Legacy
5 Capítulo 5 - "I must not tell lies"
Enquanto nos dirigíamos à primeira casa, Dianne explicou que as visitas aconteceriam em forma crescente, ou seja, seguiríamos o ranking atual do Sistema Grego da Cadillac, começando com a irmandade pior classifica e terminando com a melhor. A primeira casa em que paramos com certeza chocou a todas, era um lugar bagunçado e nenhuma membra parecia estar se importando com o fato de uma visitação estar acontecendo, sem deixar de mencionar que elas nem ao menos tinham um nome, somente um simples “X” estava implantado na frente da casa.
— Meninas? Alguma coisa preparada para possíveis futuras candidatas? – Dianne tentou chamar a atenção delas. – Talvez contar um pouco da história dessa irmandade.
— A única razão de sermos uma irmandade foi por termos sido confundidas com um grupo de drogados que se reuniam por aí. – uma menina de cabelos lisos e negros, que estava jogada em um sofá, disse sem animo algum. – Realmente, foi uma grande evolução, agora podemos usar drogas cercadas por quatro paredes. – era impossível decifrar se aquilo era uma brincadeira, ou se ela estava falando sério, mas o mais divertido era observar as reações nos rostos das outras candidatas.
— É uma história emocionante, admiro seu senso de humor. – Dianne voltou a falar, sem expressar qualquer admiração. – Mais alguma coisa meninas? – o silêncio foi obrigado a servir como resposta para essa pergunta. – Ok, vamos em frente então. – ela disse após não obter resposta.
As casas seguintes não foram tão ruins quanto a irmandade “X”, apesar de não ser difícil superar esse quesito, mas sentia como se estivesse entrando na mesma casa milhões de vezes. Todas com seus enfeites de boas-vindas, apresentação ensaiada ao adentrarmos a porta e lanchinhos personalizados.
— Acho melhor não comermos muito, vamos salvar espaço para as três melhores do ranking, lá sim a comida deve estar espetacular. – Charlie disse e me segurei para não rir de forma escandalosa, agradecia toda hora mentalmente por ela estar ali comigo, compartilhando do mesmo sentimento.
Cada visita durava cerca de 20 minutos, e quando tudo estava começando a ficar oficialmente entediante, Dianne anunciou que restavam apenas mais três casas, sendo essas as mais bem colocadas no ranking.
A terceira melhor irmandade do campus tinham o símbolo ΣΨ entalhado na entrada da casa, bem visivelmente. Dianne explicou que essas letras representavam o nome Sigma Psi. Diferente de todas as outras casas, exceto da irmandade “X”, nenhuma pessoa nos recebeu na entrada. E assim que todas nós ultrapassamos a porta da casa, as luzes imediatamente se apagaram, para o pânico de todas. Felizmente, nenhum escândalo maior aconteceu, pois em questão de segundos uma luz surgiu um pouco acima de nós, revelando o rosto de uma garota desconhecida que nos observava do topo de uma escada.
— Bem-vindas a Sigma Psi. – a garota falou, com um tom forte na voz, a única coisa visível eram seus olhos azuis. – Então, todas vocês querem ingressar uma irmandade e fazer parte do Sistema Grego? – ninguém respondeu. – Ninguém vai me responder? – ela perguntou com agressividade. – Quem aí tem interesse no que eu acabei de falar, levanta a mão bem alto! – mandou a garota. Lentamente, todas as mãos se ergueram. – Muito bem. – continuou. – Se vocês querem isso, então é porque sabem tudo sobre a figura que foi Elizabeth Growski, a pessoa que nos proporcionou estar aqui hoje desfrutando de todo esse sistema. – mais uma vez o silêncio prevaleceu. – Não vão me responder? Só o que me falta, quererem ingressar uma irmandade e não saberem quem foi Elizabeth Growski. – disse indignada. – Vou tentar mais uma vez, quem sabe quem foi Elizabeth Growski por favor levanta a mão bem alto. – pediu novamente. Não fazia ideia de quem era essa pessoa, e se aprendi alguma coisa com a vida, foi que mentira tem perna curta, então não tinha plano algum de levantar minha mão e fiquei feliz ao ver que Charlie também não. Ao olharmos para os lados, porém, vimos todas as mãos rapidamente se erguerem. – Uau, são muitas mãos! – a voz dela expressava verdadeira surpresa. De repente, luzes se acenderam do lado direito. – Vocês todas, que levantaram suas mãos, por favor sigam até o final do corredor da luz que acabou de se acender. – orientou. – E vocês duas, que não levantaram as mãos, fiquem aí paradas até que todas as outras meninas tenham desaparecido pelo corredor.
— Deveríamos estar assustadas? – Charlie sussurrou para mim, mas antes que eu pudesse responder, a garota iluminada nos interrompeu.
— Sem conversa, vocês duas!
