Legacy

28 Capítulo 28 - "We make our breaks"


Naquela mesma noite, depois de ter cumprido a entrega de meu primeiro desafio na Zeta Eta Beta, jantei com a Charlie como prometido. Foi a oportunidade que tive para explicar toda a situação e finalmente acertar todas as coisas com ela. Charlie garantiu que quando recebera a carta da Sigma Psi, o envelope estava direcionado unicamente para ela, o que indicava ainda mais que existia algo de muito errado por trás daquilo.

Os compromissos da Hell Week terminavam na sexta para todos do Sistema Grego, então combinei com Bri de nos encontrarmos para conversar mais e, nesse meio tempo, tentaríamos conseguir novas informações. Era difícil se concentrar no resto da vida com tudo isso acontecendo, mas novamente me esforcei ao máximo para focar no que deveria ser feito: estudar, sobreviver e estar atenta.

As tarefas seguintes da Zeta Eta Beta variaram desde mais requisições de coisas como fotos e objetos específicos até simulações de jantares e eventos de teste. Na terça-feira daquela semana ainda tive minha primeira aula de teatro, que provavelmente foi o único ponto positivo. Já na quinta-feira, no dia que receberíamos a tarefa individual, achei que estavas prestes a surtar durante a manhã, pois havíamos ficado até tarde na casa da ZEB cumprindo uma tarefa extremamente entediante.

No intervalo do almoço, acabei me encostando em uma árvore depois de comer e fechando os olhos. Já havia cumprido a tarefa daquele dia pela manhã e só precisava me preocupar em não adormecer para não faltar a aula do professor Logan, mas não sabia se isso seria possível.

— Amy? – uma voz inconfundível me chamou de volta a realidade.

— Seth? – perguntei ainda sem abrir os olhos, poderia estar sonhando.

— Sim, sou eu. – respondeu. – Está tudo bem? – ele perguntou e eu finalmente abri os olhos, para verdadeiramente enxerga-lo agachado ao meu lado, me encarando preocupado.

— Meu Deus, eu nunca respondi a sua ligação! – exclamei imediatamente lembrando do fato ao encontra-lo. – Mil desculpas, Seth. – pedi. – Essa semana está incrivelmente estranha e cansativa, acabei esquecendo de retornar a ligação. – eu realmente havia planejado responder ele ainda na segunda-feira daquela semana, mas logo depois da manhã da ligação eu havia feito a descoberta da carta e a partir dali tudo se acumulou.

— Não se preocupa com isso, você não tinha nenhuma obrigação. – Seth disse. – Só achei importante deixar o recado. – ele ergueu um sorriso nos lábios, fazendo com que eu me sentisse ainda mais culpada por ter coragem de não lembrar de retornar a sua ligação. – E eu acredito em você.

— Obrigada. – agradeci, também sorrindo com os lábios. – Pela compreensão.

— Você deveria descansar em algum lugar mais confortável. – Seth sugeriu. Foi impossível evitar a lembrança do quão confortáveis eram os braços dele. — Eu me ofereceria de apoio, mas infelizmente tenho treino agora. – ele disse em tom de brincadeira, quase como se lesse meus pensamentos. Rimos juntos, provavelmente estávamos pensando nos mesmos momentos.

— Eu deveria ir para a aula de Ciências Gerais. – falei, tentando soar determinada.

— Que horas é a sua aula? – Seth perguntou.

— 13:30. – respondi.

— Já é 13:50. – ele disse, mostrando seu relógio de pulso.

— Droga. – foi tudo que eu consegui dizer, fechei os olhos. – Não acredito que cochilei e perdi o horário.

— Ei, calma. – Seth falou. – Acontece com as melhores pessoas. – não sabia dizer se esse era um comentário engraçado ou extremamente fofo. – Quais aulas você tem depois?

— Essa era a minha única da tarde de hoje. – falei, me sentindo cada vez mais decepcionada comigo mesma.

— Então você tem a oportunidade perfeita para ir descansar durante o resto da tarde. – Seth disse sorridente, ao mesmo tempo em que se levantava. – Vamos, você consegue. – ele ofereceu a mão para me ajudar a levantar também.

— Não queria me render tão fácil à essa proposta. – eu disse aceitando a mão de apoio e me levantando. – Por favor não ache que eu sou irresponsável ou algo assim.

— Você não precisa me pedir isso. – Seth garantiu. – Não faz bem para ninguém surtar durante a Hell Week, é melhor descansar.

— Ainda bem que está acabando. – falei.

— Quer que eu te acompanhe até o dormitório? – ele perguntou.

— Não quero que você se atrase para o treino, mas obrigada. – agradeci.

— Nos vemos por aí então? – Seth sorriu.

— Nos vemos por aí. – afirmei, também sorrindo. Ele me deu um beijo no rosto antes de seguirmos caminhos opostos pelo campus.

Não conseguia acreditar que havia esquecido de retornar sua ligação, muito menos que havia perdido o horário da aula. Também era difícil acreditar no quão compreensivo e atencioso Seth era, com sorte o professor Logan também seria.

