sua vez, sustentou o olhar na agente.

— Sabe o que isso quer dizer, heroizinho? — disse ela com esgar. — Ao menos entende a complexidade de meus dons ou como os consegui?

O semblante dele murchou.

— Eu... não.

Isabel ficou em silêncio por alguns instantes. Até que:

— Claro que não sabe. Orlov muito menos. O cretino acreditava que os cristais seriam uma forma rápida e conveniente para se livrar de mim, mas a terrigênese... — ela olhou para as próprias mãos — me salvou e tornou o que sou hoje.

— Terri o quê? — Íris perguntou massageando as têmporas. Estava completamente perdida naquela conversa.

Então, pensou Íris, aquele era o mundo dos super-heróis, um emaranhado de informações soltas jogadas em seu colo feito bombas? Céus, estava brincando de assistente de Vingador há um mês e já não aguentava mais.

— Não inventei o nome — Isabel respondeu, a voz enervada — mas é como chamamos a mutação. Os cristais terrígenos armazenam uma névoa que reage com o gene inumano. Uma vez em unidos, a mutação é ativada. O processo é chamado de terrigênese.

Íris virou para Sam, completamente perdida. Cristais alienígenas? Agentes da Hidra infiltrados na S.H.I.E.L.D? Que merda aquilo tudo significava? Ele, no entanto, deu um olhar de quem dizia "te explico depois" e virou para Isabel dizendo:

— Chamamos — o rosto contorcido em uma careta — quer dizer que há outros como você por aí?

Uma pausa. Isabel esticou os lábios.

— Não vejo razões que impediriam outras pessoas com o gene inumano de ter contato com os cristais da mesma forma que eu tive. — Outra pausa. — Mas se o tranquiliza Wilson, nunca encontrei registros outros de nós — ela ergueu uma sobrancelha. — Ao menos não aqui na terra.

Sam contraiu o rosto, como se estivesse pensando em mil coisas ao mesmo tempo. Íris, para o bem da própria sanidade, decidiu que ignoraria a última parte.

— Sua habilidade — ele tornou, com cautela. — O que exatamente você pode fazer?

Ela esticou os lábios ainda mais, formando um sorriso insidioso.

— Digamos que sou capaz de entrar na mente das pessoas. Ler os pensamentos. Acessar memórias. Entre outras... coisas — fazer com que ficassem imóveis, por exemplo, Íris completou em pensamento.

— Você é uma telepata? — Sam perguntou, como se nada daquilo o surpreendesse.

— Algo assim.

A sala ficou em silêncio. Isabel não revelaria mais que isso.

— E como sabe tanto sobre essa... coisa inumana? — Íris mudou de assunto. — Não parece o tipo de informação que se encontra na internet.

Isabel não respondeu de imediato. Em vez disso, foi andando em direção a estante e pegou um dos porta-retratos, um sorriso fraco nos lábios. Ela ficou olhando para foto por um tempinho. Dez segundos. Trinta. Um minuto inteiro. Até que:

— Depois que descobri a terrível verdade sobre Orlov e sobre a S.H.I.E.L.D, depois que o desgraçado tentou me matar... tive que sair do radar — o sorriso dela sumiu. — Mas eu precisava continuar dentro da S.H.I.E.L.D.

— Por quê? — Íris inquiriu.

— Era minha melhor chance de sobrevivência, apesar dos ratos da Hidra espreitando — ela colocou o porta-retratos de volta no lugar. — Além disso, enquanto fosse agente, teria vantagens que civil algum conseguiria.

Isabel e Sam trocaram um olhar profundo, como se houvesse um entendimento tácito entre os dois. Íris, por sua vez, achou melhor não saber sobre as "vantagens" que a S.H.I.E.L.D oferecia aos funcionários — embora soubesse que nada tinha a ver com gympass ou planos de saúde.

— Então — Isabel continuou falando — convenci um dos líderes da S.H.I.E.L.D na época a me tornar uma agente de campo efetiva, uma espiã. Era perfeito. Meu trabalho consistia em encontrar merdas perigosas como os cristais terrígenos e impedir que caíssem nas mãos de nossos inimigos. Aproveitei a função para descobrir o que podia sobre a origem desses cristais.

— E o que conseguiu? — Íris se viu perguntando, sabe lá por quê.

Silêncio sepulcral.

Isabel desviou o olhar para a foto de Serena outra vez.

— Certa vez, em uma viagem para Porto Rico, descobri ruínas de uma instalação antiga e abandonada de uma espécie alienígena chamada Kree — revelou depois de um tempo.

— Kree — Sam repetiu, apertando os olhos. — Já ouvi falar, mas... eu não sabia que possuíam estruturas por aqui. A S.H.I.E.L.D sempre soube disso?

