Last Temptation

4 Quatro - A tendência é sempre piorar


Notas iniciais
Vou responder logo, gente, Juro que vou responder. ç_ç

Quatro — A tendência é sempre piorar

Nem preciso dizer que não jantei naquela noite, muito menos dormi em casa. Peguei apenas um casaco e saí, andando sem rumo pelas ruas escuras de Londres, olhando sempre em frente. Cheguei à Gardenia Avenue, inevitavelmente parando frente à lixeira onde havia ficado esperando por Mana há um ano atrás.

- Eu sou um completo idiota... Mana... me perdoe, meu amor... me perdoe!

Não pude conter as lágrimas. Revoltado, meti o pé na lixeira. Que me processassem depois por vandalismo, nada mais me importava mesmo. Continuei caminhando sem ter a mínima ideia de para onde ir. Só sabia que meu coração doía a cada passo que eu dava para longe de Mana. Passei a madrugada inteira à toa, com as mãos socadas nos bolsos e molhando o casaco com minhas lágrimas geladas.

O dia começou a clarear. Meus olhos arderam. Procurei me sentar, ainda meio atordoado, e percebi que estava num banco da praça do centro da cidade.

- Engraçado — sorri, olhando para o enorme carvalho próximo de mim. — É aqui mesmo que eu vou me enforcar. Mas acho que esqueci a gravata em casa...

Levantei-me e tentei seguir o rumo de casa, ignorando os olhares curiosos das pessoas ao redor. Não pude sentir raiva delas, eu até as entendia. Minha cara devia estar horrível. Pensava apenas em tomar um banho para estar apresentável aos olhos dos superiores da Central de Polícia que entregariam os papéis de minha demissão. No caminho, levaria Kaya para a Ordem e pediria a alguém que o mantivesse a salvo numa cela qualquer até que o novo chefe resolvesse o caso... compraria um novo soldadinho para Klaha, para substituir o que quebrei. Pegaria a mala que Mana preparou, daria adeus a ele e, depois disso tudo, certamente iria me enforcar com uma gravata azul de listras brancas. Tinha de ser azul com listras brancas, pois era a gravata mais bonita que eu tinha e eu queria estar lindo no meu último momento. Entretanto, todos esses pensamentos sumiram quando me deparei com o portão de casa escancarado, e a porta da frente também aberta. Corri para dentro, e me assustei ao ver tudo revirado.

- Deus... o que houve aqui?

Móveis revirados, quadros jogados em qualquer lugar, as almofadas rasgadas e um horrível cheiro de perfume pairando pelo ar. Me apoderei de uma das almofadas, observando bem os rasgos. Pareciam ter sido feitos pelas garras de algum animal, ou, no caso, pelas unhas de uma mulher.

- Essa não...! Mana!

Disparei escada acima, quase caindo e metendo a cara nos degraus. Não preciso descrever o quão grande foi meu desespero ao passar pelo quarto de Klaha e ver a cama bagunçada e seus amados brinquedos atirados ao chão.

- Klaha? Klaha, onde está você?

Nenhum sinal dele. No quarto de hóspedes, a mesma coisa.

- Kaya...? Me responda se estiver aí... Kaya...

Kaya também não estava na casa. E, no quarto de casal...

Havia manchas de sangue no chão perante a porta, que estava encostada. Empurrei-a lentamente, receoso do que encontraria.

- Mana...?

O ar me faltou no mesmo minuto. Precisei me agarrar ao batente para não cair. Os vidros de perfume de meu lolita, estilhaçados, brilhavam por todo o chão. O cheiro de flores misturadas a álcool era nauseante. E, na brancura do linho onde havíamos passado tantos momentos maravilhosos, uma pequena poça vermelha se estendia, escorria e pingava pela borda do colchão. Peguei o lençol manchado com o sangue de meu pequeno, apertando-o junto ao peito enquanto as lágrimas me invadiam os olhos e um ódio mortal me consumia por dentro.

- Mana...

Cego por um desejo de vingança ainda maior do que o que senti por Közi, me dirigi à gaveta do criado mudo, procurando meu revólver. Seria a última vez que o usaria. Havia apenas duas balas.

- Serão suficientes. Têm que ser.

Então, senti algo se agarrar às minhas pernas. Virei à toda, já apontando o revólver para a cabeça do que quer que fosse e pronto para gastar a primeira bala, mas imediatamente afrouxei o dedo no gatilho quando reconheci os olhos azuis no rostinho assustado.

- Klaha? — me ajoelhei, abraçando-o com força. — Klaha, o que aconteceu? Onde está Kaya? Onde está Mana? Quem fez isso?

Os cabelos estavam esbranquiçados, sujos de farinha, e as roupinhas azuis também um pouco manchadas com o sangue de alguns cortes pelo corpo do garoto. Soluçando mas engolindo o choro, totalmente trêmulo, ele apertou os bolsos dos shorts e fechou os olhos, tentando equilibrar a respiração. Estava buscando se acalmar para poder falar, da mesma forma que Mana havia feito na fábrica têxtil antes de me mandar calar a boca. Céus, que orgulho daquele menino.

- K-Kami... Kami-chan...

- Oh meu Deus — abracei-o novamente, acariciando suas costas. Morria de preocupação por Mana e Kaya, mas não conseguia esconder minha satisfação em ver Klaha vivo. — Está tudo bem, eu estou aqui! Diga, como conseguiu se salvar? Por que está todo cortado e sujo de farinha?

- M-Me escondi... na despensa... e-escalei as prateleiras, me cortei enquanto subia...

Me afastei para poder olhá-lo nos olhos.

