As respostas estão aí dentro, James.

As respostas estão aí dentro, James.

As respostas estão aí dentro, James.

✧❄✧

BUCKY, CAMINHANDO PELAS RUAS DO BROOKLYN, sentia o cérebro fervilhando como se estivesse à beira do colapso.

As imagens daquela noite com a noite agente IV — as verdadeiras — ressoavam em looping dentro de sua cabeça. Nítidas, como se zombassem dele por ter permitido que as mentiras se arraigassem por todos aqueles anos. Então as viu de novo. E de novo.

Permitiu que as memórias fluíssem e se encaixassem até que tudo ficasse claro. E, quando o fez, precisou de um instante para recobrar o fôlego.

Agente IV e Isabel Valente. Aquele tempo todo... eram a mesma pessoa. Deveria ter suspeitado.

Foram tantas as vezes, naquelas semanas, que se pegara ponderando sobre o que poderia ter deixado passar ou como poderiam resolver a questão do sumiço de Erika Jones e as respostas estavam bem debaixo de seu nariz. A contraproducente relutância de Serena em falar sobre o passado de Isabel Valente e sua relação com Erika, as circunstâncias da suposta amizade entre as duas. As óbvias lacunas de informação. E o medalhão de Serena, o qual afirmara ter sido uma herança de família... Deus, ela não havia mentido.

Afinal Isabel Valente, a pessoa que a resgatara da Hidra, era sua família.

Somente a própria covardia o tinha impedido de chegar àquela conclusão depois de ter visto o medalhão da agente IV em Serena. Em momento algum o sargento cogitou que poderia ter se precipitado em suas conclusões. Era incapaz de imaginar um cenário onde não era um monstro.

Mas Isabel Valente... Ela tinha brincado com a cabeça dele; enterrou aquela conversa bem no fundo da mente do Soldado Invernal e usou a programação da Hidra em benefício próprio. Fez com que ele acreditasse em uma mentira. A cabeça ainda girava. Seria por esse motivo que a agente IV o assombrava tanto durante as noites? Seria possível que o próprio subconsciente estivesse aquele tempo todo tentando fazê-lo se lembrar?

Bucky contraiu o rosto e voltou a caminhar. Não importava.

Quer dizer, ele certamente estaria mentindo se dissesse que não estava irritado — puto da vida, melhor dizendo —, mas entendia perfeitamente os motivos que a levaram a agir de tal forma. Bem lá no fundo, sabia exatamente o que teria acontecido caso Isabel Valente não tivesse tirado o Soldado Invernal da jogada.

Ele a teria caçado. Até o inferno, se fosse preciso. A teria matado sem pensar duas vezes. E Serena...

Bucky nem queria pensar no que teria acontecido, como teria sido a vida dela caso Isabel Valente não tivesse intervindo; no que a Hidra teria feito, o tipo de monstro que seria forçada a se tornar...

Estava perto do apartamento enquanto tentava processar tudo que tinha descoberto, a mente a mil. Foi quando Bucky percebeu o centro poliesportivo do outro lado da rua. Estacou. Encarou a entrada.

E se, pensou, Erika Jones não fosse a sócia de Vronsky, mas aquele Nikolai Orlov mencionado pela agente IV? E Orlov... já tinha ouvido aquele sobrenome antes. Pensou e pensou e... lembrou.

Senador Nikolai Orlov. Representante do GRC. O homem que tinha encontrado no museu, meses antes.

Ele pestanejou.

Não fazia ideia de que aquele homem havia sido um espião da Hidra, nunca ouvira sequer um sussurro a respeito, mas... até que fazia sentido, olhando em retrospecto. E, se estivesse certo, era possível que ele soubesse sobre Serena desde o começo e... puta merda, e se ele estivesse por trás do assalto no museu? E se Orlov fosse a pessoa que estava cercando-a por todo aquele tempo?

Tudo se encaixava.

Orlov rodeara Serena feito um abutre no museu, a persuadiu a treinar naquele prédio gigantesco e ofereceu um emprego muito mais interessante e lucrativo — segundo Íris, pelo menos — para ela. Bucky olhou de esguelha para a fachada do prédio. Tudo sempre apontava para aquele lugar. Por quê?

