Legacy
21 Capítulo 21 - "After the storm, there is another one"
Todas as partes do meu subconsciente afirmavam que Jennifer não poderia estar falando sobre os quadros, era simplesmente impossível que ela houvesse os notado tão rapidamente. A tinta era rosa, mas não rosa forte o suficiente. Ou era, talvez ela tivesse cada canto daquele aposento decorado em sua mente, àquele ponto da situação, eu com certeza não duvidava disso.
— Vocês acham que tem o direito de mexer e modificar o nosso santuário sem permissão? – Jennifer perguntou, agora eu acreditava totalmente que ela se referia aos quadros. Seu olhar era amedrontador, entretanto algo me dizia que minha expressão não transparecia estar sendo intimidada por aquilo, e, eu realmente não estava sendo. – Espero que tenham, já que não cabe a mim decidir isso. – continuou a falar. – Pelo menos, a princípio. – agora eu podia afirmar que não estava entendendo mais nada. – Vocês nos acompanharão até a sala principal, onde realizamos nossos principais encontros e momentos de irmandade. – orientou Jennifer. – Lá, uma comissão de três meninas seniores irá julgá-las e vocês terão a chance de justificar sua ideia. – continuou. – Se forem aprovadas, seguiremos com mais instruções.
Após as orientações, subimos enfileiradas atrás de Jennifer e das meninas que se encontravam junto com ela. Ao chegarmos na sala, me deparei com a melhor coisa que poderia acontecer naquele momento: Katherine era uma das meninas nos esperando. Fiquei extremamente feliz ao receber um sorriso de recepção dela quando adentramos a porta.
— Essas são Juliet, Vanessa e Katherine, as meninas que irão decidir se vocês ficam ou saem. – Jennifer apresentou. – Primeiro vocês terão a chance de explicar e justificar o que fizeram, depois as meninas opinarão. – explicou. – Escolham uma do grupo para falar. – nesse momento, senti os rostos das outras iniciadas se virarem para mim, automaticamente. Sabia que não existia outra opção.
— Eu vou. – anunciei para todas. Diferentemente dos outros momentos, agora só estavam na sala nós seis, Jennifer e as três seniores.
— Pode começar. – Jennifer disse.
— Nossa ideia foi criar um pigmento a partir da coloração da beterraba, que era parte da salada que recebemos como janta. – comecei a falar. – Utilizamos essa tinta para pintar as molduras dos quadros encontrados no santuário da casa, que estavam visivelmente descoloridos. – expliquei. — Acredito que essa tenha sido uma ideia bem diferente, houve certa hesitação do grupo por estarmos mexendo com algo que não nos pertencia, mas o espirito de ousadia dessa casa foi o que nos inspirou a confiar na nossa ideia e acreditar que ela pudesse ser útil, surpreendente e demonstradora do nosso esforço e interesse em ingressar a Zeta Eta Beta. – se eu tivesse ensaiado isso, talvez não houvesse soado tão firme.
— Ok, obrigada. – Jennifer falou. – Meninas, é com vocês. – disse, dirigindo o olhar às três outras membros da ZEB.
— Não poderia começar dizendo outra coisa senão que aquelas molduras estavam deploráveis. – a primeira a falar foi Juliet, seus cabelos eram de um tom dourado e encaracolados. Parecia ser uma pessoa simpática. – Adorei a ideia, além de cumprirem com o trote estarão fazendo um verdadeiro favor para nós.
— Eu gosto da ideia dos quadros pintados, mas o risco que correram ao fazer isso me assusta um pouco. – Vanessa entrou na conversa, tinha pele e cabelos morenos e era a mais alta das três. – E se não tivéssemos gostado? Como explicariam ter modificado nosso patrimônio?
— Não acho que uma ZEB seja quem dá as explicações. – Katherine respondeu por nós. – Ousadia, criatividade, competência e pontualidade, uma junção de características perfeitas para fazer parte dessa irmandade, e, ao meu ver, podemos encontrar tudo isso nessa ideia, por mais simples que seja. – disse. – Eu apoio a ideia e a aprovação das candidatas.
— Eu também. – Juliet concordou.
— Já temos uma maioria. – Jennifer retornou ao diálogo. – Parabéns, candidatas. Essa foi a primeira de muitas fases. – nos parabenizou. Tinha certeza que todas nós estávamos sentindo um enorme alívio por dentro, mas ninguém tinha coragem de trocar sorrisos naquele momento. – Deixarei vocês com as três para que elas passem as instruções da próxima etapa. – falou. – Depois disso, vocês poderão tomar café da manhã antes de prosseguir. – ouvindo a palavra café da manhã, tudo o que desejei foi pela rapidez daquelas “instruções” e também não encontrar mais um prato de salada naquele dia. Após dizer tudo isso, Jennifer deixou a sala.