- Grande garoto! — Eu devia manter a calma. Klaha era um garoto esperto, certamente tinha algo importante na memória e, se eu quisesse arrancar dele, tinha de deixá-lo recuperar o fôlego. Sequei seu rosto molhado usando minha camisa. — Está mais calmo?

Recebi um aceno afirmativo de cabeça.

- O-oui...

- Então, por favor, conte para o Kami-chan o que aconteceu aqui, sim?

- Oui... — ele inspirou fundo e pôs-se a falar. — Eu estava brincando lá fora... e ouvi o Nii-Sama gritar. Vim ver o que tinha acontecido com o Nii-Sama, ele estava no quarto com a porta fechada e gritando com alguém... ouvi coisas caindo... vidro quebrando... — os olhos do menor tornaram a encher-se de lágrimas e sua voz foi começando a ficar embargada. — Bati na porta, pedi pra ele abrir, e ele me mandou correr...

Klaha se atirou contra meu peito, chorando desconsolado.

- Aí os gritos vieram da sala... mais coisas caíram, o Kaya-san estava nervoso! A porta bateu... e... pardonnez-moi¹, Kami-chan! Eu devia ter cuidado do Nii-Sama, mas me escondi...!

- A culpa não foi sua, Klaha — Apertei-o carinhosamente. — Você fez muito bem. Então não viu ninguém entrar?

- Na-não...

- Tudo bem. Agora, você vai ter que fazer um grande favor para o Kami-chan.

- Oui!

- Vai ter que se virar sozinho, amigão. Te deixarei no hospital para que cuide desses ferimentos. Explique aos médicos o que houve e não saia de lá por nenhum motivo. Kami-chan vai caçar o infeliz que levou o Mana-chan e o Kaya-san. Depois eu volto pra buscar você, certo?

- Kami-chan...

- Hn?

Ele apertou minhas mãos.

- Traga o Mana-chan e o Kaya-san de volta... e não morra!

Não consigo explicar o que senti naquele minuto. Mas de uma coisa eu estava certo: se alguém iria morrer, seria o filho da mãe que havia levado Mana e Kaya, e feito meu pequeno cunhado sofrer tanto escondido na despensa da cozinha.

Peguei o carro e levei Klaha ao hospital mais próximo. Deixei-o na porta, ciente de que ele já sabia o que fazer, e arranquei à toda para qualquer lugar que pudesse me dar uma pista. Dirigia feito um louco à medida que escurecia; na velocidade em que estava, não seria muito incompreensível se eu matasse alguém. Se ao menos Klaha tivesse visto quem entrou na casa enquanto ele brincava... tentei me lembrar de tudo o que havia conseguido com minhas pesquisas na Ordem. Nada relevante me veio à mente, a não ser a maldita lista com todos aqueles nomes estranhos de perfumes. Então, uma luz se acendeu. Não, não era uma ideia. Era a luz de um outro carro, com o qual quase me choquei de frente. Virei o volante com tudo e, na curva, atingi uma árvore.

- Era só o que me faltava! — gritei, histérico, surrando o volante. — O seguro não vai cobrir isso! E agora, como chegarei à fabrica de perfumes? — Saí do carro batendo a porta amassada, me sentando no chão e cruzando os braços. Não havia me dado conta que já tinha encontrado a resposta de minhas dúvidas. — Espere... o que foi que eu acabei de dizer?

- Que precisava chegar à fábrica de perfumes, senhor — respondeu um homem que eu nunca tinha visto na vida.

Meus olhos se arregalaram. Mas é claro! Era tudo muito óbvio, desde o começo! Agarrei-o pela gola, com a empolgação fugindo do controle.

- Onde fica a fábrica de perfumes daqui?

Tremendo de medo, ele apontou para uma rua à esquerda.

- V-v-vá por ali, senhor... em frente, em frente, é! Depois de cinco quarteirões, verá a fábrica, mas por favor não me machuque!

Soltei o pobre coitado e saí correndo na direção apontada por ele, deixando para trás meu carro destruído e a multidão de curiosos que se algomerou em torno dele.

- Tudo bem em querer matar Kaya, mas precisavam levar meu lolita junto? Você é mesmo valioso, hein Mana? Já largou a profissão e ainda é requisitado desse jeito? Puta merda, mundo! Ele casou comigo!

Eu devia ter prestado mais atenção às roupas de Mana quando as tirei pela primeira vez. Em algum lugar, devia ter um selo, uma etiqueta, ou qualquer porra dessas onde devia estar escrito: "Pronto para ser sequestrado a qualquer minuto". Puta merda! Me casei com a vítima mais querida da Inglaterra!

Estava escurecendo depressa. Você faz ideia do tamanho de um quarteirão londrino naquela época? Eram absurdos, e eu tinha de enfrentar cinco vezes essa distância! Como eu atravessaria cinco quarteirões inteiros, correndo, antes da noite chegar? Era praticamente impossível! Mana e Kaya já estariam mortos há horas quando eu alcançasse as portas da fábrica!

Enquanto corria, meus pensamentos de uma hora para outra se voltaram todos para mim mesmo. Perder o emprego e não tomar mais o café da Ordem não era tão ruim. Enfrentar um vilão desconhecido com apenas duas balas de revólver não era desesperador. Chegar numa fábrica de perfumes para resgatar uma ex-prostituta e sua colega, sendo que uma estava casada comigo e a outra tinha tentado me seduzir... isso sim era grave. Se eu não morresse no combate com o sequestrador, morreria todo arranhado pelas unhas de Mana e Kaya.

... puta merda.

Notas finais
N.T.: 1 - "Pardonnez-moi" = me perdoe. :3