Legacy
20 Capítulo 20 - "Throw your colors in the air"
Notas iniciais
Nos momentos iniciais, tudo o que aconteceu ali foi um revezamento de todas nós se encarando. Talvez aquilo tudo fizesse sentido, me sentia mais confortável em frente aquelas cinco meninas desconhecidas que não faziam ideia do que estava acontecendo, assim como eu, do que com as membros da Zeta Eta Beta, que simplesmente respirando conseguiam ser assustadoras.
— Sou a Amy. – foi visível o susto que as outras meninas levaram ao finalmente ouvirem alguém falando. Caminhei até o meio da sala e me sentei no chão, cruzando as pernas em forma de índio. – Meu major é jornalismo, amo teatro e não faço ideia do motivo pelo qual a Zeta Eta Beta me escolheu, mas não posso arriscar perder minha vaga aqui por mil e uma razões que vocês provavelmente não iriam querer ouvir. – o silêncio reinou mais um pouco, e quase me fez pensar que minha estratégia não havia funcionado.
— Sou a Vicky. – uma das garotas se apresentou em seguida e sentou-se ao meu lado. Reconheci sua voz por ter sido a que também fez perguntas antes de sermos trancadas ali. Vicky usava óculos e tinha o cabelo um pouco mais curto que o meu, de cor loira. Após sua iniciativa de se apresentar, as outras meninas fizeram o mesmo. A próxima foi a Pamela, uma garota extremamente magra, de pele clara e longos cabelos ruivos e lisos, acompanhados por um par de olhos verde-escuro, que me lembravam os de Seth. Na sequência, Rebecca se apresentou, sua pele era escura, assim como seus olhos, e seu cabelo de cor preta descia até um pouco mais que seus ombros. Por último, haviam duas garotas muito parecidas, Tessa e Thalia, eram mulatas e tinham o formato do rosto parecido, mas suas faces eram diferentes. Tessa tinha olhos mais claros e as maçãs do rosto mais achatadas, as duas optavam por um corte de cabelo parecido, e seus fios ondulados eram consideravelmente compridos. Elas afirmaram serem primas, o que fez bastante sentido.
Depois das devidas apresentações, começamos a discutir ideias do que poderia ser feito para sobrevivermos à nossa candidatura. O problema era que, a maioria de nós não tinha qualquer noção de que caminho seguir. Por sorte, a maioria ali dizia respeito à somente quatro pessoas.
— Nossas mães foram membros importantes da Zeta Eta Beta. – Tessa contou, referindo se às mães dela e de Thalia. – Elas que insistiram para nos candidatarmos, e, consequentemente, acabaram nos contando muitos detalhes para ajudar na Hell Week e também em todo o período de iniciação.
— É verdade. – Thalia confirmou. – Elas iniciaram juntas, assim como estamos fazendo agora. – continuou. – E disseram que o grupo de candidatas delas criou um simples poema sobre a irmandade, juntando as informações da apresentação.
— Então talvez isso tudo não seja tão assustador e não exija tanto quanto parece exigir. – Vicky comentou. – Porque eu já estava imaginando que teríamos que dar uns mil mortais em cima do telhado para se impressionarem. – todas rimos do comentário dela, fazendo daquele nosso provável primeiro momento de concentração.
— Acho que não precisa ser nada muito elaborado, porém simples e marcante. – falei quando as risadas cessaram. – E claro, algo original.
— Temos que pensar em alguma coisa que possa ser feita aqui de dentro. – Rebecca disse. – Quem sabe, envolvendo esse santuário mesmo. – sugeriu. — Queria ter uma ideia brilhante, mas no momento estou morrendo de fome.
— Nossa, eu também! – concordei. Estava ignorando a fome até aquele momento, mas trazer o assunto à tona fez com que eu me lembrasse do vazio em meu estomago.
— Quem se arrisca a tocar o sino? – Vicky perguntou, já se levantando.
