Notas iniciais
Este é o maior (e mais importante) capítulo da história até aqui. Espero que gostem. Boa leitura!

EU SEI O QUE VOCÊ É.

Aquela única frase ficou na cabeça de Serena a noite toda girando e girando como um disco arranhado. Ele sabia. Ele havia descoberto.

Merda, aquilo mudava tudo.

Bucky sabia exatamente o que Serena era e por esse motivo tinha fugido dela naquela noite. Será que a odiava? Será que ela ser quem era o fazia sentir asco?

Era possível.

Se estivesse no lugar dele, faria diferente?

Difícil dizer.

Não tinha ideia do que se passava na cabeça de Bucky. Talvez o sargento estivesse convencido de que Serena era uma espiã da Hidra disfarçada e estivesse naquele mesmo instante reunindo os Vingadores para capturá-la e prendê-la em uma cela fria e sufocante no fundo da fossa das Marianas e...

Ela parou de andar e balançou a cabeça.

Que besteira, Serena. Bucky nunca faria nada do tipo. Nunca.

Então... por quê? Por qual outro motivo teria fugido dela daquele jeito?

Será que por todo aquele tempo ele acreditava que Serena tinha alguma ligação com Vronsky? Era possível, considerando toda a desconfiança que tinha a respeito dela quando batera na porta dele da primeira vez. Franziu o rosto.

Ele sabia sobre ela aquele tempo todo?

Um toque agudo ressoou em seus ouvidos, forçando-a a espantar o pensamento. Serena abaixou o rosto na direção do som. O celular, pensou, guardado na bolsa que jazia pendurada em seu ombro.

Com um suspiro, caçou o aparelho perdido no meio da bagunça de peças de roupas e fios de carregador e, quando enfim o encontrou, a tela brilhava com uma notificação de mensagem de Íris. A amiga tinha colocado os novos números dela e de Amanda, com nomes de contatos engraçadinhos.

Então, dizia a mensagem de "Íris é um gênio" ao lado de sua foto, já aceitou o emprego?

Serena revirou os olhos e digitou: Ainda não, com um emoji que replicava a própria reação.

Íris é um gênio respondeu segundos depois: E o que está esperando?

Ela escreveu de volta: O horário comercial.

Era verdade.

Tinha acabado de sair de casa e o sol mal despontava no céu enquanto caminhava em direção a estação de metrô. Era bem provável que — pela primeira vez — chegasse no museu antes mesmo dos funcionários do departamento de recursos humanos. Mas precisava fazer aquilo antes que perdesse a coragem.

A mensagem seguinte da amiga consistia em uma figurinha simulando um gesto obsceno. Logo depois, emendou: Só... me mantenha informada, ok?

Não se preocupe, mamãe, Serena respondeu. E, então acrescentou: você será a primeira a saber.

Íris respondeu com um coração cor de rosa gigantesco.

Serena balançou a cabeça, fechou o aplicativo de mensagens e encarou o horizonte, a construção enorme do centro poliesportivo despontando do outro lado da rua. Ela sorriu. Muito em breve aquela seria sua vida.

Trabalharia naquele lugar, fazendo o que gostava — ou mais perto disso quanto possível— e, mesmo que não voltasse a competir tão cedo, mesmo que nunca o fizesse, não se importava. Estava feliz e devia aquilo a natureza intrometida de Íris e aos discursos encorajadores de Bucky.

A foto de sua amiga sorridente brilhou novamente em seu telefone enquanto atravessava a rua. Ela levou a mão até o medalhão pendurado no pescoço, o sorriso murchando.

Era uma pessoa terrível.

Enquanto as pessoas ao seu redor a cercavam de amor e apoio incondicional, Serena se escorava em meias-verdades e negação.

Amanda disse que devemos comemorar, dizia a última mensagem, recém recebida. A tela piscou uma segunda vez, emendando: O que acha de um Happy Hour no Shark's hoje à noite? Por minha conta (de Amanda).

A mensagem vinha acompanhada de um GIF de uma pessoa bebendo.

Serena estreitou os olhos. Não merecia a amizade de Íris.

Tinha prometido uma explicação, tinha olhado no fundo daqueles olhos amorosos e jurado que contaria a verdade. Mas Serena não havia feito absolutamente nada a respeito, empurrando o assunto com a barriga como se Íris pudesse simplesmente se esquecer daquilo, como se fosse um mero detalhe irrelevante.

E, como se não bastasse, no meio daquela bagunça ainda havia Bucky que interpretara sua omissão do jeito errado — para dizer o mínimo.

Basta. Aquilo tinha que acabar.

Íris, ela digitou, precisamos conversar sobre aquele dia. Você precisa saber que eu...

Se deteve. Não. Não faria aquilo por celular.

Chega de mentiras. Chega de covardia. Chega de complacência. Olharia no fundo dos olhos da amiga e contaria toda a verdade. Devia isso a ela. Serena então reescreveu a mensagem: Nem pensar.

Íris, ciente do que aquilo significava, replicou momentos depois: te vejo às oito e meia?

Serena enviou um emote de raiva e escreveu: Oito!

Feito isso, atravessou a rua e continuou andando, em direção à estação de metrô, ainda com o celular na mão.

Ela então voltou ao histórico de conversas e desceu a tela até que a foto de Bucky — tirada por ela mesma e sem permissão — aparecesse. Havia dezenas de mensagens e ligações ignoradas. A bem da verdade, nem sabia se ele tinha se dado ao trabalho de abri-las até então.

Mesmo assim, arriscou, teclando: sargento...

