Legacy
31 Capítulo 31 - "Shaking minds"
Ao mesmo tempo em que um milhão de coisas não pareciam fazer sentido algum, outras começavam a se encaixar. O olha sério que os dois haviam trocado naquele dia em frente à casa da ZEB finalmente podia se explicar. Não conseguia definir se eu deveria de alguma forma me sentir idiota ou então simplesmente não me importar com nada disso. Sei que eu estaria sendo injusta se julgasse Seth me baseando naquela informação, mas era impossível não relacionar a personalidade de uma pessoa com as pessoas as quais ela escolhe ter perto de si, mesmo que em mínimos detalhes. Entretanto, era impossível relacionar pessoas tão diferentes em atitudes como Seth e Jenn, mais difícil ainda imagina-los juntos como um casal.
Derrubar os talheres que eu segurava talvez não tenha sido a melhor maneira de disfarçar a minha surpresa ao ouvir aquilo, porém foi uma ação totalmente inevitável.
— Você não sabia? – Katherine perguntou, percebendo minha reação.
— Não consigo nem imaginar! – eu disse espantada.
— Calma, Amy. – ela tentou amenizar. – Não sei o quão significante é a relação de vocês dois, mas já faz bastante tempo que os dois estiveram juntos.
— Eu e Seth nos conhecemos somente há duas semanas, não é nada sério. – revelei, sentindo-me um pouco estranha ao fazer isso. – Só realmente não consigo imaginar os dois juntos.
— Foi no primeiro ano dos dois aqui na universidade. – Katherine contou. – Lembro nitidamente da Jenn iniciando na Zeta Eta Beta quando eles eram super apaixonados. – continuou. – Ou, pelo menos, aparentavam ser. – disse. – Todo mundo achava que eles durariam por muito tempo, mas alguma coisa muito forte deve ter acontecido, porque o relacionamento dos dois acabou nem completando um ano.
— Não sei se estou curiosa, chocada ou me sentindo extremamente perdida no universo. – falei.
— Eu imagino. – ela disse. – O mais engraçado é que desde então, o Seth não foi visto com nenhuma outra garota no campus, por isso acho que você foi alvo de tantas fofocas e boatos, mesmo que as pessoas não saibam de quem especificamente estão falando.
— Isso faz todo o sentido do mundo. – refleti em voz alta. – Estava tentando entender até agora o porquê de estarem falando tanto, se era algum tipo de cisma ou simplesmente um excesso de fofoca muito alarmante.
— Por mais que o Sistema Grego não tenha como se defender em relação a fofocas, certos casos são mais chamativos do que outros. – Katherine comentou. – Ele também é do time de futebol, certo? – perguntou. – Isso com certeza só intensifica o interesse das pessoas.
— Mas Kath, o que você quis dizer com tomar cuidado? – questionei.
— Quis dizer que, por mais orgulhosa que a Jenn seja, ela também é muito ciumenta. – revelou. – Você chegou agora e as pessoas já aparentam gostar de você. – comentou. — Além disso, o ex-namorado dela aparenta gostar muito de você, isso pode fazer com que certos sentimentos negativos subam a cabeça dela, ainda mais por não sabermos como se deu o fim do relacionamento dos dois.
— Ok, acho que entendi. – falei. – Não sei o que pensar. – admiti. – Ela nos viu juntos perto da casa da ZEB no dia de alguma das reuniões.
— Você não precisa mudar suas atitudes por causa disso, foi só um alerta. – Katherine lembrou.
— Obrigada, acho que eu jamais descobriria. – agradeci.
— Descobriria, baseando-se na primeira regra do Sistema Grego. – rimos juntas com o comentário, apesar de eu ainda estar um pouco nervosa com toda essa descoberta.
Nossa janta não se estendeu muito mais além daquele último tópico. Fora extremamente incrível ter saído e conversado com Katherine, era muito reconfortante saber que eu poderia contar com o apoio e proteção dela. Embora os momentos positivos tivessem sido de maior peso, não consegui parar de pensar sobre Jenn e Seth. Eu tinha total consciência de que estaria sendo idiota ao me incomodar com isso, mas às vezes os pensamentos eram automáticos.
Fiz o maior esforço possível para não deixar que aquilo tomasse conta da minha cabeça durante os dias seguintes, porém isso durou somente até segunda à noite, quando eu, Bri e Charlie estávamos reunidas em nosso quarto do dormitório para discutir tudo o que precisássemos.
— Falei com alguns amigos que me informaram que, nas terças e quintas, realizam-se reuniões no hall principal, então não seriam boas opções de dias. – Bri informou. – Sexta-feira o campus geralmente está muito movimentado, sobram segunda e quarta.
