Legacy
14 Capítulo 14 - "Two is better than one"
Em menos de cinco minutos, o carro de Seth já estava ali. Ele não havia mentido quando me disse que era rápido. Aliás, todas as palavras pronunciadas com sua voz pareciam ser puramente verdadeiras por algum motivo que eu tentava compreender desde a noite passada.
— Você não me respondeu se estava tudo bem pelo celular. – Seth disse descendo do carro, segundos após estacionar. – Aconteceu alguma coisa?
— Estou bem, obrigada pela preocupação. – agradeci. – Dessa vez o problema não é comigo.
— Sou a Charlie. – ela se apresentou, estendendo a mão para Seth, que a cumprimentou.
— Sou o Seth, acho que nos conhecemos ontem durante a ligação. – ele disse, esboçando um simpático sorriso nos lábios.
— Você pode nos levar até o centro da cidade? – perguntei. – Explico tudo no caminho. – ao encarar meus olhos, Seth pareceu entender imediatamente que aquilo era importante.
— Claro. – ele concordou.
Sentei no banco da frente e Charlie no de trás. Lauren havia nos entregado um papel com o endereço exato do consultório, entreguei-o a Seth e ele disse que levaríamos uns 15 minutos até chegar lá. Daria o tempo perfeito. Expliquei para Seth somente a parte da história em que era extremamente importante comparecermos àquela consulta, Charlie me mataria se eu entrasse em mais detalhes. Sabia que ele provavelmente não engoliria aquele papo como a explicação completa, mas Seth parecia confiar em mim, como se o resto não importasse, desde que eu soubesse onde estava nos metendo.
Levamos o tempo previsto para chegar ao prédio no qual se situava o consultório. Se não estivesse preocupada com Charlie, estaria pensando sobre o fato de aquela ser a primeira vez que passeava pela cidade de Detroit, mas tínhamos compromissos maiores no momento. Esperamos das 18:35 às 19h, até uma mulher alta de pele negra e cabelos cacheados surgir por trás de uma porta.
— Alguma de vocês é a Charlotte Lambert? – ela perguntou, abrindo um sorriso radiante.
— Sou eu. – Charlie respondeu, visivelmente nervosa.
— Vamos lá então? – a mulher a convidou para entrar no consultório com ela.
— Você consegue, é só falar a verdade e deixar ela fazer os exames. – falei baixinho para Charlie, com um sorriso de incentivo. Dessa vez eu não poderia acompanha-la, ela precisava que aquele momento fosse reservado só para ela, além de que, não deixaria Seth sozinho esperando na recepção.
— Amy, sei que isso não é assunto meu e nem devo me meter, mas você não pode me culpar por estar ligando os pontos. – Seth começou a falar assim que Charlie entrou na sala de consulta. – Ela está grávida? – ele perguntou, parecendo verdadeiramente preocupado.
— Não, não é isso. – respondi rindo fraco, mas depois comecei a pensar sobre o comentário. – Pelo menos, espero que não. – estávamos sentados ao lado um do outro em um sofá com espaço para dois, encarando o nada. – Acho que você merece uma explicação, mas preciso implorar para que não conte isso a ninguém, Charlie ficaria arrasada. – pedi, virando meu rosto, a fim de encará-lo diretamente.
— Não tenho motivos para sair contando qualquer coisa, só quero ajudar. – não era difícil acreditar em suas palavras. Se essa não fosse a intenção, ele não estaria ali.
— Charlie bebeu mais do que deveria em uma festa no domingo e acabou acordando na cama de um cara que recém havia conhecido, sem lembrar de qualquer coisa. – contei. – E ela não consegue continuar sua vida sem descobrir o que aconteceu, por isso estamos aqui.
— Ela está certa, melhor prevenir do que remediar. – ele tinha razão, e se tudo desse certo sairíamos dali sem problema algum.
— Obrigada por nos trazer aqui. – agradeci. – Não queria te atrapalhar, mas não conhecia mais ninguém que pudesse nos ajudar.
— Não precisa agradecer, não atrapalhou nada. – seus olhos agora estavam fixos nos meus, só ao estar ali sentada perto dele foi que notei o quão cheiroso Seth estava, provavelmente havia tomado banho logo após o treino. Não fazia ideia de quanto tempo estava passando enquanto ele me encarava, só sei que eu não podia me perder daquela forma dentro do olhar de Seth. – Como foi seu dia? – ele puxou assunto.
— Mais normal do que eu esperava. – falei. – Assisti todas as aulas que tinha e não fui atingida por nada no meio do campus. – nós dois rimos com o comentário.
