Legacy | Bucky Barnes ︎
58 LVIII
APESAR DE O MUNDO ESTAR literalmente desmoronando sobre a cabeça deles, Bucky se recusava em soltar Serena, muito pelo contrário. Mesmo com todo aquele caos, usou o próprio corpo como escudo contra os escombros de gesso e canos pesados que vieram abaixo, impedindo que ela se ferisse. Tossiu. Poeira cobria boa parte do saguão e havia algo viscoso escorrendo de sua têmpora. Poderia ser sangue, água ou lama... não importava, a bem da verdade.
— Você está bem? — ele quis saber.
Serena não respondeu.
O sargento sentiu uma fisgada na coluna, os escombros de metal forçando-o para baixo. Não ousou mover nem um músculo, no entanto. Nem queria imaginar no aconteceria, caso a soltasse.
— Serena? — insistiu.
Nada. O peito subia e descia e conseguia ouvir o coração batendo em um ritmo normal, mas ela continuava imóvel. Era impossível dizer se estava ou não consciente.
Ao longe, ouvia lâmpadas crepitando, faíscas de luzes do saguão estourando. Soltou um palavrão. Apesar de achar difícil que o desmoronamento dos canos tivesse comprometido seriamente a estrutura do prédio, não poderia descartar a possibilidade de um incêndio elétrico.
Aquilo foi o suficiente para fazer com que Bucky se distraísse por um instante. Uma fração de segundo apenas. Mas o bastante para que Serena abrisse os olhos. Ele prendeu a respiração.
— Pode me ouvir? — sussurrou.
Por três batidas de seu coração ela ficou parada encarando-o, o olhar vazio e azul outra vez.
Inspirou. Expirou. Inspirou.
Bucky não foi capaz de antecipar o movimento seguinte: uma estaca de gelo atravessando a carne da mão direita, forte o bastante para que o afastasse. Para que se livrasse dele. Porra.
Também não conseguiu se preparar para o golpe que seguiu, um jato de água que o alçou do chão, afastando os escombros, lançando-o para cima. Depois para baixo.
O corpo se estatelou no chão em um baque que retumbou pelo saguão.
Os ouvidos zuniram. A visão tremulou e talvez tivesse ficado inconsciente por alguns segundos. Ainda assim, não precisou erguer o rosto para saber que Serena o perscrutava. Que preparava o golpe seguinte. Arfou. Apesar da tontura e da dor, se postou de pé. E estava certo, percebeu.
Ele entendeu então, o plano dela.
As pernas fraquejaram, o corpo fraquejou, quando a água do chão envolveu o corpo, prendendo e forçando-o para baixo. As costas protestaram. Mais um pouco. Precisava aguentar mais um pouco.
Olhando para cima, Bucky a viu. Serena, com uma lança de gelo na mão e a postura de uma amazona vindo na direção dele. Estava agindo rápido. Sem misericórdia.
Mesmo com as amarras, Bucky abriu caminho por uma pilha de escombros tentando ficar de pé, embora meio curvado. Sangue enlameado escorria do rosto enquanto tentava desesperadamente traçar um novo plano, pensar em uma forma de acabar com aquela loucura, mas...
Estava sem ideias. Não havia nada a ser feito.
Serena se aproximava rapidamente, a lança se alongando e afiando conforme chegava mais perto, mirando direto no coração.
Bucky se preparou para o golpe. Dez metros até que o alcançasse.
Sete. Ele tomou fôlego.
Três metros. Dois.
O corpo estava completamente travado.
Fim da linha.
Fechou os olhos e esperou pela dor. Mas... não sentiu nada.
Em vez disso, cheiro ocre de sangue atingiu suas narinas ao passo em que uma voz suave cantou em sua mente.
Como vai, James?
Confuso, Bucky abriu os olhos. E a viu. Isabel Valente.
✧❄✧
Durante os momentos em que o soro tomava o controle de seu corpo, Serena tinha a impressão de ver o mundo através de lentes de uma câmera desfocada. Nada fazia sentido. Sons eram ruídos desconexos, não havia cheiros e as imagens mal passavam de borrões desbotados.
Ainda assim, no instante em que sentiu sua lança de gelo atravessando a carne e os tendões, soube que tinha acabado de ferir o homem que amava.
Algo dentro dela se partiu. Era um monstro.
Serena, disse uma voz. Uma voz que não pertencia a Bucky.
Piscou. Aquela voz... não. Só podia ser um delírio.
Serena, sou eu, a voz prosseguiu.
Os lábios tremeram. Não era delírio algum. Aquela voz realmente estava ali, ressoando em sua mente. E a pessoa parada em sua frente, a pessoa que acabara de empalar... não era o sargento.
Sou eu, querida, a voz disse, tocando a lança com ternura, sou eu.
