Last Temptation

5 Cinco - Incêndio


Notas iniciais
É, Fushi. O Kami adorou sua ideia de roubar coisas. Mas não um patinete! -Q Tia Jô, obrigada pela contribuição. <3 Gracinha zero nesse capítulo. A coisa ficou séria, e. *apanha*

Cinco — Incêndio

Abri um sorriso gigante (e idiota) quando me aproximei da fábrica. Mas que falta de criatividade. Já imaginava que, se Mana fosse sequestrado uma terceira vez, o criminoso o levaria para uma fábrica de açúcar, venenos, ou quem sabe uma indústria produtora de telefones. Nesse caso... eu o deixaria lá.

Bom, eu não podia perder tempo criticando a imaginação falha do bandido. Depois de atravessar três quarteirões a pé, fugir de um cachorro esfomeado que me confundiu com um frango gigante, esbarrar numa criança que brincava na rua e fugir desesperado do pai raivoso dela e ainda roubar a bicicleta de um jornaleiro que urinava na calçada para não ter que correr mais, finalmente consegui chegar. Já havia escurecido totalmente, eu não tinha fôlego algum e não fazia ideia de como entrar no prédio, já que a fábrica ainda estava ativa e eu não era nenhum mestre em driblar sistemas de segurança. Só o de Mana, quando se fazia de difícil e recusava uma bela noite de amor.

Na entrada, estavam prostrados dois vigias noturnos. Joguei uma pedra num canto distante, crente de que eles iriam verificar o que era, mas não contava com o detalhe de que, se estavam em dois, certamente um ficaria. Pensei, pensei... e joguei uma pedra nele, confiando em minha pontaria que, desde moleque, tinha sido uma das melhores. Quando vi que o maldito estava inconsciente, passei correndo. Um pouco mais à frente, dois cães enormes com bocas cheias de dentes do tamanho de facas de peixeiros montavam guarda, de orelhas em pé e olhar atento a toda e qualquer coisa que tentasse se aproximar. Precisei me esconder atrás de uma moita até ter algum surto inteligente. Podia jogar uma pedra também mas, como haviam dois cães, não era descartável a possibilidade de que um deles pudesse perceber de onde veio a pedra e me atacasse. O outro cão viria em seu auxílio, e era uma vez um ex-policial. Poderia facilmente matá-los, mas além de chamar a atenção dos vigias alguns metros adiante, perderia as balas que usaria contra o sequestrador, ou contra a quadrilha já que eu não sabia quantas pessoas estavam executando o plano.

- Se eu tivesse pensado nisso, teria me lembrado de assaltar um açougue! — Resmunguei. Olhei ao redor, tateando o chão na penumbra, procurando por algo que me fosse útil, mas não encontrei nada. — Droga... só há uma coisa a fazer agora...!

Tornei a tatear o chão, buscando uma pedra solitária que me servisse para o que planejava fazer. Apoderei-me de uma bem pontiaguda e, sem hesitar, finquei-a em meu braço esquerdo. Não poderia arriscar o direito, precisaria dele para atirar mais tarde. A dor foi intensa, mas pude me conter para não gritar. Vendo que a manga já estava embebida em sangue, rasguei-a e atirei o mais longe que pude, tendo a cautela de fazê-la passar sobre as cabeças dos caninos. Os dois, atraídos pelo cheiro forte do meu sangue de macho, foram na direção do alvo. Aparentemente, tinha dado certo. Corri o mais rápido possível e dei a volta, tentando encontrar uma entrada pelos fundos. Meu braço ardia mais que garganta de bêbado, e se continuasse a pingar da maneira que estava, o cheiro atrairia os cães direto até mim, então eu tinha de entrar logo. Grudei na parede à procura de uma porta, e a cada minuto me sentia tendo uma espécie de flashback.

- Está acontecendo tudo de novo. Tudo de novo!

