Prospect Park, pista de caminhada principal,

A cinco quadras do Edifício Cornélia, apartamento de Serena Valente

Brooklyn, NYC

2024


SERENA NÃO ERA CONHECIDA PELO BOM-SENSO.

Em geral, era conhecida por se enfiar em discussões que não lhe diziam respeito, apenas porque não suportava injustiças perto dela. Como quando intervia nas brigas acaloradas dos vizinhos do prédio sobre o uso das lixeiras ou quando se deparava com alguém sendo rude com os atendentes da Starbucks.

Também não era como se ela fosse uma pessoa completamente insana.

Em geral, sempre se preocupava em avaliar todos os cenários possíveis antes de tomar uma decisão importante. Só que como todo ser humano é falho por natureza, algumas vezes, tinha o péssimo hábito de ignorar a voz da razão e acabava agindo por impulso. Isso não poderia ser considerado como falta de racionalidade, ela tinha certeza disso. E, nas poucas vezes em que agia de maneira imprudente e se deixava ser guiada pelo calor do momento, era a decisão certa a se tomar.

Exceto, é claro, quando era a decisão errada. E então, bem, Serena se arrependia amargamente por isso.

Aquele definitivamente era o caso.

— Nem pense nisso — o homem grunhiu.

E apontou uma arma enorme e brilhante em sua direção. Serena cuspiu um palavrão. Decisão errada, sem sombra de dúvidas.

Por um instante, ela pode ouvir a voz da atendente do departamento de polícia antes de soltar o celular e levantar os braços, rezando para que ele não atirasse em seu rosto.

Merda, merda, merda.

Que decisão de merda.

Para ser justa, Serena não tinha planejado ser assaltada quando saiu de casa naquela manhã. A coisa toda descarrilhara muito rápido. Ela sequer sabia como tinha acabado em meio àquele pandemônio, tudo que queria era correr e ouvir um pouco de música antes de ir trabalhar.

Seria pedir demais?

Bem, talvez fosse, porque obviamente o casal que gritava por socorro momentos antes dela se intrometer na tentativa de assalto também não esperava por aquilo.

Deus, qual era o problema dela?

Qualquer um teria dado meia volta, chamado a polícia ou fingido que não tinha visto a cena. Serena, no entanto, não era esse tipo de pessoa. Mal ouvira os gritos e já se esgueirara por trás de um dos arbustos do parque, até que um choque de realidade a atingira, lembrando-a de que era apenas uma mulher comum de vinte e cinco anos, baixa estatura, muitos quilos abaixo do ideal e que não tinha nenhum tipo de armadura bilionária, martelo mágico ou um corpo a prova de balas e que não havia absolutamente nada que pudesse fazer, de qualquer maneira.

E o que mais poderia ter feito? Ligar para a polícia? A experiência mostrou que não dera muito certo. Chamar a porcaria dos Vingadores? Infelizmente, Serena não encontrou o contato do Homem-Aranha no google.

Bem, talvez ela não tivesse mesmo bom-senso.

Com um suspiro pesado, olhou para cima. O tempo estava fechado, choveria em breve. Ainda assim, ela sabia que já passara das sete da manhã. E, caso demorasse para sair do parque, chegaria atrasada para o trabalho. Ainda mais se considerasse que o percurso de metrô até o Museu de Arte metropolitana de Nova Iorque, onde trabalhava, levava pelo menos quarenta minutos, o que era bem ruim, visto que seu horário começava as oito em ponto e que aquele seria seu terceiro atraso no mês. E que sua supervisora odiava atrasos. Além disso...

Ora, mas que merda, pensou. Que importância o trabalho teria agora?

Ela então ouviu sons de sirenes ao fundo e suspirou outra vez. Não demoraria muito para que alguém mais qualificado que ela chegasse até o parque.

— Não se mexa— o assaltante vociferou, provavelmente chegando a mesma conclusão.

No entanto, era nítido que aquele homem estava muito mais nervoso do que ela.

— Não sei se percebeu, meu caro senhor, mas estou quieta aqui — Serena retrucou, mais sarcástica que o necessário. Ou prudente, dadas as circunstâncias.