— Deveríamos tocar todas juntas. – Pamela sugeriu.
— Apoio. – concordei, também me levantando.
Nós seis nos reunimos ao redor do sino e colocamos as mãos ao mesmo tempo na cordinha pendurada a ele. Cada par de olhos teve a chance de se encarar naquele momento antes de tomarmos a decisão de puxar a corda. No fundo, sabíamos que nada de ruim poderia acontecer, mas se o propósito daquilo tudo por um acaso fosse união, talvez estivesse funcionando. Possivelmente guiadas por alguma das mãos, todas nós balançamos a cordinha e o sino soou. Em questão de milésimos, juro, a porta que nos separava do mundo lá fora se abriu.
— O que vocês querem? – duas vozes surgiram ao mesmo tempo, eram as gêmeas.
— Estamos com fome. – respondi, assim que vi que nenhuma das outras meninas pretendia fazer o mesmo.
— Já? – as gêmeas perguntaram, como se seus cérebros funcionassem ao mesmo tempo.
— Não se controla a fome. – Vicky respondeu, para minha felicidade. Sem responder mais nada, as gêmeas apenas se entreolharam e sumiram escada acima.
Voltamos a nos reunir no centro do recinto. Quanto mais a fome aumentava, mais distantes pareciam as ideias para qualquer coisa. Começávamos a desconfiar que não receberíamos comida naquela noite, porém prestes a soar o sino novamente, ouvimos a porta se abrindo.
As gêmeas surgiram das escadas com duas bandejas, cada uma contendo três recipientes redondos e cobertos por uma tampa. Os objetos foram depositados na beira das escadas e as duas logo desapareceram novamente pela porta. Nos entreolhamos em conjunto novamente, como se os recipientes pudessem conter bombas e aquilo pudesse ser um truque.
— Eu pego. – me manifestei.
— Ajudo você. – Vicky também se propôs e juntas fomos até as bandejas.
Peguei a da esquerda e ela a da direita. Dividi minha bandeja com a Pamela e a Rebecca, enquanto Vicky dividiu a dela com Tessa e Thalia. Não conseguia sentir cheiro de comida alguma.
— Abrimos no três? – sugeri.
— É uma ótima ideia. – Pamela concordou. Fiz a contagem e no três cada uma levantou a tampa de seu recipiente. Não havia bomba, nem qualquer item explosivo, apenas tigelas contendo muita salada e um pedaço de pão acompanhando.
— Acho que fui extremamente iludida em pensar que poderíamos receber um x-burguer completo de boas-vindas. – Vicky sussurrou para que provavelmente só eu ouvisse. Mesmo dividindo bandejas diferentes, ainda estávamos sentadas uma ao lado da outra. Ri do comentário dela, que se provava uma pessoa divertida e a mais destemida dentre as cinco outras candidatas.
Nada contra salada, ou qualquer tipo de comida saudável, mas era visível que aquilo não era o que todas nós esperávamos para matar a fome. O desânimo das meninas olhando para comida parecia colocar uma barreira ainda maior entre nós e as boas ideias. Desviei meu olhar para o recinto enquanto dava uma garfada na comida, sem nem olhar o que estava pegando, não faria muito diferença. Tudo ali naquele nomeado “santuário” era devidamente limpo e organizado, isso era mais do que visível e eu sempre fui atenta aos detalhes. As únicas coisas que não pareciam condizer com o visual do aposento eram as molduras dos quadros das prováveis mulheres importantes, com um tom rosa fraco e claramente desbotado. Como um milagre, tudo aconteceu ao mesmo tempo. Pensei sobre o porão em que estávamos, senti o gosto de beterraba na boca e encarei a garfada que Tessa deu no mesmo alimento em sua salada.
— Não! – disse automaticamente, todas me encararam. – Não comam as beterrabas! – Tessta imediatamente largou seu garfo, como se eu tivesse acabado de anunciar que sua comida estava envenenada.
