Last Temptation
6 Capítulo Final - A última tentação
Notas iniciais
Capítulo Final — A última tentação
A partir do primeiro, todos os outros tanques também começaram a explodir. Em junção com o ar quente do salão, o fogo aumentou de uma maneira impressionante, devorando tudo em seu caminho. Canos estavam estourando, as instalações caindo depressa. Eu não podia fazer nada além de abraçar o corpo do lolita inconsciente que não parava de sangrar, evitando que ele fosse atingido pelo entulho que despencava, recebendo as pancadas ao invés dele e só piorando minha aparência que, depois de ferir o braço propositalmente na base da pedrada e de levar um chute na boca com o salto fino de uma prostituta, já devia estar ótima.
Fiz algum esforço para me levantar, com Mana firme em meus braços. Eu suava feito um porco, e não podia ver direito devido à claridade das chamas e das imagens tremidas produzidas pelo calor infernal do ambiente. Quanto tempo demoraria até a fábrica ser totalmente consumida pelo fogo? Quanto tempo Mana ainda aguentaria? Eu só sabia que, àquela altura, Kaya já deveria ter escapado.
- Klaha... Klaha ainda está lá fora...!
Pensar em meu pequeno cunhado deu-me novo ânimo. Depois de tirar Mana e eu do caminho, Kaya certamente iria atrás dele. Eu havia prometido a ele que levaria Mana de volta... que voltaria vivo! Eu precisava protegê-lo! Não havia tempo para fraquejar!
Respirei fundo, fechando os olhos. Precisaria perder mais alguns segundos para rememorar todo o trajeto que tinha feito até chegar ao salão dos tanques — o que de imediato me pareceu impossível, afinal, as luzes permaneceram apagadas por grande parte do caminho — e, considerando a altura e a velocidade nas quais o fogo já chegava, tentei imaginar o tamanho do dano já causado aos corredores, portas e escadas, o que me forçaria a procurar uma saída alternativa. Mas onde? Como?
Apertei Mana junto ao peito e corri, forçando desesperadamente uma passagem entre as chamas até a porta por onde Kaya havia fugido. Minhas calças estavam embebidas no álcool que havia escapado dos tanques, e havia centenas de fios elétricos partidos espalhados por onde a vista alcançava. Eu tinha de ser rápido. Se não levasse um choque pelo contato com os fios, seria eletrocutado assim que esses mesmos fios tocassem o chão molhado por álcool e água dos canos que haviam estourado. Saltei sobre pedaços de metal, escorreguei em matérias desconhecidas, me cortei diversas vezes. Aquela porta nunca parecera estar tão longe. Porém, com sorte e um pouco mais de esforço, consegui alcançá-la. As coisas não estavam melhores no salão precedente, cujas máquinas já sucumbiam ao calor extremo e, ao explodir, atiravam chapas metálicas e materiais pontiagudos para todos os lados. Olhei para ao redor; não havia forma de escapar já que as saídas mais próximas estavam bloqueadas. Então, uma luz vinda de cima iluminou minha cabeça. Não, não era uma luz divina. Era só o luar mesmo. Seus raios prateados provinham de uma saída no teto, fechada apenas por uma portinhola de vidro decorado. Pela minha posição em relação à ela, presumi que poderia alcançá-la através do terceiro andar. Por que não tentar...? Tornei a olhar para a frente. Milhares de vidros de perfume caíram e se partiram, misturando-se vidro das janelas também destroçadas e fazendo do piso um labirinto brilhante. Ferros desprendiam-se de seus respectivos lugares, rolando para onde pudessem ir. A sustentação das escadas tornava-se fraca e os degraus ora ficavam suspensos, ora despencavam. Uma travessia impossível. Mas eu não daria ao luxo de morrer, não conseguir salvar Mana e ainda perder Klaha. Corri novamente, saltando tudo o que se postava em meu caminho com a agilidade de uma criança ferida em alguma brincadeira, porém animada para chegar em casa. Abraçava Mana como se minha vida dependesse