Depois de uma tarde de descanso, comecei a me preparar para o último dia em que receberíamos tarefas na Hell Week, sendo essa a única individual e baseada em análises que envolviam coisas que eu provavelmente nunca saberia. O horário de encontro seria às 19h, diferente dos outros dias com horário fixo, eu não sabia o que esperar, mas depois de tantos acontecimentos inesperados era difícil me sentir assustada antecipadamente.

Cheguei pontualmente na casa da Zeta Eta Beta e esperei junto com as outras candidatas até sermos chamadas na sala principal, onde aconteciam todos os nossos encontros desde a primeira tarefa. Nunca eram todas as meninas da casa que participavam, mas sempre estavam ali as três seniores e Jenn, igual aos primeiros momentos.

— Bom, meninas, como já explicado algumas vezes, hoje é o dia em que vocês receberão sua última tarefa da Hell Week e ela será a única individual. – Katherine lembrou. – As responsáveis pelo desenvolvimento delas foram um grupo de meninas da casa, escolhidas pela nossa presidente Jennifer.

— Observamos cada uma de vocês desde o primeiro dia em que cruzaram a porta dessa casa. – Jenn tomou a palavra. – Desde suas amizades, até suas rotinas, hábitos e modo de agir. – não sabia se ela estava blefando, mas era fácil se preocupar ao imaginar uma câmera me observando dormindo pelo campus. – E é nisso que suas tarefas serão baseadas. – concluiu. – Lembrando que elas são secretas e não devem ser compartilhadas com ninguém, qualquer dúvida ou problema recorram unicamente a mim.

Fomos posicionadas uma ao lado da outra, de pé e de costas para a parte da sala onde ficava a televisão. Jenn tinha seis cartas em sua mão e foi distribuindo uma para cada uma, elas eram endereçadas com nossos nomes. Como eu era a última da direita para a esquerda, fui a última a receber a carta. Preciso confessar que não foi nada agradável segurar uma carta e lembrar que uma outra parecida estava me gerando tantos problemas. Com um pouco de receio, logo abri o envelope.

“Boa noite, Amelia.

Se você está lendo essa carta significa que, até esse momento, vem sobrevivendo satisfatoriamente à Hell Week. Entretanto, ainda precisará cumprir essa tarefa final, que com certeza não será nada do que você imagina, não existe uma pessoa que saiu dessa sala na quinta-feira à noite se questionando se realmente valeria a pena cumprir a tarefa. E vale.

Sua tarefa é: conseguir um vídeo gravado por um jogador de futebol-americano dos Risers, no qual ele deverá nos convencer de que você seria um bom membro para nossa irmandade.

Critérios: 1- No mínimo 3 motivos precisam ser citados;

2- O jogador precisa fazer parte do time atual;

3- O vídeo precisa ter no mínimo um minuto e meio;

4- O jogador deverá estar sem camisa.

Boa sorte.”

Eu certamente não esperava por uma tarefa tão babaca quanto aquela. Olhei para os lados e as outras meninas pareciam estar reagindo da mesma forma que eu, como se tivessem acabado de ler algo extremamente idiota, mas que realmente não queriam fazer.

— Isso é uma piada. – não pude resistir dizer, direcionando o olhar à Jenn, que estava um pouco a frente.

— Alguém aqui está rindo? – ela perguntou sarcasticamente.

— Isso é ridículo, Jenn. – falei, não conseguindo evitar a irritação. – Tudo que fizemos durante a semana fez algum sentido, mas isso não tem nexo algum.

— Garanto que tem. – Jenn disse.

— Então por favor me explique. – me aproximei um pouco mais dela, sem desviar o olhar em qualquer momento.

— Como já explicado anteriormente, essa tarefa foi baseada em uma observação pessoal da sua semana. – ela falou sem demonstrar qualquer expressão. – E é o que comprovará se você merece ingressar a Zeta Eta Beta. – continuou. – Questione o quanto quiser, mas se não realiza-la, está fora.

Preferi me manter em silêncio, ela claramente não era a pessoa ideal para se tirar satisfações. Porém, era a única com quem podíamos, parecia que tudo era proposital. No momento em que fomos liberadas, fui a primeira a sair dali. Pretendia conversar com Vicky naquela noite, mas ela também parecia bastante espantada com a sua tarefa, talvez fosse melhor cada uma focar em suas coisas até que tudo aquilo acabasse.

Juro que estava me esforçando para criar um sentido em minha cabeça, o único que parecia servir de alguma coisa era a ideia de que aquilo serviria como algum tipo de humilhação. Só sabia de uma coisa: eu não pediria nada para Seth. Além de ele já ter sido a pessoa mais prestativa possível desde o dia em que havíamos nos conhecido, era nítido que ele não era muito fã de certas atitudes desnecessárias do Sistema Grego e eu poderia ver essa tarefa como um exemplo disso. Também não queria que ele pensasse que eu o via como um poço de favores ou qualquer coisa do tipo.

