Legacy
23 Capítulo 23 - "Hold the dreams on"
Não sabia por quanto tempo havia fechado meus olhos, mas ao abri-los novamente eu ainda estava envolvida no braço de Seth. O céu continuava escuro e eu sentia mais frio do que anteriormente. Um de meus braços abraçava Seth por cima da região do abdômen, e apesar de eu não me lembrar de feito aquilo, dessa forma conseguia sentir o quão gelado estava o corpo dele.
— Seth? – chamei, erguendo a cabeça por cima de seu braço, para poder enxergar o rosto dele, que se encontrava adormecido. – Seth, odeio quando fazem isso comigo, mas você precisa acordar. – disse, me sentando e agora falando próxima de seu ouvido, a fim de que ele realmente escutasse dessa vez. Pensei ter falhado mais uma vez, entretanto, um sorriso se formou nos lábios dele. – E não é esse sorriso que vai me convencer a não te fazer acordar. – sorri também ao observa-lo, e, em seguida, ele abriu os olhos.
— Eu juro que não pretendia ter adormecido. – Seth disse, também erguendo o corpo e sentando-se na grama.
— Não acredito que você não ficou acordado para me proteger das aranhas. – brinquei em um falso tom de repreensão, ao ver que ele realmente se sentia culpado por aquilo. Seth fez uma expressão de quem estava verdadeiramente decepcionado consigo mesmo, mas depois acabou rindo junto comigo.
— Já disse isso, mas você é, de fato, uma ótima atriz. – ele falou sorrindo.
— Obrigada, Seth. – agradeci. – E você, até onde eu entendo, é um ótimo runningback. – elogiei. – Como defensor não sei sai tão mal também. – falei sorrindo, lembrando da noite passada. Na verdade, não tinha certeza alguma se estava certa ao dizer noite passada, não fazia ideia de que horas eram. Puxei meu celular do bolso da jaqueta de Seth, a qual eu vestia e onde eu havia o deixado noite passada. O relógio indicava 5:41, o que explicava o céu ainda estar escuro e o frio mais intenso. Isso me fez lembrar do quão gelado estava o corpo de Seth. – Eu adoraria ficar mais tempo aqui no seu lugar preferido do campus, mas não gostaria que você congelasse, então acho que deveríamos procurar um local mais protegido.
— Tudo bem, eu reconheço que a temperatura está bastante fria agora. – Seth admitiu. – Você está com fome? – nem havia parado para pensar nisso, mas ao ouvi-lo tocar no assunto, percebi que não comia há muito tempo. Só o café da madrugada não poderia ser capaz de me sustentar pelo resto da manhã.
— Agora que você falou, percebi que estou com fome mesmo. – falei.
— São 5:45. – ele disse, também olhando em seu celular. – Se você só tem que estar na casa da ZEB às 10h, poderíamos ir tomar café da manhã em algum lugar fora do campus, ou então no Rise de novo.
— Ai meu Deus! – exclamei nervosa, ao lembrar de tudo que eu deveria ter me lembrado horas atrás antes de aceitar o convite de Seth para sair da festa. Estar na casa às 10h estava longe de ser a única coisa que eu precisava fazer. Eu havia totalmente ignorado a tarefa dos seguidores e agora faltavam menos de 5 horas, sendo que eu não conhecia ninguém dos rostos apresentados, com exceção de Scooter. E, mesmo que ele me ajudasse, ainda seria necessário que mais alguém me seguisse.
— Amy, o que aconteceu? – Seth perguntou, demonstrando preocupação. Eu expliquei toda a situação, apesar de me sentir idiota falando tudo aquilo para um cara tão legal como ele, provavelmente a coisa toda estava soando trinta mil vezes mais fútil do que já era.
— Nem imagino o quão sem sentido tudo isso deve estar parecendo para você. – falei ao terminar de explicar.
— Nem tanto. – ele disse. – Por ser da Alpha Xi, convivo com a ZEB há três anos, já estou acostumado a presenciar esse tipo de situação. – contou. – Mas preciso admitir que para mim realmente não faz muito sentido. – Seth soltou uma risada fraca. – E não consigo imaginar isso fazendo sentido para você também. – admitiu. – Pretendia te perguntar ontem o porquê de você estar se candidatando na Zeta Eta Beta, só que acabei esquecendo.
— Você promete guardar segredo? – perguntei. – Não que seja algo secreto ou que interessaria alguém, mas é estranho e ainda me deixa bastante confusa.
— Eu prometo. – Seth disse, olhando diretamente em meus olhos.
— A Zeta Eta Beta foi a única irmandade que me enviou uma carta. – contei. – O resto você já sabe: eu realmente preciso ingressar uma irmandade, por causa da bolsa de estudos.