— E nem deveria. A instalação é um projeto abandonado. — Isabel explicou. — Não encontrei nenhum vestígio de cristais terrígenos naquele lugar, mas parte das pilastras contava histórias fragmentadas de uma guerra entre dois povos e experimentos genéticos em seres humanos.

— Inumanos — o Falcão completou.

Isabel aquiesceu.

— Pelo que descobri, os "Krees" estavam tentando forjar uma espécie híbrida de soldados para lutar a guerra milenar deles. — Ela torceu o nariz, enraivecida. — E conseguiram. Pessoas como eu e Serena... fomos criados como armas. Nosso DNA alterado, nossas habilidades, os cristais terrígenos e a terrigênese... nada mais são que uma experiência genética antiga que deu errado.

— Por que deu errado? — Íris perguntou.

— Bem, há aproximadamente cinco mil anos — Isabel respondeu— antes que o projeto vingasse, as coisas saíram do controle. Uma rebelião. Não sei os pormenores, mas em dado momento os experimentos foram banidos pelos Krees, a ideia toda apagada da história como a abominação que era. Então os descendentes daqueles experimentos, os seres humanos com o gene inumano, foram descartados; as gerações seguintes vivendo e se reproduzindo sem nem desconfiar que parte de seu DNA não é humano.

— E o Senador Orlov sabia disso tudo? — ele murmurou, o semblante consternado — por isso queria criar esse exército de soldados... inumanos ou sei lá... para a Hidra?

Amanda, que apertava a mão de Íris, soltou um palavrão.

Isabel continuou falando:

— O conhecimento de Orlov sobre inumanos era e ainda é limitado, mas sim, ele queria e ainda quer um super soldado para si. Esse sempre foi o objetivo dele.

Demônio. Aquele homem era um demônio. E, quando o encontrasse... faria com que se arrependesse de ter nascido, pensou Íris.

Isabel então abriu um sorriso, como se tivesse ouvido o pensamento e... merda, ela tinha mesmo ouvido. Íris retesou.

— Orlov sempre foi uma cobra sorrateira — Isabel prosseguiu com a explicação — e, quando enxergou nos cristais terrígenos uma oportunidade de ascender dentro da Hidra, os roubou e colocou um cientista para estudá-los e fazer seu trabalho sujo. Igor Vronsky.

— Então — disse Sam, cruzando os braços — você começou a investigá-lo.

Isabel fez que sim com a cabeça.

— Eu sabia que não podia deixá-los com aqueles cristais. Mas levou anos para descobrir o plano e encontrar a base e, quando o fiz... a pesquisa estava avançada. Muita gente tinha sofrido. Morrido. — Íris abriu a boca, mas Isabel foi mais rápida, emendando: — a névoa terrígena é mortal àqueles que não tem o gene inumano nas veias.

Uma pausa e a expressão de quem já havia passado por situações inenarráveis no rosto. Isabel completou:

— E ela... ela foi a única que encontrei com vida no laboratório. A única com os genes compatíveis dentre tantos inocentes...

— Serena — não era uma pergunta, Íris simplesmente sabia.

— Ela era tão pequena... tão indefesa... presa naquele inferno — Isabel rosnou. — O que estavam fazendo; o que queriam fazer... era desumano — os olhos tinham um brilho predatório. Puro ódio fervilhava em suas írises acinzentadas. — A primeira vez que eu vi aqueles olhos enormes e brilhantes... quando ouvi a súplica dentro de seus pensamentos... naquele momento, eu decidi que a protegeria. Jurei que nenhum daqueles demônios a machucaria outra vez.

Sam franziu o rosto.

— Depois que vocês fugiram do laboratório — ele murmurou. — Você conseguiu escapar do Soldado Invernal. Como? O que exatamente você fez?

Isabel não respondeu de cara. Em vez disso, encarou o Falcão como se sopesasse a pergunta.

— O que mais eu poderia ter feito, Wilson? — disse depois de um tempo — eu usei meus poderes.

✧❄✧

Os dedos de metal do Soldado Invernal apertavam o pescoço da agente IV enquanto ponderava se deveria acabar com aquilo de uma vez ou torturá-la até que revelasse a localização do pacote.

A mulher, por outro lado, o encarava com aqueles olhos acinzentados. Neutra.

— Seu futuro é sombrio... — a agente então gorgolejou, sem nem piscar— mas não perca as esperanças. Um dia... um dia, as coisas vão melhorar.

Ele fechou os olhos.

Mate-a. Mate-a. Mate-a.

— Um dia... homens como Orlov terão o que merecem — a agente completou.

Ele abriu os olhos, confuso.

— Quem é Orlov? — o soldado se viu murmurando, o rosto franzido.

A agente IV piscou.

— Nikolai Orlov — disse ela — não foi ele quem o mandou até mim?