Naquele momento, Bucky compreendeu o que tinha de fazer.

Era um palpite arriscado, mas se Orlov realmente estivesse envolvido... o centro poliesportivo poderia ser uma pista ou, pelo menos, poderia dizer alguma coisa a respeito do senador — o que, a bem da verdade, já seria muito mais do que tinha até então.

Então, o sargento pegou o celular que estava no bolso. Apertou. E o guardou de volta no bolso, ciente de que Sam jamais concordaria com aquilo. Dois Vingadores invadindo propriedade do governo sem razão aparente. Se estivesse enganado... seria desastroso. Não, tinha de ser Bucky. Sozinho.

Era impossível saber se sua teoria estava certa, tampouco se haveria algo de relevante naquele lugar, mas seus instintos diziam que valia a tentativa.

Bucky deu uma boa olhada na avenida principal.

Devido ao horário, havia poucos carros parados no semáforo, os faróis reluzindo em sua cara. A calçada, no entanto, estava vazia. Sua chance. A única que teria.

O que estava prestes a fazer era estupidez, ele sabia. Mas Bucky Barnes nunca foi conhecido pelo bom-senso.

— Estou indo — sussurrou Bucky — Serena.

E avançou em direção ao centro poliesportivo.

✧❄✧

— Manipulou o Soldado Invernal para que ele pensasse que estava morta, agente? — Sam Wilson repetiu pela terceira vez, ressaltando o "agente". Um claro desdém para com aquela mulher.

E Isabel Valente... ele não sabia como se sentir sobre a respeito dela.

Descobrir que a agente — ex-agente, na verdade — parada à sua frente tinha conseguido escapar do Soldado Invernal, ao mesmo tempo em que Bucky se afogava em culpa todos os dias por acreditar que a tinha matado... era cruel —brilhante, tinha de admitir, mas cruel.

Isabel Valente, agente IV, ou sabe Deus como deveria chamá-la, era uma mulher extremamente ardilosa e Sam não tinha certeza se aquilo era um bom ou mal presságio.

— É uma graça que se importe tanto com seu amigo, Wilson — ela entoou, cheia de complacência — mas a pessoa que eu estava lidando não era o James de agora. E o Soldado Invernal nunca teria largado o osso. A Hidra muito menos. Fiz o que tinha que ser feito para proteger Serena e não me arrependo disso.

Sam franziu o rosto.

— Então por qual motivo trouxe as memórias dele à tona? Apenas para torturá-lo ainda mais?

— Não sou um monstro — ela rebateu, na defensiva. — Só fiz aquilo porque precisava de uma distração antes que Orlov ligasse os pontos e se desse conta de que, apesar da agente quatro ter sido eliminada, a menina inumana continuava viva e tentasse ir atrás dela.

Ele apertou os olhos, com uma expressão que dizia: "me poupe de suas desculpas esfarrapadas". E, como se tivesse lido a mente dele, a agente desviou o olhar.

Na verdade, era bem possível que tivesse lido sim, porque imediatamente completou:

— Sabe o que Orlov teria feito caso eu não tivesse intervindo, Sam Wilson? — a voz não era mais que um sopro. Sam não se atreveu a responder. Ela continuou: — ele teria mandado o Soldado Invernal atrás de nós outra vez. E outra. E outra... até cumprir a maldita missão; até que eu estivesse morta de verdade e ela... à mercê deles.

— Trocou a vida dele pela de Serena ou pela sua, agente? — disse ele.

Não acreditava nem por um instante que havia um motivo nobre por trás de suas ações. Não de alguém que, deliberadamente, virou as costas para o próprio país.

— Que vida? — ela devolveu, arqueando uma sobrancelha fina. — O Soldado Invernal era um assassino sem vontade própria, uma alma muito além da redenção. Matá-lo seria um ato de misericórdia. — Não havia nem uma gota de remorso em sua voz. — Mas não seria eu a pessoa a fazê-lo. Nem em meus sonhos mais otimistas teria chance contra aquele homem em um confronto direto.

