SERIA JUSTO DIZER QUE JAMES BUCHANNAN BARNES em toda sua experiência e sabedoria de um homem de aproximadamente cento e seis anos de idade fosse calmo e centrado. Não tinha como não ser. Ele frequentava a terapia duas vezes por semana, meditava — quase sempre — e seguia rigorosamente todas as restrições impostas pela liberdade condicional.

Seria igualmente justo dizer que se Serena Valente, sua vizinha desmiolada, soubesse com quem estava lidando, estaria mais preocupada com ele do que com o que o governo injetava ou deixava de injetar nos soldados.

— Calma, sargento — disse ela, encarando-o com um olhar mordaz — é só uma piada.

Bucky não disse nada. Achou melhor assim.

— Sei o que está passando aí dentro — ela emendou, apontando para a cabeça dele.

Ele abriu a boca, mas apenas o bastante para dizer:

— Tenho minhas dúvidas quanto a isso.

— Acha que estou tirando sarro de você.

Ela estava bem longe da verdade, o que o aliviara um pouco.

— Vocês soldados não tem senso de humor ou isso é coisa sua?

— Eu tenho senso de humor — ele resmungou, de um jeito que ela entendesse que queria encerrar o assunto.

Mas ela continuou falando.

— Você é sério demais.

— Só quando estou irritado.

E ele estava muito irritado. Tinha passado a noite toda de tocaia a troco de nada nas docas, e pior, não tinha comido nada durante esse meio-tempo. Tudo o que queria era voltar para o apartamento e devorar a lasanha congelada que jazia na sacola antes do maldito encontro com Raynor, sua agente da condicional — e terapeuta.

A coisinha o encarou. E por um breve e lindo momento, Bucky pensou que não diria mais nada.

Então ela abriu a maldita boca.

— E ranzinza.

Ele piscou. Talvez tivesse entendido errado.

— O que disse?

— Você é muito ranzinza — ela repetiu — chega ser pior do que o senhor Nakajima.

Bucky quase riu. Não uma risada de verdade, mas era irônico que ela o associasse a uma pessoa idosa.

— Você não tinha de ir trabalhar, coisinha? — ele a lembrou, porque francamente, estava de saco cheio daquilo. De falar com pessoas. Olhar para pessoas. Estar perto de pessoas... como se não bastasse, lidar com Serena e sua energia infinita era mais cansativo que o normal.

A coisinha estreitou os olhos. Se não a conhecesse, diria que estava constrangida. Mas aquela era Serena Valente e ela não ficava constrangida. Ela dava sorrisos mordazes e fazia aquelas piadinhas sem graça com as pessoas e todos simplesmente caiam aos seus pés.

Nunca conhecera ninguém — exceto por, talvez, por Sam Wilson — com uma personalidade tão petulante quanto a dela. E, ainda tinha aquela... coisa. Não diria que era um charme, era mais um traço de sua personalidade tola e impulsiva que por algum motivo cativava as pessoas. Era como se cada um dos moradores do Cornélia, do maldito Brooklyn gostassem dela.

Serena era dona de um par de olhos amendoados enormes e sorriso contagiante, como se fosse a porra de uma princesa da Disney e, Santo Deus, será que ele era a única pessoa que enxergava o perigo que aquela coisinha representava a sociedade?

Se intrometer em situações perigosas as quais não poderia lidar sozinha? Não era a primeira vez. Logo na primeira semana em que Bucky se mudara para o apartamento e enquanto caminhava pela rua a noite, a viu se esgueirando sozinha até o beco onde ficava a lixeira do prédio enquanto segurava um saco que deveria ter um terço do próprio peso. Uma das vizinhas, ao que parecia, estava com tendinite e ela, com seus braços finos e pernas curtas, achou que seria uma boa ideia ajudar.

Ele até pensou em ignorar aquilo e seguir com a própria vida, mas quando percebeu que uma pessoa extremamente suspeita a espreitava, decidiu intervir.

E como a coisinha reagiu? O agradecera? Não, é claro que não. O que fez foi encará-lo com aqueles olhos enormes e disse que estava sendo paranoico. E riu, como ele fosse louco, como se ela não soubesse que o mundo era um lugar brutal. Especialmente para pessoas doces e ingênuas como aquela... coisinha.

— Bem, eu tenho — Serena respondeu, trazendo-o de volta para a conversa — mas é que...

Ela não conseguiu terminar a frase, porque um som irritante vindo do bolso dela ecoou. O celular. Graças ao bom Deus.

— Merda. Desculpe sargento, preciso mesmo atender — a coisinha resmungou.