daquilo, e na verdade, dependia inteiramente. Sem ele, eu não era ninguém. Pisei com força no primeiro degrau para certificar-me que ele seria capaz de aguentar o peso de duas pessoas. Não havendo rejeição, continuei a subir. Estava perdendo as forças, o calor me deixava exausto e a fumaça me atrapalhava a visão. O corrimão começou a tremer, e logo a escada toda estava à beira de um colapso, pendendo entre cair devagar ou cair de uma vez levando Mana e eu consigo. Quase no fim dela, os degraus finais quebraram e foram ao chão, deixando um imenso abismo a me separar da estrutura já não tão firme do corredor do segundo andar. Me vi obrigado a saltar, o que seria arriscado demais, ainda mais por estar com Mana nos braços. Não havia problema se eu caísse mas, se isso acontecesse, ele também cairia. Morreríamos perfurados por uma renca de ferros e vidros partidos. Só de pensar naquilo, senti mais dor do que quando levei um chute no saco. O fato é que, sem alternativas, pulei. Caí no chão do corredor bem rente à beira do buraco, quase rolando para o lado errado e vindo abaixo com Mana. Tornei a me levantar, ajeitar Mana e correr. Mais vidro, mais metal, mais cabos. Nada parecia estar a meu favor naquele andar. Havia uma saída de ar, mas passar por ali estava totalmente fora de cogitação. Eu poderia me esgueirar por suas tubulações, mas isso só seria possível se Mana não estivesse presente. Eu poderia escondê-lo ali, mas do jeito que o fogo avançava rápido, só aceleraria uma morte por asfixia. Nos setores, nada que pudesse me ajudar a alcançar mais depressa a gloriosa saída no teto. Meu tempo estava acabando.
Terceiro andar. Neste, as coisas pareceram ser ainda piores pois, com os andares de baixo todos destruídos, ali em cima nem as paredes eram confiáveis. Nos corredores estendiam-se vários buracos de tamanhos variados, de modo a me fazer arrancar portas e usar como ponte para atravessá-los. Pedras começaram a se soltar, aí sim meu desespero foi grande. Para conseguir chegar à saída, teria de andar por passagens exageradamente estreitas e ainda cortar caminho usando as paredes, como se fosse um macaco ou algo do tipo. Foi difícil, escorreguei mil vezes e até caí em algumas delas, mas por fim, consegui chegar ao maldito teto. Me atirei de ombros contra a portinhola, quebrando-a e cortando inteiramente minhas costas. Passei Mana primeiro, e após ouvir o baque de seu corpo contra as telhas, subi. Olhei para baixo, era a coisa mais alta que eu já tinha encarado desde que havia ficado preso em um carvalho na infância. Nenhuma árvore por perto para que eu me agarrasse aos galhos e descesse em segurança. Nenhuma calha, nenhuma parede vegetal firme o bastante. Só a fábrica se desfazendo sob meus pés e o chão frio lá embaixo, esperando para me receber.
- Deus... Nunca fui muito religioso, mas... olha, se eu tiver que morrer agora, por favor, que alguém encontre Mana e o salve a tempo... que achem um bom... um bom tutor para Klaha... e que o novo chefe da Ordem seja capaz de prender Kaya!
Tomei Mana nos braços novamente. O abracei com força e beijei-lhe os lábios salpicados de sangue — provavelmente o último beijo que daria nele. Fechei os olhos cheios de lágrimas... e pulei, de costas, para evitar que Mana atingisse o chão.
- Adeus, Klaha. Adeus, Mana. Adeus... café.
Senti um frio passar por minha pele. Meus pensamentos estavam confusos.
- Alguém pegou minha camisa.
Abri os olhos devagar, e fiquei momentaneamente cego pela forte luz acima de mim. Ao meu redor, ouvia barulhos esquisitos. Murmúrios distantes, e o irritante tique-taqueado de um relógio.
- Estou na sala de espera do Céu...
Percebi que estava deitado. Fiz esforço para me levantar, minha cabeça e meu corpo doíam por completo, principalmente o braço esquerdo. Se eu estava realmente morto, não devia sentir tantas dores. Fiquei revoltado.