Passei muito tempo me esfregando nas paredes gélidas da construção até me deparar com uma porta de metal. Não havia maçaneta, então, o mais óbvio era que fosse uma porta de correr. Empurrei-a para a direita, ela não se moveu. Já para a esquerda, o resultado foi bom. Suspirei aliviado, se fosse uma porta cuja abertura só era feita pelo lado de dentro, eu teria de dar a volta no prédio mais uma vez e enfrentar os cães e os vigias... ou dar uma de herói de livro de ação e dar um jeito de entrar pelo telhado, o que seria terrível, afinal um de meus braços estava inutilizado.

Tive o cuidado de fechar a porta quando entrei, assim, não levantaria muitas suspeitas. Não foi difícil encontrar um interruptor de luz para me libertar da escuridão. Eu estava no que parecia ser um depósito, não corria qualquer perigo. A dúvida agora era o restante da fábrica. Haveria mais vigias ali dentro? Por quantas seções eu teria de passar até encontrar aquela em que Kaya e Mana estavam presos? Quando o bandido apareceria?

Saindo de tal depósito, percorri inúmeros corredores, morrendo de frio, atordoado por voltar ao breu e receoso de tropeçar em qualquer coisa barulhenta que denunciasse minha intrusão. Não sei por que milagre, mas até que eu estava me saindo bem, sem esbarrar em nada. Pelo tempo que passei andando, deduzi que aquela fábrica de perfumes era ainda maior do que a têxtil, me deixando receoso de quantas coisas eu enfrentaria até encontrar Mana e Kaya lá dentro. Por enquanto, só o que me incomodava era a ardência do braço ferido, a sensação incômoda do sangue quente que não parava de escorrer e o horrível cheiro de álcool que me deixava desnorteado. Toda vez que me via próximo a uma porta, abria e adentrava o cômodo, fosse ele qual fosse. Tendo encontrado apenas prateleiras, tubos de ensaio, roupas dos empregados e até o armário de vassouras, o desespero voltou a me dominar. Os bandidos não podiam ter sido tão cautelosos para deixar duas meretrizes trancadas a sete chaves num lugar como aquele! Ou será que podiam...?

Cheguei então a um salão dominado por enormes tanques. Como eu sabia? Bati a cara em um deles e tropecei no cano de outro, naturalmente. Caminhei entre os tanques, apertando os olhos na tentativa de reconhecer as formas. O ar ali era mais quente que o restante de toda a fábrica, e o cheiro de álcool muito maior. Novamente acabei por tropeçar em alguma coisa e já ia dizer "puta merda", mas percebi que o que havia me feito tropeçar não era metálico. Parecia... humano.

Me aproximei, tocando a coisa com o indicador como uma criança tocando um cachorro morto.

- Olá...?

A coisa deu um gemido baixo... gemido este que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo, após ter sido o principal causador de outros tantos iguais a ele.

- Mana? Mana, é você?

- Ka... mi...

Graças a Deus, ele estava vivo.

- Por Deus, eu lhe encontrei, Mana! — Tateei seu corpo com a mão direita, e senti uma coisa gelada no vestido de meu lolita, mais precisamente na região lateral do estômago. Ele gemeu novamente. Estava muito ferido. — Mana, quem fez isso? — Procurei abraçá-lo, com o coração a mil por hora só pelo fato de saber que ele estava sentindo dor. Havia até se esquecido da minha. — Quem sequestrou você? Onde está Kaya?

Não sei se devo me arrepender de ter perguntado. As luzes se acenderam do nada e, ao mesmo tempo, máquinas foram ligadas botando todos os tanques para funcionar, deixando-me assustado e zonzo por alguns segundos. Fechei os olhos com força e, após reabrí-los, olhei primeiramente para o lolita em meus braços. Pelas marcas, ele havia levado diversos tapas. Suas roupinhas, sempre tão bem cuidadas, estavam rasgadas e manchadas pelo sangue que não parava de sair dos vários ferimentos que ele tinha — sendo maior e mais profundo o da região que já mencionei.

- Ah, Mana... se eu não tivesse saído de casa feito um covarde, estaria lá pra proteger você... me perdoe... me perdoe...!

Mesmo com o barulho infernal dos motores trabalhando, uma poderosa voz masculina se sobressaiu entre eles, se aproximando de mim e de Mana.