Serena estava andando perto do arco de entrada do centro poliesportivo quando passos casuais ecoaram em sua direção. Ela parou de digitar e ergueu o rosto. Um par de sapatos Oxford, em seguida o terno da Armani, e então...

O rosto anguloso, um nariz aquilino e seus penetrantes olhos verdes.

— Senador Orlov.

— Devo considerar sua presença logo pela manhã como um sinal de que está inclinada a aceitar minha proposta?

Serena ergueu um lábio para cima.

— Senhor. Minha intenção era passar no RH primeiro, mas creio que o setor esteja vazio uma hora dessas. — O prédio todo, a julgar pelo saguão, quase completou.

— Ângela chega às nove — comentou ele casualmente. — Mas o refeitório do segundo andar acabou de abrir. Por que não me acompanha durante o café enquanto esperamos?

Ela endireitou a coluna. Havia algo de estranho naquela voz. Ele parecia impaciente.

— Agradeço o convite, senador, mas tem uma coisa que preciso fazer primeiro.

— Tem certeza? — ele insistiu — os ovos pochê e as torradas de avocado são divinos. E o café é triturado na hora.

— Outra hora quem sabe — o dispensou com um sorriso fraco — estou sem fome.

Não era mentira. Seu estômago estava indiscutivelmente embrulhado desde a noite anterior. Ela então bloqueou o telefone e o enfiou de qualquer jeito em sua bolsa. Mas, percebendo que uma recusa explícita poderia soar rude para seu futuro chefe, emendou:

— Agradeço a oferta mesmo assim.

— Que pena — o silêncio ecoava pela calçada.

Um silêncio desconfortável e eterno. Serena olhou para o relógio e se deu conta de que tinha tempo. Bastante tempo, na verdade. E ela estava tão nervosa...

Talvez pudesse treinar um pouco antes de ir até o museu, pensou, apenas para aliviar a tensão antes de enfrentar a fúria de Erika Jones.

— Se precisar de mim — ela murmurou, quando o silêncio beirava o insuportável — estarei no estúdio.

Dito isso, fez um gesto de despedida e atravessou o arco de entrada, os passos ecoando pelo saguão até enxergar o elevador. Na soleira, parou e suspirou. Ainda odiava aquela maldita caixa sufocante, mas, pela falta de opções, estava aprendendo a tolerá-la.

Quando a porta de metal se abriu, Serena entrou de uma vez, apertou o botão do quinto andar e fechou os olhos, se concentrando na própria respiração.

Inspirou. Expirou. Inspirou.

Então, um momento antes da porta fechar, mais alguém entrou. Ela abriu os olhos e encarou o painel.

— Segundo andar, certo? — Serena perguntou, respirando fundo outra vez.

O Senador Orlov não disse nada, mas sabia que era ele. Sentia a presença irreverente e o olhar afiado queimando em suas costas. Até que:

— Descobriu qual é o seu propósito, menina?

Serena ponderou por um momento. Tanta coisa tinha acontecido nas últimas semanas...

Mesmo assim, deu um olhar caloroso para o nada.

— Ser atleta. Competir... — lentamente, virou o rosto, os lábios esticados. Pelo reflexo do metal, conseguia encontrar o senador avaliando-a com aqueles olhos afiados — levou muito tempo até que eu notasse, mas não vejo um propósito para mim fora do tatame. Acho que devo algum crédito ao senhor, por me lembrar disso.

Orlov, no entanto, torceu um lábio.

— Ginástica Artística, é claro.

Serena estreitou os olhos.

Ele parecia... decepcionado?

— Sabe, tem uma coisa que venho me perguntando desde a primeira vez que a vi. — Ela se virou na direção de Orlov outra vez, a expressão confusa. O elevador começou a subir. — A coisa toda da ginástica... foi ideia dela?

Ela pestanejou.

— Perdão?

— É claro que foi — ele respondeu a própria pergunta, esticando os lábios. — A ginástica desenvolve tanto a musculatura, quanto flexibilidade. Sabia que Dreykov fazia algo parecido com as garotas dele?

— Quem é Dreykov?

— Um velho amigo — disse o senador enquanto encarava as paredes, divagando. — As garotas da sala vermelha costumavam usar os princípios do ballet para se tornarem mais fortes e resistentes. A ginástica artística possui uma premissa bem semelhante. Por isso você luta tão bem, não é mesmo?

— Não sei se estou acompanhando a conversa, senador. De quem estamos falando?

— Agente quatro — ele disse pausadamente — a agente quatro encontrou uma solução sutil para mantê-la treinada. Ela era uma raposa esperta.

Serena piscou.

— O que disse, senhor?

Um sorriso de cobra surgiu em seus lábios finos, refletido pelo metal do elevador. Ele então se virou e apertou um botão que fez com que parasse.

— Sua persona de menininha sonsa pode até funcionar com as pessoas ao seu redor,mas consigo enxergar através da máscara. Euvejo o monstrinho que você tanto tenta esconder.

As palavras ecoaram pelo maldito elevador. Serena não conseguiu dizer nada, enquanto sua mente disparava um sinal de alerta. Suas pernas tremeram.

— Não se sinta ofendida. É um disfarce muito inteligente, devo admitir — o senador continuou falando. — A agente quatro foi uma excelente professora.

— Não faço ideia sobre o que o senhor está falando — disse ela, recuando um passo, os dedos formigando.

A expressão dele não vacilou.

— Tente outra vez.

Aquele não era nem de longe o tom untuoso que costumava usar.

— Não faço ideia sobre o que o senhor está falando, Senador Orlov?

Orlov avançou um passo na direção de Serena.

Fuja. Fuja. Fuja.

— Quer saber o que eu penso?

