Legacy
19 Capítulo 19 - "Locked out of heaven"
Notas iniciais
Charlie e eu nos encaramos automaticamente, era difícil definir quem estava mais assustada. Dizem que as coisas acontecem quando não esperamos por elas e realmente, no único momento em que eu conseguia tirar minha cabeça daquilo, as coisas aconteceram.
— Amy, você não vai atender? – Charlie perguntou, sussurrando. Olhei o horário em meu celular antes de realizar qualquer movimento, 19h59min. Coloquei o aparelho no bolso de trás da calça e me levantei da cama onde estava sentada, em direção a porta. Pela primeira vez, reparei no quão curto era o caminho entre a entrada do quarto e nossas camas.
Ao abrir a porta, encontrei três meninas paradas em minha frente. Uma no meio, e duas um pouco mais atrás e dos lados, em uma formação triangular. Todas elas usavam máscaras pretas nos olhos, contornadas por um tom de rosa brilhante. A menina que estava mais à frente tinha a pele mais bronzeada e cabelos e olhos de cor preta. As duas de trás eram loiras e aparentemente tinham a mesma altura, podia jurar que eram gêmeas, e talvez fossem.
— Nós somos da Zeta Eta Beta. – a garota da frente anunciou.
— Da mais alta nobreza, as melhores em busca de seus ideais, e as que trazem sempre consigo a beleza completa. – as duas loiras falaram ao mesmo tempo. Aquela provavelmente foi a cena mais assustadora que presenciei em toda a minha vida.
— Você foi escolhida para ser uma candidata de nossa irmandade. – a morena voltou a falar, mantendo o tom forte e firme na voz. – Sua iniciação começa agora. – continuou ela. – Você jura manter o sigilo perante a todos os acontecimentos que presenciará durante este período?
— Eu... – por algum motivo, aquilo tudo estava me deixando muito nervosa, de uma forma que eu não havia me sentido desde que chegara na Cadillac. – Eu juro. – falei, tentando soar segura.
No momento seguinte, as possíveis gêmeas me viraram de costas para elas e fiquei de frente para Charlie, que observava toda a cena com uma expressão indecifrável no rosto. Ela olhou para mim e movimentou os lábios, sem deixar com que qualquer som saísse de sua boca, mas foi fácil decifrar o que ela dizia: “o que diabos você está fazendo?”. “Não faço ideia” murmurei de volta da mesma maneira, segundos antes de sentir alguma coisa tapando meus olhos.
Meus dois braços foram segurados quando começamos a caminhar, em direção à sabe se lá onde. Agradeci mentalmente por ter me acostumado com o conjunto de degraus que precisava subir e descer todos os dias para chegar ao terceiro andar de meu dormitório, por conta disso não tive dificuldades em ter que realizar essa ação de olhos vendados.
Não tinha noção alguma do tempo que passava. Tudo o que sei é que em seguida entramos em um carro, onde continuei vendada até que o mesmo parasse em algum lugar. Ficava repassando as dicas de Josh e Scooter em minha cabeça, não sabia exatamente quanto tempo iria durar aquilo tudo, mas por uma questão de honra, eu precisava sobreviver sem danos físicos, morais e mentais.
Fui guiada para fora do carro assim que ele foi estacionado. Caminhamos mais uma certa distância até chegar em uma nova escadaria, só soube disso pois uma das garotas me avisou para descer com cuidado. Quando a mesma acabou, fui posicionado de pé em algum lugar. A única coisa que eu podia ter certeza era do chão sob mim, a venda não me permitia enxergar qualquer coisa.
— Bem-vindas. – uma voz nos saudou ao mesmo tempo em que senti a máscara que tapava meus olhos cair. – Nós somos a Zeta Eta Beta e aqui é o santuário da nossa irmandade. – quem falava era a garota morena. Literalmente em um piscar de olhos, a visão completamente escura foi substituída por todos os detalhes presentes no recinto onde nos encontrávamos. A luminosidade do local estava baixa, já que estava sendo iluminado somente por velas. Mesmo assim, era possível reparar nos vários quadros que tomavam conta das paredes daquela sala fechada, apresentando os rostos de inúmeras mulheres desconhecidas. Olhando de relance para os lados, encontrei mais algumas garotas, não tive tempo nem para contar quantas, ou visualizar suas aparências, porque parecia ser uma boa ideia prestar atenção no que a garota morena estava falando. – Sou a Jennifer Patel, presidente dessa irmandade. – apresentou-se. Atrás dela se encontravam várias meninas e ela era a única que não usava a máscara preta ao redor dos olhos. – Existem seis de vocês aqui, candidatas. – Jennifer falou. – Espero que saibam o tamanho do privilégio que significa ser escolhida pela irmandade número um do campus dessa universidade. – eu tentava encara-la diretamente, mas era simplesmente impossível ignorar todo espaço ao meu redor. – Cada uma de vocês tem pelo menos alguma coisa muito especial que nos chamou a atenção e fez com que fossem escolhidas. – revelou. – Mas antes de serem oficialmente candidatas em iniciação, vocês têm que sobreviver a Hell Week. – falou. – Que começa agora. – não sabia se aquilo tudo era ensaiado ou algo assim, mas sem dúvida alguma era suficientemente assustador, principalmente para mim, já que eu não me sentia nem um pouco confortável naquele lugar.
