Legacy | Bucky Barnes ︎
43 XLIII
— O QUE TEMOS ATÉ AGORA? — Bucky perguntou enquanto massageava as têmporas.
Tinha sido uma longa e arrastada madrugada. Passara a noite com Sam esmiuçando a base de arquivos de redwing, mas nada do que haviam encontrado até então parecia útil.
— Não muito, na verdade — Sam, que alternava entre o dispositivo que jazia em seu pulso e o laptop, admitiu — pedi à redwing para que vasculhasse todos os registros de Erika Jones, mas não encontrei nada que já não soubéssemos.
Descorçoado, o sargento suspirou. De algum lugar, Alpine surgiu, correndo pelas pernas dele, pedindo por carinho.
— O que significa que não temos porra nenhuma — resmungou, acariciando as orelhas da gata. Era o novo status quo deles, ao que parecia.
— Eu não diria isso — contrapôs o Falcão. — Enquanto estava no museu, pedi a redwing para que acessasse a rede interna e os computadores da sala de Erika.
— E?
— O conjunto de segurança do museu se baseia em sistemas complexos de firewalls. Levou um tempinho até que IA deredwing conseguisse aprender a contornar todas as barreiras e acessar o computador de Erika. Além disso...
Bucky apertou a ponte do nariz.
— Fale minha língua.
— Para encurtar a história — disse Sam, revirando os olhos — descobri que vários arquivos desse computador foram excluídos no dia do assalto. Suspeito, não acha?
O sargento ergueu o corpo.
— Que tipo de arquivos?
Sam não respondeu de cara. Em vez disso, continuou apertando botões da pulseira, o drone pairando e apitando no meio da sala.
— Só um minuto, redwing está terminando de recuperá-los, bem... — ele fez uma pausa, olhando para a pulseira eletrônica que jazia em seu braço esquerdo — agora.
Feito isso, Sam conectou o laptop que estava apoiado em seu colo ao sistema de imagens do drone. Bom, ao menos foi o que Bucky deduziu que ele havia feito, já que a tela parecia espelhar a área de trabalho de um computador cujo papel de parede era uma fotografia em alta definição da fachada do museu.
— O que exatamente estamos buscando, Sam? — disse ele enquanto se aproximava da tela do laptop.
O sargento estava cético quanto a possibilidade de encontrar uma ponte entre a agente IV e Erika Jones em seu computador de trabalho. Francamente, o que Sam esperava encontrar, um PDF com os documentos da agente IV? Trocas de e-mails? Um arquivo identidade_agenteIV.exe na área de trabalho?
Besteira. Era tudo besteira. Estavam andando em círculos, quando o que deveriam estar fazendo de verdade era ir direto à fonte. Erika Jones.
Onde quer que estivesse.
— Não tenho certeza — Sam admitiu. A tela piscava várias imagens em uma velocidade humanamente impossível de se acompanhar. — A maior parte dos dados apagados são inúteis. Datas de despachos, orçamentos, e-mails, pautas de reuniões e... espera. Volte, redwing.
Bucky apertou os olhos. Era uma pasta com vários vídeos do sistema de câmeras de segurança do museu.
— Por que os arquivos da segurança interna estavam com ela? Isso não é trabalho da equipe de vigilância?
Sam não respondeu de imediato. Apenas deu um comando para que redwing encontrasse os arquivos das câmeras de segurança que estavam armazenados no sistema interno do museu. Então, colocou as duas telas lado a lado e pausou o vídeo.
— Porque — Sam respondeu depois de um tempo. — Essas imagens não são as mesmas. Olhe.
Bucky apertou os olhos, mas não viu nada demais. Ambas as câmeras ficavam entre o saguão e o corredor de entrada, mostrando parte da fonte. Sabia disso porque tinha se esgueirado por entre elas naquela noite.
— Não entendo onde quer chegar.
— Olhe de novo, com mais atenção — Sam pediu.
A imagem se moveu.
De novo, o vídeo não mostrava nada demais. As luzes de led estavam desligadas e a única iluminação naquele saguão vinha da lua, através do teto de vidro. Bucky chegou mais perto. Salvo a sombra da fonte no chão, nada ali se movia. O que diabos ele deveria estar vendo?
— As sombras — o Falcão revelou, apontando com o dedo — não deveriam estar daquele jeito.
A imagem voltou. Com o passar das horas, a sombra da fonte se deslocava mas, em determinado ponto, a luz recuava e o processo se reiniciava. Era uma mudança sutil, mas que se estendia noite afora. Merda.
Como ninguém tinha notado aquilo?