Seu coração bateu mais forte. Se pudesse, socaria o próprio rosto. Estava discutindo com a porcaria de um assaltante armado. Discutindo, quando deveria ficar quietinha e rezar para que ele estivesse de bom humor e a deixasse ir embora sem um buraco no meio do peito.

Tinha um gato para criar, pelo amor de Deus.

— Cale a maldita boca — ele grunhiu.

Ela sentiu a língua queimando várias respostas afiadas, mas um fio de razão a lembrou daquela arma brilhante nas mãos dele. Por esse motivo, Serena respirou fundo, optando por ficar calada, a mão próxima ao peito, tentando acalmar as batidas do coração. Precisava manter a calma.

Ela quase deu um sorriso. Era impressionante, tinha de admitir. Desde que se mudara para aquele apartamento no Brooklyn, há cerca de nove meses, nunca havia sido assaltada ou passado por uma situação remotamente parecida.

O assaltante então, ao se dar conta de que estava perdendo tempo ali, pegou o celular dela que estava caído no chão, um iphone rosê recém comprado, depois de uns bons meses sem tomar os frapês superfaturados de manga com pitaia da Starbucks e economizando cada centavo encontrado no sofá, como prêmio de consolação.

Já o casal — usando o mínimo de bom-senso— tinha fugido no meio daquela confusão toda. Malditos ingratos.

Foi naquele momento que, olhando ao redor, Serena se deu conta de que estava completamente sozinha. Apesar do horário e de estar bem no meio do ProspectPark, o canto onde o assaltante a encurralara era escondido o bastante para que nenhum desavisado passasse ali por acaso e decidisse bancar o herói também.

Que decisão de merda.

— As joias — ele chiou — passe suas joias.

Serena sentiu os dedos formigarem. Algo em seu peito esquentou.

— Não — disse ela, sentindo o colar que repousava sobre a camiseta pesar. Uma ova que daria o medalhão de sua avó para aquele cretino — leve a droga do celular, a carteira e até meus sapatos, se quiser. Mas o colar fica.

— Estou sem tempo para gracinhas, moça — disse ele ao avançar em direção a ela, furioso. — Passe o maldito medalhão e, talvez, eu deixe você ir embora.

— Não vale nada para você — ela argumentou — é só uma bijuteria — uma bijuteria de grande valor emocional, não precisou completar.

O assaltante, contudo, destravou a arma. Mas ela não deixou que aquilo a intimidasse.

— Acha que estou brincando? — entoou ele.

Serena estava a um passo de se atracar contra o homem, e provavelmente se matar no processo, quando aquilo aconteceu. Um estardalhaço causado por um maldito cano de irrigação estourando retumbou pelo parque, bem nas costas dela, ensopando-a.

Ao ouvir aquele som, contudo, ela deu um sorrisinho.

Era um jato com água pressurizada o bastante para arremessar qualquer um até o outro lado do Brooklyn e jorrava a menos de três metros de distância, mas nem de longe a incomodara. O assaltante, por outro lado ficou tão assustado que soltou um grito. Não exatamente um grito, aquilo mais se parecia com um ganido de um gato. Serena sorriu ainda mais.

Mas, imediatamente, se arrependeu.

— Ora sua... — e apontou a arma para nenhum lugar em particular.

Outro jato de água retumbou no parque. Era outro cano, desta vez à esquerda de Serena. Ela sentiu o coração falhando uma batida.

Se acalme, se acalme, se acalme...

A cena seguinte se desenrolou tão rápido que ela mal teve tempo de reagir. O assaltante, enfurecido, atirou à direita dela. Serena caiu de joelhos no chão. Ela acreditava que o disparo tivesse sido acidental. Ainda assim, o buraco na árvore logo atrás dela era bastante real, tanto quanto a fúria das águas que gorgolejavam dos canos.

Serena estava a um passo de entrar em desespero. Pela água que não parava de sair dos canos. Pelo assalto. Pelo tiro. Principalmente pelo tiro. Nunca na vida ouvira um som como aquele tão de perto. Tão alto.

Ela queria correr. Gritar. Tirar a arma da mão daquele cara. Qualquer coisa útil. Mas, feito a covarde que era, estava paralisada. Seus dedos ainda formigavam. A dose de adrenalina em seu cérebro não a deixava pensar com clareza. Mesmo assim, inspirou fundo de novo e ajustou a postura, olhando para o assaltante com firmeza. Ele não precisava saber que estava completamente apavorada. Mesmo que estivesse. Completamente apavorada e à beira de um colapso nervoso. Ainda assim tinha que se acalmar e bolar um plano.