Tentava manter as vozes de Josh e Scooter em minha cabeça, para lembrar que eu não tinha outra escolha a não ser aquela e também que não deveria me assustar, independentemente do que acontecesse. Eu me considerava uma pessoa corajosa, mas aquilo se tratava de um mundo totalmente novo, do qual eu sabia muito pouco sobre e, no momento, não tinha a quem pedir socorro.
— A primeira coisa que iremos fazer, será introduzir um pouco para vocês sobre o que é a Zeta Eta Beta. – Jennifer voltou a falar. – Depois, iremos deixar apenas vocês aqui dentro do santuário da casa, onde irão passar a madrugada inteira juntas.
Fomos levadas então para o andar acima do que estávamos. Descobri que o tal santuário se situava em uma espécie de porão, pois ficava no andar abaixo do térreo. Por fim, chegamos a uma sala onde um filme curto foi passado, mostrando vídeos e fotos de toda a formação da Zeta Eta Beta. Poderiam jogar tinta em nossas caras, nos fazer limpar a casa, ou o que quer que fosse, só esperava que o resto da noite não fosse tão entediante quanto aquele vídeo.
Algumas membros da irmandade ainda falaram mais um pouco sobre a Zeta Eta Beta, a dominância no ranking do Sistema Grego do campus e a forma com que elas eram vistas como exemplos de garotas perfeitas. Quando a “introdução” terminou, já era quase meia noite.
Guiaram-nos novamente até o porão, ou santuário, só que uma quantidade menor de meninas nos acompanhavam agora, várias haviam desaparecido no momento do vídeo.
— Prestaram atenção no vídeo? – Jennifer perguntou, após sermos posicionadas em uma linha lado a lado em frente a ela. Ouvi fracos murmúrios concordando, mas nenhuma resposta concreta, até porque nenhuma de nós, candidatas, havia falado qualquer coisa desde que havíamos chego ali. Não sabia se deveria me sentir bem ou mal por entender que aquilo era um sinal de que as outras meninas com intenção de iniciar também estavam assustadas. Talvez elas fossem apenas extremamente comportadas. – Espero que isso seja um sim. – a presidente voltou a falar quando o silêncio recuperou o controle do lugar. – Porque na primeira etapa oficial da Hell Week, vocês precisaram saber pelo menos alguma coisa marcante sobre a Zeta Eta Beta. – é, agora eu estava oficialmente encrencada, a única coisa que lembrava sobre a introdução era do quanto as garotas daquela irmandade gostavam de usar rosa. – Iremos deixar vocês trancadas no santuário a madrugada inteira. – anunciou com mais detalhes. – Ali no canto, têm seis colchões. – Jennifer falou, apontado para um dos lados do porão. – E também seis travesseiros, ou seja, está permitido dormir. – ela disse. – Às 10 horas da manhã, iremos buscar vocês aqui para o primeiro dia oficial da Hell Week. – continuou. – Porém, vocês só poderão continuar a candidatura se provarem que merecem. – disse por fim. – Alguma dúvida?
— Como exatamente iremos fazer isso? – eu perguntei, para o espanto de todas, mas a situação não estava nem um pouco clara em minha cabeça, precisava de explicações para sobreviver àquilo.
— Isso é com vocês. – Jennifer falou. – Pode ser qualquer coisa, trabalhem juntas e pensem em como se mostrar dignas e suficientes para se candidatarem à nossa irmandade, provando que merecem isso.
— E se ficarmos com fome e vontade de ir ao banheiro? – uma das candidatas também perguntou, para meu alívio.
— No mesmo canto em que estão os colchões e travesseiros, tem um sino pendurado no teto. – Jennifer revelou. – Toquem ele somente quando necessário, e alguma menina virá aqui.
Antes de sermos oficialmente trancafiadas, uma das garotas pediu para que desligássemos nossos celulares e depois recolheu os aparelhos. Estava ficando cada vez mais nervosa, mas precisava manter a calma, aquela seria uma longa noite.
— Boa sorte meninas, vocês têm exatamente 10 horas a partir de agora. – Jennifer revelou. – Trabalhem juntas. – ela aconselhou. – Se uma falhar, todas falham. – o olhar dela era quase ameaçador. – E não pensem que estamos blefando. – alertou. – São vocês que precisam de nós, não nós de vocês. – após essa palavras, Jennifer e todas as membros que ainda a acompanhavam cruzaram a porta e em seguida a trancaram, me deixando com outras cinco meninas, possivelmente também perdidas, sem saber o que fazer para não perder minha única chance de manter o que garantia minha vaga naquela universidade.
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