Laço de Sangue

7 Nenhum Inferno Pode Ser Pior do Que Este Em Que Vivemos


— Você é um idiota – Grito.

Nathan me olha de cara amarrada.

— Nathalie... é só uma semana.

— Foda-se, Nathan – Falo jogando as mãos para cima — Não é uma questão de data e sim de compromisso.

Ele passa ambas as mãos no rosto. O que significa que esta se contendo para não perder o controle.

— Você sabe que isso não depende de mim. Então... desculpe.

Sempre odiei o fato de Nathan nunca levar a discussão a diante.

Mesmo que eu estivesse gritando feito uma maluca descabelada, ele sempre ficava impecavelmente calmo, me fazendo ficar ainda mais puta.

— Nunca depende. Você nunca pode fazer nada – Explodo — Tem sempre que agir como um idiota submisso com aqueles imbecis. Cresça, Nathan. Será que você não cansa de agir da mesma forma quando era adolescente. Não cansa de ser um idiota que faz tudo só para agradar aos outros?

Ele arregala os olhos e posso ver que peguei em uma ferida.

Nathan fez de tudo para apagar seu passado. Tudo mesmo e sei que dizer que ele tomava as mesmas decisões que o destruíram antigamente é pegar pesado demais.

Eu deveria lhe pedir desculpas.

Deveria ter dito que não fora minha intenção falar aquilo.

Mas eu estou cansada de ser posta em segundo lugar por causa da sua bandinha idiota.

Então como uma idiota egoísta, eu continuo:

— Será que pelo menos uma vez na vida você poderia deixar de agir feito um cachorrinho masoquista, Natanael? — Solto seu nome de batismo.

— Chega – Ele grita perdendo sua perfeita paciência.

Nathan jamais havia gritado comigo e ouvir sua voz naquele tom, me fez estremecer, desejando jamais ter conseguido tira-lo do sério.

Com os punhos cerrados ele se vira de costa para mim, mas antes me dando um rápido vislumbre de seu olhar. Um olhar que jamais achei que eu seria a causadora.

Um olhar de puro ódio.

— Nathalie... – Ele começa a dizer, mas eu já havia saído do quarto – Nathalie – Ele chama novamente vindo atrás de mim.

— Me deixa em paz – Falo sem olhá-lo e pego minha bolsa, torcendo que a chave de meu carro esteja ali.

— Por favor, Nathalie – Ele suplica – Desculpe. Eu não queria ter gritado com você.

— Já disse para me deixar em paz.

Entro em meu Land Rover preto e bato a porta.

— Pelo menos me diga para onde você vai – Ouço sua voz abafada pela porta do veículo.

Nathan parece derrotado e por um instante penso em sair do carro e tentar resolver isso, mas novamente deixo meu orgulho falar.

— Para qualquer lugar onde você não esteja – Abaixo a janela para ele poder ouvir claramente e saio de nossa garagem cantando os pneus.

Ao olhar no espelho retrovisor posso vê-lo com os ombros caídos e as mãos nos bolsos.

Naquele instante meu coração se aperta.

Ele chuta alguma coisa e volta para dentro da casa.

Acabo optando por ficar nas redondezas mesmo e vou até o Paraiso.

Me sento ao bar, perto da televisão que passa um jogo de futebol entre o Real Madrid e Mônaco. Peço um Martini e fico assistindo ao jogo.

Nathan odiava futebol, enquanto eu gostava de assistir algumas partidas.

— Hey, gata. O que uma mulher tão linda como você faz sozinha num lugar deste?

Para variar mais um cara decidiu dar em cima de mim naquela noite.

Nenhum deles me reconhece por causa dos óculos e pela pequena peruca morena que eu achei em meu carro. Não estava afim de ser incomodada naquela noite, mas parece que isso era algo impossível de acontecer.

O cara é alto e loiro. Dava para defini-lo como bonitinho. Ele me lembrava um pouco um namorado que eu tive quando era adolescente.