Não sabia nem por onde começar a pensar na solução para o problema, mas sabia que não queria ter que parar para pensar nisso tão cedo. Com certeza eu compartilharia isso com Charlie, quem sabe ela até me ajudasse. Depois do episódio da carta, concordamos em ignorar as regras de sigilo entre nós duas, sem dúvida alguma eu confiava mais em minha colega de quarto do que nas garotas da Zeta Eta Beta. E Charlie também parecia verdadeiramente confiar em mim.

Decidi então passar na livraria do campus antes de voltar oficialmente ao dormitório, assim talvez eu tivesse um tempo para esfriar a cabeça. Levei cerca de 15 minutos para chegar até lá, já que a Montée (como chamada pelos alunos) ficava perto do hall de entrada do campus. Precisava alugar um livro para a aula de teatro da próxima semana e quem sabe me distrair um pouco.

Entretanto, as coincidências da vida ainda não tinham se esgotado naquela semana. Logo quando me aproximei de uma das estantes próximas aos cantos reservados para estudo e pesquisa, avistei o par de olhos verdes mais conhecido por mim em uma das mesas. Ele ainda não havia me visto, eu poderia simplesmente seguir para outra área do local e evitar aquele encontro que com certeza não me faria desviar os pensamentos. Entretanto, aí estava outro problema, eu não queria fazer isso. Quando percebi, já estava me aproximando da mesa em que Seth estava.

— Hey. – cumprimentei ao chegar quase ao lado dele. Seth só percebeu que eu estava ali ao ouvir minha voz, ele parecia bastante concentrado, mas sorriu assim que viu que era eu.

— Boa noite. – ele também cumprimentou, já puxando uma cadeira para que eu pudesse me sentar ao seu lado. – Descansou?

— Talvez mais do que eu deveria. – admiti assim que me sentei. Esperava conseguir disfarçar minha apreensão perto dele, estava me esforçando para isso. – Não esperava encontrar você aqui.

— Dizem que tudo é melhor quando não criamos expectativas. – Seth disse em tom divertido. Era incrível como ele sempre parecia ter uma boa resposta pronta.

— Como você faz isso? – perguntei.

— Isso o que? – ele perguntou.

— Consegue sempre responder alguma coisa calma, inteligente e que faz sentido. – eu falei e ele riu do comentário.

— Acho que eu apenas tento ignorar ou amenizar o lado ruim das coisas. – Seth disse.

— É verdade. – concordei, fazendo uma análise rápida dos momentos que eu tivera com Seth e percebendo que ele realmente havia sido o mais positivo possível em todos eles.

— Eu venho aqui estudar às vezes. – ele contou. – Geralmente quando a casa está muito agitada, como na Hell Week.

— Então você treina todos os dias, é concentrado nos estudos e ainda tem tempo para fazer coisas como me socorrer em emergências? – questionei.

— É, acho que seria tipo isso. – Seth disse, rindo mais uma vez. – Você é engraçada.

— Obrigada. – agradeci, também rindo, mesmo sem ter certeza se aquilo era um elogio. – Imagino que a Hell Week de vocês não seja tão entediante quanto a nossa. – comentei.

— Eu acho bastante divertido. – Seth falou. – Às vezes exageradamente radical, mas faz parte. – comentou. – Tento não me envolver muito na criação de tarefas e planejamento, porém participar assistindo e ajudando é tão divertido quanto. – ele contou. – Theo é o contrário, ele faz questão de se envolver na criação desse tipo de coisa.

Theo! Como eu não havia pensado nele antes? Ele era a pessoa perfeita para me ajudar, teoricamente ele me devia um favor já que nem havia pedido desculpas pelo ocorrido da bolada na testa. E por estar envolvido nesse tipo de coisa, ele provavelmente entenderia a situação e seria a minha solução para a tarefa.

— Por algum motivo, ele tem muita cara de quem se envolve com essas coisas. – falei. – E falando no Theo, você teria como me passar o número do celular dele?

— Claro. – Seth respondeu. – Você finalmente decidiu processa-lo pelo incidente da bolada na testa? – ele perguntou brincando. Eu apenas ri e não disse nada, esperava que meu nervosismo não estivesse nítido, eu não tinha como explicar o porquê de precisar do número de Theo e mentir para Seth não era uma opção para mim. – Aqui. – ele disse, mostrando o número em seu celular.

— Eu preciso ir. – falei após anotar o número no meu aparelho.

— Amy, está tudo bem? – Seth perguntou, provavelmente percebendo que algo estava estranho.

— Sim. – tentei soar firme.

— Está tarde, eu posso te acompanhar. – ele ofereceu.

— Não precisa. – garanti, já me levantando. Dessa vez fui eu quem dei um rápido beijo no rosto dele. – Obrigada. – agradeci ao mesmo tempo em que me direcionava a saída da livraria. – Nos vemos por aí. – foi a última coisa que eu disse antes de me afastar.

E eu realmente esperava que meus planos não estragassem o que quer que fosse que eu tinha com Seth. Quando atravessei a porta da Montée, já disquei o número de Theo no meu celular.

Seria tudo ou nada.