Legacy

32 Capítulo 32 - "Sudden unforeseen"


Decidi que não iria permitir a mim mesma se preocupar com o aniversário de Scooter até que aquela semana tivesse simbolicamente acabado, ou seja, até sexta-feira a noite. A boa parte dessa festa era que, se por acaso Seth me convidasse para fazer algo, eu teria um motivo para não aceitar, e, consequentemente, ganharia um tempo a mais para me normalizar com as informações. A parte ruim era que, não seria muito legal se eu tivesse que especificar o motivo para Seth. Entretanto, não deixei com que essa preocupação precipitada tomasse conta da minha cabeça também.

A terça-feira não foi tão ruim quanto o imaginado, tive aulas normalmente durante o dia e minha segunda aula de teatro no final da tarde. As aulas de teatro estavam sendo bastante tranquilas por enquanto, mas o professor dissera que conforme tudo fosse se intensificando, futuramente poderíamos inclusive juntar nossa turma de primeiro ano com a outra que já estava há mais tempo. Passada a terça, preparei-me psicologicamente para conversar com Peter na aula de química no dia seguinte, o momento surgiu mais ou menos na metade da aula, enquanto trabalhávamos na análise de uma experiência.

— Peter, posso te fazer uma pergunta um pouco pessoal? – pedi ingenuamente.

— Agora?! – ele questionou, nem sequer dirigindo o olhar a mim.

— Já passamos da parte complicada. – falei. – E não custa nada nos tratarmos com gentileza.

— Tá, pode perguntar. – Peter cedeu. – Desde que não nos atrapalhe.

— Qual é o seu major? – perguntei.

— Por que você quer saber? – ele questionou.

— Curiosidade. – eu disse. – Você é um gênio da química, mas por algum motivo sinto que talvez você tenha outras áreas nas quais também se dá tão bem quanto.

— Isso foi um elogio? – perguntou.

— Talvez. – afirmei.

— Eu não tenho um major definido. – ele contou. – Estou fazendo matérias que poderiam me garantir tanto em áreas da química, como em cálculo, mecânica ou tecnologia.

— Uou, muitas coisas. – comentei. – Como você dá conta?

— Estou acostumado, no colégio eu também fazia aulas a mais. – Peter explicou. – Mas e você, qual é o seu major?

— Jornalismo. – contei.

— Jornalismo? – ele perguntou surpreso. – O que você está fazendo aqui então?

— É um motivo um pouco secreto. – falei. – Eu posso confiar em você?

— Se eu fosse você, não confiaria em alguém que conheci em tão pouco tempo. – Peter disse. – Mas se eu ainda fosse você, confiaria em mim.

— Não sei se isso fez sentido. – eu disse, um pouco confusa.

— Você pode confiar em mim. – ele falou, dessa vez dirigindo seu olhar em encontro ao meu, o que realmente fez com que eu acreditasse em suas palavras.

— Eu ganho uma bolsa de estudos para estudar na Cadillac. – revelei. – E ela tem algumas condições, uma delas é cursar alguma matéria não necessária na grade do meu major. – expliquei. – Então escolhi química, já que foi algo de que sempre gostei na escola.

— Normalmente não digo isso, mas você também é muito boa aqui no laboratório. – Peter elogiou, para minha surpresa.

— Depois dessa eu ganhei meu dia! – exclamei, feliz em ouvir aquilo. Peter até esboçou um leve sorriso em resposta. – Meu Deus, será que eu acabei de ver meu parceiro de laboratório, Peter Lewinsky, sorrindo de verdade? – perguntei entonando uma voz de espanto. – Inacreditável!

— Você pode me chamar de Pete. – ele disse. Nós dois rimos com o comentário.

— Eu sabia que você só estava se fazendo de difícil esse tempo todo. – brinquei, cessando a risada com um sorriso.

— Fico feliz em ver que vocês estão se dando bem, mas sou infelizmente obrigado a pedir que não façam muito barulho aqui dentro. – levamos um susto ao ouvir a voz do professor Eddie interrompendo nossa conversa. Achei que Peter ficaria irritado nesse momento, mas ele apenas pediu desculpas ao professor e depois compartilhamos um sorriso divertido antes de voltar ao trabalho.

Quando a aula acabou, saímos juntos do laboratório. Foi nesse momento que aproveitei para explicar a ele a situação das irmandades, aproveitando para pedir ajuda quanto ao plano da câmera. Surpreendentemente, Peter foi super prestativo e compreensivo, fazendo questão de entender e escutar sobre todo o ocorrido.

— Eu poderia te ensinar algum modo de transferir as filmagens de forma rápida. – ele sugeriu. – Mas talvez fosse melhor se eu mesmo o fizesse.

— Você quer dizer, tipo, participar do plano? – perguntei.

— É. – confirmou. – Desde que fosse algo organizado e verdadeiramente secreto.

— Não sabia que você tinha esse lado audacioso. – comentei.