— Você não faz perguntas, agente — o soldado rosnou, se recompondo. — Eu faço. Onde está o pacote?

Ela riu. Como conseguia fazer aquilo enquanto o metal de seu braço a sufocava era um mistério.

— Sinto muito, James — o nome saiu chiado e cheio de complacência — mas não vou dizer nada a você — ela respirou fundo. — Lamento também por tudo que vai acontecer a partir de agora. Não é nada pessoal.

Ele sentiu uma pontada na cabeça. A visão se anuviou.

Um. Dois. Três segundos.

Quando abriu os olhos outra vez, suas mãos estavam vazias.

Então, de repente, o Soldado Invernal se viu sentado na banqueta como se nunca tivesse de fato se levantado, a agente IV sentada ao seu lado entornando lentamente uma bebida. A bebida dele.

Mas que porra...

— Ouça James. É a primeira vez que estou fazendo isso e a coisa toda é bem experimental — a agente entoou depois de um tempo, repousando o copo na mesa. — Então, que tal ficar quietinho? Sua mente é bem difícil de acessar e eu não quero mexer com a parte errada do seu cérebro.

— Pare de me chamar assim — rugiu ele, tentando se mexer. — Onde está...

— O pacote, eu sei, eu sei — ela respondeu, com uma expressão de dor. — É sua missão e blábláblá. Só... fique parado por alguns instantes, estou tentando me concentrar aqui.

Dito isso, os olhos da agente ficaram completamente brancos, emitindo um brilho quase etéreo. O soldado engoliu em seco. Então, os dedos dela tocaram em sua testa e...

Rzhavy, disse uma voz que era e ao mesmo tempo não era a dela, projetada diretamente em sua cabeça. Enferrujado.

O corpo do Soldado Invernal ficou tenso. Um estalido ecoou. Baixo, como as engrenagens de uma máquina velha se forçando a funcionar.

A agente continuou: Pech. Semnadtsat. Rassvet...

Fornalha. Dezessete. Aurora...

— Pare. Pare com isso.

Ela ignorou aquilo.

Dobroserdechnyy. Vozvrashchenie domoy...

Benigno. Volta ao lar...

— Pare, porra — ele gritou. Seu corpo tremia.

Nayomnik. Odin...

Mercenário. Um...

— Por favor... pare... — ele não conseguia fechar ou desviar os olhos, muito menos se mexer. Indefeso feito um cão acorrentado.

Houve uma pausa. Ele exasperou, se preparando para o que vinha a seguir.

Então:

— Gruzovoy vagon — desta vez, as palavras saíram de seus lábios, olhos fixos nos dele. Vagão de carga.

Crack.

Algo na cabeça do Soldado Invernal estalou e ele relaxou por um instante, como se alguém tivesse desligado os disjuntores de seu cérebro. O corpo pendeu para frente.

— James? — disse a mulher depois de alguns segundos de silêncio mórbido, a voz chiada.

Ainda encarando-o; ainda tocando na testa dele.

— Gotov podchinya sya — pronto para obedecer, o Soldado Invernal sibilou.

Uma casca vazia esperando o próximo comando.

A agente IV arfou.

— Tenho algumas perguntas a você, soldado.

O corpo do soldado continuava pendurado, mas ele podia se mexer. Pouco, mas podia. E sua missão... qual era mesmo? O que estava fazendo ali?

— O que quer saber? — a resposta padrão imediatamente saiu de sua boca.

— Quem o mandou até mim?

Ele contraiu o rosto. Podia dizer aquilo a ela?

Sim. Não. Sim?

Não tinha ideia.

— Quem o mandou — repetiu ela, a ordem reverberando em seus ossos. — Diga.

Ele sentiu a cabeça martelar.

— Igor Vronsky — cuspiu. Foi mais forte do que ele.

Ela apertou os olhos.

— O que sabe sobre Nikolai Orlov?

Outra pontada. Ele rosnou. Ela pressionou os dedos na testa dele com mais força.

Obedeça, dizia seu olhar.

— Nunca ouvi esse nome antes — disse ele, arfando.

A agente o analisou, como se ponderasse se acreditava ou não em suas palavras. Problema dela. Naquelas condições, o Soldado Invernal era incapaz de mentir.

— Qual a sua missão, soldado?

O Soldado Invernal grunhiu. O cérebro parecia estar a um passo de rolar para fora de seu crânio.

— Não me faça repetir a pergunta — alertou ela.

— Eliminar a agente quatro e recuperar o pacote que ela está carregando.

— E o que seria esse pacote? — Inquiriu.

O soldado piscou.

— Eu... não fui informado — prontamente respondeu, complacente. — Apenas disseram que eu descobriria quando a encontrasse.