— Desculpe, mas eu sou comprometida.

— Ele deve ser muito idiota por te deixar vir aqui sozinha a essa hora da noite.

É uma noite fria com nuvens carregadas. A probabilidade de chover era enorme e por sorte eu usava um jeans e uma camisa simples, mas quente.

— Eu sei me cuidar sozinha

Ele se senta no banco do meu lado.

— Deixa eu lhe pagar um drinque, sem nenhuma segunda intenção e nós podemos jogar papo fora.

— Agradecida, mas não.

Eu me viro e volto a olhar para a TV na tentativa de ignora-lo.

— Qual é gata. Ta na cara que seu relacionamento não vai muito bem, senão ele estaria aqui com você – Ele me olha com um sorriso idiota no rosto — Eu sei o que você precisa. Ele nem vai ficar sabendo. Aposto que você nunca pulou a cerca – Diz arrogantemente — Experimente uma vez, lhe garanto que você vai gostar.

Por que homens as vezes são tão babacas? Será que é tão difícil entender um não.

— Escuta aqui! Será que você não entendeu que eu não estou afim. E como anda meu relacionamento é problema meu – E mais uma vez naquela noite eu perco as estribeiras — Você não acha que está se superestimando? Eu lá tenho cara de mulher que sairia com um sujeito arrogante como você? O que faz você pensar que eu trairia meu marido? Ainda mais com um sujeitinho como você. Vai procurar sua laia e vê se me deixa em paz.

Eu me levanto para ir ao banheiro, mas ele me pega pelo punho.

— Escuta aqui vadia! Eu sou muito mais que você merece. Ta se achando demais, cadelinha — Ele me olha com aqueles olhos azuis e frios — É melhor ficar com os olhos bem abertos, gracinha.

Eu me solto e corro em direção ao banheiro.

— Fica calma, Nathalie – Falo olhando para o espelho – Ele é só mais um idiota que fala, mas não faz nada.

Volto para o bar, fico por mais um tempo e logo decido ir embora, mas antes acho melhor ligar para Nathan e pedir para me encontrar no carro.

Nossa casa não fica muito longe do bar, então ele poderá chegar ali em alguns minutos.

— Nav — Falo ao cair na caixa postal — Olha, desculpe. Eu não devia ter falado com você daquela forma. Será que você poderia me encontrar no estacionamento do Paraíso? Tem um cara estranho aqui – Respiro profundamente — Te amo.

Espero mais um tempinho.

Pago minha conta e vou até meu carro, que infelizmente está um pouco longe da entrada do estabelecimento.

Meu coração está acelerado e a incomoda sensação de ansiedade toma conta de meu estomago.

Aperto os braços contra o corpo numa tentativa de me proteger do vento gelado e me repreendo por ter deixado o sobretudo no carro.

Ainda apreensiva, me jogo dentro de meu veículo, fecho os olhos e respiro fundo, sendo tomada pela sensação de alivio.

A porta do carona se abre, expulsando a sensação de alivio ao me dar conta que o sujeito que me ameaçara acabara de invadir meu carro.

Droga, eu esqueci de trancar as portas. Calma, Nathalie. Mantenha a calma e ligue pro Nathan sem que esse cara perceba— Penso comigo.

— Ei vadiazinha, eu disse que as coisas não iam ficar daquele jeito – Me diz com uma voz sem emoção que com certeza ficará para sempre em minha memória. Se eu sair viva. É claro.

— Saia do meu carro agora, seu maluco. Ou eu vou ligar para a polícia.

Pego meu celular e aperto a discagem rápida para o celular do Nathan.

Tomara que ele atenda de primeira, senão eu estou perdida.

O Sujeito pega meu celular e o joga na porta-copos perto de nós. Por sorte ele não olha o aparelho e não vê que a chamada já está sendo feita.

— Agora você vai fazer o que eu disser.

— Aí você caiu da cama e acordou né, querido?