Então, um momento depois, Serena ergueu os olhos e percebeu que o homem estava tão paralisado quanto ela. A cor tinha deixado o rosto dele, como se tivesse visto alguma coisa realmente assustadora. Sem entender o que diabos estava acontecendo, ela se virou.

E viu também.

Pela expressão assombrada do homem, ela até acreditou por um instante que fosse um batalhão de policiais armados do tamanho de geladeiras ou um daqueles vigilantes mascarados assustadores que circulavam pelos bairros de Nova Iorque batendo em assaltantes —embora Serena fosse um pouco cética quanto aos boatos que corriam sobre o demônio vermelho de Hell's Kitchen —. Só que não era vigilante algum. Era...

Não. Não. Não. Qualquer um, menos ele.

Serena engoliu um palavrão. Porque tinha de ser logo ele, dentre todas as pessoas do Brooklyn?

— Coisinha — cumprimentou o homem, como se a situação não fosse desastrosa o bastante.

Mas lá estava ele. Bucky, seu maldito vizinho.

O homem estava parado do lado de um dos canos, que ainda vertia água para cima e olhou para os dois. O assaltante engoliu em seco. Para seu crédito, Bucky era realmente grande e intimidador. De fato, uma geladeira ambulante. Não parecia prudente irritar alguém daquele tamanho.

Isso porque embora, à primeira vista Bucky não representasse ameaça ao assaltante armado, nem o moletom vermelho surrado ou aquele boné ridículo do Capitão América eram capazes de esconder seus olhos azuis elétricos, muito menos a aura de perigo que parecia emanar dele. Qualquer um com o mínimo de bom-senso ficaria intimidado e o assaltante, não era exceção.

— Sargento — ela cumprimentou, esticando os lábios de um jeito displicente.

— Pegando sol? — debochou ele.

— O que posso dizer? É verão.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Vai me explicar o que houve desta vez?

Serena não respondeu de imediato. Ao invés, olhou para o vizinho que ostentava aquele maldito olhar de superioridade. A forma como ele ressaltara o desta vez, como se ela fosse uma criança pentelha fez sua língua coçar várias respostas mordazes. Não o fez, contudo.

Para o próprio horror, precisava dele.

— Você encontrou o casal — Serena adivinhou.

— Eles me encontraram, na verdade.

Ela sussurrou um palavrão.

— Claro que encontraram.

O assaltante então, como se despertasse de um transe, agiu.

— Não se mexa — rosnou, recobrando a postura e apontando a arma para Bucky.

Isso, no entanto, não pareceu intimidá-lo. Em sua mão, havia algumas sacolas de mercado, pingando água, como se o conteúdo estivesse derretendo. Ele então torceu o nariz, encarou o cano barulhento e logo depois Serena, como quem diz: ei vai ficar tudo bem, não vamos morrer. Ou quem sabe: é estamos mortos, espero que tenha um bom plano funerário.

Ela não tinha. Mal tinha plano de saúde, a bem da verdade.

— Olha, eu tive uma noite difícil — Bucky então murmurou, com a parcimônia de um monge, como se não estivesse com uma arma apontada em sua direção — que tal se você só... abaixar a arma e deixar a moça ir embora?

Ignorando o comentário, o assaltante avançou um passo na direção do vizinho, a arma ainda em riste.

Ele suspirou.

— É claro que não — e colocou a sacola no chão — bem, eu tentei.

Serena engoliu em seco. O assaltante ia atirar outra vez. Ia atirar em seu vizinho idiota, que sequer parecia abalado com a situação toda. E por que estaria? Até onde ela sabia, Bucky acabara de voltar do serviço militar. Certamente, passara por situações piores que aquela. Mesmo assim... era burrice. Ele ia se matar. Ia matar os dois. Só que antes que Serena — ou o assaltante, para seu crédito — pudessem sequer pensar em esboçar reação, Bucky simplesmente avançou e agarrou o punho do assaltante, que imediatamente soltou a arma e gritou.

Serena piscou.