— Ok, tudo isso faz sentido. – aceitei. – Mas como iriamos conseguir as filmagens da câmera?
— Esse é um bom questionamento. – Bri disse. – Minha ideia é conversarmos com algum garoto da Upsilon Theta e ver se poderiam nos ajudar com essa parte. – sugeriu. – O problema é que não confio em nenhum deles.
— Não conheço muitos deles. – falei. – Só o Dan e o Peter.
— Dan não é confiável. – Bri afirmou. – Mas quem seria esse tal de Peter?
— Por que o Dan não é confiável? – perguntei. Ele parecia uma boa pessoa no dia em que nos conhecemos.
— Não se confia em presidentes de fraternidades. – ela disse.
— Mas nós confiamos em você. – Charlie falou, referindo-se a Bri.
— É diferente, diria que somos consideravelmente amigas. – Bri explicou.
— Fico feliz que sejamos consideravelmente amigas. – falei em tom divertido, resultando em uma troca de sorrisos. – Peter é meu parceiro de laboratório nas aulas de química, também é o primeiro ano dele na Cadillac. – contei. – Só não sei se ele seria confiável, até porque ele aparenta me detestar.
— Ninguém te detesta, Amy. – Charlie disse, como se me defendesse.
— Obrigada, Charlie. – agradeci sorridente. – Mas acho que nenhuma pessoa no mundo um dia irá agradar a todos.
— Quando é a sua próxima aula de química? – Bri perguntou.
— Quarta-feira. – respondi.
— Será que você teria como dar um investigada nisso? – ela pediu. – Tentar ver, de maneira discreta, se ele seria a pessoa ideal para nos ajudar.
— Talvez seja uma missão complicada, mas sim, sem problemas. – concordei.
— No dia, vamos precisar que algumas pessoas distraiam os guardas. – Bri também alertou.
— Podíamos chamar o Seth, ele seria... – Charlie começou a sugerir.
— Não! – interrompi involuntariamente, fazendo com que as duas me encarassem assustadas.
— Não?! – Charlie questionou.
— Amy, o que aconteceu? – Bri foi direto ao ponto.
— Nada, só acho que deveríamos envolver o mínimo de pessoas possíveis. – tentei disfarçar.
— Você pode nos contar o que aconteceu, — Bri insistiu.
— Nada, Bri. – falei. – Só descobri algumas coisas.
— Que tipo de coisas? – ela perguntou.
— Não é nada demais. – garanti.
— Se não fosse, você não aparentaria estar tão incomodada. – Charlie disse.
— Descobri que ele já namorou a Jenn. – contei, não adiantaria continuar disfarçando, elas não deixariam de insistir.
— Jenn?! A presidente malvada da sua irmandade?! – Charlie perguntou surpresa.
— Exatamente. – confirmei.
— Foi há bastante tempo, Amy. – Bri tentou ajudar.
— Eu sei que foi. – falei. – Só não consegui assimilar os fatos ainda.
— Concordo que seja algo difícil de se imaginar. – Charlie comentou.
— Mas não deixa com que uma coisa que atualmente não existe te estresse. – Bri aconselhou.
— Você tem razão. – concordei.
Conversamos mais um pouco além disso, mas o assunto não aflorou muito. Decidimos que eu tentaria falar com Peter na quarta e que a melhor maneira de realizarmos tudo aquilo seria agindo com calma. Bri foi embora perto da meia noite e em seguida Charlie eu logo nos preparamos para dormir. Estavas prestes a desligar a luz da minha luminária de cabeceira quando senti Charlie sentando na beirada da minha cama.
— Amy, está realmente tudo bem? – ela perguntou, parecendo verdadeiramente preocupada.
— Sim, tudo bem. – eu afirmei, esboçando um sorriso sincero ao perceber a preocupação dela.
— Se você estivesse tento uma daquelas crises por causa de lendas como a do “não namore no seu primeiro ano de faculdade”, eu entenderia. – Charlie disse séria, mas era impossível não achar o tom dela engraçado. – Porém não acho, de verdade, que a ex-namorada do Seth deva ser um problema, mesmo que ela seja uma das pessoas mais desagradáveis do mundo.
— Não sei exatamente de que lendas você está falando, mas juro que está tudo bem. – disse rindo fraco. – Eu só conheço o Seth há duas semanas, não sou iludida o suficiente para deixar que uma coisa dessas me irrite. – tentei explicar. – Só estou intrigada porque não consigo entender como os dois puderam existir juntos. – falei. – Ela é realmente a pessoa mais desagradável que conheci desde o primeiro dia, enquanto ele é o total contrário disso.