— Isso é muito estranho, Amy. – concordou. – Não que eu seja um grande entendedor das coisas que acontecem no Sistema Grego, mas o normal é você receber no mínimo umas três cartas. – Seth falou. – Independentemente de quem você seja, existem várias irmandades e fraternidades que sempre estão querendo aumentar seu número de pessoas e enviam convites para todos os interessados, é extremamente improvável você receber apenas uma carta.
— Eu não consigo entender nada nessa história. – confessei. – Me dei super bem em outras irmandades, na ZEB nada de especial aconteceu, fiquei chocada quando recebi a carta. – a expressão de Seth era intrigada, como se houvesse alguma coisa a se desvendar por trás de tudo aquilo.
— Isso é realmente muito estranho, mas teremos que desvendar esse mistério depois. – Seth disse, ao mesmo tempo em que se levantava e estendia o braço para que eu fizesse o mesmo. Segurei sua mão e rapidamente me levantei. – Agora temos que conseguir dois seguidores supostamente importantes para você, porque eu me sentiria totalmente culpado se sua bolsa fosse cortada por um motivo como esse.
— O problema é que nem sei por onde começar. – admiti.
— Mas iremos dar um jeito. – Seth disse confiante, apertando levemente minha mão. – Você pode citar alguns dos nomes que são considerados enquanto saímos aqui, depois podemos ir atrás de algumas dessas pessoas.
— Às 6h da manhã? – perguntei, rindo rapidamente da situação, mas feliz com todo o apoio vindo de Seth.
— Você é uma ótima pessoa para acordar os outros calmamente. – Seth brincou enquanto começávamos a caminhar pelo campo, em direção às escadarias que levavam ao vestiário. Ele passou seu braço esquerdo ao redor de meus ombros, o que foi certamente muito aconchegante, principalmente pelo frio repentino da madrugada. Usei meu braço direito para abraça-lo pelas costas e novamente pude sentir seu corpo gelado.
— Eu me sinto muito culpada quanto a isso. – falei, quando já estávamos descendo os degraus para o vestiário. Mesmo sem mencionar diretamente o que eu falava, Seth pareceu entender.
— Não se preocupa com isso, Amy. – ele pediu enquanto adentrávamos o recinto. – Mas se faz você se sentir melhor, eu posso pegar um moletom aqui no meu armário. – disse parando e apontando para o ponto do vestiário onde encontravam-se suas coisas.
— Eu definitivamente me sentiria melhor. – concordei com a ideia. Seth aproximou-se de seu armário e realizou a combinação do cadeado para abrir o mesmo. Por estar mais distante, não pude enxergar muitas coisas, mas o moletom que ele tirou lá de dentro era bordô com o símbolo dos Risers na frente e o nome dele atrás, juntamente com o número 7.
— Esse moletom com nome e numeração é exclusivo dos jogadores. – ele contou. – Mas se por acaso você virar uma fã dos Risers, pode conseguir um na lojinha da universidade. – continuou. – Ou melhor, eu conseguiria um para você. – Seth disse sorrindo, ao se aproximar novamente de mim, já vestindo o moletom.
— Por algum motivo desconhecido, esse moletom combina muito com você. – analisei, também sorrindo.
— É muito bom saber disso, obrigado. – ainda sorridentes, voltamos a caminhar juntos.
Conforme íamos atravessando as passagens restantes do estádio e seguindo a trajetória, fui compartilhando com Seth os nomes que haviam sido mostrados pelas ZEB no dia anterior, dos quais eu lembrava. Não sabia quanto tempo estava se passando, mas os primeiros raios de sol começavam a invadir o céu escuro.
— Quer dizer que o Theo e o Adam são dois dos nomes? – Seth perguntou.
— Isso. – confirmei.
— E o necessário são duas pessoas?
— Exatamente. – confirmei mais uma vez.
— Então eu sugiro irmos até a casa da Alpha Xi, eu posso falar com os dois tranquilamente. – ele falou. – Depois podemos ir tomar café da manhã e, com sorte, ainda conseguiremos assistir o nascer do Sol.
Eu sentia como se estivesse estragando todo o momento com essa história de seguidores, entretanto, tinha que concordar com o plano. Apesar de Seth aparentar totalmente disposto a ajudar, não queria que ele se sentisse obrigado àquilo. A caminhada até a casa de Seth durou cerca de 20 minutos, pois agora estávamos do lado oposto do campus. Durante o caminho discutimos um pouco mais sobre a estranheza dos fatos, ele mais uma vez se provou uma pessoa preocupada e atenciosa, e parecia realmente desaprovar várias das ações dentro do Sistema Grego. Precisava lembrar de perguntar, em alguma ocasião mais oportuna, como ele acabou se integrando na sua fraternidade, pois eu realmente não sabia o que viria depois se eu fosse aprovada.