— É um looping — Sam explicou. — Alguém trocou os registros dessa câmera e ninguém percebeu.
— Erika — não era uma pergunta.
— E não foi a única — completou Sam. — Pelo que estou vendo, outras cinco câmeras foram adulteradas no mesmo espaço de tempo. O período do assalto.
Bucky sustentou o olhar cáustico na tela central.
— E por que ela faria uma coisa dessas?
Sam não respondeu. Em vez disso, clicou na pasta e abriu a gravação — a original. Nela, a data da noite do assalto no museu aparecia carimbada logo abaixo do contador de horas.
A filmagem começava logo cedo, às seis da manhã, com a chegada da equipe de limpeza e se estendia por uma hora de passagens acereladas de pessoas encerando o chão.
— Nada demais até então — Sam comentou — acelere a imagem, redwing.
A filmagem ficou mais rápida. Dez. Onze. Meio-dia. Pessoas entravam e saiam das lentes em questão de segundos. Duas. Três. Quatro da tarde. Paravam na fonte; tiravam fotos; sentavam-se na beirada; esperavam por outras pessoas. Nada de excepcional. Cinco horas. O museu fechou. Seis. Seis e meia. Seis e quarenta e cinco. A imagem escureceu. Os contadores de horas se moviam desenfreadamente, mas não acontecia nada na imagem. Sete. Oito. Nove. Nove e meia...
— Pare — chiou Bucky. — Mais devagar a partir deste ponto.
A IA do drone obedeceu. Naquele momento, Bucky se deu conta de que Sam tinha razão. Era outra gravação.
E, naquela versão, o vigilante surgia caminhando em passos letárgicos pelo saguão, a lanterna iluminando o caminho demarcado a sua frente. O homem seguiu de fora a fora pelo saguão, como se estivesse fazendo a patrulha de rotina, até que alguma coisa o fez cravar os pés no chão. Ele então se virou e disparou na direção oposta, rumo ao arco de entrada do museu.
— Essa coisa tem áudio?
Sam fez que não com a cabeça.
Bucky voltou a encarar o laptop. O vídeo acelerou mais um pouco e outra pessoa entrou na área de alcance da câmera. Serena.
O sargento sentiu o corpo retesar.
Ela corria em direção a fonte, esbaforida. Logo atrás surgiu o mercenário, que a encurralou na fonte, um maldito sorriso estampado no rosto. O cretino devia ser pelo menos duas vezes maior que ela.
— Redwing — chiou Sam — aproxime e melhore a imagem.
As lentes da câmera não alcançavam todo o saguão, mas era possível notar que Serena estava de costas para o homem, arfando. Suas unhas arranhavam a borda da fonte. Então o mercenário disse alguma coisa que a fez se virar na direção dele. Mas, quando Serena ergueu o rosto...
— Ela está... sorrindo? — Sam comentou, apertando os olhos.
Bucky abriu a boca, mas não disse nada.
Então, a água da fonte jorrou para cima como um maldito gêiser. Sam soltou um palavrão. O vídeo continuou rodando.
Água fluiu pela fonte e, em questão de segundos, começou a transbordar para o piso de mármore. Fumaça densa tomou conta do salão. Um instante depois, a água verteu ao redor do mercenário como se tivesse vida própria e se moldou de forma semelhante a cordas. O homem fez uma cara de espanto. As cordas serpentearam pelas pernas dele, prendendo-o no lugar.
Bucky exasperou.
Serena, por sua vez, se mantinha no lugar, sisuda. Uma de suas mãos estava erguida em riste, os dedos se movendo lentamente. As pontas das unhas começaram a brilhar em azul-índigo, assim como os olhos. Assustado, homem se debateu, mas àquela altura, as cordas de água o prendiam até a cintura, estava completamente indefeso. Serena fez outro gesto com os dedos que criou uma pilastra de gelo puro ao redor dele, hasteando o corpo robusto.
Puta merda, aquele homem deveria ter pelo menos cem quilos, pensou o sargento. E Serena o erguera a cinco metros do chão como se não fosse nada.
Os olhos dela fervilhavam de fúria; ela rugiu alguma coisa para ele, que se encolheu e se debateu mais uma vez. As cordas começaram a apertar. Sufocar.
Houve uma pausa.
Por alguns momentos, Serena ficou ali encarando o homem, a mão ainda erguida. Ele foi enfraquecendo... enfraquecendo... enfraquecendo... até que o rosto pendeu para frente. Então, com um simples gesto de dedos, ela fez com que o gelo se estilhaçasse pelo salão.
Quando o corpo do homem estatelou no chão, a cabeça bateu contra o mármore. Bucky entrou no salão poucos minutos depois.
