Legacy | Bucky Barnes ︎
57 LVII
SAM WILSON CONSIDEROU SUAS OPÇÕES.
Ele tinha uma arma apontada para o peito de Orlov. O senador tinha uma arma apontada para a cabeça dele — a única parte que o traje a prova de balas não cobria.
Quem seria mais rápido no gatilho? A dúvida pairava sobre ele.
Claro, poderia simplesmente alçar voo ou acionar as asas do traje para protegê-lo. No entanto, seria difícil — impossível, melhor dizendo — especular se o tempo de resposta do traje seria mais rápido que o de uma bala considerando a curta distância entre os dois. Além disso, diferente de Bucky ou Steve, Sam não era a porra de um super soldado, seria estupidez se arriscar com um tiro à queima-roupa a troco de nada.
—Quantos de vocês estão aqui? — O senador perguntou, dando um passo letárgico para frente, o olhar alternando entre redwing e o Falcão. O rosto do homem, em geral impecável, estava uma bagunça de inchaços e sangue, mas nada daquilo o tornava menos perigoso.
Sam, ciente disso, optou por erguer os braços de forma que a pulseira que usava para controlar redwing ficasse tão próxima quanto possível da boca. Olhou de esguelha para cima. As câmeras de segurança do entorno pareciam estar desligadas, a julgar pela posição. Uma tática do senador para não criar provas contra si mesmo, supôs.
— Responda à pergunta — insistiu o homem, a voz falhando. — Quantos Vingadores estão a caminho?
Discretamente, Sam alternou o olhar entre a pulseira e o drone. Orlov estava ferido e lento. Se o distraísse por alguns instantes... talvez conseguisse acionar o comando de voz.
— Eu não faria isso, Wilson — grunhiu o senador, ao perceber o que Sam estava prestes a fazer.
O Falcão se interrompeu. Precisaria desviar o foco do senador. Algo que o fizesse hesitar ou...
— Eu disse para guardar a porcaria do drone, não disse? — grunhiu uma voz intimidadora das sombras. — Deus, é por isso que eu trabalho sozinha.
...Ou aquilo.
Mesmo estando de costas para Isabel Valente, o Senador Orlov empalideceu.
— Quanto tempo, Nikolai — ela cantarolou, dando um passo para frente. — Faz o quê, quinze anos desde a última vez que tentou me matar? Vinte? Desculpe, o estalo deixa o fluxo do tempo confuso de vez em quando.
O homem tentou se virar, mas algo o impediu, como se batesse em uma parede invisível.
— O que foi, querido? — Isabel completou, perigosamente próxima do ouvido dele — parece até que viu um fantasma.
Sam ergueu um lábio para cima quando notou a expressão de terror tomando conta do rosto do senador, mas nada fez. Em vez disso, apenas assistiu enquanto o senador gorgolejava:
— Você... você deveria estar morta — o rosto magro e ensanguentado estava pálido feito a morte. Não era uma visão muito agradável.
— Deveria — ela concordou. Pausadamente. Perigosamente. — E, mesmo assim, aqui estamos nós.
— Eu... eu não entendo. Como?
Sam observou os dois.
Primeiro Isabel, ladeando Orlov feito uma predadora circundando a presa; como se o desafiasse a se mover. Já o senador grunhia feito um animal enjaulado, certamente tentando — em vão — se livrar das amarras dela.
A arma continuava apontada na direção de Sam, mas Orlov já não era mais uma ameaça. Não enquanto Isabel estivesse segurando-o sabe Deus como. Ele abaixou as mãos e deu um comando para redwing circular o perímetro.
— É uma longa história — disse a agente com aquele olhar afiado de raposa.
Em seguida, Isabel repetiu, com deleite, toda aquela epopeia envolvendo a Hidra, o Soldado Invernal e o próprio Orlov. Em seus lábios havia um sorriso mórbido, como sorvesse cada grunhido e expressão de ódio do senador.
Sam, por sua vez, os deixou de lado no instante em que redwing detectou a presença de duas assinaturas de calor no saguão. Devagar, avançou por entre as pilastras e soltou um palavrão quando se deu conta de que as pessoas ali eram Serena Valente e Bucky e... o que diabos tinha acontecido ali?
O amigo estava um caco: roupas rasgadas e levemente ensanguentadas, o rosto todo machucado. Por algum motivo, Bucky usava as pernas para prender o corpo pequeno da mulher enquanto segurava aqueles braços finos com a mão direita; o braço de vibranium estava jogado no canto oposto como se fosse um brinquedo esquecido.
O Falcão abriu a boca para chamar a atenção de Bucky, mas uma gargalhada chiada e perturbadora o fez estacar no lugar.