— Amy, está tudo bem? – Rebecca perguntou preocupada.
— Sei que isso aqui é um tal de santuário, mas antes disso é um porão. – disse me levantando e começando a andar em volta do local. Tudo aparentava perfeito e sem qualquer coisa que não possuísse glamour, mas em um dos cantos de parede encontrei o que eu queria: um armário. Quando abri o mesmo, fui a pessoa mais feliz do mundo. Ali se encontravam diversos utensílios, pás, martelos, tesouras, papéis velhos, objetos desconhecidos, e o mais importante: cola e alguns pinceis. – Podemos fazer pigmentos e pintar as molduras desbotadas dos quadros. – finalmente compartilhei a ideia.
— Mas não seria muito arriscado envolver o santuário desse jeito? – Pamela perguntou.
— Não diria arriscado, mas sim ousado. – Vicky respondeu. – E até onde entendi, essa é uma característica que a Zeta Eta Beta preza muito.
— Acho uma ideia interessante e divertida. – Rebecca comentou.
— E original, assim como marcante. – Vicky continuou. – Se conseguirmos fazer isso, vai permanecer aqui por algum bom tempo.
— É por esse motivo que tenho medo da ideia. – Thalia falou. – Se as meninas da casa odiarem, vão nos matar.
— Temos que começar a entender que nenhuma irmandade tem direito a matar alguém ou praticar qualquer tipo de violência. – Vicky disse com certa ironia. – Adorei a ideia.
— Eu apoio, não temos nada a perder. – Rebecca também concordou. – Além de que, temos apenas nove horas para fazer alguma coisa e, com sorte, dormir um pouco.
— É verdade, não imagino nenhuma ideia melhor surgindo. – Pamela também aceitou, de forma menos entusiasma, mas ainda assim concordando. Tessa e Thalia ainda pareciam receosas quanto àquilo, só que agora já éramos maioria e elas não tinham outro plano.
Terminamos de comer e separamos as beterrabas em um único prato. Existiam milhares de chances de dar errado, mas não custava tentarmos, quem corria o risco principal de morte ali era eu, que havia surgido com a ideia. Eu e Rebecca ficamos responsáveis por fazer a mistura, já que nenhuma das outras meninas se julgou uma boa opção para fazer isso. Como a ideia era minha, logo me propus, e Rebecca afirmou ter participado de muitas aulas de artes na escola e fazer coisas do tipo.
Inicialmente, a mistura não parecia estar resultando em algo muito agradável, mas eventualmente acabou se tornando um tom de rosa um pouco mais forte que rosa bebê, o que combinaria perfeitamente com aquele lugar.
Tínhamos apenas três pinceis e 16 molduras para pintar. Nosso estoque de tinta era definitivamente finito, então não poderíamos desperdiçar de nenhuma maneira. O relógio indicava quase três horas da manhã quando tudo estava pronto para começarmos. Nos dividimos em dois turnos, o primeiro seria eu, Pamela e Tessa, e o segundo Vicky, Rebecca e Thalia. Separar as duas primas parecia uma ótima ideia, assim evitaríamos qualquer problema maior. A tinta foi dividida em três dos recipientes e cada grupo pintaria 8 quadros, cada menina ficaria responsável por dois e eu e Rebecca por três. Combinamos que, enquanto um turno trabalhava, o outro poderia dormir. Quando o segundo grupo terminasse, acordaríamos todas e esperaríamos o horário que nos foi dado.
Logo na primeira pincelada, senti uma boa sensação de que tudo iria dar certo. A cor havia ficado bonita na madeira e tudo que precisávamos fazer a partir de ali era não errar. Pamela e Tessa não pareciam estar muito afim de conversar, depois que as outras garotas se deitaram para tentar dormir um pouco o silêncio prevaleceu. Pamela cantarolava algumas músicas de vez em quando, mas cada uma parecia estar em seu próprio mundo enquanto pintava, com o sono provavelmente se intensificando cada vez mais. Olhava o relógio de tempo em tempo, sempre preocupada.