— Eu entendo, e não poderia concordar mais. – Charlie falou. – Não estou dizendo que é errado isso te incomodar de alguma forma, só não deixa de agir naturalmente por causa de algo que, em teoria, não tem nada a ver com você.
— Obrigada, Charlie. – agradeci pelas palavras.
— E sei que pode ser que não signifique nada e que não exista algo mais sério entre você e o Seth, mas ele realmente parece uma boa pessoa. – ela acrescentou.
— Isso é verdade. – concordei. – Não sei quantas pessoas no mundo teriam me ajudado como ele naquele dia. – lembrei.
— Daqui alguns anos, talvez essa seja uma daquelas histórias engraçadas. – Charlie disse.
— Realmente. – concordei rindo.
— Talvez não venha ao caso agora, mas preciso comentar o fato de que a Bri ficou muito feliz ao te ver com o Seth na festa. – ela contou.
— A Bri? – perguntei. – Por quê?
— Pode ser coisa da minha cabeça, mas acho que ela ainda tem muito interesse no meu irmão. – Charlie disse. – E sei que ela suspeitava que vocês dois estavam interessados um no outro.
— Eu e Josh?! – questionei surpresa.
— Eu sei! – Charlie disse em tom divertido. – Mas você não pode culpa-la, vocês passam bastante tempo juntos.
— Pensando bem, talvez faça sentido, mesmo que eu não consiga imaginar. – falei, aceitando a teoria. – E falando em Josh, percebi agora que parece fazer muito tempo desde que o vimos pela última vez.
— Isso é saudade? – Charlie perguntou, com uma expressão de quem não conseguia ver uma resposta positiva para sua pergunta.
— Será? – questionei rindo. – Não podemos negar que ele faz falta. – disse em tom de brincadeira, mas a frase tinha um fundo de verdade.
— Depois de 18 anos vivendo com ele no interior, podemos negar a falta dele por alguns dias sim. – ela contestou séria, porém não conseguiu evitar também a risada.
— Às vezes esqueço que vocês são do extremo interior. – comentei.
— Vou aceitar isso como um elogio. – Charlie falou, fazendo com que acabássemos rindo novamente. – Acho que está na hora de dormirmos, você está começando a ter sentimentos estranhos. – ela brincou.
— Ok, justo. – concordei com o comentário.
— Boa noite. – Charlie disse ao mesmo tempo em que se levantava e voltava para sua cama.
— Boa noite, Charlie. – falei, em seguida apagando por fim minha luminária.
De forma habitual, milhões de pensamentos invadiram minha cabeça naquele período inicial de tentativas de dormir. Não era como se eu não estivesse cansada após um dia completo de aulas, entretanto a possibilidade de não refletir sobre os muitos acontecimentos não existia. Ficaria muito feliz se Charlie estivesse certa em sua teoria sobre Bri ainda ter interesses pelo Josh. Eu acreditava no quão errado ele fora com ela, mas também apoiava que ele tivesse direito a uma segunda chance. Josh era sem dúvida uma das pessoas que mais me ajudara desde o primeiro dia, se não a que mais me ajudou, e via muita semelhança entre ele e Bri nesse sentido
Do outro lado da cabeça, meu cérebro batucava ainda a recente descoberta sobre Seth e Jenn. Era difícil expor aquela situação em sentimentos sem aparentar ser alguma maluca com ciúmes, eu juraria por tudo que não se tratava disso, mas nem sempre teria a oportunidade de ser tão clara. Coincidentemente, Seth não falava comigo desde a última vez em que havíamos nos visto. Sei que eu não tinha direito algum de esperar ou exigir algo, levando em conta que eu ignorara sua ligação por muito tempo da última vez, mesmo que sem intenção. Talvez fosse melhor que nem nos víssemos naquela semana, assim eu teria um pouco mais de tempo para assimilar a informação e agir de forma totalmente natural perto dele. Entretanto, não sei se meu subconsciente seria capaz de negar um convite dele para sair, caso este acontecesse, eu precisava de um motivo plausível. Precisava não, porque eu tinha, mas talvez eu jamais me recordasse daquilo se o meu celular não tivesse vibrado simultaneamente à esta reflexão. Sem nem pensar, dirigi meu olhar para a tela acesa bloqueada, onde se encontrava uma mensagem de Scooter.
“Só passando para lembrar que você prometeu comparecer à minha festa de aniversário nesse final de semana. Lembrando também do nosso acordo: sem acompanhantes. Vejo você em alguns dias!”
Quase que em um gesto de irritação, imediatamente bloqueei a tela do aparelho. Algo me dizia que aquela seria minha semana mais desagradável na Cadillac, mesmo depois da Hell Week. E o pior de tudo era que: estava apenas começando.
Fale com o autor