— Não, eu não quero — ela recuou pela segunda vez e apertou o botão que fazia o elevador voltar a funcionar, mas nada aconteceu. — Só que isso não vai impedi-lo de continuar, vai?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Acho que a agente quatro mexeu uns pauzinhos para garantir que você fosse treinada por todos esses anos. E foi por isso que ela a mandou para cá, não foi? Para a América, eu digo.

— Correndo o risco de soar repetitiva, senador — Serena disse preguiçosamente — mas não faço ideia de quem está falando. Quem é agente quatro? Por que eu a conheceria?

— Não conheceria a própria... como foi que você a chamou no museu? Avó?

Um soco no estômago teria doído menos. O coração parecia trovejar dentro do peito quando ele emendou:

— Ora, não finja estar surpresa.

— De onde conhece minha avó? — Entoou, fincando as unhas curtas contra as palmas das mãos — por que não a mencionou antes?

Ele não respondeu. Em vez disso, mergulhou o braço dentro do paletó devagar. Um gesto discreto, quase elegante.

— Sabe a resposta.

— Ela nunca me disse nada sobre ex-namorados — Serena se viu dizendo, displicente. — É por esse motivo que está tão interessado em mim?

— A agente quatro não é sua avó — tornou Orlov, ignorando o comentário. — Mas é impressionante o quanto se parecem. A mesma arrogância e falta de bom-senso — houve uma pausa. Os olhos dele pareciam devorá-la aos poucos. — E onde isso a levou? Uma morte trágica e dolorosa.

— Olha, eu não sei por onde andou se informando sobre nós, mas está enganado — Serena sibilou, o formigamento nos dedos se expandindo por entre suas veias, queimando feito veneno. — Isabel Valente me criou; ela é minha avó.

As unhas estavam afundadas na carne, ao ponto de deixar marcas pouco sutis de meia-lua em suas palmas. O homem, no entanto, mantinha o olhar altivo nela, os olhos verdes penetrantes dele perscrutando-a como se fosse uma víbora.

E aqueles olhos...

...tome cuidado com olhos penetrantes.

Serena piscou e tudo fez sentido. Puta merda.

— Isabel e Serena Valente — disse ele, como se sopesasse a informação. — Esse tempo todo, a identidade da agente quatro estava bem na minha cara e eu não vi.

— Está enganado.

— Pare de mentir. O colar em seu pescoço era dela. Eu a vi usando inúmeras vezes.

Serena instintivamente apertou o medalhão que jazia por cima das roupas. O Senador Orlov então puxou a mão de forma teatral, revelando o brilho prateado da pistola escondida dentro de seu paletó. Ela recuou mais uma vez, batendo as costas na parede de vidro do elevador.

Muito pequeno..., muito apertado... o ar... sumindo...

— Mostre suas presas, menina — ele torceu o nariz. — Não... não preciso mais fingir. Devotchka soa muito melhor. Se importa?

Um raio de compreensão a atingiu, travando o corpo. Mas sua mente havia sido completamente preenchida pelo nome. Devotchka.

Devotchka.

Devotchka.

Devotchka.

Menina.

Não. Aquilo só podia ser um pesadelo.

— Quem é você de verdade? — sussurrou Serena, encarando-o.

O senador ergueu um lábio para cima, a arma apontada em riste em sua direção. Daquela distância não conseguiria se esquivar ou se defender. Estava encurralada na pista de caminhada do Prospect Park outra vez.

— Finalmente está fazendo as perguntas certas — os dedos finos puxaram a trava. Um som de clique metálico ressoou. Frio. Preciso. Letal. — O que foi? Quer me ouvir dizer aquelas palavras? Por favor, não estamos mais em 2014.

Ela sustentou o olhar.

— Venha — incentivou ele — use seu poder, inumana. Faça o que fez das outras vezes, mas posso garantir que não haverá nenhum estalo ou Soldado Invernal para protegê-la.

— Você é louco!

— Sou? Então me diga como manteve aquele ginásio em pé em 2018.

Serena olhou ao redor. Não era possível que dentro daquele prédio gigantesco não houvesse ninguém ouvindo os berros ensandecidos do senador de dentro do elevador.

— Diga — desafiou ele. Mas ela se manteve imóvel. Não moveu nem um maldito músculo enquanto permitia que o formigamento em seu corpo a consumisse por completo. — Diga que os fragmentos de gelo espalhados por toda a parte não foram obra sua; que o sangue inumano seco no chão pertencia a outra pessoa; que não era você que estava impedindo que as vigas caíssem em cima da sua amiguinha. — O senador deu outro passo, a arma quase tocando em seu colo. — Não minta para mim, menina. Eu estava lá. Eu vi tudo.

— Achei que não estivesse na cidade, senador.

— Na verdade — ele contrapôs — me lembro de ter comentado que não assisti a sua apresentação. Mas eu estava lá naquela hora. Vi o que fez com aquele prédio.

Serena abriu a boca, mas nenhum som saia. Estava em choque.

O senador continuou falando:

— Por todos aqueles anos, acreditei que a tinha perdido para sempre. Mas quem poderia prever que a vadia da S.H.I.E.L.D seria capaz de ludibriar o Soldado Invernal em pessoa?

Vadia da S.H.I.E.L.D.

Aquela havia sido a gota d'água. A mente de Serena se anuviou, seu corpo estava no limite. O formigamento se expandiu ainda mais, para fora de seu corpo. E quando voltou para ela...

— Repita isso — sussurrou, tão fria quanto o gelo que acabara de invocar. — Ofenda minha avó de novo e haverá outra lança. E, desta vez, não vou errar o alvo.