— Sou um cara bastante discreto quanto a minha personalidade. – ele disse em tom divertido, porém era fato que falava a mais pura verdade. – Vou pensar na melhor maneira de realizarmos tudo isso e conversamos novamente na segunda, pode ser?

— Claro. – concordei. – Nem sei como te agradecer.

— Você não precisa. – ele disse. – Mas se quiser fazer algo legal por mim, você poderia dizer que eu sou um cara legal para a sua amiga.

— Calma aí, que amiga? – perguntei curiosa, quase sem entender o que estava acontecendo.

— Charlotte. – Peter respondeu.

— Charlie?! – questionei surpresa. – Vocês se conhecem?

— Não exatamente. – falou. – Nós fazemos aula de ciências tecnológicas juntos.

— E você é afim dela? – perguntei, erguendo simultaneamente as sobrancelhas e um sorriso.

— Eu só acho ela legal. – Peter disse timidamente. – E divertida.

— Certo. – eu falei, ainda sorrindo. – Conversamos segunda então.

— Combinado. – ele também ergueu um sorriso sincero nos lábios antes de nos despedirmos.

O mundo era realmente muito pequeno, mas talvez toda aquela conversa com Peter tivesse sido o momento mais interessante da minha semana. Claro que muitas emoções provavelmente ainda aguardavam o fim de semana, entretanto já estava mais do que satisfeita em ter vivido uma quarta-feira extremamente positiva, ao contrário do que eu esperava.

Descobri almoçando com Bri e Charlie na sexta, que toda a Sigma Psi havia sido convidada para a festa do Scooter, então eu teoricamente nem precisaria me preocupar com a condição dele de não levar acompanhantes. As duas riram quando eu perguntei o que seria uma boa ideia de presente para ele, dizendo que não se levava presente nesse tipo de festa de aniversário. Mesmo assim, passei na loja de souvenires e comprei um bonequinho personalizado com a camiseta dos Pistons, que parecia com Scooter. Coincidentemente, ou por alguma força maior do universo, quando estava voltando para o dormitório no fim daquela tarde de sexta, encontrei quem eu estava tentando evitar desde o começo da semana.

— Amy! – ouvi a voz de Seth me chamando. Congelei por alguns segundos antes de me virar para trás e encontra-lo.

— Seth. – por algum motivo eu ficara instantaneamente nervosa.

— Tudo bem com você? – ele perguntou sorridente, o que não ajudava nem um pouco a situação. O cabelo dele estava um pouco molhado e era impossível não notar o quão cheiroso ele se encontrava, logo deduzi que provavelmente havia acabado de sair do treino.

— Tudo certo. – respondi, retribuindo o sorriso. – E com você?

— Também. – Seth disse. – Desculpa não ter te chamado durante a semana, foi uma correria. – ele explicou. – Teremos nosso primeiro jogo no sábado e vai ser fora de casa, então esse também é o motivo que vai me impedir de te convidar para fazer alguma coisa nesse final de semana.

— Não se preocupa, eu entendo perfeitamente. – falei. O destino estava, de fato, agindo a meu favor naquela semana. – Meus últimos dias também foram bastante agitados. – comentei. – Tenho certeza que vocês se sairão bem no jogo.

— Tomara. – ele falou. – Você está indo para o dormitório?

— Isso. – confirmei.

— Quer que eu te acompanhe? – perguntou.

— Não precisa. – respondi. – Não quero te atrapalhar.

— Não estaria. – Seth disse. Era difícil tentar evita-lo quando ele era o ser humano mais gentil e atencioso do mundo.

— Mesmo assim, preciso ir rápido. – insisti.

— Coincidentemente eu sou um runningback. – ele falou em tom divertido.

— É, mas mais rápido do que isso. – tentei enrolar, mesmo sabendo que minhas palavras começavam a nem fazer sentido. – Até mais, Seth. – me despedi, apressando o passo na direção contrária e esboçando um leve sorriso antes de fazer isso.

— Ok. – pude ainda ouvi-lo dizer. – Nos vemos por aí então.

O dia seguinte passou tão rápido quanto a minha ida até o dormitório depois de ter encontrado Seth. Eu me sentia mal por ter agido daquela maneira, mas era como se eu soubesse de um segredo sobre a vida dele que não deveria saber.

Não dediquei muito do meu tempo para me arrumar. Como a festa começava às 21h, fui com Charlie até a casa da Omega Gamma, porém nos separamos ao chegar lá pois eu não estava nem um pouco afim de receber falsas acusações do Scooter dizendo que eu havia levado alguém. Quando atravessei a porta da casa, ele recepcionava alguns convidados ali na frente e logo me viu.

— Agora a festa oficialmente pode começar, minha convidada especial chegou. – ele disse ao se aproximar de mim. Revirei os olhos com a brincadeira. Parte de mim o achava extremamente divertido, e a outra parte simplesmente dizia para que eu mantivesse a maior distância possível dele.

— Isso é para você. – eu falei entregando o pequeno pacote de presente. – Feliz aniversário.