— Porcos arrogantes— a agente disse com deboche, tirando os dedos da testa dele. — Bem, um problema a menos. Descansar, soldado.

Ele puxou ar para os pulmões, como se emergisse de um oceano revolto. E enquanto se recompunha, o soldado esquadrinhou a expressão da agente IV. Os olhos haviam voltado ao tom acinzentado de antes, embora parecessem cansados.

Cansada, ponderou ele, de fugir.

Fugir dele? Da Hidra, talvez?

Não importava. Ainda precisava cumprir sua missão. A missão original.

Uma risada chiada então irrompeu dos lábios dela, como se tivesse repentinamente se lembrado de que estava sentada a menos de dois metros do assassino mais letal da Hidra; assassino este que havia sido mandado especificamente para matá-la, embora... seu cérebro estivesse tão perdido entre ordens que não saberia dizer qual delas deveria cumprir.

— Eu conheço seu passado, James. Sei quem foi e o que fez por esse mundo de merda — ela comentou, roçando os dedos em um medalhão repousado sobre o coração.

Por algum motivo, o Soldado Invernal sentiu um aperto no peito.

Então uma memória piscou. Um homem loiro sorrindo para ele. Aquele homem usava um uniforme com uma estrela azul no peito e segurava um escudo com a mesma estrela no meio e o soldado... o soldado o conhecia.

O que aquilo significava?

Ele voltou a encarar a agente, que o encarava com pesar, como se tivesse visto a mesma coisa.

— Lamento muito que as coisas tenham terminado dessa forma, James — ela comentou, o copo na mão. — E espero que entenda que se pudesse eu o ajudaria, mas... não dá. É arriscado demais.

— O que é você? — a pergunta simplesmente escapou de sua boca, o que em geral não acontecia. — Como faz essas coisas?

Silêncio. Nada além de um silêncio interminável enquanto ela entornava o copo. Até que:

— Uma maldita covarde — e bateu o copo na bancada com força. — Me desculpe, não costumo ser tão melancólica, é só que... merda nunca estive em uma mente tão perturbada quanto a sua. Chega a ser covardia o que estou prestes a fazer, mas... preciso que colabore comigo uma última vez.

O soldado abriu a boca para perguntar o que diabos ela estava prestes a fazer quando sentiu os dedos finos dela tocando em sua testa. De novo. Havia um brilho esbranquiçado na ponta deles.

— Nova ordem — ele enrijeceu, indefeso outra vez. Ela continuou: — quando eu tirar a mão, você vai se levantar desta banqueta e irá direto até Orlov... Vronsky... seja lá quem esteja puxando suas cordinhas; vai dizer a eles que a agente quatro está morta e que o pacote nunca esteve aqui. Você vai acreditar que quebrou meu pescoço com seu braço chique da Hidra. — Enquanto falava, imagens do que ela dizia piscavam em sua cabeça, tão reais que ele realmente seria capaz de acreditar que vivera aquilo tudo. — E, não importa quantas ordens receba, independentemente de quantas vezes seu cérebro seja reiniciado, você não vai se lembrar desta conversa ou tentará vir atrás de mim outra vez. Entendido?

Ele se contorceu.

— Não posso fazer isso. Minhas ordens...

— Essas — disse ela, firme — são as ordens, James. Obedeça.

Os ouvidos dele zuniram, o cérebro martelando outra vez. O Soldado Invernal rugiu. As ordens de Vronsky e as dela se engalfinhando feito cães raivosos.

— O pacote... — ele insistiu — eu preciso voltar com o pacote.

— Isso está além de sua alçada — a agente murmurou. — A Hidra nunca mais vai se aproximar de mim ou daquela criança.

Ele estreitou os olhos.

Criança? Que criança? Quis perguntar. Não o fez, no entanto. Não conseguia.

— Ah, mais uma coisa — ela emendou, antes que o soldado pensasse em abrir a boca. — Quando finalmente o encontrar, não se esqueça de dizer a Orlov que a agente quatro o mandou — uma pausa e um sorriso fraco — ir se foder.

A visão se anuviou outra vez.

— Boa sorte, James. Você vai precisar.

Os dedos dela então se afastaram e...

Crack.

Notas finais
Olá, como vão? Esse capítulo oficialmente inicia a etapa final da história, onde finalmente teremos todo o desenrolar dos fatos. Bom, antes de prosseguir eu preciso deixar bem claro que aqui eu usei como inspiração alguns episódios da série "agentes da S.H.I.E.L.D", mas, para facilitar o entendimento de vocês, levemente adaptado. A série é "antiga" e "esquecida" como os próprios Inumanos. Espero que estejam gostando. Essa semana está um tantinho corrida, mas juro que até sábado vou responder os comentários pendentes de vocês. Obrigada a todos que estão lendo. Beijão!