— Fico feliz ouvindo isso. – ele disse, trocando a risada por um sorriso. – O ponto em que a bola te atingiu ficou um pouco roxo. – Seth analisou. – Posso? – perguntou, colocando sua mão sobre minha testa. Acenei positivamente com a cabeça e ele pressionou levemente o machucado, da mesma forma que havia feito no dia anterior.
— Ainda dói bastante quando pressiona. – disse. – Mas se eu não encosto, já não sinto mais.
— Você deveria colocar mais um pouco de gelo antes de dormir. – aconselhou Seth.
— Pode deixar, doutor. – brinquei. Ele me olhou com uma expressão que dizia que sua intenção não era a de bancar o médico, nós dois acabamos rindo de novo. – Desculpa, é que agora que percebi no quão médico você está parecendo tomando conta de mim.
— É que me sinto responsável pela situação. – explicou-se.
— Viu, falou como um verdadeiro médico. – rimos mais uma vez.
Não foi necessário esforço algum para manter a conversa com Seth, o assunto fluía naturalmente e não se tornava uma conversa cansativa. Cerca de 20 minutos depois, a porta da sala se abriu e Charlie saiu de lá.
— E aí? – apressei-me em perguntar.
— Nada aconteceu! – ela contou, transbordando felicidade. – Quer dizer, nós ficamos e tem toda a parte que já sabíamos, mas fora isso, nada mais aconteceu!
— Isso é ótimo, Charlie. – disse sorridente.
— Obrigada pela ajuda. – agradeceu, me presenteando com um abraço apertado.
— Espero que hoje você durma tranquila. – falei no meio do abraço.
— Com certeza irei, prometo não surtar mais com isso. – o sorriso não saía mais do rosto de Charlie. – E obrigada a você também, Seth. – ela o agradeceu. Seth retribuiu o sorriso em resposta.
A volta de carro foi totalmente diferente da ida, Charlie havia sofrido uma mudança radical em seu humor, inclusive ela cantava todas as músicas da rádio bem alto, sem se importar com qualquer outra coisa. Eu ria sozinha, mas quando olhei para o lado percebi que Seth fazia o mesmo no volante.
— Vocês estão com fome? – ele aproveitou para perguntar durante o intervalo da rádio. – Poderíamos ir a algum lugar. – sugeriu. Parecia uma boa ideia, eu não comia desde o almoço.
— Eu não estou, obrigada. – Charlie respondeu. – Saí mais cedo da última aula e comi o maior cheeseburger que pude encontrar, com medo do que pudesse acontecer. – explicou.
— Hã? – questionei confusa. – Charlie isso não fez o menor sentido.
— Vai que algo de muito sério tivesse acontecido e eu fosse proibida de comer um cheeseburger, nunca me perdoaria por não ter tido uma última experiência. – Seth foi o primeiro a rir do comentário, ele me olhou como se pedisse desculpas, mas não tinha como não rir do que Charlie acabara de dizer. – Mas vocês deveriam ir, está claro que existem muitos assuntos para serem conversados. – Seth e eu nos entreolhamos, não entendendo o que ela queria dizer com aquilo. – É isso mesmo. – Charlie disse que como se lesse meus pensamentos, e possivelmente os de Seth também. – Ouvi as risadinhas enquanto estava lá dentro.
— Não podemos rir juntos? – perguntei.
— Claro que podem. – respondeu. – Só estou dizendo que deve existir uma conexão natural entre vocês para o destino uni-los através de uma bolada e ninguém se odiar.
— Charlie! – repreendi, indicando que talvez ela estivesse falando demais. Charlie apenas me encarou com um sorrisinho, dando a entender que queria me ajudar, apesar de eu nunca ter dito a ela que tinha qualquer interesse em Seth, ele só era um cara extremamente legal, gentil, atencioso e divertido, com incríveis olhos verdes, mas nada disso importava no momento.
— Ela é engraçada. – Seth disse para mim, referindo-se à Charlie e rindo discretamente dos comentários. A rádio voltou do intervalo e Charlie novamente se distraiu cantando. – Mas o que você acha da ideia? Me acompanha na busca por comida? – convidou, dividindo o olhar entre mim e o trânsito.
— Parece uma boa ideia. – aceitei. – Charlie, você não quer ir conosco mesmo assim? Ou prefere ficar no dormitório?
— Agradeço o convite, mas prefiro ficar no dormitório. – ela disse. – Honestamente, tudo que eu quero agora é deitar na cama e não me preocupar com nada.
— Só nós dois então? – Seth perguntou.
— Só nós dois. – respondi.
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