Legacy

13 Capítulo 13 - "Help!"


Ainda bem que estava sem sono, pois tive que passar um bom tempo tentando convencer Charlie a esquecer aquela história, pelo menos por enquanto. Se ninguém lembrava de alguma coisa, existia pouco que pudesse ser feito, seria melhor para todos deixar aquilo passar, evitando possíveis problemas desnecessários.

— Não quero mentir para o meu irmão. – lamentou-se Charlie.

— Você não está mentindo Charlie, nem você mesma sabe o que aconteceu. – tentei convencê-la.

— Josh sempre descobre quando não conto alguma coisa, ele vai me matar. – continuou ela.

— Josh é uma das pessoas mais inofensivas que conheci na vida, Charlie. – falei. – E olha que só o conheço há poucos dias, mas já sei que ele não consegue ter raiva por muito tempo nem de uma mosca. – comentei. – Mas se isso realmente está te incomodando, existe uma solução. – Charlie estava tão desesperada que eu começava a me culpar por não a ter trazido comigo para o dormitório na noite passada. – Podemos ir em algum ginecologista e descobrir se vocês chegaram a tal ponto. – sugeriu. – O problema seria pagar por isso.

— Não tenho dinheiro para pagar uma consulta sozinha, e se eu contar para minha mãe, aposto que ela vem até aqui me levar de volta para casa. – disse Charlie.

— Não consigo imaginar sua mãe sendo assim rigorosa. – dizia isso baseando-me no que conhecia sobre Josh e Charlie, já que quando o assunto era mãe eu não tinha como saber muita coisa. – Talvez pudéssemos ir até a enfermaria do campus, alguém provavelmente irá te ajudar, mas isso significa ter que contar o que aconteceu.

— Essa é mesmo nossa única opção? – perguntou.

— Se você não quiser apenas esquecer tudo isso, sim. – afirmei. – Podemos ir amanhã no final da tarde.

— Soa como um bom plano. – ela concordou. – Obrigada por me salvar mais uma vez.

— Para isso que servem as companheiras de quarto. – brinquei. – Agora você deveria dormir um pouco.

— Acho que você tem razão. – disse Charlie. Já estávamos de pijama a essa altura do jogo, então só apaguei a luz e me joguei em minha cama, assim como Charlie.

O sono estava longe de chegar, mas não era por isso que iria atrapalhar a noite dela. Como se a vida lesse meus pensamentos, recebi uma mensagem em meu celular logo quando deitei. Não tinha o número salvo, porém ao desbloquear a tela encontrei a foto que havia tirado com Seth mais cedo.

“Desculpa a demora para enviar a foto, apesar de imaginar que você não esteja com sono hahahaha tudo certo por aí?” dizia a mensagem que acompanhava a foto.

“Tudo certo, tirando uma cabeça latejante e 0% de sono hahahah obrigada pela foto!” respondi.

Não esperava que ele fosse responder aquela mensagem, mas alguns segundos depois recebi outra notificação me informando que havia uma nova mensagem de Seth. Quando percebi, já tínhamos começado um diálogo via SMS.

Seth: Tirando a cabeça latejante, estou na mesma situação. Deitei para dormir, mas sem querer me peguei pensando no quão inesperado foi esse dia e acabei sem sono.

Amy: Pensei sobre isso também! E quando penso, faz menos sentido ainda hahaha

Seth: Hahahah entendo o que você quer dizer! Tão trágico quanto cômico.

Amy: Exatamente hahahah

Seth: É bom conversar com você, Amy, mas preciso voltar a tentar dormir. Ao contrário de hoje, amanhã terei aula :(

Amy: Sorte a minha que você não tinha aula hoje, se não teria acabado o dia dormindo no meio do campus hahaha

Seth: Eu não deixaria isso acontecer hahah nos vemos por aí?

Amy: Nos vemos por aí.

Seth: Boa noite, Amy. X

Flagrei-me sorrindo ao ler a última mensagem que ele havia enviado. Alguns pensamentos invadiram minha cabeça naquele momento, metade devido ao fato de eu não estar com sono, e a outra metade por estar pensando no quão gentil Seth foi comigo durante todo aquele ocorrido, a maioria das pessoas no mundo não teria demonstrado tamanhos cuidado e preocupação, eu deveria me sentir muito sortuda por ter sido socorrida pelos braços certos. E que braços!

Tive que me distrair mais um pouco até o sono aparecer, tentei ler um livro e vi mais algumas coisas no celular antes de adormecer. Acordei disposta no outro dia, assim como Charlie. Fizemos tudo rapidamente: nos arrumamos, tomamos café e seguimos caminho para as aulas da manhã.

As aulas de terça eram tranquilas, a manhã passou rápido, assim como a tarde. Charlie e eu não tínhamos muitas aulas em comum, já que o major dela era ciências biológicas, só teríamos uma aula em comum na quinta-feira, que era de ciências gerais. Mesmo assim, combinamos de estar em frente a enfermaria após nossas últimas aulas do dia, que terminavam as 17:20 da tarde.

Quando cheguei no local, Charlie já estava lá esperando. Trocamos poucas palavras antes de entrar no recinto. Éramos as únicas lá, então em uma questão de segundos uma mulher apareceu para nos atender.