Duas lanças de gelo cruzaram pelo pescoço de Orlov em X, imobilizando-o. Uma delas raspou a bochecha dele, arrancando um filete de sangue. A arma em suas mãos havia caído no chão em um baque surdo que ressoou pela cabine.

Mas o sorriso na cara do maldito se alargou.

— Não vai me deixar terminar a história? Não quer saber qual fim doloroso sua doce avozinha teve pelas mãos do punho da Hidra?

Ela inspirou fundo. Um pensamento, um mísero pensamento e...

— Não. Não quero.

O sorriso de Orlov alargou ainda mais.

— Sabia que trabalhamos juntos na S.H.I.E.L.D, décadas atrás? — revelou ele, despretensioso. — Quando ela ainda era uma arquivista, responsável por catalogar os brinquedinhos alienígenas que os figurões confiscavam por aí. Amigável, todo mundo gostava dela. Uma pena que estivesse no lugar errado e na hora errada.

Serena estreitou os olhos.

— O que você fez?

— Como comandante, meu trabalho era coordenar a logística e os agentes de campo, um ótimo pretexto para estudar aquelas quinquilharias sem levantar suspeitas. A maioria não passava de lixo espacial, é claro, mas vez ou outra alguma coisa interessante surgia naquele porão imundo. Armas, artefatos antigos e relíquias da Hidra que S.H.I.E.L.D não fazia ideia do que eram ou para que serviam.

— Quando diz, "sem levantar suspeitas" está se referindo a...

— Não finja que não sabe — disse ele em um tom arrastado. — Era década de oitenta e a Hidra já tinha se embrenhado na S.H.I.E.L.D até os ossos. Seria impossível distinguir os infiltrados daqueles que realmente acreditavam que aquele circo continuava sendo a mesma agência de segurança do pós-guerra.

— Devo supor que minha avó era uma dessas pessoas.

— Achei que fosse uma das nossas — lamentou. — Ela era mais sagaz que a maioria. Não era possível que fosse outro fantoche de Howard Stark. — Ele resfolegou. As lanças estavam a um passo de sufocá-lo. — Mas... eu estava enganado. Certo dia, a agente quatro me encontrou dentro dos arquivos e começou a fazer perguntas difíceis. A coisa descambou e tive de silenciá-la.

Serena cerrou os punhos. Mas o senador continuou falando:

— Nós lutamos. E, embora fosse habilidosa, eu a alvejei — uma pausa. Ele resfolegou outra vez. — Não queria ter feito aquilo, seria impossível de explicar uma morte dentro da agência sem levantar suspeitas. Por isso, peguei um objeto que estava estudando há algum tempo: o cristal terrígeno. Tudo que eu sabia até então vinha de um registro vago da década de quarenta. Cientistas de um laboratório alemão inteiro morreram envenenados depois de inalar a névoa tóxica contida dentro de um dos cristais. Então o quebrei e tranquei ambos no porão.

— Forjou um acidente químico apenas para livrar sua pele? — A lança se ergueu um pouco. Apenas o suficiente para que ele soltasse um grunhido.

— A névoa deveria tê-la matado — Orlov continuou falando mesmo assim. — O complexo ficou isolado por um dia inteiro.

— O que houve depois?

— Quando as equipes de controle terminaram de limpar a bagunça e a quarentena foi encerrada — ele revelou — encontraram a agente quatro. Viva, por algum maldito milagre. Só que ela estava... diferente. Não entendia como ou porque, apenas tinha certeza de que não era a mesma pessoa. E eu sabia... sabia que tinha algo a ver com o cristal. Depois disso, fui atrás de Igor Vronsky, um cientista da Hidra, especialista em genética.

Serena ofegou. Aquele maldito nome outra vez...

— Então se lembra de Vronsky? — o senador parecia sadicamente satisfeito. — Sabia que ele está morto?

Ela não disse nada. Orlov continuou:

— Um laboratório e recursos, foi o que me pediu em troca. E eu dei tudo o que precisava: homens, máquinas, tecnologia de ponta, mas tive de me manter afastado. Depois do acidente com a agente quatro, não podia levantar mais suspeitas. Vronsky, em teoria, era o chefe do projeto.

— Mas ele não era, certo?

Ele fez que não com a cabeça.

— Levou quase duas décadas de pesquisa até que Vronsky descobrisse como o cristal terrígeno funcionava e anos de testes até que outra pessoa sobrevivesse a exposição da névoa — o senador deu um olhar irreverente para Serena. — Você, devotchka. Consegue se lembrar disso?

Seus olhos se anuviaram.

Memórias fragmentadas inenarráveis piscaram em sua mente. Pedaços de sua história que não tinha o menor interesse em revirar, mas que naquele instante foram trazidos à tona por Orlov.

— A menininha órfã. A única cobaia que sobreviveu. Tão pequena e tão poderosa. — Ronronou o homem.

Serena foi sugada de volta para a conversa.

— Não a conhecia pessoalmente, mas já a amava como se fosse minha própria doch'. — Filha. Serena quis vomitar. — Tem ideia do quanto a pesquisa avançou depois disso? Graças ao seu sangue descobrimos exatamente o que vocês eram e o que podiam fazer.

— Deveria me sentir honrada por isso?

— Eu a forjei — ele a lembrou. — Não seria o que é sem mim, devotchka. Eu sou o mais perto de um pai que você tem.

— Vai se foder.

O senador riu.

— E como um pai zeloso, eu tinha grandes planos para você — revelou — se não fosse pela agente quatro...

Teria se tornado um monstro. Quase gritou.

O que Serena disse, no entanto, foi:

— E como ela descobriu o que você estava tramando?