Bucky aproveitou a deixa, acelerou o passo e a deixou para trás sem se despedir. Não tinha a menor intenção de deixar que ela pensasse que estava abrindo uma brecha para serem amigos ou qualquer merda parecida. Talvez fosse rude, ele tinha plena noção disso, mas não havia nada que pudesse fazer a respeito.

Também não era como se ele a odiasse. A bem da verdade, nem se quisesse conseguiria odiar uma pessoa como Serena Valente. Isso porque, embora a vizinha fosse extrovertida e aérea demais para o próprio bem, Bucky não a considerava, nem de longe uma pessoa odiável.

O problema era ele e o mundo detestável de onde viera.

Um mundo completamente oposto ao dela; um mundo repleto de podridão, dor e sangue. Se ficasse perto demais, era bem provável que acabasse manchando-a com sua sujeira. E Bucky não poderia permitir aquilo. Não poderia permitir que suas ações respingassem em civis que nada tinham a ver com ele ou com o Soldado Invernal.

Ele apertou a sacola e aumentou o passo, de forma que a coisinha não conseguisse alcançá-lo com facilidade. Queria ir embora de uma vez. E foi andando em direção ao quarteirão do apartamento. Mas quando virou a esquina ele ergueu os olhos e... ele viu. Sam Wilson.

O Falcão estava parado do outro lado da rua, o que, por si só era ruim, mas não era a pior parte. Quando Bucky olhou de novo, notou que o escudo de Steve estava com ele, guardado em uma bolsa de couro. A mesma bolsa de couro daquele dia amargo, meses atrás.

O sargento soltou um palavrão.

— O que quer, Sam? — disse Bucky, à guisa de cumprimento.

Sam, por sua vez, continuava andando em sua direção, com aquele olhar altivo e estúpido dele.

— Não vai me convidar para entrar conhecer o apartamento novo?

Bucky fechou a cara.

— Não me olhe desse jeito — Sam continuou, o nariz torcido — estou tentando falar com você há dias, cara. Dias. Por que não atende a porra do celular?

— Em momento algum lhe ocorreu que simplesmente não estou a fim de conversar com você?

Sam então parou e colocou o escudo no chão.

Bem. Na. Frente. Dele.

Bucky grunhiu.

— Sei que está chateado, Bucky, mas a vida continua. Steve não ia querer que ficasse desse jeito.

— Não — Bucky alertou, apontando o dedo para ele — não se atreva a vir até aqui dizer que o Steve queria ou não para mim. Você não faz ideia do que ele queria.

Sam o encarou, como se sentisse pena dele. E suspirou.

Eles não eram amigos. Sendo completamente franco, mal podiam se considerar como conhecidos. Tirando as cinco vezes que lutaram — sendo duas delas em lados opostos — o tempo que passaram fugindo do governo e o velório de Tony Stark, os dois tinham interagido pouquíssimas vezes — sendo a maior parte delas mediadas por Steve, o amigo que tinham em comum.

Mas Steve não estava mais ali.

E Bucky não fazia ideia do que dizer a Sam Wilson.

Apenas sabia que não queria que ele viesse com aquele maldito papo de terapia de veteranos dele — sua cota para uma vida toda já estava sendo preenchida por Raynor —, não era um coitado. Não precisava da pena dele ou de ninguém.

E como se soubesse disso, Sam estalou a língua.

— Não é por isso que estou aqui, Bucky.

— O que quer então?

— Podemos conversar — ele emendou — sem ser no meio da rua?

Bucky não disse nada. Apenas o encarou.

— Isso é um não?

O sargento continuou encarando. Não era uma atitude louvável, mas era o melhor que poderia oferecer no momento.

Sam revirou os olhos.

— Quase me esqueci do quão irritante você consegue ser, sabia?

— Poderia dizer a mesma coisa — Bucky devolveu — diga o que veio fazer aqui de uma vez.

Um silêncio os envolveu por um momento. Até que Sam ergueu o olhar para ele.

— Não posso fazer isso, cara.

— Seja mais específico — pediu Bucky.

Mas não era como se precisasse. O lampejo de resignação nos olhos de Sam dizia mais que mil palavras.

— O escudo — Sam explicou — não posso ficar com ele. Não posso fazer o que Steve me pediu. Sinto muito.

Bucky balançou a cabeça. Sua mão direita começou a tremer.

— Claro que pode. Steve te deu o escudo porque sabia que você é o único em condições de assumir o manto.

Sam riu.

— Acredita mesmo nisso?