Eu não devia estar sendo tão estupida, mas as respostas acabam sendo mais fortes que eu.

Ele sobe em cima de mim, tranca as portas e deita o banco do carro.

— Você vai ser minha cadela essa noite.

Ele começa a me beijar e me acariciar.

Nav, venha logo – Suplico em minha mente.

Ele puxa minha camisa, estourando os botões e expondo meu sutiã vermelho.

Analisa meus seios a passa a horrenda língua nos lábios, fazendo a bile me subir.

Eu me debato e bato nele para tentar tira-lo de cima de mim.

Minhas mãos são presas a cima de minha cabeça com uma corda que ele tira de algum lugar.

Parece que naquele dia as coisas acabam sendo facilitadas para ele e dificultadas para mim, pois meu sutiã tem fecho frontal. Eu enrubesço quando ele abre a peça, expondo meus seios.

Antes que eu possa me dar conta, minhas calças são abaixadas junto de minha roupa intima.

O sujeito coloca o pênis para fora e sou tomada pelo pânico.

Eu grito, mas não há ninguém por perto. Eu tento cruzar as pernas, mas ele as segura. E da forma mais bruta possível me penetra. Sinto uma ardência terrível. Continua a me penetrar e quando eu tento me soltar novamente ele me esmurra no rosto.

Eu sinto algo quente escorrer por meu rosto. No início acho que é sangue. Eu desejo que seja sangue, mas é a porcaria de uma lagrima. Estou chorando na frente daquele monstro, me sentindo mais exposta ainda. Acabo mostrando minha fraqueza e assim que vê a lagrima um sorriso diabólico surge em seu rosto. Um sorriso que me lembra minha juventude, a parte da minha vida a qual eu luto todo dia para esquecer.

Do nada o vidro se espatifa em cima de nós e sujeito voa para fora do carro.

Minha surpresa é tanta que eu nem o sinto sair de dentro de mim, porém a forte ardência continua.

Quando olho para fora vejo um cara em cima do sujeito, o socando tanto que o babaca loiro nem se mexe.

Demoro um pouco para perceber fora Nathan que viera me salvar.

Ele o soca com tanta força que a camiseta branca acaba toda suja de sangue.

Eu jamais havia visto aquela expressão no rosto de meu marido. Seus olhos brilham de ódio, não, não é só isso. Ele está chorando. Nathan chora enquanto esmurra aquele monstro.

Eu tento me mexer, mas meu corpo doí muito.

Não muito tempo depois, Nathan me pega no colo e me põe no banco do carona e em seguida coloca meu sobretudo em cima da mim, se afasta do carro e joga algo no porta malas.

— Eu vou me livrar desse filho de uma puta e depois vamos para casa – Fala se sentando no banco do motorista e arranca com o carro.

Eu confirmo com a cabeças, mas não digo nada.

Acabo adormecendo no meio de caminho e só acordo na hora em que meu marido me pega no colo novamente e me leva até nossa cama.

Assim que me coloca na cama ele se ajoelha ao meu lado em prantos e segura minha mão.

— Me perdoe, Nathalie. Isso tudo é culpa minha – Sua voz está completamente embargada — E-eu sou um completo idiota por colocar coisas banais a frente de minha mulher. Eu não devia ter adiado nossas férias. Por favor me perdoe.

Eu admito que estava com muita raiva, mas não foi ele quem fora imprudente em sair tarde da noite. Com muito esforço eu me sento e puxo seu rosto em minha direção.

— A culpa não foi sua. Eu não devia ter saído, você jamais poderia imaginar que isso aconteceria.

— Mesmo assim, eu sou seu marido, é meu dever lhe proteger. Você é minha vida – Eu posso sentir a raiva em sua voz – Eu prometi que jamais deixaria você passar por isso de novo e eu falhei.

Existe apenas mais uma pessoa além de Nathan que sabe sobre meu verdadeiro passado e por isso meu marido sempre achou que deveria me proteger até da menor mosca.

— Onde você jogou o corpo?