- Terá muito tempo para pedir perdão a ele quando chegarem no Inferno.

Imediatamente olhei adiante. Era Kaya, caminhando em passos lentos em nossa direção com as mãos para trás, balançando o corpo como se desfilasse pelas ruas nojentas onde costumava se oferecer.

- Kaya? O que houve aqui? Como pode estar... inteiro? — Eu imaginava que ele tivesse se escondido em algum lugar, era bem típico dele. — Por que não ajudou Mana?

A meretriz abriu um sorriso tenebroso, o pior entre todos os que já havia me mostrado. Pôs as mãos para a frente. Estavam cobertas de sangue e, na mão direita, segurava firme um pedaço de vidro pontiagudo.

- Por que fui eu que fiz isso... tolinho.

O sangue me ferveu nas veias na mesma hora. Comecei a suar, não só por estar nervoso, mas também pelo ar do salão que parecia mais quente a cada segundo.

- Kaya...? O tempo todo... era você?

- Yes, darling. — Argh, aquele maldito sotaque inglês! — Ele merecia uma lição.

- Kaya, Kaya! — Eu não acreditava no que estava ouvindo, assim como não conseguia achar uma explicação lógica. A não ser... — Ora, fez tudo isso para se vingar de mim? Seu idiota, não precisava ter ido tão longe!

- Não seja tão convencido, policial. O mundo não gira ao seu redor.

- Mas o qu-

- Eu era a meretriz mais bonita da Inglaterra — dizia ele, se aproximando cada vez mais. Os olhos azuis estavam fixos no corpo desacordado em meus braços, e o fragmento de vidro apontado firmemente para nós dois. — A de maior elegância, melhor preço, de melhores técnicas. Minha vida era muito boa... não, era ótima, até que essa vadia de quinta apareceu! Com roupas melhores que as minhas, um cabelo mais bonito, uma pele mais branca, uma voz muito mais doce...! Ah, e o perfume? Um irritante perfume de flores que ficava no ar, não importando há quanto tempo ele tivesse deixado o local! Bonita, educada e delicada como uma moça ingênua da alta sociedade... Mana! Tsc! Atraiu a atenção de toda a Londres com mais rapidez do que eu jamais pensaria!

- Kaya, você e-

- E então — ele não me deixou terminar. — começou a roubar meus clientes. Nas primeiras vezes, não dei tanta importância... mas em alguns dias todos me comparavam a Mana. Pensavam em Mana, falavam de Mana, queriam Mana! O que havia de tão especial nesse idiota de vestido que eu, Kaya, não tinha? Eu nunca, nunca fui capaz de entender isso! Mas havia um, ah, um único que não desprezava meus valiosos serviços! Közi era um homem que sabia o que era melhor! Este nome lhe parece familiar, Kami-chan?

- Kaya, acalme-se...

- Közi gostava de mim. Me dava tudo o que eu queria, e em troca, eu dava o que ele mais precisava. Um prazer extremo, além dos limites que qualquer outra Meretriz da Meia-Noite poderia alcançar! Eu sim o levava às alturas como ninguém mais conseguia, e ele reconhecia isso! Até também se sentir atraído por essa bicha nojenta chamada Mana! — Lágrimas começaram a cair dos olhos do ser histérico à minha frente. — Aquele babaca! Como pôde enxergar algum encanto nessa mosca morta? Como pôde correr atrás dessa prostituta imbecil, que o negava até a morte? Como pôde oferecer à ela fortunas maiores do que as que eu possuía? Como matou pessoas por ela? Como foi capaz de gemer o nome dela enquanto era eu quem estava com ele na cama?

O pranto tornou-se maior e mais dolorido, não havia dúvidas de que seu sofrimento era real. Entretanto, ainda se aproximava armado com o caco de vidro, e eu não podia me mover direito por estar com um braço ferido e segurando Mana no outro. Também não me era possível tirar a arma do cinto, de modo que eu só conseguia me arrastar para trás com muita, mas muita dificuldade. Logo estaria dando de costas com algum tanque ou parede.