— Oi, meninas! – cumprimentou-nos. – Sou a Lauren, no que posso ajuda-las? – olhei para Charlie, esperando que ela falasse, mas era como se ela tivesse congelado.

— É uma história um pouco complicada. – tomei a frente da conversa. – Será que poderíamos conversar com você em um lugar mais particular?

— Pode ser. – a mulher concordou, arregalando um pouco seus olhos escuros em uma demonstração de preocupação. Após concordar, ela nos guiou até uma salinha fechada. Possuía longos cabelos escuros e aparentava ser bastante jovem, parecia uma boa pessoa para pedir ajuda. Além de que, eu acreditava que quanto antes encontrássemos alguém para nos ajudar, mais rápido resolveríamos aquilo.

Na hora de explicar a história, Charlie travou novamente. Mais uma vez tomei as rédeas da conversa e contei tudo para Lauren. Por sorte, ela parecia verdadeiramente interessada em nosso problema e preocupada em nos ajudar, e eu praticamente implorava para que ela nos socorresse da forma que fosse possível.

— Infelizmente, não temos como realizar qualquer exame que sirva de ajuda com isso, já que não somos um hospital de verdade e ninguém que trabalha aqui possui a especialidade necessária. – Lauren explicou. – Mas eu realmente quero ajudá-las, foi uma ótima decisão procurar ajuda ao invés de ignorar isso. – era um alivio ouvir aquilo. — Vocês podem me dar licença por um segundo? Vou ver se consigo uma coisa. – consentimos com a cabeça e Lauren saiu da sala em que nos encontrávamos .

— Charlie, está tudo bem? – aproveitei o momento a sós para perguntar. – Você congelou.

— Desculpa, Amy. – ela disse. – É que eu nunca quis causar todos esses problemas e só não quero que algo de errado aconteça comigo, muito menos te prejudicar com isso também.

— Calma, vamos resolver isso. – prometi. – E não se preocupe comigo, só quero te ajudar.

— Meninas, boas notícias. – a voz de Lauren ressurgiu dentro da sala. – Trabalhei com uma ginecologista há um tempo atrás e ficamos bem amigas, ela disse que pode quebrar um galho para vocês. – aquela era provavelmente a melhor coisa que poderíamos ouvir naquele momento. – O escritório dela fica no centro da cidade e fecha às 19h, vocês podem ir para lá agora e ela disse que depois da última paciente atende a Charlie rapidinho e resolve isso.

— Lauren, nem sei como podemos te agradecer. – falei.

— Você salvou minha vida. – Charlie finalmente conseguiu pronunciar uma frase completa desde que havíamos chego ali. – Sério, muito obrigada!

— Foi um prazer ajudar vocês, é para isso que estou aqui. – Lauren disse sorrindo. – Só não contem isso para ninguém, já que não tem nada a ver com a universidade. – pediu ela.

Concordamos com o pedido dela e deixamos nossos números ali, caso ela precisasse da nossa ajuda para o que quer que fosse. Mesmo não imaginando Lauren nos ligando algum dia, era o mínimo que podíamos fazer. Quando saímos da enfermaria, já eram 18 horas, precisávamos encontrar um jeito rápido de ir até o consultório.

— Estamos consideravelmente longe do centro. – comecei a pensar. – Não podemos gastar com táxi até lá.

— Precisamos de um carro. – disse Charlie. E eu sabia exatamente quem tinha um carro, mas não podia simplesmente ligar para ele e pedir um favor aleatório. Charlie pareceu perceber que eu pensava em algo, ela me encarava a espera de uma resposta.

— Seth tem um carro, mas...

— Amy, você precisa ligar para ele. – Charlie disse com seriedade.

— Nos conhecemos ontem, e nem foi por escolha nossa. – falei.

— Ele não vai recusar um favor para você depois do dia de ontem. – talvez ela tivesse razão. – Por favor. – pediu.

Busquei meu celular na bolsa e procurei o número de Seth, clicando no mesmo em seguida. Não acreditava que estava fazendo aquilo. A chamada apitou apenas duas vezes antes de ser atendida, o que para mim era surpreendentemente rápido.

— Amy? – Seth atendeu. – Está tudo bem? – ele logo perguntou.

— Você está ocupado? – perguntei.

— Não, acabei de sair do treino. – respondeu. – Aconteceu alguma coisa?

— Posso te pedir um favor?

— Qualquer coisa. – Seth era inacreditavelmente gentil, talvez ele realmente fosse a pessoa certa para estar pedindo aquilo.

— Preciso de uma carona. – falei.

— Onde você está? – ele perguntou.

— Na enfermaria do campus. – respondi. Com a falta de informações, ele provavelmente iria pensar que eu quem estava precisando usar a enfermaria, mas tudo poderia ser explicado no caminho até o consultório da médica.

— Estarei aí em cinco minutos.— foi a última coisa que ele disse antes de desligar. Nem perguntou aonde iriamos ou qualquer outra possível dúvida em questão, era clara sua intenção de apenas ajudar. O azar de ter sido atingida no dia anterior estava cada vez mais parecendo se tornar sorte.