Em questão de minutos, as outras meninas adentraram o corredor e sumiram rumo a outra direção da casa. O que me consolava, era que a pior coisa que poderia acontecer seria nos expulsarem da casa, pelo menos eu imaginava que sim. Quando sobrara apenas eu e Charlie no salão, até mesmo Dianne havia desaparecido, a luz que iluminava a garota na escada também apagou. Em seguida, tudo o que senti foi algo tapando meus olhos, e provavelmente a mesma coisa aconteceu com Charlie, pois soltamos um gritinho sincronizado.
— Calma! – uma voz feminina desconhecida fez com que parássemos. – Vamos precisar que vocês confiem em duas pessoas estranhas agora. – ela disse. – Vocês serão guiadas por nós, eu aconselharia a não contestar. – não temos nada a perder, foi tudo o que pensei. Além de que, apesar de não tão gentil, por algum motivo a voz da garota soava amigável.
Silenciosamente, deixei que a garota me guiasse e esperava que Charlie estivesse fazendo o mesmo, não tínhamos como nos comunicar naquele momento. Quando minha venda foi retirada, senti um alivio ao olhar para o lado e encontrar minha companheira de quarto, mas quando olhamos para trás, não havia nenhum sinal de qualquer outra pessoa. Estávamos em um corredor escuro, a única coisa visível era a porta em nossa frente, com uma frase escrita em neon: “Se procura diversão, tenha coragem para abrir a porta e seguir a trilha.” Nós duas nos entreolhamos, não tínhamos outra saída.
— Você abre? – Charlie perguntou, um tanto receosa.
— Aconteça o que acontecer, você foi uma ótima companheira de quarto nas últimas 24 horas. – falei, colocando a mão na maçaneta.
— Idem, Amy Jenkins. – Charlie disse.
Não diria que era medo, mas meu coração com certeza batia aceleradamente naquele momento. Reunindo toda a coragem que tinha, abri a porta e, como um truque de mágica, toda a escuridão do corredor foi substituída por um turbilhão de cores.
Parecia uma festa surpresa, luzes coloridas para todos os lados, vários confetes saltaram em cima de nós, e um grupo de meninas gritava animadamente ao nosso redor. A animação daquele momento rapidamente tomou conta de mim e Charlie, mesmo sem entender direito imediatamente fui contagiada.
— Sejam muito bem-vindas! – uma das meninas deu um passo à frente do círculo, cessando a gritaria. – Meu nome é Briana, mais conhecida como Bri, e sou a atual presidente dessa irmandade maravilhosa. – ela se apresentou. – A Sigma Psi não tem muitas regras, nosso objetivo aqui é realmente criar um vínculo entre irmãs e, é claro, se divertir muito! – continuou. – Para isso ser possível em conjunto, valorizamos primordialmente uma única coisa: honestidade. – tudo começava a fazer sentido agora, e pela primeira vez naquele tour, senti uma verdadeira empolgação. – Não existe nenhuma Elizabeth Growski. – revelou Bri, soltando uma leve risada ao observar nossas expressões. – Sendo assim, vocês são as únicas dignas de se candidatarem ao nosso grupo. – Charlie e eu nos entreolhamos, sem saber o que fazer. Quando percebemos, estávamos todas rindo.
O clima de timidez logo foi quebrado, todas as meninas ali eram extrovertidas e nos envolveram rapidamente em variadas conversas. Nos contaram que, enquanto estávamos ali, as outras meninas teriam que assistir um show de música gospel que duraria todo o tempo restante da passagem pela casa. Em nenhuma das hipóteses imaginei que iria me divertir tanto em alguma das casas, todas ali eram incríveis, divertidas e receptivas, estava me sentindo muito bem no meio delas.
Só percebi que o tempo estava passando quando Dianne apareceu para nos buscar, ela provavelmente já sabia de tudo aquilo.
— Vamos, meninas! – chamou. – Ainda temos duas casas para visitar.
Com um apertinho no coração, nos despedimos de todas as meninas, duvidava que uma das próximas duas casas fosse tão sensacional quanto a Sigma Psi havia sido. Antes de sairmos, Briana foi falar conosco.
— Ei, meninas. – disse ela. – Vai rolar uma festa na Omega Gamma após a visitação, apareçam aqui e sejam nossas convidadas, juro que não existe um jeito melhor de começar a vida nessa universidade. – ao terminar de falar, Bri esboçou um sorriso sincero e piscou para nós. Com certeza iriamos voltar ali.
Encontramos o resto do grupo na rua, logo ao chegarmos algumas garotas vieram nos perguntar o que tinha acontecido.
— Tivemos que assistir uma palestra insuportável sobre a bendita Elizabeth Growski. – Charlie respondeu, expressando um falso tom de tédio. As garotas se lamentaram conosco e pareciam se agradecer mentalmente por terem levantado a mão, como se o show gospel tivesse sido menos pior do que aquilo. Quando elas se afastaram, Charlie e eu não conseguimos evitar a risada.
— Você deveria se inscrever no curso de teatro comigo. – brinquei.
— Acho que vou guardar meu drama só para o Sistema Grego mesmo. – Charlie disse em tom brincalhão e rimos novamente. As coisas estavam começando a ficar mais legais do que eu imaginara.
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