- Kaya, abaixe esse pedaço de vidro...!

- Aí aquele idiota inventou de sequestrar Mana. Claro, que ideia maravilhosa, Közi! Sequestre a vadiazinha, ninguém vai sentir falta dela! — Kaya começou a rir entre lágrimas. Um riso nervoso, medonho, que doeu até em mim. — Ninguém mesmo, só um policialzinho intrometido que ficava a espionando num beco toda santa madrugada! Nada ia acontecer, Közi! Você só ia brigar com o homem disputando a vadia, e levar um tiro pelas costas! Um tiro daquela por quem fez tanto sacrifício! Hahaha, as pessoas são tão ingratas, não são, meu querido Közi?

Dei um encontrão na parede. Não havia mais saída. Depositei Mana no chão com todo o cuidado, enquanto Kaya ainda falava:

- Um ano. Um ano inteiro de dor e de lágrimas, foi tudo o que consegui aguentar! Um ano sentindo o calor de outros corpos, pensando naquele que estava dormindo dentro de um caixão frio no cemitério de Londres! Doze meses de

sofrimento sem fim, chorando pelo homem que eu amava e que foi arrancado dos meus braços com uma bala de revólver!

- Você forjou tudo muito bem. — me dei espaço para falar. Não aguentava mais ouvir a voz daquele maldito, e estava totalmente disposto a fazê-lo calar a boca. — Pensou em tudo, não foi? As mortes igualmente bizarras, um motivo aparentemente comum, nenhuma pista relevante... uma prostitua amedrontada aparecendo na Ordem para pedir auxílio, tentando afastar qualquer suspeita e, ao mesmo tempo, querendo se aproximar dos responsáveis pela morte. O destino não estava a meu favor, suponho — Acariciei os cabelos de meu lolita desmaiado, levantando bruscamente a voz para Kaya. — Eu achei que você fosse amigo dele!

- Impressionante como as pessoas nunca são o que parecem, não é, Kami-chan?

- Mana é uma pessoa maravilhosa. — Reuni forças para levantar, me apoiando na parede com certa dificuldade, e levei a mão ao cinto na intenção de pegar a arma. — E foi dentro da Igreja, diante de Deus e de todos, que eu pude confirmar isso quando ouvi o "sim" saindo da boca dele!

- Se não tivesse me rejeitado, teria visto que uma noite comigo seria melhor do que qualquer outra que podia ter com Mana!

- Mana sempre será melhor do que você!

A meretriz revoltada ergueu o pé na minha cara, me acertando um belo de um chute na boca. Soltei o revólver, caindo no chão de joelhos com um gemido alto de dor.

- Seu... — não pude completar a ofensa, tendo de parar e cuspir o sangue. Os cabelos me caíam na face impedindo minha visão, mas pude ouvir quando o fragmento de vidro foi atirando num canto qualquer e o revólver engatilhado. Kaya havia se apoderado dele. Puta merda, outro sem vergonha com as mãos no meu revólver? Tem que ver isso aí!

- Admiro sua inteligência, Sr. Kamimura... até que foi rápido descobrindo que estávamos numa fábrica de perfumes... muito bom mesmo! O que me denunciou? — Ele ria, sarcástico. — Ah é, eu usava perfume para inflamar as outras vadiazinhas. Um perfume de flores bem conhecido do nosso amigo Mana!

- Você vai morrer, Kaya... você vai morrer...

- Hahahaha! Eu não vou morrer. Vocês vão!

Ergui o olhar para ele. Achei que veria o revólver apontado para mim, mas ao invés disso, Kaya me deu as costas, caminhando para a saída. hegando nela, parou, olhou para trás e apontou a arma para um dos tanques em funcionamento.

- Apodreçam no Inferno.

E ele atirou. Na mesma hora, o tanque explodiu.

Notas finais
O sexto e último capítulo será postado ainda hoje. E mais uma vez, desculpem pela demora com os reviews, criatividade zero pra responder. Mas agradeço, de coração, por ainda estarem deixando. <3