— Como disse antes, a agente quatro era uma va... — ele se interrompeu, sentindo a lança subir ainda mais. — Uma mulher esperta. Ainda trabalhava na S.H.I.E.L.D, mas em outra divisão. E mesmo depois do acidente, mesmo depois de eu cercá-la com meus espiões, ela continuava se intrometendo onde não era chamada. Sempre um passo à frente, caçando agentes da Hidra, tentando me cercar enquanto bancava a heroína.

— Ela era uma heroína — Serena gorgolejou. Lágrimas escorriam de seu rosto. A cada instante ficava mais difícil de respirar. — Estava tentando proteger as pessoas de monstros — monstros como você.

— Eu a subestimei — ele admitiu. — Achei que em algum momento, ela cometeria algum deslise...

Desta vez, foi Serena quem abriu um sorriso.

— Mas não foi isso que aconteceu, certo?

— A agente quatro foi uma das melhores espiãs que passou pela S.H.I.E.L.D. Irrastreável. Invisível. Ninguém sabia onde estava ou o caso em que estava trabalhando e, seus registros... simplesmente não existiam. Nunca soube como ela conseguia fazer aquilo ou quais habilidades o cristal terrígeno deu a ela, mas os superiores aprovavam seus métodos, não podia contrariá-los. Quando finalmente consegui descobrir seus planos, era tarde demais para impedir. Ela arruinou a pesquisa de forma irreparável e, não contente, a tomou de mim.

— Foi quando você mandou Bu... o Soldado Invernal?

Ele aquiesceu.

— A ideia partiu de Vronsky, e eu o apoiei. Ele estava enfurecido com a agente quatro, a queria morta e eu... estava cansado de perder mão de obra por causa dela. O resultado... o maldito Soldado Invernal arruinou a única chance que tínhamos de continuar com a pesquisa. Sem o laboratório, sem você... seria impossível levar o projeto adiante. E, quando o soldado retornou à base estava... comprometido. Incapaz de continuar com a missão — continuar caçando-a, Orlov não precisou dizer.

— Comprometido? O que isso quer dizer? O que aconteceu com o Soldado Invernal? — Serena exigiu, a voz em um fio. — O que o forçaram a fazer?

— Me diga você.

Mas Serena não sabia.

Não sabia que existia a possibilidade de Isabel e Bucky terem se encontrado, quanto mais naquelas circunstâncias e... Santo Deus, aquilo explicava muita coisa.

Orlov continuou:

— A agente quatro deu a vida por você, para que pudesse vir para a América e desaparecesse de nosso radar — ela arregalou os olhos. — Brincou com o Soldado Invernal por dias enquanto desviava a atenção. Tudo para que a pesquisa não fosse adiante. Tudo para tirá-la de mim e você... você sabe o que ela fez, sabe quais eram as habilidades dela. Me diga.

Serena bem que tentou, mas seu cérebro era incapaz de processar as informações. Ainda não tinha assimilado que o Senador Orlov estava com Vronsky por todo aquele tempo, que ele era da maldita Hidra. E Bucky...

Ela tocou o colar outra vez. Precisava vê-lo naquele instante. Esclarecer tudo.

— Quem a treinou depois que o Soldado Invernal matou a agente quatro? Foi Nicky Fury? Coulson? Como conseguiu chegar até a América?

Serena piscou. Puta merda. O senador... ele não sabia.

Uma faísca ascendeu dentro dela.

— Como me encontrou depois de tantos anos? — ela devolveu a pergunta. — Como soube quem eu era?

— Foi um mero acaso. O fracasso do projeto e seu desaparecimento havia sido um baque forte demais. Passei muito tempo tentando rastreá-la por conta e quando Alexander Pierce deu início ao Projeto Insight... bem, sabe o que aconteceu depois — ele suspirou.

Serena apertou os olhos.

Orlov estava se referindo a queda da S.H.I.E.L.D. em 2014, quando Steve Rogers, Sam Wilson e Natasha Romanoff descobriram que a Hidra estava entremeada no governo até os ossos; quando os arquivos secretos de ambas as agências vieram à tona. O maior escândalo político da década.

— Sem a S.H.I.E.L.D, a Hidra foi desmembrada, mas ainda havia vários de nós espalhados por aí — ele continuou falando. — Aproveitei o momento e ingressei na política, comendo pelas beiradas através de projetos sociais.

O centro poliesportivo... então aquilo tudo era um projeto de fachada. Serena deveria ter suspeitado.

Orlov continuou:

— Anos mais tarde, um convite para assistir as competições de torneio esportivo qualquer surgiu — ele fez uma careta. — É a pior parte da política, sabe? Ter de participar desses eventos longos e tediosos, especialmente quando se é o patrocinador.

Ela piscou.

Será que todo aquele tempo Isabel sabia sobre o Senador Orlov? Será que o tinha visto?

Serena ponderou. Naquele dia, Isabel estava nervosa, como se alguma coisa muito ruim estivesse prestes a acontecer... ela sabia, claro que sabia. E tinha ignorado aqueles sinais. Se ao menos soubesse, se tivesse se atentado um pouco mais...

— Cheguei atrasado no evento — Orlov continuou falando. — O parlamento estava um caos naquela tarde. Centenas de registros de naves não identificadas em nosso espaço aéreo, uma maldita rosquinha gigante pairando sobre a ilha de Manhattan na tarde anterior. E, quando finalmente consegui entrar no prédio, aconteceu a primeira explosão. As pessoas começaram a correr. Eu estava prestes a fugir também quando a vi... quando vi o escudo sendo erguido. Naquele momento, eu a reconheci. E, tarde demais, percebi o que você era, o que eu tinha perdido.