Só poderia estar sonhando.

Porque ainda que a cidade de Nova Iorque fosse um imã para catástrofes sobrenaturais e alienígenas, ela nunca esteve presente em nenhum evento do tipo. Em momento algum chegara a presenciar o Homem-Aranha, o Hulk ou o Capitão América em ação. Talvez fosse por isso, concluiu, que a cena de seu vizinho desarmando o assaltante fosse a coisa mais impressionante que tinha visto desde... bem, desde sempre. Ou idiota.

Ainda não tinha decidido.

De qualquer forma, não foi preciso de muito esforço depois daquilo para que o assaltante se rendesse. Sem a arma e muito menor em comparação, ele rapidamente havia sido imobilizado de forma improvisada pelo vizinho até a chegada dos policiais.

Feito isso, Serena finalmente se permitiu respirar direito outra vez.

— Você está bem? — Bucky perguntou, ao pegar as sacolas de novo.

Serena, contudo, torceu o nariz. A cabeça latejava e tudo que queria era dar um fora dali de uma vez, mas...

— Qual o seu problema?— ralhou — podia ter matado nós dois.

O vizinho riu. Riu. O demônio.

— Por nada, coisinha.

— Eu tinha tudo sob controle até você chegar — mentira. Uma mentira deslavada. Serena não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Ainda não fazia.

E, como se soubesse disso, ele ergueu uma sobrancelha.

— Não foi o que pareceu do meu ponto de vista.

Ela mordeu a língua. Quase que literalmente. Detestava admitir, mas ele chegara na hora certa. Se tivesse ficado sozinha com aquele assaltante por mais um segundo sequer... não, não queria pensar muito naquilo.

— Você está bem? — ele repetiu.

O sargento tinha aquela voz grave e complacente e era muito maior do que ela. Certamente, treinava cinco horas por dia e comia uma dúzia de ovos no café da manhã, a julgar pela postura, como se nada no mundo o abalasse. O que era bem provável, especialmente se considerasse a forma como levara a situação, como se aquela fosse apenas mais uma segunda-feira normal e não tivesse feito nada demais.

Serena, por outro lado, não sabia se sorria ou se chorava. Se estava bem? Não, não estava. Estava tremendo e a um passo de botar o café da manhã para fora.

— Claro — disse ela, no entanto — estou bem, sargento.

Ele não pareceu convencido.

— Tem certeza?

Definitivamente não.

— Absoluta — respondeu com um sorriso forçado. Era impressionante a forma como Serena conseguia mentir descaradamente. Talvez devesse considerar largar tudo e começar uma nova carreira na Broadway.

Ela então se virou para o céu e lembrou-se de que a vida continuava

— Olha, eu preciso mesmo ir agora. Trabalho e tudo mais. Obrigada pela... ajuda.

— Você não me parece bem — ele contrapôs — por que não se senta um pouco?

— Não precisa.

Serena então fez um esforço para se levantar. Suas pernas estavam um pouco trêmulas, mas operantes. Ela começou a andar. Bucky a seguira, alguns passos atrás.

— Também está voltando— ela murmurou depois de um tempo — para o apartamento?

Ele acenou com a cabeça, mas não disse nem uma palavra. Ao que parecia, a relação deles não mudara em nada. Serena revirou os olhos.

E por que mudaria? Ele era sempre daquele jeito. Vago e extremamente rude. E, embora ele a tivesse acabado de salvá-la de um assalto como se fosse uma donzela em apuros, não poderia se esquecer da pessoa que estava lidando. Porque... por quê..., bem, os dois não se bicavam e, independente disso, moravam no mesmo andar, do mesmo prédio.

O mínimo era que se aturassem.

Ainda que fosse difícil para Serena.

Fazia cerca de três meses desde que o sargento havia se mudado para o Edifício Cornélia, um prédio modesto que ficava em um canto afastado nos subúrbios do Brooklyn. Não era o melhor lugar do mundo para se viver, mas o aluguel era barato para os parâmetros de Nova Iorque e os vizinhos eram pessoas boas, o que tornava o lugar tolerável. Tanto que Serena nunca tivera problemas de convivência até então.

A antiga vizinha, a senhora Hopkins, por exemplo. Serena a amava. Ela era uma mulher simpática e que religiosamente a convidava para tomar chá com biscoitos pelas tardes de domingo.