Serena resfolegou. A visão começou a clarear, mas ela reconheceria aquela voz de qualquer lugar. Sabia a sensação de tê-la em sua mente, ondulando.
— Vó? — as mãos seguravam a lança que atravessava o ombro de Isabel Valente com tanta força que parecia estar colada a própria pele.
A lente caiu, revelando o mundo ao seu redor. Cheiros. Sons. Imagens. Tudo de uma vez. O rosto de Isabel Valente foi tomando forma apenas para que se desse conta de que tinha atravessado uma lança de gelo no ombro da avó. Que a tinha ferido.
E, mais importante, que estava viva.
Sangue começou a escorrer da lança até as mãos de Serena. Ela tentou se soltar. Em vão. Arfou.
Isabel estava viva. E quase a empalara...
Isabel estava viva. E quase a empalara...
Isabel estava viva. E quase a empalara...
— Está tudo bem, meu amor — Isabel garantiu, os olhos brilhando — respire.
Serena obedeceu.
Nada aconteceu, contudo. O corpo estava completamente travado.
— Você precisa se acalmar — insistiu a avó, enquanto um calor preenchia o corpo — siga minha voz. Respire.
Lágrimas escorreram pelo rosto. Era real. Era Isabel ali. Viva.
Serena fechou os olhos. Arfou. A avó continuava sussurrando palavras tranquilizadoras enquanto sentia a tensão ao redor dos dedos diminuir.
Era como se fosse uma criança outra vez. Tinha memórias muito claras da avó ensinando-a a controlar as emoções e entender a extensão dos próprios poderes, exatamente como fazia naquele momento. Algo no peito se aqueceu e, gradativamente, o gelo foi derretendo. Não demorou mais que alguns segundos até que a lança fosse reduzida a uma poça d'água no chão.
Atrás delas, Bucky erguia o corpo, igualmente livre; ao longe, Sam Wilson se aproximava, carregando o braço de vibranium do sargento. Ignorou os dois, no entanto.
O corpo ainda se contorcia, ainda sentia a voz de Orlov martelando no cérebro. Mas já não era mais tão insuportável quanto antes, como se a mão que a sufocava tivesse afrouxado. Olhou para cima e encontrou os olhos de Isabel brilhando.
Era ela, logo percebeu. A avó estava, de algum jeito, brigando contra aquele soro odioso que corria em suas veias.
Só que o controle ainda estava ali. E ombro dela...
— Vou ficar bem — disse Isabel, se aproximando — nós duas ficaremos bem.
A avó então a abraçou.
Era tão bom quanto se lembrava. Quente. Aconchegante. Uma lágrima escorreu. Serena queria poder morar naquele abraço.
— Era você — sussurrou, tocando o rosto de Isabel — naquela noite, nas docas. Eu sei que era.
O rosto da avó se contraiu dolorosamente.
Isabel tinha apagado aquilo de sua mente, mas Serena de algum jeito tinha recuperado a memória quando Orlov a encurralara no elevador. Claro, no começo, achou que era apenas um delírio, um espace onírico daquele inferno, mas... estava certa. Sua avó estava viva. Viva.
Serena sentiu o corpo contraindo, mas se forçou a continuar olhando para a avó. O olhar dela transbordava dor e vergonha, embora a expressão se mantivesse neutra. Isabel não concordou nem negou a acusação.
— Por quê? — Serena prosseguiu — por quê?
A avó não respondeu.
Em vez disso, a puxou para perto, as testas encostando. Os olhos dela estavam fechados, mas Serena sentia o calor emanando daquelas mãos, sabia que usava os poderes para mantê-la imóvel. Que estava concentrada.
Então ela viu. Fragmentos de memórias piscando em sua mente, os últimos anos de Isabel passados em um milésimo de segundo. E entendeu o que ela tinha feito e o que ainda estava fazendo. Arfou outra vez.
— Não espero que entenda o que fiz ou me perdoe — Isabel disse, a voz cansada. Pesada. Uma lágrima escorria de seus olhos. — Mas saiba que amo você, Serena. Muito. Nunca duvide disso.
Serena a encarou.
Pensou em toda a vida que levaram juntas, em tudo que aquela mulher havia ensinado sobre o mundo, o que havia feito. E sorriu. Amo você, também, pensou ela, ciente de que Isabel ouvira aquilo. E a perdoo.
Isabel estava ali. Estava viva. Era tudo o que importava.
Um soluço irrompeu da garganta de sua avó. Serena ofegou. Nunca em todos aqueles anos a vira chorando.
Ainda não acabou, disse Isabel dentro de sua cabeça, precisamos pará-lo. Mas faremos isso juntas.
Serena franziu o rosto. Seu corpo... ainda não conseguia movê-lo. Então como...