- Onde está Deus? Preciso fazer uma reclamação!
- Kami-chan, do que está falando?
Reconheci aquela voz. Olhei para o lado. Em uma cadeira, estava Klaha, todo cheio de curativos e me observando com expressão confusa. A mesma expressão de "pare de usar drogas" que meu antigo chefe fazia.
- Klaha? Oh céus, você também morreu? — comecei a gritar, histérico. — Deeeus, você pegou o garoto errado! Devolve ele, devolve ele! Agoraaa!
- Que história é essa, Kami-chan? Nós estamos no hospital!
- ... No... hospital?
Percorri os olhos ao redor do local. Era um quarto qualquer no hospital de Londres, com cortinas brancas nas janelas e remédios sobre uma mesinha ao lado da cama onde eu estava. Meu braço estava todo enfaixado, e minha cabeça e parte do tronco também.
- Ora ora, parece que nosso maluco suicida acordou — disse um homem de longos cabelos cacheados, entrando no quarto. Usava um jaleco branco e tinha nas mãos uma seringa cuja agulha era do tamanho do meu braço. Ok, nem tanto.
- Quem é você? E onde vai enfiar essa agulha? — perguntei, desconfiado, pronto pra meter a mão na cara dele.
- Sou o Dr. Yu~ki. E não se assuste com isso, não é para você — respondeu ele, sorrindo e deixando a seringa junto aos remédios. — Fico feliz em vê-lo bem.
- O que... aconteceu exatamente?
- O senhor pulou do telhado da fábrica antes que ela virasse cinzas. Umaaltura considerável, é verdade. Se queria ser aventureiro, deixe-me dizer que está na profissão errada, senhor.
- Ah é... a fábrica... a explosão... — as coisas na minha cabeça estavam tão perdidas que nem grande mestre em palavras cruzadas seria capaz de ordená-las.
- O pequeno Klaha já devia estar cansado de passar todo esse tempo a seu lado.
- Há quanto tempo estou aqui...?
- Está dormindo há dois dias, Sr. Kamimura.
- Dois dias... DOIS DIAS?! — me espantei. — Não posso estar aqui há dois dias! — então, veio um clarão em minha mente. — Onde está Mana? O que aconteceu com ele?
Antes que o tal Yu~ki pudesse me responder, um enfermeiro adentrou o quarto com expressão desanimada.
- Dr. Yu~ki, o óbito foi confirmado. Devemos avisar a família agora?
- NÃO! — gritei, jogando os lençóis para cima e saindo do quarto em disparada, passando pelo enfermeiro com tanta pressa que ele segurou-se ao médico para não cair. — Mana, você não pode ter morrido! Não pode!
- Sr. Kamimura, espere, você...
Não pude ouvir o que o doutor disse depois. Meus olhos mais pareciam duas torneiras abertas, eu não podia tolerar a ideia de ver meu lolita morto. Corri pelo hospital feito um maluco, assustando todos que por mim passavam. Derrubei duas enfermeiras, virei uma mesa de medicamentos, caí em cima de uma maca no corredor e rolei escada abaixo. Caí sentado após o último degrau, esfregando a cabeça e resmungando de dor.
- Puta merda...
- Você não devia ter saído do quarto, sabia?
- Cale a boca, acabo de saber que o amor da minha vida está morto e- — olhei para cima, já prestes a mandar a pessoa para os quintos dos infernos, mas me detive ao ver quem era. Saltos plataforma de doze centímetros. Meias longas, luvas de renda e um vestido azul novo em folha. Lábios tingidos suavemente no mesmo tom, e os cabelos presos em cachos nos lados da cabeça. — M-M-Mana? — Imediatamente comecei a subir as escadas de costas, morrendo de medo. Só podia ser uma assombração.
- Kami... eu não estou morto.
Parei.
- ... Não?
- Não — tirou uma das luvas e aproximando-se, tocou minha face. Aquela textura suave, aquela pele quente. Ninguém no mundo poderia ter um toque como aquele.
- Mana, você... eu...
Ajoelhando-se à minha frente, ele se atirou em meus braços.
- Shh... já acabou... meu querido.