Levei cerca de meia hora para pintar minha primeira moldura. Quando estava na metade da segunda, levei um susto ao ouvir a voz de Vicky me chamando.
— Está funcionando? – ela perguntou.
— Espero que sim. – respondi. – Você não deveria estar dormindo.
— Aparento estar tranquila, mas sou muito ansiosa, principalmente com situações que envolvem pressão. – explicou.
— Terminei! – Tessa respondeu do outro lado da parede. Vicky e eu nos entreolhamos, como se aquilo tivesse acontecido rápido demais.
— Vou lá conferir. – Vicky disse em um tom mais baixo, indo rapidamente até lá e voltando segundos depois. Observei de relance e vi Tessa indo se deitar no colchão ao lado do de Thalia, logo conclui que suas molduras provavelmente estavam boas. – Acho que ela não fez nada de errado. – Vicky falou ao retornar.
— Menos mal. – comentei. – As duas não pareciam muito a favor da ideia.
— Elas não tinham escolha e muito menos uma ideia melhor. – afirmou. – Provavelmente ninguém pensaria em algo mais criativo do que isso.
— Se não der certo, sinto que vou ser caçada até a morte. – falei.
— Amy, seria injusto caçarmos a pessoa que até o momento está nos salvando da morte. – Vicky falou, soltando uma rápida risada. Algum tempo depois, Pamela também acabou suas molduras e Vicky já estava me ajudando a pintar minha terceira. Acordamos as meninas do segundo turno quando chegou o momento e eu acabei não dormindo também, para ajudar. Vicky e eu acabamos formando uma boa dupla, tanto para pintar quanto para garantir que as outras meninas também estivessem pintando.
— Só por curiosidade, por que você acabou escolhendo a Zeta Eta Beta? – Vicky me perguntou depois de muito tempo de conversa.
— Eu preciso ingressar uma irmandade para manter minha bolsa de estudos. – admiti. – Esse foi o melhor convite. – omiti a parte em que, na verdade, somente a Zeta Eta Beta havia me enviado uma carta. Vicky era legal, mas eu não era tão ingênua a ponto de revelar essa informação logo de cara. – E você?
— Minha mãe foi da Zeta Eta Beta, então sabe como é né, irmandades como essa sempre vão atrás de seus legados. – Vicky contou.
— Legados? – perguntei.
— Sim, quando alguém associado por sangue à algum ex-membro importante aparece na área, essa pessoa é vista como um legado, tipo uma continuação de uma linha deixada pela pessoa com quem é ligada. – ela tentou explicar. Algumas coisas pareciam fazer mais sentido para mim agora, como por exemplo o motivo de Tessa e Thalia estarem ali, provavelmente também eram legados.
Terminamos de pintar tudo às 7h da manhã. A tinta foi suficiente e, com sorte, tudo estaria seco, ou quase, até às 10h. O cansaço era tanto que acabamos ignorando a parte do plano em que permaneceríamos acordadas até o horário marcado. Assim que acabamos, Vicky, Rebecca, Thalia e eu, apenas nos deitamos em nossos colchões e adormecemos sem qualquer esforço.
Dizem que não se pode realmente dormir na guerra, talvez o mesmo se aplicasse àquela situação. Ao abrir nos olhos, podia jurar estar olhando para mais de dez pares de pés no chão. Esfregando o rosto, descobri que não estava ficando louca, haviam mesmo muitas pessoas em pé a nossa frente.
— ACORDEM! – a voz de Jennifer era inconfundível. Senti as meninas ao meu redor rapidamente levantarem e, mesmo sonolenta, fiz o mesmo. — O que vocês pensam que fizeram aqui?!?!?!? – aquela pergunta poderia ter milhões de sentidos, eu só esperava que um deles não fosse o fim da minha vida universitária.
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