Sam, com o rosto pálido, pausou o vídeo e se virou na direção do sargento.
— Você estava lá?
— Quando cheguei, o sujeito já estava no chão — Bucky explicou. — Ela disse que tinha escorregado.
Ele não tinha questionado na hora; sequer suspeitara que havia algo de errado, mas... outros eventos suspeitos envolvendo água e Serena arranharam a superfície de seu cérebro e... Deus, como pode ter sido tão cego?
— Então — disse Sam, trazendo-o de volta para a conversa — sua vizinha inumana é a Katara?
— Serena — Bucky corrigiu, apertando os olhos — o nome dela é Serena.
Sam ergueu um lábio para cima.
— Não, Katara é de... arg, deixa para lá. O que importa é que Erika Jones sabia sobre o conteúdo dos vídeos. Sabia o que sua vizinha era e, deliberadamente, alterou todos os registros antes da chegada do GRC. Por quê?
Bucky apertou a ponte do nariz.
— Se esquivar de escândalos? — sugeriu.
Erika Jones parecia odiar tudo relacionado a aprimorados e super-humanos e tinha conseguido a façanha de abafar o caso. Fazia sentido que quisesse impedir a todo custo que a informação vazasse, afinal, a mídia cairia matando em cima do museu caso viesse à tona a informação de que uma funcionária aprimorada havia impedido um assalto por conta própria, evidenciando as falhas da segurança interna.
— E correr o risco de sofrer uma penca de processos por obstrução de justiça? Não, não faz sentido — contrapôs o Falcão.
Houve uma pausa. Sam olhou as imagens mais uma vez.
— Não faz sentido — murmurou. Ele ergueu uma sobrancelha. — A menos que...
— O quê?
Sam voltou a imagem, dividindo a tela com outras câmeras de segurança do museu, igualmente alteradas por Erika. Naquela versão, os mercenários entraram pela porta da frente sem dificuldade alguma, quase como se já estivesse aberta. Não tinham a menor preocupação se seriam ou não vistos. Nada daquilo fazia sentido.
— E se aqueles homens não estivessem atrás do escudo, Bucky? — o Falcão sugeriu, encarando as imagens meticulosamente.
Bucky piscou.
— E o que mais poderia ser?
— Imagine o cenário — pediu Sam, voltando às imagens outra vez. — O escudo do Capitão América, o maior herói do mundo, será exposto em um museu. Todos estão alvoroçados, é um item simbólico para o país e muito, muito valioso.
Ele congelou a cena, um dos homens atravessando a exposição do Capitão América. Ele nem sequer virou o rosto quando passou pelo escudo, a única coisa iluminada no saguão inteiro.
Sam continuou falando:
— Logo, caso o museu sofresse uma tentativa de assalto nesse meio-tempo, a comoção seria gigantesca. O governo entraria em pânico e assumiria que o assalto se trata de um ataque orquestrado. O GRC, por sua vez, agiria imediatamente na contenção de danos. Parece o cenário perfeito para criar uma distração, não acha?
— Uma cortina de fumaça — Bucky concluiu. Fazia sentido. — Mas uma cortina de fumaça para o quê?
Sam apontou para a tela e o vídeo voltou a tocar.
O contador indicava nove e meia. Os homens se dividiram, circulando pela área dos funcionários, onde não havia nada que se comparasse ao valor dos artigos expostos duas salas atrás. Estavam mesmo procurando por outra coisa.
— Não faço ideia. — Sam admitiu.
Dez horas. Serena terminara de organizar os painéis e caminhava pelo corredor em direção à escadaria. Bucky apertou os olhos. O que mais poderiam estar buscando?
— Mas... quem quer que esteja por trás disso — Sam continuou falando — nunca esteve atrás do escudo. Aqueles mercenários jamais conseguiriam fraudar o sistema de segurança e sabiam disso.
Bucky suspirou. Alpine passou por ele mais uma vez e saiu balançando a cauda peluda corredor afora.
— Isso não explica o motivo de Erika Jones ter apagado os registros — o sargento pontuou, erguendo o rosto outra vez.
Sam massageou as têmporas.
— Ela era da S.H.I.E.L.D — lembrou. — E, conhecendo os antigos protocolos, não me surpreende que quisesse esconder a existência de algo como Serena.
— Erika não a protegeria — Bucky cortou.
Ex-agente da S.H.I.E.L.D ou não, aquela mulher não se importava nem um pouco com Serena. A troco de que a ajudaria?
Bucky tentou — e falhou — encontrar uma justificativa plausível para as atitudes de Erika. Pensou e pensou. Até que...