Ah, senhora Hopkins. Aquela doce senhorinha de cabelos brancos a tratava tão bem. Infelizmente, não conviveram por muito tempo, porque passados poucos meses da mudança de Serena para o Cornélia, a filha mais velha da senhora Hopkins, que igualmente sumira no estalo, decidiu que seria melhor para todo mundo se ambas voltassem para Londres. E o apartamento ficou vazio por algum tempo.

Até o fatídico dia em que o sargento aparecera.

Bucky. O nome dele era Bucky, embora Serena dificilmente o chamasse assim. E era tudo que sabia sobre ele. O nome e que pertencia a alguma patente do exército. Não porque ele tinha dito — não, ele nunca falava nada sobre si mesmo — mas por causa da dogtag militar que ele ostentava por cima das roupas e as fofocas do senhor Nakajima do quarto andar. Especialmente as fofocas do vizinho.

Desde o começo, quando chegara ao prédio, Serena tentara ser gentil com Bucky. Oferecera açúcar e disse que podia contar com ela para regar as plantas, caso precisasse. Mas o sargento não a respondera. Aliás, o cretino a deixara falando sozinha no corredor. E aquele não havia sido um incidente isolado.

Durante os últimos meses, o sargento pedante vivia testando sua paciência com aquela personalidade implicante e a falta de senso de humor. Tudo nela parecia irritá-lo. Ele reclamava das risadas; do volume da televisão; dos miados de James; a tratava como se fosse uma criança desmiolada e sempre que se encontravam por acaso no prédio ele fazia questão de deixá-la desconfortável, olhando-a de cima abaixo.

Ainda por cima tinha aquele apelido detestável...

Bucky. Eles nunca se gostaram. Desde sempre, ele a tratara com desprezo, como se fosse muito melhor do que ela. Mas Serena achava que não deveria reclamar no momento. Bem ou mal, o vizinho a tinha salvado do assalto.

Ela sorriu para ele. Esticou os lábios, na verdade.

— Onde aprendeu isso? — puxou assunto, porque... bem ela não fazia ideia do porquê.

— Isso o quê?

— Esse lance de Viúva-Negra.

Ele torceu o nariz.

— Viúva-Negra?

— Você me entendeu — Serena respondeu — estou me referindo a esses reflexos. O cara nem conseguiu piscar — ela também não, a bem da verdade.

— Sabe a resposta.

Ele apertou o passo, como se quisesse deixá-la para trás.

— No exército ensinam essas coisas aos soldados?

Serena, com suas pernas curtas, lutava para acompanhá-lo.

— Não exatamente — admitiu ele — a pergunta aqui é porque você achou que seria uma boa ideia intervir em um assalto a mão armada.

— Eu não queria intervir em nada. A ideia era chamar a polícia...

Bucky a encarou daquele jeito que só ele conseguia encarar, como se fosse capaz de ler os pensamentos de Serena. Será que ele podia? Não seria a coisa mais bizarra do mundo, a julgar pelo mundo que viviam. Ela estremeceu. Não gostaria que ninguém entrasse em sua cabeça.

— Então... você é normal? — a pergunta escapou de seus lábios antes que pudesse se conter.

Houve uma pausa. O sargento fez uma cara estranha. Então:

— Defina normal.

— Você sabe muito bem o que eu quis dizer — ela devolveu, encarando-o — eles te deram algum tipo de fermento ou elemento X, igual fizeram com o Capitão América?

— O Projeto Renascimento foi interrompido em 1943, coisinha — ele comentou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Isso não responde a minha pergunta.

Ele estava irritado. Serena não podia dizer que não havia certa satisfação naquilo.

— O exército não saí por aí distribuindo o soro de super soldado para qualquer um, se é o que está querendo saber — ele respondeu depois de um tempo, abúlico.

Eles continuaram andando, até que a tranquilidade das árvores do parque deu lugar a cacofonia de buzinas e cheiro de borracha queimada. Ah, de volta ao Brooklyn.

— Que pena — ela fingiu lamentar, mas apenas porque queria continuar testando a paciência dele — então você não é um super soldado?

Bucky então parou de andar tão repentinamente, que Serena quase bateu em suas costas.