As mesmas palavras que eu havia dito a ele um ano antes. Não pude segurar o restante das lágrimas.
- Mana, eu achei que você tivesse...
- Devia estar. Mas você não deixou isso acontecer. Seu idiota, o que estava pensando quando pulou daquele teto? — ele riu baixo, acariciando meus cabelos e logo encarando-me. Aquele rosto angelical... pela primeira vez, após um ano de casados, senti as faces esquentarem e assumirem um tom avermelhado. Parecia até que eu era Mana. — Você salvou minha vida. Pela segunda vez.
Uniu os lábios aos meus. Não consegui esperar muito antes de invadir a boca de meu pequeno com a língua. Estava debilitado, dolorido, mas ainda podia beijar.
- Nhaaa, aí estão vocês! Nii-Sama, saia de cima do Kami-chan! — Klaha vinha descendo os degraus, tendo a mão segurana pelo médico.
- Klaha-chan, não devia interromper coisas assim.
- Isso sempre acontece, Dr. Yu~ki!
O menino riu, inocente. Mana parou de me beijar para rir também e eu, como sempre, não pude deixar de achar graça. Estava tudo de volta ao normal. Tudo, menos...
- Esperem. O que houve com Kaya? Onde está aquela piranha desgraçada?
- Vá se vestir, Sr. Kamimura. — O médico soltou a mão de Klaha, que veio para baixo me ajudar a levantar. — Seus companheiros da polícia vieram buscá-lo para resolver este assunto.
O que teria acontecido? Kaya teria morrido na explosão ou conseguira escapar ileso?
Puta merda.
Devidamente vestido, fui levado ao hall da Ordem, acompanhado de Klaha e Mana. Fiquei feliz por, no caminho, poder explicar a Mana o que havia acontecido na tarde em que eu supostamente tinha o traído com Kaya. Ele entendeu, e me pediu desculpas por ter sido tão injusto. Fui recebido com grande festa por meus companheiros cabeças-de-vento. Depois disso, fui conduzido ao hall, onde os superiores da Central me aguardavam. Primeiramente, estranhei a presença deles. Em segundo lugar, estranhei mais ainda dirigirem-se a Klaha com tanto entusiasmo, apertando-lhe a mãozinha direita e tratando-o por "herói".
- Sr. Kamimura — disse um deles, estendendo-me um papel.
Abri o dito. Era meu pedido de demissão, cujos espaços destinados às assinaturas deles estavam vazios.
- O que isso significa...?
- Quando recebemos sua ligação, prontamente separamos os papéis para que viesse buscá-los mais tarde, porém, com os últimos fatos, não pudemos completar o processo. Não podemos deixar que um grande policial como você abandone a Ordem. Você é um bom homem, Sr. Kamimura. E é por isso que decidimos relevar seu pedido de demissão. Todavia, se quiser mesmo efetuá-lo... não iremos impedí-lo.
Olhei para Mana, como se pedisse ajuda. Ele acenou negativamente com a cabeça, e logo após sorriu. Não era o emprego dos meus sonhos, mas eu gostava. Além do mais, foi por causa dele que eu havia encontrado a pessoa mais importante do mundo para mim: meu amado Mana.
- Eu... pensarei no assunto, senhores.
- Oh, isso é maravilhoso.
- Hm, uma pergunta — olhei para Klaha. — O que aconteceu depois que eu pulei do telhado?
- Foi graças a ele que ficamos sabendo de sua localização — respondeu o oficial mais alto, entendido de minha dúvida. — Após você deixá-lo no hospital, ele pediu ao Dr. Yu~ki que entrasse em contato com a polícia. Nos contou a história toda. Estava desesperado. — O oficial do meio tirou um revólver do sobretudo e me entregou. Era o meu revólver, com sua última bala. — Mas não sabíamos que quem estava por trás de tudo era Kaya, não sabíamos mesmo! Como descobriu?
- Da pior maneira possível — minha expressão era séria. — Onde está ele?
Você pode imaginar a resposta que eu aguardava. Porém, essa hipótese foi abandonada quando, da boca de um deles, saiu:
- Por favor, venha conosco.