Ela tinha um ponto, era obrigado a admitir. Steve havia passado por maus bocados contra o Soldado Invernal e era um super soldado tão habilidoso quanto. Para pessoas comuns, era suicídio.

Isabel Valente não poderia ser considerada uma pessoa comum, no entanto.

— Tem ideia do quanto me arrisquei ao mostrar a cara? — Ela continuou falando. — Sabe o quão desastroso teria sido caso o Soldado Invernal realmente tivesse me matado?

Íris Miller e Amanda Ortega alternavam o olhar entre os dois, atentas a conversa, os rostos plácidos.

— Por isso o jogou de volta na toca dos lobos? — Sam alfinetou. — Por isso decidiu que seria melhor que ele continuasse sendo torturado e usado pela Hidra? Ou fez isso porque era a solução mais conveniente para você?

Ela encolheu os ombros.

— Não tive escolha.

Ele também não, porra, Sam quase gritou, mas se conteve.

— E não me orgulho nem um pouco disso — a agente completou, como se aquilo justificasse suas ações. — Mas o Soldado Invernal precisava voltar até a base ou o plano não daria certo. Eu... — uma pausa e um suspiro resignado — eu imaginei que se causasse os gatilhos certos, as memórias de James arranhariam a superfície do Soldado Invernal; o fariam questionar tudo, o deixariam confuso. E um soldado confuso, era um soldado instável e a Hidra jamais toleraria algo do tipo.

Sam trincou o maxilar. Odiava a forma como ela se referia ao amigo, embora soubesse que cada palavra que saia da boca dela era a mais pura verdade. Isabel Valente não estava lidando com Bucky, mas com o Soldado Invernal. Para ela, era questão de vida ou morte.

Ainda assim, Sam simplesmente não conseguia se manter imparcial diante de tanta condescendência.

— Apostou todas as suas fichas nisso? — ele perguntou. — Arriscado, não acha?

— Eu precisava sair do radar do Soldado Invernal a qualquer custo — Isabel respondeu. — Ele era o único capaz de nos rastrear, mas a Hidra jamais permitiria que saísse em missão se achassem que estavam perdendo as rédeas. Vi aquilo acontecendo antes e vi o que aqueles monstros faziam quando acreditavam que a missão poderia comprometê-lo.

Sam estreitou os olhos. Sabia exatamente o que acontecia. Choques e criogenia.

— Então o fez de bode expiatório?

Ela fez que não com a cabeça.

— Você não entenderia — ciciou, a voz rouca. — Fiz o que estava em meu alcance, mas não sou tão poderosa assim. Aquela mente era instável demais. Confusa demais. Não saberia dizer onde o Soldado Invernal terminava e James começava — suspirou. — Se eu mexesse na parte errada do cérebro dele, poderia quebrá-lo de vez.

— E o que exatamente você fez naquela noite?

Silêncio sepulcral.

Isabel desviou o olhar para a janela, como se alguma coisa muito interessante estivesse acontecendo do lado de fora.

— O que você fez? — Sam exigiu.

Ela suspirou.

— Imagine a mente do Soldado Invernal como um vaso de argila em um torno de oleiro — disse ela, a mão no bolso — a verdade dele sendo moldada e remoldada por quem conhecia as palavras de ativação. Fatos não teriam a menor relevância nesse cenário — os olhos estreitaram, ainda olhando para fora do apartamento. — Tudo que fiz foi usar isso a meu favor, e meus poderes... bem, digamos que fortaleceu a história, a tornou tangível. Tanto que, mesmo depois de se livrar do controle da Hidra, James ainda acreditava na mentira.

Sam ficou em silêncio, absorvendo a história.

Seria tudo uma grande falcatrua para fazer com que tivesse pena dela? Como, em sã consciência, poderia acreditar em qualquer coisa que saia da boca daquela mulher?