— Um presente?! – perguntou, surpreso. – Não esperava por isso. – Scooter disse esboçando um sorriso, ele parecia verdadeiramente feliz ao receber um presente. – Obrigado, Amy Jenkins!

— Não precisa agradecer. – falei.

— Será que você pode me encontrar aqui na sala em uma hora? – Scooter pediu. – Acredito que os convidados já estarão mais distraídos e gostaria de conversar um pouco com você.

— Por qual bom motivo eu deveria simplesmente concordar com isso? – perguntei, mesmo sabendo que não tinha nada a perder já estando ali.

— É meu aniversário. – ele disse sorridente.

— Ok, levarei em consideração. – falei.

— Ótimo. – Scooter disse. – Vejo você em uma hora então.

Procurei Charlie para passar a uma hora que teria de esperar. Tomei o cuidado de não tomar ou comer qualquer coisa que aparentasse estranha ou diferente, não sabia o que Scooter tinha de tão importante para tratar comigo, mas tinha a certeza de que gostaria de estar totalmente consciente quando aquela uma hora se esgotasse.

Pela primeira vez naquela semana, o tempo pareceu se arrastar. Entretanto, quando uma hora havia se passado, eu estava pontualmente presente na sala de entrada da casa da Omega Gamma, onde Scooter já me esperava.

— Previsivelmente pontual. – ele disse ao me ver novamente.

— Diria o contrário sobre você. – falei em tom divertido, causando a risada dele.

— Você é engraçada. – comentou. – Poderia me acompanhar, Amy Jenkins? – ele convidou, estendendo sua mão direita para que eu a segurasse.

— Não acho que eu tenha melhor opção. – falei, segurando a mão de Scooter. Ele depositou um beijo em minha mão logo em seguida e depois me ofereceu o braço para que eu o acompanhasse, como um verdadeiro cavalheiro.

Caminhamos por um corredor naquele mesmo andar, que nos levou até uma escada para baixo, direcionada a uma única porta. Scooter abriu a mesma e fez um gesto para que eu a adentrasse primeiro.

— Não vai nem me informar aonde estamos indo? – eu perguntei.

— Meu quarto. – ele respondeu sutilmente. Encarei seus olhos por alguns segundos antes de entrar no cômodo.

— Não vai nem me perguntar porque estamos entrando no meu quarto a sós? – Scooter perguntou, com um tom de ironia por trás de sua voz.

— Eu posso me garantir sem saber dos seus motivos. – respondi confiante, olhando ao redor ao mesmo tempo em que Scooter acendia a luz e fechava a porta atrás de nós.

— Sua autoconfiança é contagiante, de alguma forma. – ele comentou.

— Obrigada. – agradeci, mesmo sem saber se aquilo era um elogio.

— Esse quarto não é exatamente meu, mas sim de todo e qualquer presidente da Omega Gamma. – Scooter contou. – E sempre que ele é repassado de presidente para presidente, algumas informações são reveladas.

— Interessante. – comentei, esperando que ele continuasse.

— Por isso estamos aqui, Amy. – ele disse. – Talvez eu arrisque toda a história da Omega Gamma ao fazer o que estou prestes a fazer, mas por algum motivo eu confio e você e sinto que alguma coisa em você é muito misteriosa e precisa ser desvendada.

— Isso está ficando um pouco assustador, Scooter. – falei.

— Eu sei, preciso que você confie em mim também. – falou enquanto dava alguns passos em direção a uma estante de seu quarto e a afastava para o lado. Surpreendentemente, havia uma nova porta atrás do móvel. – Atrás dessa porta, encontra-se o santuário da Omega Gamma, muitos acham que ele não existe e é só uma lenda. – contou. – Entretanto, só os presidentes têm acesso a ele, já que não levamos fama por sermos cuidados com nossas propriedades.

— É realmente muito legal que isso exista. – eu disse. – Mas não entendo o que eu tenho a ver com isso.

— Você está prestes a descobrir. – Scooter avisou. – Aqui dentro, cada presidente deixou uma foto sua acompanhada por um objeto de relíquia e uma citação em seu nome, como forma de um memorial. – explicou. – Gostaria de te mostrar um destes. – ele disse, estendendo a mão para que eu o acompanhasse novamente.

Scooter tirou uma chave do bolso, com a qual abriu a porta secreta. A sala tinha o mesmo tamanho do quarto e era exatamente como eu imaginava pela descrição de Scooter: repleta de imagens nas paredes, seguidas pelos objetos e citações de cada um que presidira aquela fraternidade. Fiquei vidrada olhando ao redor e tentando analisar os detalhes daquele ambiente, ao mesmo tempo Scooter foi me guiando até um retrato no canto final da sala. E, para minha surpresa, eu conhecia o garoto situado naquela foto.

— Consegue reconhecer? – Scooter perguntou, mas minha expressão de espanto já era suficiente para responder aquela pergunta.

— Meu Deus! – não pude evitar exclamar. – É o meu pai!?