— Então, durante todos esses anos, você roubou a inumana para si mesma. — O Senador Orlov cuspiu, arrebatado. — E para quê, brincar de casinha? Confesso que esperava um pouco mais da agente quatro.
— Ela era apenas uma criança — Isabel devolveu, enervada — e vocês iam transformá-la em um monstro.
Outra risada. Fria. Nauseante.
— Olhe ao seu redor, agente — grasnou com esgar — a menina é um monstro.
Isabel cerrou os dentes, os olhos brilharam em um tom esbranquiçado. Orlov, no entanto, nem piscou. Não saberia dizer se era por arrogância ou estupidez.
— Não tem por que se preocupar — ele completou, tentando se mover outra vez — vou cuidar bem dela.
Silêncio sepulcral.
Por um longo instante, ela não fez nada. Não, Isabel apenas o encarou de cima a baixo, como se o senador fosse uma barata.
— Ah, cale a boca, Nikolai — resmungou depois de um tempo, tocando na testa dele, que enrijeceu ainda mais.
Então, os olhos de Isabel acenderam feito faróis reluzentes; o rosto se contraiu em uma careta ao passo em que os olhos de Orlov ficaram igualmente brilhantes, a boca abrindo no que parecia com um grito reprimido.
Assustador pra cacete, pensou Sam, recuando um passo.
— Não temos muito tempo, Wilson — Isabel ciciou, erguendo os olhos brilhantes — por mais impressionante que pareça, não posso ficar dentro da mente de uma pessoa por mais de trinta segundos sem derreter o cérebro do indivíduo.
— O que está fazendo com ele?
Isabel não respondeu de imediato.
Seus olhos cintilavam e os dedos pressionavam a têmpora de Orlov com tanta força que pareciam estar a um passo de atravessar a carne. O homem brilhou ainda mais.
Até que:
— Reunindo informações e... — respondeu, afastando os dedos, embora o homem continuasse congelado. — Ele... Santo Deus.
O rosto dela era puro ódio.
— O que houve? — Sam grunhiu, irritado por não entender direito o que estava acontecendo ali, o que Isabel encontrara de tão perturbador dentro da mente daquele homem.
— O soro... Orlov usou o soro.
Os olhos dela voltaram a brilhar.
— Que soro?
Mas Isabel o ignorou.
— Eu deveria... eu deveria matá-lo.
— Isabel? Do que você está falando?
Ela então fechou os olhos e respirou fundo.
Por um momento, ficou daquele jeito. Em completo e absoluto silêncio. Uma aura assustadora os envolvia, como se uma tempestade pairasse dentro daquele lugar. Ela respirou fundo outra vez. E outra.
Quando abriu os olhos, estavam normais. O brilho completamente extinto.
— Temos que ir — sussurrou, a mão repousando sobre um dos bolsos — minha neta precisa de mim. Agora.
Sam alternou o olhar entre Orlov e a silhueta do amigo no canto oposto.
— Bucky está segurando as pontas — disse, o olhar estacado no senador — é melhor imobilizar o senador e acionar o FBI antes que tente fugir do flagrante.
— Não — rugiu Isabel, recuando um passo. As mãos voltaram ao bolso, como se quisesse se certificar de que havia alguma coisa ali dentro. — Se não fizermos nada agora mesmo, Serena vai matá-lo.
Sam tentou protestar, mas Isabel já tinha soltado Orlov e, merda, era como se tivesse ligado um interruptor. O senador atacou na hora.
Por pura memória muscular, o homem puxou o gatilho, ainda apontando para o alvo original. A bala ricocheteou na pilastra e o som ecoou por todo o salão.
O Falcão soltou um palavrão.
— Desculpa — disse Isabel, enquanto fazia um gesto as mãos. Concomitantemente, Orlov lançou a pistola para o lado oposto, imitando-a — você tem razão. Talvez seja melhor amarrá-lo antes.
Dito isso, o homem caiu no chão, como se fosse uma boneca de pano.
Sam lançou um olhar de puro escárnio para a agente, mas puxou uma corda que estava na mochila, já andando em direção ao corpo estirado do senador quando ouviu um estrondo.
O saguão todo estremeceu em seguida.
✧❄✧
A consciência de Serena oscilava.
Tudo que conseguia enxergar eram os olhos azuis e determinados de Bucky enquanto o corpo grande a assomava, a respiração pesada. Estava cansado e ferido e... não poderia segurá-la para sempre, percebeu.
Serena sentia as ordens de Orlov ecoando em sua mente, os comandos queimando nas veias, o corpo traindo-a. Se o sargento se descuidasse por um segundo sequer...