Isabel continuou falando:

— Quando o Soldado Invernal retornou para Vronsky, confuso e comprometido, um alerta soou entre líderes da Hidra. Se deram conta de que o projeto havia falhado desastrosamente e interromperam a coisa toda antes que perdessem o controle e deixaram Serena de lado, exatamente como previ que aconteceria.

— E depois?

— Com o Soldado Invernal de volta ao estado de hibernação e Orlov desfalcado — Isabel explicou, ainda usando aquele tom gélido — foi fácil sumir do radar de vez. James, indiretamente, salvou minha vida. Nossas vidas.

— Não seja condescendente, agente quatro — Sam alertou. — Bucky não teve escolha alguma. Você brincou com a mente dele. O usou e descartou como se fosse uma peça de xadrez.

Havia dito aquilo com a intenção de afetá-la. Isabel, no entanto, ergueu uma sobrancelha e sorriu para ele.

— Está insinuando que não sou melhor que a Hidra, Wilson?

Uma parte dele quis se curvar perante aquele olhar tempestuoso e penetrante, mas se forçou a manter a postura ereta.

— Me diga você — ele devolveu.

Ela torceu os lábios.

— Acha mesmo que eu teria sido capaz de salvar seu amiguinho com um discurso motivador e palavras bonitinhas? Tenho cara de Capitão América por acaso?

Sam teria dito que Steve tinha mais empatia no dedo mindinho do que ela teria em cem vidas, mas Isabel não permitiu que abrisse a boca.

— Sei que não tenho o espírito nobre dos garotos de ouro da América — ela admitiu, o sorriso de raposa despontando. — Mas já que é tão fácil para você me julgar, me diga, heroizinho: eu deveria ter feito isso antes ou depois do Soldado Invernal quebrar meu pescoço e entregar uma criança inocente nas mãos daqueles sádicos?

Sam não respondeu.

Ao lado dele, as duas civis estavam congeladas, com expressões abúlicas. Talvez não fosse uma boa ideia discutir aquilo na frente delas.

— Serena — Íris se manifestou antes que Sam conseguisse se recompor. — Ela... sabe disso?

A agente fez que não com a cabeça.

— Não tinha como eu ter certeza de que o plano daria certo, então a mantive escondida em um lugar seguro, bem longe do bar. James e Serena não se viram naquela noite. Sequer sabiam da existência um do outro na época.

— Mas e o resto? — Íris insistiu. — Ela sabe o que aconteceu enquanto...

— Era feita de cobaia pela Hidra? — Isabel disparou, sem rodeios. — É um pouco mais complicado do que isso, Íris.

Miller não gostou da resposta.

— Como assim? — Entoou, horrorizada. — Você mexeu com a cabeça dela também?

Isabel torceu o nariz.

— Deus, não — disse, ultrajada. — Nunca fiz nada com a mente ou as memórias dela, tampouco a poupei de saber a verdade sobre o próprio passado e a Hidra, mas ela era nova demais. Tinha apenas dez anos quando a encontrei e cinco quando caiu nas mãos de Vronsky. O próprio cérebro se encarregou de apagar os detalhes sórdidos. Talvez seja por esse motivo que ela tenha se tornado uma pessoa tão auspiciosa e gentil, apesar das circunstâncias.

Os lábios de Íris tremeram no que pareceu com um sorriso — ou a sombra de um.

— E ingênua — Isabel emendou logo em seguida. — Talvez eu tenha falhado um pouco nessa parte.

— Considera isso um defeito? — Disse Íris, descrente.

— Para alguém como nós? Sim. — A agente respondeu, ríspida. — Se Serena tivesse o mínimo de bom-senso, não seria tão... descuidada — uma pausa. Isabel desviou o olhar. — A culpa é minha, suponho. Nunca quis essa vida para ela e a mantive longe de tudo que envolvesse espionagem.

Sem resposta para aquilo, Íris abaixou a cabeça. Amanda acariciou a mão dela, confortando-a.

— Depois de se livrar do Soldado Invernal e da Hidra — Sam tornou ao notar a postura derreada de Íris. — Como acabaram em Nova Iorque?