— No mar, pelo abismo no fim da cidade.

— Então está tudo resolvido. Apenas prepare um banho para mim, por favor. E se livre dessas roupas cheias de sangue.

Ele se levanta, me dá um beijo na testa e vai em direção ao banheiro. Depois de um tempo volta e me leva até a banheira.

Eu peço para ele me deixar sozinha, pois não quero ser vista naquele estado. Depois de mais de meia hora de banho consigo sair da banheira, me secar e ir em direção a cama, onde Nathan já está me esperando.

Deito ao seu lado.

Relutante e com medo de me machucar passa os braços por meu corpo em um forte e confortável abraço.

Os braços de Nathan são o único lugar no mundo capaz de me acalmar.

Ficamos um tempo ali, sem nos mexer, até que caio no sono.

Na manhã seguinte acordo sozinha em nossa King Size e com meu sexo muito mais dolorido.

Olho o relógio que marca meio dia.

Vou ao banheiro e me deparo com um enorme hematoma em meu rosto e mais alguns no corpo.

Escovo os dentes e penteio meus cachos rebeldes.

Pego minha nécessaire onde fica minhas maquiagens e me concentro em tentar esconder minha vergonha.

— Bom dia! – Nathan diz batendo duas vezes na porta aberta e entrando.

Ele usa apenas sua bermuda de corrida na mesma altura de sempre. Me dando a visão de um obliquo definido e tão insinuante quanto seu “Caminha da Felicidade” composto pela pelugem na barriga.

— Bom dia – Respondo abaixando a cabeça.

Ele vem até mim e com o indicador dobrado ergue meu queixo.

Seus olhos me fitam atentamente e não conseguindo sustenta-los por muito tempo, desvio os meus.

Me pegando de surpresa, meu demônio dos olhos negros me segura pela cintura, me senta na pia de mármore branco e toma o pote de maquiagem de minha mão.

Nathan tem outra paixão além da música. Ele adora desenhar. Até tem um desses caderno com esboços e um com vários desenhos sobre mim. O meu favorito é o que ele me retrata como o Anjo da Morte. Todos são incrivelmente lindos.

Usando suas habilidades de desenhista, começa a esconder o roxo de meu rosto que por sorte não inchou.

— Como está se sentindo? – Me pergunta, ainda concentrado.

Eu preferia evitar essa conversa, mas Nathan pode ser extremamente insistente e protetor.

— Dolorida... Suja – Solto sendo mais honesta do que eu gostaria.

Sua mão cai ao lado do corpo e ao olha-lo, me deparo com a fofa expressão que ele sempre fazia quando travava uma batalha interna. Ele provavelmente está à procura de algo que possa dizer e que me ajude, mas sabe que nada poderá.

Então, para a minha surpresa, seus lábios são colados aos meus.

Fora o beijo mais doce e apaixonado que ele me deu em nossos dez anos de casados.

O beijo fica ainda mais molhados e eu percebo que estou chorando.

Ao abrir os olhos novamente, comtemplo aqueles belhos olhos negros que eu tanto amo, cristalinos. Lagrimas escorriam como um riacho por seu rosto.

Eu não estou sofrendo sozinha.

Nathan pode imaginar a minha dor.

Ele me abraça fortemente. Eu choro e soluço feito uma criança.

O tempo foge pelos meus dedos como areia enquanto estou enterrada naquele abraço.

Só sou liberta depois que os espasmos param.

Meu demônio de olhos negros, seca meu rosto e recomeça o trabalho levado pelas lagrimas.

— Eu preciso fazer os exames – Sussurro.

Ele afirma.

— Já falei com Henrique.

— Você contou a ele? – Me exaspero.

— Não. Só falei que precisávamos que você fizesse uns exames confidencias – Diz passando a costa dos dedos em meu rosto – Ele disse que devemos esperar de trinta a sessenta dias para fazermos o exame.

Solto o ar, aliviada.