Se acreditava que Sam poderia assumir o posto de Capitão América? Bucky não saberia dizer. Não conhecia Sam Wilson tão bem assim. Mas, se Steve confiara o escudo a ele era o bastante. Steve Rogers nunca havia se enganado quanto ao caráter de um homem.

— Não sou o Steve — Sam tornou — e nunca serei como ele era.

— Sei disso.

Silêncio. Nenhum dos dois se atreveu a dizer nada enquanto Bucky esquadrinhava as feições do Falcão.

— Steve também sabia — Bucky continuou — não foi por esse motivo que ele te deu o escudo.

— Não sou como vocês — insistiu Sam.

Bucky apertou os olhos.

— E que merda isso tem a ver?

— Tem tudo a ver — Sam exasperou — acha que alguém vai me aceitar no lugar do Steve? Acha que as coisas são tão fáceis?

Bucky deu um estalo com a língua.

— Estou pouco me fodendo para o que as pessoas pensam, Sam. Steve confiou em você e é o que importa para mim.

Sam deu um passo para frente. Havia um sorriso amargo nos lábios dele.

— Queria poder dizer o mesmo — ele devolveu em um tom abúlico — queria mesmo dizer que não ligo para os outros dizem. Mas não é assim que a banda toca, parceiro.

O mundo parou de girar. Bucky não acreditava no que que estava ouvindo. Como podia dizer algo do tipo? Como Sam se atrevia a fazer aquilo com... ele?

— Veio até aqui só para jogar na minha cara que vai cuspir no legado do Steve?

— Não — disse Sam.

— O que você quer de mim então? — a voz de Bucky não era mais que um sibilo. Era isso ou gritar.

Algo dentro dele se partia enquanto Sam rejeitava Steve daquele jeito. Como se o legado dele não fosse nada. Como se Steve não fosse nada. Talvez o amigo estivesse enganado, no fim das contas. Talvez Sam não fosse digno do manto. Mas, se Steve se enganara quanto a Sam Wilson...

O que isso dizia sobre Bucky?

— Você deveria ficar com o escudo — disse Sam, a voz afiada feito uma navalha — você é a melhor pessoa para assumir o manto. Melhor do que eu.

Bucky não sabia se dava risada ou se socava a cara de Sam. Os dois, quem sabe?

— Eu — ele sussurrou, a voz assustadoramente calma — acha que eu tenho condições de ser o Capitão América? — aquilo era, para dizer o mínimo, um absurdo.

A voz de Sam vacilou.

— Por que não? Você é como ele.

— Se conhecesse Steve de verdade, não diria isso — ou a Bucky, a bem da verdade — não sou nada parecido com ele.

— E se você me conhecesse, entenderia meu ponto.

Bucky balançou a cabeça.

— Qual ponto?

Sam o olhou com raiva, como se a resposta fosse óbvia. Mas não era. Não para Bucky. Ele então o encarou.

Bucky o encarou de volta.

Sam sustentou o olhar. Até que...

Uma faísca de compreensão o atingiu.

— Não é o soro que fazia de Steve Rogers o Capitão América — disse Bucky, usando o tem mais compreensível que conseguira soar — nunca foi.

Mas, como se não desse a mínima, Sam assoviou e disse:

— Uau.

O silêncio os envolveu outra vez. E Sam se virou de novo para Bucky.

— Você é inacreditável — emendou o Falcão.

Era um impasse, ao que parecia.

— Não vou ficar com o escudo — insistiu Bucky, mesmo assim — não era o desejo dele.

O coração de Sam acelerou um pouco. Bem pouco, mas Bucky notou de qualquer forma. Os sentidos de super soldado o forçavam a isso.

Sam estava irritado. Ou nervoso. Ou os dois.

Provavelmente os dois.

— Tudo bem — disse Sam, depois de um tempo — não posso obrigá-lo a nada. Mas, já que não se importa com o escudo, vou resolver isso do meu jeito.

Bucky deu um passo para frente.

Mas Sam pegou a bolsa de couro e olhou para Bucky uma última vez. Era um olhar cansado. E magoado. Aquilo mexeu um pouco com ele.

— Não vou te atormentar de novo— e se virou — tenha uma boa vida, Bucky.

— Sam, espera.

Sam então parou.

— Diga.

— O que você pretende fazer... — o sargento emendou — com o escudo?

O Sam não virou. Ao invés, respirou fundo.

E ergueu um dedo.

— Vai se foder, babaca.

E deixou Bucky sozinho.

Ele já estava acostumado, de qualquer maneira.