— Àquela altura, a agente quatro estava oficialmente morta tanto para a Hidra quanto para a S.H.I.E.L.D, mas eu ainda tinha uma amiga em quem pude confiar. Erika Jones, o nome dela.

Sam sentiu um arrepio na espinha.

— Qual a sua relação com Erika Jones?

O olhar de Isabel anuviou.

— Trabalhávamos juntas — explicou. — Éramos... amigas. Ela me apoiou e me ajudou a construir a vida de minha nova identidade: Isabel Valente, uma imigrante italiana e sua netinha. Duas mulheres inofensivas e acima de qualquer suspeita.

Sam apertou os olhos.

— E por que ela faria isso? Pelo que fiquei sabendo, Erika detesta tudo relacionado a aprimorados.

— Erika pode ter sido uma pessoa... austera, eu admito, mas ela nunca odiou aprimorados — Isabel rebateu. — Só que depois de ter perdido o filho mais velho em um incidente envolvendo o Hulk em 2012, ela passou a repudiar tudo que envolvia os Vingadores. E ter de trabalhar em um lugar que remonta aquela memória diariamente... pode imaginar o quão difícil foi para ela?

Ele suspirou.

Então Erika era cúmplice de Isabel, não uma agente da Hidra infiltrada. Não tinham chegado nem perto da verdade. Mas... se as duas estavam juntas desde o começo, por qual motivo Erika tinha fugido depois do assalto? Onde estaria àquela altura?

Isabel virou o rosto na direção dele, enervada.

— Ainda acha que Erika é a responsável pelo assalto, Wilson? Pelo amor de Deus, Erika morreu tentando proteger Serena.

— O quê? Como você...

— Depois que Orlov percebeu que Erika estava minando a influência dele no museu, ele a investigou e descobriu tudo — ela explicou, os olhos faiscando. — E não pude salvá-la, apesar de tudo que fez por mim.

— Vocês eram parceiras de campo?

— Não exatamente — Isabel explicou. — Erika era da sede e minha intermediaria. Ótima com a papelada. Me ajudou a forjar tudo: documentos, fotos antigas, até mesmo certidões de nascimento e óbito da suposta mãe de Serena. Tudo para que a história ficasse acima de qualquer suspeita. Erika também me ajudou a deixar definitivamente a S.H.I.E.L.D.

— Então você, com a ajuda de Erika Jones, não apenas forjou a própria morte — ele entoou — o que por si só é um crime federal, como também deserdou da S.H.I.E.L.D?

Ela revirou os olhos.

— Por favor, não me venha me dar sermões sobre patriotismo.

Sam franziu o rosto.

— Acha que é simplesmente uma questão de "patriotismo?" — disse ele, encarando-a. — Você virou as costas para tudo. Como pode fazer uma coisa dessas?

Sam estava incrédulo. Tão incrédulo que fez uma rápida lista mental de tudo que Isabel Valente omitiu.

Primeiro: sabia que a S.H.I.E.L.D estava corrompida até os ossos pela Hidra, apesar de aparentemente ser capaz de identificar os infiltrados; tinha noção de que havia projetos inomináveis sendo feitos bem debaixo dos narizes deles; e, como se não bastasse, conhecia a história do Soldado Invernal, sabia as condições que era mantido. O inferno que vivia.

Ela sabia de tudo aquilo e, mesmo assim, escolheu virar as costas para seus colegas, para seu país, como se não fosse nada.

Quem sabe como as coisas teriam se desdobrado se ela não tivesse deserdado? O projeto Insight e todas as merdas que Hidra tinha feito depois daquilo. As lutas que os Vingadores travaram contra Loki... Ultron... Zemo... Thanos.

O próprio Bucky.

De quanto sofrimento ele teria sido poupado?Alguém com as habilidades dela do lado deles... tudo teria sido muito diferente.

— Eu estava cansada — a voz de Isabel o trouxe de volta para a sala.

— Cansada do quê?

— De lutar, Wilson — ela admitiu entredentes, como se tivesse notado o julgamento e o rancor queimando dentro dele. — Eu estava cansada daquela vida solitária e miserável.

Sam a olhou de novo.