O bom do primo do Nathan estar por dentro do nosso mundo é que ele fazia as coisas sem questionar o porquê.

Eu havia imaginado que teria que esperar um tempo para fazer o exame, mas não achei que fosse tantos dias.

A espera será agoniante.

— Obrigada.

Nathan sorri fracamente e olha para seus dedos calejados.

— Eu cancelei o compromisso com o grupo – Fala hesitante – Se você ainda quiser sair de férias...

Dá de ombros.

Eu sorrio.

As vezes ele parece um adolescente desajeitado tentando conquistar a garota que nunca o notou.

— Eu adoraria.

As férias viajando pela Europa são maravilhosas e suficiente para me distrair de vez em quando. Mesmo que tanto Nathan quanto eu jamais esqueçamos os exames.

— Você tem certeza que está realmente bem com isso? – Me pergunta enquanto estamos deitados na cama do luxuoso hotel de Innsbruk, na Áustria.

— Tenho... só não esqueça de usar a camisinha.

Nathan faz uma careta.

Não usamos camisinha a muito tempo e nunca precisamos nos preocupar já que eu não posso engravidar e que ambos tínhamos exames limpos. Mas já que não há mais certeza, prefiro não arriscar a saúde de meu homem.

E naquela noite, Nathan tem ainda mais delicadeza e muito mais paixão do que quando me beijou no banheiro e sem falar do maior orgasmo de toda minha existência. Fora tão bom que nem parecia que tínhamos usado preservativo.

Logo o dia do exame chega. Acabamos optando por esperar por mais de sessenta dias, assim a certeza será absoluta e graças a cortesia que damos a Henrique para agilizar o processo, recebemos os resultados na manhã seguinte.

Estou sentada em nossa cama, completamente aflita, enquanto meu Rockstar abre o exame.

Ele o lê atentamente e depois de um tempo me entrega.

POSITIVO.

Não pode ser verdade.

As lagrimas vem fortemente.

Eu amasso o papel que contem a minha dor e o ataco do outro lado do quarto.

Eu grito e caio de joelhos.

O filho da puta que me estuprou era HIV positivo.

Olho para cima, esperando ver Nathan arrasado, mas ele apenas me olha com uma expressão impassível.

Meu coração se aperta ainda mais.

Será que ele me deixará?

Eu não sei se consigo viver sem ele.

Será que esse é seu limite?

Nathan se ajoelha ao meu lado e me entrega um envelope idêntico ao que acabei de amassar.

Eu o fito, sem entender nada. Até ver seu nome escrito em frente ao documento.

Rapidamente eu o abro.

Prendo a respiração e levo a mão a boca.

Sinto a bile subir.

— O que? Como? – Pergunto em um tom baixo.

Nathan demora um pouco para falar e acho que não me ouviu. Quando abro a boca para perguntar novamente, ele me responde:

— No hotel. Eu não coloquei a camisinha.

Eu pisco atônita.

Eu deveria ter desconfiado, mas ele me distraíra naquela noite de uma forma que nunca havia feito.

Só então eu percebo que essa sempre foi sua intenção.

— Você já sabia?

Nathan continua calado.

— Responda, Nathan.

Ele afirma com a cabeça.

— Eu mandei a camisa suja de sangue para análise.

Isso não pode ser verdade.

Se existe um Deus, ele nos odeia.

Nathan já sabia o resultado do exame, mesmo antes de eu faze-lo.

— Você tem noção da idiotice que você fez? – Me levanto bruscamente.

Eu quero agarra-lo pelo pescoço.

— Agora não só eu vou ter uma vida a base de coquetel, como você também – Continuo – Eu... eu realmente não entendo por que você fez isso, Nathan.

Ando de um lado para o outro.

O rosto em chamas.

Minha cabeça lateja e minha perna fraqueja.

Antes mesmo de ameaçar cair, já estou nos braços do meu demônio de olhos negros.

Nossos olhares se cruzam e como sempre faz, olha dentro de minha alma.