— Ok, garotas. – Juliet disse ao mesmo tempo em que se levantava. – Vou liderar esse rápido momento porque não há necessidade de falarmos todas ao mesmo tempo, qualquer coisa a Kat e a Vanessa podem ir acrescentando. – as duas concordaram com a cabeça. – Esse primeiro dia, no caso hoje, é considerado o começo do processo de iniciação. Vocês passaram pela primeira fase, nos provar que tinham o perfil para entrar na nossa irmandade, agora precisam provar para o Sistema Grego. – revelou. – Apesar das inúmeras diferenças entre todas as irmandades e fraternidades, a maioria é bem tradicional na nossa universidade, ou seja, existem certas regras simbólicas que são sempre seguidas. – contou. – Isso, é claro, não tem como acontecer somente em um único dia. – continuou. – Se vocês sobreviverem a este final de semana, entrarão na hell week, e, se sobreviverem a hell week, se tornarão oficialmente iniciadas. – até aquele momento eu sentia que acompanhava a explicação, apesar de tudo ainda ser um pouco confuso. – Aqui na Zeta Eta Beta, prezamos originalidade, atitude, determinação, coisas bem-feitas e, apesar de não precisarmos, o status. – agora era possível sentir que algum outro desafio estava prestes a sair da boca de Juliet, bem no fundo isso me assustava um pouco. – Iremos mostrar aqui na tv, os perfis de alguns dos nomes mais importantes do momento dentro do Sistema Grego. – falou. – O cronograma de vocês para o dia de hoje será passar a tarde nos ajudando a arrumar a casa para o começo do ano letivo, sempre gostamos de mudar e acrescentar alguns detalhes de decoração para o novo ano e é fundamental que as prováveis iniciadas ajudem com isso. – aquilo parecia fácil em comparação à última tarefa que havíamos tido. – Às 17 horas iremos liberá-las para irem até suas casas ou dormitórios e se arrumarem para uma festa na casa dos Alpha Xi, que começará às 21 horas. – tudo parecia incrivelmente bom para ser verdade. – A Alpha Xi é a fraternidade número um do campus e todo ano nos escolhem para sermos suas “queridinhas”, existe uma pequena cerimônia que oficializa tudo isso e então passamos o ano realizando diversos momentos em conjunto. – Juliet explicou. – Estejam aqui às 20 horas pontualmente, Jennifer estabelecerá as regras para durante a festa nesse momento, mas saibam que no dia seguinte vocês terão que estar aqui às 10 horas e até lá, como tarefa, precisarão que ao menos duas das pessoas que mostraremos a seguir tenham seguido vocês em alguma das redes sociais. – olhei para Katherine nesse momento, como se não acreditasse na futilidade do que eu ouvia. Não queria ter feito isso, ela era incrivelmente legal, mas provavelmente concordava com aquilo se sua opção de irmandade era a ZEB. Porém, para meu alivio, o olhar que recebi de retorno parecia transmitir a mesma opinião, ao mesmo tempo que tentava me tranquilizar. Ninguém opinou em voz alta, ou emitiu qualquer sentimento sobre qualquer coisa.
Em seguida, os perfis foram mostrados na televisão da sala. Consegui contar uma quantidade de 12 pessoas que nunca havia visto na vida. O engraçado, no entanto, foi ter reconhecido alguns rostos. O primeiro foi o de Theo, que recebeu ênfase em diversos sentidos ao ser comentado por Juliet. Esperava encontrar o rosto de Seth após o dele, mas isso não aconteceu e, por algum motivo, me senti feliz com isso. Reconheci também Dan Harper, o cara de quem o professor Logan me falara ao comentar sobre o jornal. E, por último, Scooter apareceu na tela. Juliet deixou claro que ele era um babaca, entretanto, extremamente popular. O último tweet de Scooter ainda era sobre a festa da semana passada, uma foto estava anexada ao mesmo, na qual ele se encontrava abraçado com duas mulheres de biquíni e uma escultura de gelo. “Não existe maneira melhor de começar o ano”, consegui ler antes que mudasse a página. A atitude com certeza não me espantava, só faziam com que eu refletisse sobre quantos tipos de personalidade Scooter poderia ter, mas nada disso importava naquele momento.
Finalmente pudemos tomar café da manhã após aquele breve, porém não tão breve, momento. Uma variedade de comidas nos foi oferecida, lembrando o dia da visita às casas e recompensando o prato de salada da noite anterior. Apesar do sono e cansaço, comer bem gerou uma animação maior para o resto do dia. Passar a tarde ali não foi tão ruim, a arrumação da casa a qual as garotas mais velhas se referiram mais cedo envolvia cartazes decorados, encher vários cantos de detalhes e customizar tudo que não agradava mais ali. Mesmo que muitas ali dentro caminhassem com uma atitude superior, em nenhum momento eu ou outra das meninas candidatas sofremos com falta de educação ou algo do tipo, mas era visível que ninguém queria puxar muita conversa conosco. Se eu realmente sobrevivesse a tudo que estava por vir, esperava que isso mudasse, pois a ideia toda de estar ali já era ruim o suficiente, esperava pelo menos encontrar certas pessoas com quem eu pudesse interagir. Até agora, as mais próximas disso haviam sido Vick e Katherine.