Serena esquadrinhou o elevador.

Não havia nenhuma câmera de segurança visível, mas isso não a impediria de arrancar uma confissão completa dele.

— E depois?

— Com o mundo tomado pelo pânico e pelo luto não foi muito difícil me eleger como senador — ele comentou. — Então dei a Vronsky as amostras de sangue que você deixou antes de desaparecer, uma forma sutil para que ele pudesse retomar a pesquisa com os genes inumanos sem me envolver diretamente.

— Por quê?

— Ele desenvolveu um protótipo de soro a partir de seu sangue. Um projeto promissor, mas... não era mesma coisa.

Serena estremeceu outra vez. Àquela altura, mal sabia como continuava em pé.

— Então — ele fez uma pausa. — Os Vingadores decidiram desfazer o estalo e você estava de volta. O universo tinha me dado uma segunda chance.

— Por isso entrou para o Centro de Repatriação Global?

— O GRC me deu carta branca para seguir com meus projetos — sorriu. — Integrar um bando de atletas fracassados em troca de um prédio enorme no Brooklyn à vista de todos só para mim. Foi um bom negócio.

— O que esse prédio é de verdade? — Serena perguntou.

— Vai descobrir em breve.

Ela apertou os botões do elevador outra vez, mas nada aconteceu.

— Se serve de consolo — ele emendou. — Não era para você ter perdido a bolsa esportiva. Dificultou muito minha vida.

Serena olhou para o vidro. Talvez pudesse quebrá-lo. Mas o que faria depois? Pular daquela altura seria suicídio.

— Estou há quase um ano me preparando para esse momento — Orlov falou. — E sou um homem paciente, devotchka.

Um ano... Orlov estava procurando por ela há quase um ano.

Ela pestanejou.

— Desde o começo... foi você.

— Você aprende rápido.

— O assalto no parque... aquilo foi armado?

— Eu queria testá-la, ver do que é capaz — ele desdenhou — não era para o soldado ter interferido.

Os lábios dela tremeram.

— Então o que aconteceu no museu... puta merda... os mercenários e... Erika... o que fez com Erika? Por que não consigo falar com ela?

— Eu a matei — ele admitiu sem remorso algum.

Arfou. Não era a maior fã de Erika Jones, mas a supervisora não merecia morrer. Erika tinha família. Filhos.... fora uma grande amiga de Isabel e, bem ou mal, tinha estendido a mão para Serena em um momento de dificuldade.

Aquele homem era um monstro cruel e desalmado.

— Erika nunca fez mal a você.

O Senador Orlov sorriu de novo.

— Sabia que Erika Jones também era da S.H.I.E.L.D? — revelou.

Ela não disse nada.

— Claro que sabia — ele respondeu por ela. — Foi por isso que ela a aceitou como assistente para início de conversa, não é?

— Erika não gostava de mim — Serena murmurou. — Não tinha por que matá-la.

— Não foi o que pareceu do meu ponto de vista — disse, a voz cheia de esgar. — Erika Jones era uma intrometida, passou meses atrasando meus planos. Sabia que ela vivia mudando as datas de despacho e mantinha os arquivos fora da rede para minar meu acesso? Que apagou as imagens das câmeras de segurança do museu apenas para que eu não soubesse de seu envolvimento na prisão dos mercenários? Não funcionou, é claro, mas... ela sabia demais. Não tive muita escolha.

— E depois disso tudo ofereceu um emprego apenas para me encurralar? — Serena ciciou, a voz embargada.

Idiota, era mesmo uma idiota em pensar que uma oportunidade daquelas simplesmente apareceria em seu colo.

E agora Erika... Deus. O sangue dela escorria em suas mãos. Assim como o de Dave, o vigilante. Ambos inocentes. Ambos mortos.

Por. Culpa. Dela.

— De novo, o Soldado Invernal estava perto demais — ele explicou, o nariz torcido. — Tive de agir com cautela ou poderia acabar atraindo a atenção dos Vingadores.

O senador tinha montado uma armadilha perfeita. E ela... Serena tinha caído feito um patinho.

Idiota. Tola. Burra.

— Então — Orlov continuou falando. — Aqui estamos.

— Você é um monstro!

— Pode me ofender a vontade, devotchka,mas não vai fugir de mim outra vez.

— E o que pretende agora? Vronsky está morto, e pelo que entendi, você não pode fazer muita coisa sem ele.

— Vronsky queria replicar a mutação — declarou ele, a voz congelante. — O objetivo dele desde o começo era entender e controlar os genes inumanos. Eu não ligo para essas merdas. Já tenho o que quero.

Ela. Ele a queria.

— Por quê? — para quê?

Ele sopesou a pergunta por um instante.

— O que Abraham Erskine queria quando desenvolveu o soro de super soldado? Ou Zola? Ou Howard Stark? — Um soldado. Uma arma.

O mundo girou por um instante. Ela teve de se apoiar na parede para se manter em pé. O elevador continuava travado.

Ele continuou falando:

— Vou reformular a pergunta de antes: Kakova tvoya tsel', Devotchka?

Qual o seu propósito, menina?

Qual o seu propósito, menina?

Qual o seu propósito, menina?

Serena sentiu a garganta fechar. Algo se comprimiu dentro dela, como se agulhas quentes perfurassem sua pele. A tontura aumentou, mas ela sustentou o olhar para Orlov.

— Se acha que vou fazer qualquer coisa por você, só pode ter perdido o juízo — bradou. — Eis o que vai acontecer, senador — ela deu um passo letárgico para frente. — Vai abrir esse maldito elevador e me deixar ir embora. E, se tiver bom-senso, não virá atrás de mim outra vez.