E se não fosse proteção, refletiu, mas outra coisa?
— Você está com uma cara estranha. O que foi? — Sam perguntou.
Bucky comprimiu os lábios, cérebro trabalhando a mil.
— E se Erika já soubesse sobre a origem inumana de Serena desde antes do assalto? — soltou, pensativo.
Sam alternou o olhar entre a tela e Bucky.
— Acha que Erika Jones estava de olho nela? Por quê?
Bucky não respondeu. E nem precisava — tudo se encaixava perfeitamente.
Erika era a única pessoa com acesso total dentro do museu, a única que sabia exatamente onde Serena estaria naquela noite. Mais que isso, Erika Jones ficara perturbada com a presença de Bucky — um Vingador — no museu e, convenientemente, desaparecera logo após o assalto.
Não tinha como aquilo tudo ser coincidência.
O vídeo seguiu. Os dois homens emboscaram Serena. A atenção do primeiro diretamente nela, encarando-a como se fosse um pedaço de carne.
Naquele instante, o sargento teve a confirmação de que Sam estava certo. O escudo nunca fora o alvo.
Ele voltou a olhar para o laptop. Serena, muito menor, havia sido facilmente imobilizada por um dos mercenários.
Isso não significava, no entanto, que tinha se rendido — Bucky enxergava aquilo em seu olhar afiado.
E, enquanto o desgraçado a arrastava pelo museu como se fosse uma boneca de pano, ela se desequilibrou e...
— Puta merda — Sam explodiu, quando Serena afundou o salto no pé do desgraçado sem nem titubear, disparando em seguida corredor afora, os olhos castanhos brilhando em fúria. — Ensinou isso a ela?
Bucky sorriu, orgulhoso.
— Não. — Serenanão teria sido tão misericordiosa se fosse o caso, quase emendou.
Ainda assim, por todo aquele tempo, ele havia tratado aquela coisinha como se fosse uma boneca de porcelana e ela... porra, era tão letal quanto eles.
— Eu deveria estar surpreso, mas não estou — Sam admitiu com um sorriso. — Era de se esperar que sua garota fosse casca grossa.
O sargento sentiu o peito apertar. Sua garota.
Sua garota era muito mais forte do que aparentava e ele a havia tratado feito criança.
— Ela é. — respondeu simplesmente.
— Tenho uma teoria — Sam continuou. — Acho que foi Erika quem mandou aqueles caras atrás dela.
O sargento acenou com a cabeça. Mas algo ainda o incomodava.
— Eles estavam desarmados — observou. — Quem, em sã consciência, enfrentaria um aprimorado assim?
— Pelo que vimos, a Katara aqui sabe esconder muito bem suas habilidades — Sam observou. — É possível que nenhum deles, incluindo Erika, soubesse com o que estava lidando de fato.
— Estavam esperando uma civil fraca e indefesa — Bucky completou.
— Então — o Falcão pontuou — deram de cara com um projeto de avatar.
— Eles a subestimaram — como Bucky havia feito.
O coração de Bucky palpitou. Serena realmente era capaz de fazer qualquer coisa.
— E quando tudo deu errado, Erika alterou os registros das câmeras de vigilância — Sam prosseguiu — para encobrir seus rastros. E fugiu em seguida.
Porra. Fazia muito sentido.
— Mas o que Erika poderia querer com Serena? — Sam pensou alto, voltando a gravação. — Além de uma aprimorada com o potencial dela, é claro.
Bucky tentou organizar o fluxo de seus pensamentos, girando e girando... até que uma memória piscou sob seus olhos.
Se ao menos tivéssemos mais amostras...
Arfou. A voz grotesca de Vronsky ecoou em seus ossos. Mais amostras. Mais sangue inumano. Mas..., mas...,Vronsky estava morto e a pesquisa tinha sido destruída.
Outra memória piscou em seguida.
...todo esse tempo... aquela criatura asquerosa sabia o que ela era.
As engrenagens do cérebro dele giravam e giravam.
Colega. Naquela noite, Vronsky havia mencionado um colega que estava infiltrado dentro da S.H.I.E.L.D.
...sabia o que ela era... sabia o que ela era...
Bucky pestanejou. Puta merda. De repente, uma ideia lhe ocorreu. E se Erika Jones fosse a tal colega?
— Eu preciso ir — Bucky anunciou, erguendo o corpo do sofá.
— Aonde vai? — Sam perguntou, lançando um olhar para a janela. — Mal amanheceu.
— Eu... eu preciso voltar para casa. Agora mesmo.
Rezava para que estivesse enganado, mas... tinha um péssimo pressentimento sobre tudo aquilo.
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