Quando chegamos, a casa se encontrava bastante desorganizada, mas longe do que eu imaginava. Assim como na noite anterior tudo parecia estar acontecendo de forma mais ordenada do que a outra festa em que eu havia estado, a bagunça restante não era exagerada. Haviam copos e outras coisas espalhadas pelo chão e alguns garotos dormindo pelos sofás, um deles era Theo.
— Theo? – Seth chamou, se aproximando e empurrando levemente o braço do amigo, que não se mexeu. – Theo! – pronunciou em tom mais forte e obteve alguns resmungos em retorno.
— O que você quer Seth? – Theo perguntou, sem se mexer ou abrir os olhos.
— Posso pegar seu celular emprestado? – Seth pediu.
— Está no bolso. – autorizou, adormecendo novamente logo em seguida. Por sorte, o bolso da bermuda de Theo estava facilmente acessível. Seth rapidamente pegou o celular e digitou a senha como se fosse a sua própria.
— Qual o seu user? – ele perguntou, em um tom mais baixo, como se não quisesse acordar o resto das pessoas.
— AmyJenkins. – respondi.
— Bastante óbvio. – comentou soltando uma leve risada.
— Você está julgando? – perguntei, também rindo. – Qual é o seu?
— SethTanner. – Seth respondeu e nós dois continuamos rindo. – Adam provavelmente está no quarto dele, é no terceiro andar.
— Existe um terceiro andar? – perguntei surpresa.
— É o menor andar. – explicou. – Lá ficam somente o quarto do presidente e uma pequena sala de reuniões. – contou. – Ia dizer que você poderia esperar aqui, mas agora não posso perder a chance de te mostrar a vista do terceiro andar.
Subimos então pelas escadas, as mesmas que eu cruzara no dia em que Theo me atingira com a bola. O acesso ao terceiro andar não ficava logo em seguida, existia uma nova escadaria mais escondida em um dos cantos da sala principal do segundo andar, antes do corredor dos quartos. Quando chegamos lá em cima, entendi o porquê de Seth querer me levar até lá: o andar era todo revestido com vidraças, então era quase como ter uma super vista panorâmica sobre toda a universidade. Além disso, era um lugar extremamente aconchegante, por ser fechado. Mais adiante, encontrava-se uma única porta, onde possivelmente era o quarto do presidente. Seth bateu duas vezes na porta.
— Adam? – chamou.
— Seth? – um chamado em resposta foi imediatamente obtido. A voz de Adam era grave. – Aconteceu alguma coisa? – ele logo perguntou.
— Não exatamente, só queria te pedir um favor. – Seth respondeu.
— Pode entrar, mas você tem que ser rápido. – ao ouvir isso, Seth abriu uma fresta da porta e ia adentrar o quarto, quando inesperadamente outra voz surgiu na conversa.
— O que você está fazendo aqui, Seth? – fiquei surpresa ao reconhecer a voz da garota que falava: era a Jenn, presidente da Zeta Eta Beta. Seth recuou na porta na mesma hora, como se acabasse de presenciar uma cena chocante.
— Uou, desculpa interromper... – ele disse. — ... o que quer que seja isso.
— Não sabia que você estava acordada. – Adam disse. Eu estava aguardando na sala, não conseguia enxergar o que acontecia lá dentro, mas não parecia algo muito bom.
— O que ele está fazendo aqui? – Jenn perguntou mais uma vez.
— O que você quer mesmo, Seth? – Adam perguntou também, era difícil entender se ele se encontrava calmo ou não.
— Nada. – Seth respondeu. – Posso falar com você mais tarde. – ao dizer isso, ele fechou a porta e retornou até a sala.
— Está tudo bem? – perguntei assim que Seth chegou.
— Sim. – ele disse com firmeza. – Só acabei de presenciar algo inesperado, o que não vem muito ao caso. – falou. – Acho que não vamos conseguir a ajuda do Adam agora. – aquela situação parecia, no mínimo, estranha. Porém, não iria insistir em um assunto que não aparentava ser agradável.
— Acho que isso me deixa uma única escolha. – falei.
— E qual seria essa? – Seth perguntou.
— Ligar para o Scooter. – mesmo que nos déssemos bem, existia uma gigantesca parte de mim que receava em ter que pedir um favor a ele.
— Não sabia que vocês eram amigos. – ele disse.
— Claro que não somos. – eu disse, disfarçando mais uma vez um convincente tom de seriedade. – Scooter é meu namorado. – palavras não seriam capazes de expressar o quanto eu gostaria de ter salvo a expressão que surgiu no rosto de Seth ao ouvir aquilo. Inicialmente, ele pareceu muito chocado, mas depois permaneceu encarando meus olhos, tentando desvendar se aquilo era verdade ou brincadeira.