O senador, como se Serena tivesse contado uma piada, soltou o ar pelo nariz. Talvez fosse uma risada. Talvez estivesse sem ar. Era difícil dizer.

— Não está em posição de negociar.

— Discordo.

— Eu vou dizer o que vai acontecer — Orlov entoou, erguendo o rosto. — Vai me soltar e vai me seguir para onde eu quiser. E vai fazer isso de bom grado.

— E por que eu faria isso? — Serena perguntou, usando o que restara de força para invocar uma terceira lança. — Acha mesmo que pode me impedir enquanto está preso no chão feito um espantalho?

— Tem razão, eu não posso. Mas, imagine o seguinte cenário — os olhos dele se estreitaram — aprimorada não registrada enlouquece e ataca um senador em plena luz do dia. Ela é instável, perigosa e muito poderosa. É uma terrorista? Uma alienígena? Outra bruxa descontrolada tentando sequestrar uma cidade inteira? — Serena sentiu um arrepio percorrendo a espinha. — Em menos de vinte minutos seu rostinho vai estar estampado em todos os noticiários do mundo. Vão caçá-la até o inferno e vão enfiá-la em daquelas celas minúsculas e sufocantes do governo. Tem certeza de que quer isso?

Serena estremeceu.

— Você era da Hidra. Matou Erika e mais uma penca de gente. Quando as pessoas descobrirem...

Ele deu uma risada horrível.

— É mesmo? E em quem acha que as pessoas vão acreditar? Na aberração inumana ou em seu senador?

Serena apertou a barra do elevador, as pernas vacilando. A lança de gelo tremulou.

— Onde eu estava? Ah, certo. Infiltrada no museu, seu objetivo era o escudo de Steve Rogers — cada palavra espirrava feito veneno de sua boca. — Mas, em um deslize, Erika Jones descobriu o plano terrível da funcionária. — Uma pausa dramática e: — sua vida foi o preço.

— De onde tirou isso? — Serena ergueu o outro braço, reforçando a lança que se mantinha a poucos centímetros da jugular dele. — De uma história em quadrinhos barata? Lamento dizer, mas é um roteiro clichê. Não vai colar.

— As pessoas não se importam com a verdade, devotchka — disse o senador, displicente — se a história for boa, vão comprá-la. Tenho os meios para garantir que isso aconteça — e como se quisesse desafiá-la, Orlov inclinou o pescoço na direção da lança, ao ponto de um filete de sangue escorrer.

As lanças voltaram ao estado líquido e se espalharam pelo elevador em uma gigantesca poça de água. O senador caiu no chão, arfando.

— Você é mesmo louco!

Orlov recuperou a arma, se levantou e ajeitou o terno de alfaiataria.

— Assim você me magoa — murmurou ele, tocando em seu queixo. — Vamos, não tem por que acabar desse jeito.

Silêncio. Serena não se atreveu a dizer nada.

Ele continuou falando:

— Você não precisa ser a vilã. Se cooperar comigo, posso garantir que seja a pessoa que impediu que o escudo do Capitão América caísse nas mãos de nossos inimigos. E, se for uma boa menina, posso até permitir que volte a brincar de atleta nas horas vagas.

— E vender minha alma ao diabo? — ela rosnou e deu um tapa na mão dele — não, obrigada.

— Há sempre outras formas de dissuadi-la.

Serena deu um olhar altivo, como se o desafiasse a avançar contra ela.

— Sua amiga, por exemplo — disse ele, apertando o botão do elevador, que voltou a se mover. Para baixo. Ele continuou falando: — a que te convenceu a entrar aqui, em primeiro lugar? O que as pessoas pensariam ao saber que se envolveu com a inimiga número um da América?

Seu coração disparou. Não. Íris não.

— Íris não tem nada a ver com isso — ela tentou soar firme. — Vá em frente, me torne uma fugitiva. Ela não sabe de nada. Júri algum a condenaria por ter um dedo podre para as amizades.

— E o soldado? — ele murmurou lentamente, como se sorvesse a expressão consternada que se formou na cara dela. — É inocente também?

A água ao seu redor se agitou outra vez. Cuidado, parecia sussurrar ao senador.

— O que quer dizer?

— Acha mesmo que o Soldado Invernal, um criminoso em liberdade condicional, sairia impune por se aliar a uma terrorista?

— Ele não é um criminoso.

— Depende do ponto de vista.

— Para o inferno com a semiótica — ela latiu. — Deixe-o fora disso. Ele não sabe de nada sobre mim. Seria perda de tempo tentar acusá-lo por algo que não fez.

— Como disse antes, estou de olho em você há muito tempo. Sei tudo sobre sua associação com aquele Vingador. E me impressiona que sejam tão próximos — cuspiu, torcendo os lábios — e ele não tenha dito nada sobre suas aventuras noturnas.

— O quê? — fingiu surpresa, apenas para saber o que Orlov diria.

— Você não sabe mesmo? — o senador riu — semanas atrás, o Soldado Invernal invadiu um laboratório nas docas. Matou Vronsky e seus assistentes. É o que aquele homem vem fazendo desde o momento em que foi solto: se vingando de todos que cruzaram seu caminho.

O chão do elevador oscilou. Os joelhos de Serena enfim cederam.

— Bucky nunca faria isso — disse mais para si mesma do que para Orlov.

Bucky não é um assassino.

Bucky não é um assassino.

Bucky não é um assassino.

— Mas ele fez — disse o senador, vitorioso. — Tenho imagens que o mostram invadindo o perímetro na noite da explosão.