Os olhos, de fato, exibiam o reflexo cansado de alguém que passara a vida lutando. Quase compensava a postura altiva e inabalável.

— Passei décadas daquele jeito. Invisível para a maioria; impedida de criar laços ou raízes com outros seres humanos. Constantemente fugindo e lutando e fugindo de novo... e por quê? Para quê? A Hidra era uma praga. A cada agente que eu matava, outros dois tomavam seu lugar, enquanto Orlov seguia intocável em sua posição — uma risada anasalada escapou de sua boca. — Só estava enxugando gelo.

— Você tinha os meios para saber quem era ou não confiável — Sam insistiu. — Nick Fury poderia...

— Nicky Fury? — ela repetiu em puro esgar. — O mesmo Nicky Fury incapaz de confiar na própria sombra? Acha mesmo que alguém como ele me ouviria? Acha que aquele homem iria se voltar contra a própria S.H.I.E.L.D tendo como prova nada mais do que a palavra de uma subordinada qualquer? E mesmo que acreditasse, o que duas pessoas poderiam ter feito contra toda uma hierarquia comprometida?

— Steve estava sozinho quando se rebelou contra a S.H.I.E.L.D. — Sam observou.

— Steve Rogers era o Capitão América — Isabel rebateu. — O que eu sou, Wilson?

De novo, Sam não sabia como responder à pergunta.

— Ninguém — ela respondeu por ele. — Sempre fui uma ninguém dentro da S.H.I.E.L.D. Sozinha, eu não teria feito diferença alguma.

Os ombros de Isabel abaixaram e deu um olhar brando para Sam. Pela primeira vez parecia ter a idade verdadeira.

— E, quando mandaram o Soldado Invernal, soube que era o fim. Não havia lugar no mundo ou programa de proteção à testemunha que me escondesse dele. A organização a qual dediquei toda uma vida não podia fazer porra nenhuma para me manter a salvo.

— Então — Sam concluiu — você deu um jeito de escapar da Hidra e da S.H.I.E.L.D ao mesmo tempo. Que conveniente.

Ela soltou uma risada fraca.

— Quer saber o que aconteceu quando fui dada como morta, Wilson? Nada. Meus superiores simplesmente apagaram todos os meus registros e missões, como se minha morte fosse uma queima de arquivos; como se eu não fosse um ser humano. E por que seria diferente? A agente quatro não passava de um fantasma, um nome sussurrado entre as rodas de conversa da S.H.I.E.L.D; a porcaria de uma lenda urbana.

— E o que você esperava, agente — ele grunhiu. — Uma medalha de honra ao mérito? Um feriado em sua homenagem?

— O que eu esperava? — Isabel repetiu, enervada. — Liberdade era o que eu esperava. Segurança. Aposentadoria. Uma vida digna. Queria me livrar do terror e das sombras da Hidra e de Orlov; queria que minha vida fosse mais que sangue jorrando e fugas constantes — uma pausa. Ela respirou fundo e continuou: — o que eu queria, Sam Wilson, era a sensação de uma vida de verdade depois de décadas dando a vida para livrar o mundo da Hidra. Entende o que estou dizendo?

Ele entendia. Sabia exatamente como era uma vida de fugitivo. Sabia como era agoniante viver escondido sem a certeza de que veria o próximo nascer do sol ou se um dia poderia voltar a se encontrar com as pessoas que amava.

Sam sabia também como era uma vida de omissão e conivência.

E, deliberadamente, escolher esse caminho, permitir que tantas pessoas sofressem por pura complacência... era isso que não conseguia entender. Ou aceitar. Isabel o encarou por um instante, provavelmente ouvindo tudo o que ele pensava e suspirou, dizendo:

— Não devo satisfações quanto as minhas escolhas de vida a você, heroizinho.

— Mas por que — Íris chamou a atenção deles, que desviaram o olhar um do outro — depois de ter passado por tanta coisa para se livrar da Hidra e da S.H.I.E.L.D por qual motivo decidiu voltar à ativa?

Isabel deu um olhar cansado para ela.

— De novo, Íris, eu não tive escolha.