— Não se preocupe — Isabel murmurou, abrindo os olhos — ainda tenho uma carta na manga.
Dito isso, a avó se concentrou. Tocou em sua testa, os dedos brilhando. Mais imagens começaram a piscar.
✧❄✧
Quando Isabel Valente se postou em sua frente, levando a lança de Serena em seu lugar, tudo o que Bucky pôde fazer foi encará-la, incrédulo. Isabel Valente. Parada e sangrando bem na sua frente. Santo Deus.
Eu assumo daqui, James, disse ela entre mentes, olhando-o de canto de olho. Obrigada... por tudo.
Bucky soltou o ar que estava prendendo.
Você, ele respondeu, todo esse tempo... por quê?
É uma longa história. Sam Wilson pode explicar tudo mais tarde. Então virou na direção de Serena, igualmente incrédula, deixando-o de lado.
E conforme as duas conversavam, Bucky notou a temperatura voltando ao normal, todo aquele gelo e neve derretendo aos poucos. Até que as correntes caíssem no chão, libertando-o.
— Bucky — gritou Sam, pairando sobre ele.
O sargento o ignorou. Sua atenção estava presa na mulher de olhos brilhantes que, de algum jeito, parecia estar ajudando Serena. Então se abraçaram. Ele ergueu um lábio para cima.
— Você está bem? — Sam prosseguiu, pousando ao seu lado.
Bucky se desligou da interação duas ao olhar para o Falcão, que o olhava de cima a baixo como se fosse um fantasma. Torceu o nariz. Não estava errado.
Respirou fundo.
Uma. Duas. Três vezes.
— Sim — Bucky sussurrou, ainda concentrado na respiração.
— Você não parece nada bem — observou em um tom contundente. — Quer dizer, sem ofensa, mas você levou uma surra e tanto.
— Como nos encontrou? — Bucky perguntou, ignorando aquilo.
— Seguimos a trilha de hidrantes estourados — o Falcão disse em tom jocoso, apontando para a rua.
É, fazia sentido, concluiu.
— Então, quer uma mão? — completou ele, estendendo o braço de vibranium.
Bucky xingou, mas pegou o metal e o encaixou de volta no tronco, acionando-o as engrenagens logo em seguida.
— Onde está Orlov? — perguntou o sargento enquanto movia os dedos. As articulações do braço ativaram e reluziram em tons de dourado.
Sam apontou para um canto do saguão. Se entreolharam e avançaram, dando o mínimo de privacidade para Serena e Isabel. Certamente as duas tinham muito para conversar.
Levou pouco mais que um quarto de segundo até que Sam e Bucky encontrassem o Senador Orlov apoiado em uma pilastra, a mão no abdome.
O sargento apertou os olhos. Nenhum dos ferimentos doía àquela altura. Se era pela adrenalina, pela raiva ou o soro de super soldado que corria nas veias, pouco importava. O braço esquerdo tinia.
— Acabou, senador — Sam declarou, redwing pairando entre eles.
Bucky encarou Orlov.
A poeira abaixara e o senador estava encurralado.
— É um tolo, soldado — o homem gorgolejou, olhando diretamente nos olhos do sargento — você e eu... poderíamos ter mudado o mundo.
Sam franziu o rosto. Bucky, por sua vez, soltou uma risada pelo nariz.
— Passo — disse com escárnio. Estava cansado daqueles jogos.
O senador não se deu por vencido.
— Outra pessoa vai assumir o lugar dele. Talvez não hoje, mas vai acontecer cedo ou tarde — o senador o encarou com aqueles olhos de cobra. — Vocês nunca conseguirão o escudo de volta.
Bucky trincou o maxilar.
— Que tentem — para sua surpresa, foi Sam quem disse aquilo — ninguém vai manchar o legado de Steve Rogers. Nós não permitiremos.
Naquele momento, Sam Wilson mantinha a postura ereta e olhar afiado no senador como se mil coisas passassem em sua cabeça. Bucky ergueu um lábio para cima. Talvez Steve não tivesse se enganado a respeito do Falcão, afinal.
Mas, como se Sam tivesse contado uma piada, o senador gargalhou.
— São estúpidos se acham que tem algum controle sobre isso. Todos vocês. Infelizmente, não poderei estar presente para vê-los falhar quando acontecer.
Bucky demorou demais para notar o movimento seguinte: Orlov recuperando a pistola e atirando para frente. O estampido da bala ecoou pelas paredes.
Foi o próprio Bucky quem tomou a arma ainda fedendo a pólvora das mãos do senador, partindo-a em dois.
— Sua mira é péssima, senador — murmurou.
O senador riu, vitorioso. Um grito irrompeu pelo saguão.
— Tem certeza, soldado?
Tanto Bucky quanto Sam viraram para trás bem a tempo de ver o corpo caindo no chão.
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