Quando fomos liberadas para ir aos dormitórios, um sentimento de aflição tomou conta de mim ao encontrar meu quarto vazio. Parecia que faziam séculos desde que eu estivera com Charlie pela última vez, fiquei imaginando o que ela estaria fazendo naquele momento, provavelmente se divertindo muito com as garotas da Sigma Psi. Eu realmente esperava que ela estivesse.
Nem me arrisquei a sentar em minha cama, não podia correr o risco de perder o horário e se parasse para descansar, poderia dormir facilmente, minha melhor opção era ignorar o cansaço. Tive dificuldades para escolher uma roupa, não havíamos recebido qualquer orientação e eu realmente não sabia o que esperar das outras meninas da ZEB. Como se lesse meus pensamentos, Vick enviou uma mensagem de texto quase na mesma hora, com o mesmo questionamento. Havíamos trocado nossos números antes de ir para casa e isso acabara de se provar uma ótima ideia. Concordamos em nos vestir com roupas que usaríamos normalmente. Mesmo assim, optei por minha saia preta preferida e uma blusa da qual gostava muito, dessa forma me sentiria mais segura. Eu não ligava para esse tipo de coisa, mas infelizmente minha única oportunidade de continuar com minha bolsa de estudos, também conhecida como Zeta Eta Beta, parecia se importar. O tempo passou rápido, meia hora antes das oito já saí do dormitório para não correr o risco de me atrasar. Assim, também não precisaria caminhar tão rápido.
Olhei o relógio antes de tocar a campainha da ZEB, faltavam cinco minutos para as 20 horas. Para minha surpresa, Jennifer foi quem abriu a porta. Todas as candidatas já haviam chego e estavam ali embaixo perto da porta, juntamente à algumas meninas da ZEB que também estavam prontas.
— Você foi a última, mas está pontualmente no horário. – Jennifer falou, com seu tom normal de seriedade. – Por favor, junte-se a nós. – ela disse esboçando um leve sorriso, que interpretei como altamente assustador.
Fiquei junto ás outras meninas até a hora de irmos. Era estranho parar para pensar que na semana passada eu estava passando por aquele mesmo momento antecedente a uma festa com outras pessoas, em um ambiente com energia totalmente diferente daquele. Vick e eu compartilhamos nosso alívio ao ver que ninguém ali havia se arrumado de forma muito extravagante, era bom ter ela comigo.
A casa da Alpha Xi era quase familiar devido aos acontecimentos recentes. Um rapaz alto, de pele clara e cabelo castanho-escuro nos recebeu na porta. Reconheci seu rosto, pois ele era uma das personalidades presentes na televisão, o presidente da Alpha Xi. Seu nome era Adam Caldwell e ele foi extremamente receptivo com todas as meninas, garantindo que todas nós tivéssemos entrado na casa e pedindo para que ficássemos à vontade.
Diferentemente da festa na Omega Gamma, aquela parecia ser muito mais organizada. Em termos de diversão, já não poderia dizer o mesmo. A música tocava e as pessoas se divertiam em seus cantos, ao contrário da zona que era na casa da OG. Vick e eu prometemos ficar juntas e eu pretendia voltar cedo, já que a única condição além de conseguir os seguidores, era estar às 10 horas na ZEB na manhã seguinte. Entretanto, em meia hora eu já não tinha mais sinal algum da presença dela. Nos separamos para encontrar comida e acabamos nos perdendo. Apesar de ter estado ali anteriormente, não sabia me situar pela casa, então tomei a decisão de me encostar em uma parede perto da cozinha, segurando um simples copo de água que era a única coisa que eu ingeria desde o almoço. Não lembro de na vida ter me encostado em uma parede tão confortável quanto aquela, talvez fosse meu sono e cansaço implorando para não ser ignorado. Geralmente, eu sabia lidar com isso, mas praticamente não havia dormido na noite passada e com o dia cheio de atividades na casa da ZEB, tudo que eu queria era poder parar um pouco nem que fosse só para ficar encostada naquela parede.
— É incrível o fato de que eu sempre encontro você prestes a fechar os olhos e dormir. – uma das vozes mais familiares para mim naquela universidade invadiu os meus ouvidos e quando ergui o olhar, encontrei Seth Tanner na minha frente, me encarando com seus belos olhos verdes. Ele vestia uma camisa social branca, coberta por uma jaqueta de couro preta, com um broche de ouro da Alpha Xi preso.
— Esse comentário é totalmente injusto. – disse rindo e retribuindo o olhar.
— Não esperava encontrar você aqui. – admitiu ele.
— Sinceramente, nem eu. – falei.
— Isso não faz muito sentido. – Seth disse.
— Eu sei que não, só não sei se esse é o primeiro lugar do mundo em que eu escolheria estar no momento. – provavelmente nada do que eu falava fazia muito sentido naquela situação, mas era melhor que eu estivesse dizendo essas coisas para Seth do que para qualquer outra pessoa ali presente.
— Então vamos sair daqui. – ele disse esboçando um leve sorriso indecifrável, como se acabasse de ter uma ideia fantástica que pudesse solucionar todos os problemas que incomodavam minha cabeça no momento.
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