— Por favor me diz que estou caindo mais uma vez na sua brincadeira. – Seth falou, com uma expressão ainda indecifrável no rosto e se aproximando até estarmos novamente perto um do outro, sem cortar o olhar em nenhum momento. Finalmente soltei minha risada e pude perceber o alívio tomando conta de Seth, que também acabou rindo. – Não acredito que cai nessa.
— Nem eu! – concordei cessando a risada com um sorriso. – Depois dessa, acho que você está me devendo um café da manhã no nascer do sol. – lembrei sorridente. – Posso ligar para ele no caminho.
— Tem certeza? – Seth quis confirmar
— Absoluta. – garanti.
— Então quem sou eu para tentar impedir isso? – refletiu também sorrindo.
Peguei meu celular na mão para ligar para Scooter enquanto íamos em direção ao Rise novamente. Agora o relógio indicava 6:25, o céu começava a clarear de verdade, de forma lenta, indicando o início do outono. Prestando maior atenção nas notificações, encontrei duas mensagens não lidas de Vicky, uma às 4 horas da manhã perguntando onde eu estava e a outra às 5, dizendo que estava indo para casa. Pretendia falar com ela mais tarde para descobrir como ela desaparecera tão rápido. Busquei o contato salvo de Scooter e cliquei para discar seu número. Confesso que não esperava ser atendida, mas a melhor parte de não criar expectativas é quando elas acabam sendo realizadas inesperadamente.
— Sentindo saudades de mim tão cedo?— a voz familiar de Scooter surgiu do outro lado da linha.
— Bom dia para você também. — respondi ao comentário.
— Simpática mesmo antes de o Sol nascer, você me impressiona mais a cada dia, Amy Jenkins.— ele retrucou.
— Nome completo? Antes de o Sol nascer? Acho que isso é ainda mais impressionante.— também disse em tom sarcástico.
— Que bom que estamos impressionando no ranking um do outro então.— Scooter falou e eu ri. Nesse mesmo momento nos aproximávamos do Rise.
— Vou entrar e buscar alguma coisa para nós. O que você acha? – Seth perguntou baixinho.
— Uma ótima ideia. – disse, afastando o celular do ouvido para responde-lo.
— Caramel machiatto e donuts de chocolate? – sugeriu. Seth era muito bom em palpitar comidas.
— Perfeito. – falei ainda em tom baixo e sorri. Ele retribuiu o sorriso e então seguiu em direção ao estabelecimento.
— Alo? Alguém ai?— ouvi Scooter chamando ao colocar o celular novamente no ouvido.
— Oi, desculpa, precisei responder alguém aqui.— justifiquei. – Mas cortando as enrolações e indo em direção ao assunto: preciso de um favor seu. – disse por fim.
— Uau, curta e direta!— comentou. – Ainda mais impressionante.
— É sério, Scooter.— agora eu realmente falava sério. – Juro que é simples e rápido.— contei então rapidamente a história da tarefa da ZEB e enfatizei o quanto precisava que ele fizesse aquilo, mas quanto mais eu falava, mais parecia que ele não estava levando aquilo a sério.
— Agora não estou impressionado e sim surpreendido.— Scooter disse ao mesmo tempo em que ria histericamente do outro lado da linha.
— Ok, Scooter, sei o quanto tudo isso é idiota, mas não tenho escolha.— falei. – Você faria isso, por favor?— pedi mais uma vez.
— É claro.— ele disse, para o meu extremo alívio. – Porém, quero um favor em troca.— com certeza aquilo estava fácil demais para ser verdade.
— Justo.— tentei parecer firme ao responder, entretanto um nervosismo surgiu dentro de mim com a incerteza do que ele poderia querer em retorno daquele favor. – O que você quer?
— Quero que você compareça na minha festa de aniversário.— falou. – Não no próximo sábado, no outro.
— Tudo bem, estarei presente.— confirmei. – E agradeço o convite.
— Calma aí, Jenkins.— continuou. – Existe uma condição.
— E qual seria essa?— perguntei, receosa.
— Você não pode vir acompanhada.
— Isso é brincadeira, né?— questionei.
— Não, estou falando sério.— negou. – Estou te convidando, mas esse convite é exclusivamente para você, sem amigas ou qualquer outra coisa.— esclareceu ainda mais. – Garanto que você encontrará alguns conhecidos.
— Você tem noção do quão estranho isso tudo está soando?— perguntei séria e um pouco assustada.
— Talvez.— Scooter concordou. – Mas é a minha condição.
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