Não conseguia nem pensar naquilo.
— Bucky, por favor — ela implorou outra vez.
Por alguns instantes, Bucky ficou encarando-a com aquela mistura de doçura e afinco que só ele conseguia conforme se certificava de que estava imobilizando suas mãos do jeito certo. Serena, por sua vez, fazia um esforço descomunal para ficar quieta.
Mas por quanto tempo aquilo duraria? Quanto tempo até que perdesse o controle de si mesma?
— Esqueça, Serena — ele grunhiu, a voz afetada — não vou fazer isso.
As veias do pescoço estavam saltadas, como se mil coisas passassem dentro daquela cabeça dura. Então ela viu, os machucados e o sangue seco. Bucky estava todo machucado. Por culpa dela.
Os lábios tremeram. Serena o mataria se tivesse oportunidade. Mataria.
Não, não podia permitir. Não iria permitir.
— É o único jeito — insistiu. Cada palavra tinha gosto de sangue.
A visão anuviava e clareava conforme puxava ar até os pulmões. Era como se houvesse uma mão invisível apertando seu cérebro, sufocando-a. Ela se contorceu, o corpo lutando contra aquilo. Mas era inútil.
Obedecer. Obedecer. Obedecer.
Tinha sido feita para obedecer. Aquele era seu propósito, dizia a voz odiosa de Orlov.
Talvez... ele tivesse razão.
Talvez ela fosse um monstro brincando de humana; talvez fosse melhor acabar com aquilo de uma vez.
— Uma porra que é — a voz de Bucky a alcançou.
Distante, mas ainda estava ali. Um sussurro. Uma luz fraca brilhando no meio daquele oceano de escuridão. Mas Serena estava distante demais para que conseguisse alcançá-la.
Lentamente, seu autocontrole estava sumindo. De novo.
— Não pode me segurar a noite toda, Bucky.
Ele... ele tinha que fazer aquilo de uma vez, antes que se perdesse de novo. Se alguém tivesse que morrer naquela noite, que fosse ela.
Não queria passar o resto da vida servindo aos caprichos daquele homem inescrupuloso, não queria ser uma marionete e, definitivamente, não queria machucar o homem que amava.
Mas pedir aquilo a Bucky... talvez soasse egoísta, ela sabia. Só que Serena preferia morrer a viver com o sangue do homem que amava nas mãos. Arfou. Não era justo. Nada daquilo era justo. Mas era a única saída, a única forma de protegê-lo.
Ela piscou, tentando afastar as lágrimas.
Tinha sido uma vida boa. Uma vida bem curta, tinha de admitir, mas era grata mesmo assim.
Grata por Isabel, que havia mudado seu destino, que lhe mostrara um mundo além da prisão de Vronsky e permitido que tivesse uma vida de verdade; grata a Íris, por ter sido sua melhor amiga e confidente por todos aqueles anos — apesar de todos os segredos; grata a ginástica artística, a paixão de sua vida; grata a James, o gato, por tê-la consolado em suas noites mais tristes e por ouvi-la tagarelando suas teorias de Star Wars — apesar de não ter escolha alguma quanto àquilo.
Por fim, era grata ao homem que a encarava com ternura, apesar de ela estar prestes a matá-lo.
Bucky Barnes, que a fizera recuperar a confiança em si mesma; aquele que tinha ensinado o significado da palavra heroísmo e que amava mais do que acreditava ser possível.
Sim, Serena concluiu, tinha sido uma vida boa.
Uma vida repleta de momentos bons e de amor. A vida que desejava à Bucky.
A vida que ele merecia ter.
— Posso sim — ele disse em tom de súplica.
— Bucky — ela respondeu, sentindo a respiração dele em seu rosto — vai ficar tudo bem. Eu te amo.
Serena então fechou os olhos e sentiu a testa dele encostando na sua. Ficaram daquele jeito por alguns segundos. Minutos. Uma vida. Não importava.
— Amo você também — ele sussurrou de volta.
Então ela ouviu. Um tiro.
E o mundo parou de girar.
Foi apenas um microssegundo. Os dedos de Bucky se afrouxaram e... Serena perdeu o controle outra vez.
Ela não teve tempo de processar tudo que estava acontecendo, mas aquela fração de segundo havia sido suficiente para que conseguisse mover o dedo. Um gesto mínimo, mas o bastante para estourar um dos canos que despontava acima da cabeça de Bucky e metade da laje de gesso veio ao chão, junto com os canos da parede; a coisa toda desmoronando sobre eles. Poeira cobriu o saguão.
Sua consciência esvaneceu em seguida.
Fale com o autor