E, como para provar seu ponto, o senador esticou seu celular, mostrando uma filmagem em baixa qualidade de Bucky circulando pelas docas. Primeiro, o sargento desaparecendo em um beco e então depois de algumas horas de imagens aceleradas, ele retornando. Cambaleando e coberto de fuligem, enquanto a explosão se espalhava, exatamente como naquela noite.

Ela sentiu o estômago revirar.

— Isso não prova nada.

— Na verdade, prova — ele contrapôs, guardando o celular. — Invasão de propriedade privada por si só é uma violação grave do acordo de liberdade condicional, mas o histórico do Soldado Invernal o precede. Quem em sã consciência acreditaria que tudo isso não passa de coincidência?

— Não.

Um mal-entendido. Serena tinha certeza de que tudo aquilo não passava de um mal-entendido.

— Veja as evidências — o senador continuou falando, entediado. — Ele circulou a região por dias... estava no lugar certo, na hora certa... saiu bem na hora da explosão...

— Cale a boca.

Ele sorriu.

— Pode negar para mim, mas no fundo você sabe que estou falando a verdade.

— Não.

Orlov a olhou como se saboreasse a expressão de puro ódio no rosto dela e deu um passo para frente.

— Acreditou mesmo que alguém como o Soldado Invernal poderia se redimir?— Ele tocou o rosto dela como quem consola uma criança. — Não se iluda: uma vez assassino, sempre assassino, devotchka. Mas, se quer mesmo proteger alguém como ele...

Serena virou o rosto.

— O que pretende fazer?

— Uma ligação — o senador ciciou. — Uma ligação e posso fazer com que ele vá para a prisão federal antes do café da manhã. A escolha é toda sua.

O cérebro girava e girava.

Talvez, pensou, se saísse dali naquele exato instante, poderia encontrar Bucky antes que a merda fosse jogada no ventilador.

Ele tinha amigos, não tinha? Havia Sam Wilson e os outros Vingadores. Sabiam que o sargento era inocente e brigariam por ele. Tudo que precisaria fazer era alertá-lo e implorar para que mantivesse Íris e Amanda a salvo da fúria do senador.

Mas, uma vozinha diabólica soprou em seus ouvidos, será que Bucky Barnes era mesmo tão inocente assim?

A história do senador batia perfeitamente com o que tinha descoberto na noite passada. E se... Bucky fosse mesmo um assassino? E se ele tivesse matado Vronsky e todas aquelas pessoas?

Não.

Bucky. Não. É. Um. Assassino.

Ela não acreditava nem por um segundo que o sargento fosse um monstro. Havia conhecido monstros de verdade, sabia como agiam. Bucky não era daquele jeito.

Então, porque... por que o nome dela estava naquele caderno?

— Seu tempo acabou — disse Orlov, apontando a arma na direção dela outra vez. — O que vai ser, devotchka?

Merda. Bucky tinha sofrido tanto... Sete décadas. Ele havia passado todo aquele tempo vivendo um inferno graças a Hidra e, se Serena não tomasse uma decisão logo, a vida dele viraria de ponta cabeça de novo. Por culpa dela.Mais um efeito colateral.

Assassino ou não, Serena não poderia aceitar aquilo.

A porta do elevador se abriu. Estavam em algum andar desconhecido. Do lado de fora, viu alguns homens de terno fortemente armados. Nada daquilo a intimidou, no entanto.

Apesar de ofegante e tremula, talvez fosse capaz de dar conta deles; talvez pudesse atingi-los com suas lanças; talvez fosse capaz de deter o senador ali mesmo e ele sequer teria tempo de reação.

Mas..., mas... isso colocaria as pessoas que amava em perigo e gente demais havia sofrido por causa dela.

Qual o seu propósito?

Serena então pensou em Bucky e no que ele faria se estivesse em seu lugar. Será que ele faria aquilo? Arriscaria a vida das pessoas que amava? Mataria o senador a sangue frio apenas para livrar a própria pele? Era isso o que ele era de verdade?

Qual o seu propósito?

Ela respirou fundo. Sabia o que tinha de ser feito.

— Irei com você... — disse ela olhando altivamente para aqueles homens que apontavam armas em sua direção e depois para o Senador Orlov, como se dissesse "não tenho medo de nenhum de vocês." — Irei com você, desde que os deixe em paz. — Bucky principalmente, não precisou completar.

Desde o começo Serena sabia que era arriscado — para ela e para as pessoas ao seu redor — se expor. Expor seus poderes e não se arrependia nem um pouco do que tinha feito. Assim como não se arrependia do que estava prestes a fazer.

Esticou os lábios. Era um sorriso amargo, mas estava em paz.

Pela primeira vez um muito tempo, sentia como se tivesse feito a coisa certa; pela primeira vez em muito tempo — provavelmente em toda sua vida — Serena não estava fugindo.

— Tem minha palavra — disse Orlov com um sorriso sádico, enquanto fazia um gesto para os guardas dele avançarem sobre ela.

Ela sustentou o olhar, o resto do corpo completamente imóvel.

Não moveu nem um músculo enquanto os homens de Orlov a erguiam como se não pesasse nada; enquanto a amarraram como se fosse um animal perigoso; também não fez nada quando um colar enorme e pesado foi colocado sobre seu pescoço.

O mundo escureceu em seguida.

Notas finais
Sei que foram muitas (muitas mesmo) revelações em um único capítulo, por isso eu realmente preciso saber: o que vocês acharam? Ficou muito pesado ou vocês gostam de coisas com essa pegada? Eu amo os feedbacks de vocês e sempre me ajudam demais. Por hoje é isso, beijão e até mais.