— Eu te fiz uma promessa. Lembra? – Acaricia meu rosto – Na saúde e na Doença.

Nathan é o exageradamente emocional do casamento. As vezes é meloso e pegajoso.

Eu sou a ogra sem sentimentos.

É como se fossemos o equilibro um do outro.

Nathan se tornara tão essencial como respirar.

Sou totalmente dependente de seu amor.

Sempre soube que não era saudável, mas também sabia que como eu, ele se sustentava em nosso amor. E as vezes achava que sua dependência por mim, era maior que a minha por ele.

— Você é tudo o que eu tenho, Nathalie – Recosta a testa na minha. Ambos com os olhos fechados — Não podia deixar você passar por isso sozinha e não vou.

— Mas você não tinha que fazer isso.

— Sim... eu tinha...

Ele envolve meu rosto em suas mãos e me beija.

Um beijo molhado e faminto.

Ambos ofegamos quando separamos nossas bocas.

— E eu faria novamente.

Com toda a calma do mundo, Nathan coloca a mão no bolso e tira uma caixinha incrivelmente branca.

Eu o olho, confusa.

Com a mesma calma, pego o pequeno objeto e o abro.

O que vejo é simplesmente deslumbrante.

Meu coração se agita e meu olhos voltam a ficar marejados.

— Isso... Isso é?

Ele nega, decepcionado.

— Eu tentei encontrar as verdadeiras, mas não consegui – Ele pega um dos objetos negros e o levanta a altura de meus olhos – Quando você me contou a história das alianças de casamento de seus pais, eu prometi tentar encontra-las, mas é impossível acha-las.

A tristeza em sua voz é palpável.

Meu pai fora um minerador de uma empresa que procurava pedras preciosas para confecção de joias ou para estudos científicos. Um dia encontrou um minério negro reluzente. Não incomum o suficiente para chamar a atenção de possíveis comprados ou ser estudado, então ele juntou uma boa grana e transformou o minério em duas alianças. Eram incrivelmente lindas e especiais. Não por ser um de um material diferente, mas sim por conter o sangue e suor de meu pai.

Elas ficavam evidentes na única foto que eu tinha dos dois que estava em nossa sala e dentro do meu relicário.

Automaticamente toco o presente que Nathan me dera logo após eu contar essa história a ele, em nosso primeiro aniversário de casamento: um belíssimo relicário contendo a foto do casamento de meus pais, ao lado da foto do nosso casamento.

— Então mandei fazer idênticas – Ele olha a aliança com uma paixão enorme – Elas são feitas de Titânio Negro com um fio de Platina – Pega a outra, mostrando-a – A sua contém uma pedra de Topázio Roxo.

Minha cor predileta.

Estou boquiaberta.

— Quando você as comprou?

Ele parece ficar envergonhado.

— Eu queria levar todo o crédito por isso, mas não posso. Foi, Arthur quem as conseguiu. Eu mesmo teria as encomendado e as buscado, mas achei que ele poderia fazer isso por mim enquanto saiamos de férias.

Pisco atônita.

— Espere – Falo finalmente entendendo tudo – Quando você tentou adiar nossas férias... não foi por causa da banda, não é mesmo?

Meu Rockstar encara seu All Star ferrado que eu odeio.

Agora tudo fez sentido.

Nathan não queria adiar nossas férias por causa da banda. Ele tentou adia-las para me fazer uma surpresa.

Meu coração se aperta.

Ele tentara me fazer uma surpresa e eu a estraguei da maneira mais catastrófica possível.

— Nav... isso é tão... tão...

Ele coloca a aliança em meu dedo.

— Brega – Solta – Eu sei – Dá de ombros.

— Não... – Repito seu gesto, trocando a antiga aliança pela nova – É lindo – Fico na ponta dos pés e lhe deu um beijo rápido, tirando dele um sorriso tímido.

— Feliz dez anos de casados – Diz me abraçando.

— Feliz dez anos de casados – Repito.