Meu medo se concretizara: Kaya estava vivo.
Instintivamente, Mana apertou-me a mão direita, lançando-me um olhar preocupado.
- Está tudo bem, meu amor. Será melhor que eu vá sozinho.
Fui levado ao corredor das celas dos prisioneiros. Ele havia sido trancafiado na última — a pior delas, com uma janela minúscula por onde a luz do "sol quadrado" entrava terrivelmente reduzida e onde havia um único catre em condições de dar nojo até a um rato de Gardenia Avenue — sem qualquer tipo de mordomia. Quando entrei na cela, ele estava com a cabeça entre os joelhos. Os cabelos desgrenados, o vestido de luxo rasgado, sujo de terra e sangue. Ao ouvir meus passos, logo ergueu a cabeça para mim. Tinha os olhos inchados e a maquiagem borrada, sinal de que passara um bom tempo chorando; mas bastou que nossos olhares se encontrassem para me oferecer um sorriso. O mesmo sorriso nojento, o sorriso falso, o sorriso filho da puta de sempre! Naquela situação, ele ainda conseguia sorrir? Estava tentando me humilhar? Aquilo instantaneamente me tirou do sério.
- Eu vou matar você, sua vagabunda! Eu vou matar você!
Avancei contra ele, engatilhando o revólver e mais do que pronto para meter uma bala entre os olhos daquele infeliz.
Desde o início, eu havia sido um inútil. Entrei para um emprego com o qual eu não era familiarizado. Havia me apaixonado por alguém que, além de Meretriz da Meia-Noite, era homem. Atropelei um gato e um hidrante, invadi uma propriedade privada e enfrentei o dono de um banco para salvá-lo. Me vi frente a frente com um novo caso insolúvel, fiquei sem café, quase perdi meu casamento, cheguei a pensar em suicídio. Arrisquei a vida de Klaha deixando-o sozinho no hospital, e saltei do telhado de uma fábrica em chamas quase me matando e também pondo a perder a vida de Mana. Até o presente momento, minha existência tinha sido regada por tentações que podiam ter me destruído. Minha última tentação era matar Kaya.
- Atire. Atire. Atire. — Ele parecia um zumbi, repetindo a mesma coisa sem parar. — Atire, Kami-chan. Mate-me.
Forcei o dedo no gatilho.
- Atire em mim como sua vadiazinha de estimação atirou em Közi... Vamos, atire. Estou esperando. Atire se for homem... atire...
Ergui a mão para cima e atirei, estourando a velha lâmpada que antes iluminava precariamente o local.
- A morte pra você seria um presente — respondi-lhe, dando as costas enquanto os oficiais trancavam a porta de grades de ferro. — Sofra pelo resto da vida aí dentro.
Enquanto me afastava, pude ouvir o grito tenebroso saído da garganta de Kaya. Um arrepio me subiu pela espinha. Certamente, toda a Londres também ouvira.
Lá em cima, me despedi dos colegas, peguei Klaha no colo e, ao lado de Mana, me preparava para deixar o Hall quando os superiores novamente me chamaram.
- Sr. Kamimura?
- Pois não?
- Já pensou sobre seu contrato?
- Sim, eu já pensei — respondi, ainda de costas para o homem. — Por favor, peça para renovarem o estoque de café da Ordem toda. Um chefe de polícia não pode trabalhar sem café.
Senti que o homem sorriu.
- Com prazer, Sr. Kamimura.
Deixei o prédio, sorridente, com minha prezada família em minha companhia.
- Mana-chan, podemos tomar sorvete agora?
- Sim, chérie. Se Kami não se importar...
- É claro que não, meus queridos. Vamos agora mesmo. Quero um de morango! — pus Klaha no chão, vendo-o correr na direção da pequena sorveteria do outro lado da calçada.
Enquanto Mana ia atrás dele, parei no último degrau da escadaria na entrada da Ordem, encarando o sol que sumia no horizonte. Ergui a mão direita na direção da luz e depois a levei ao lado esquerdo do peito, com um grande sorriso estampado nos lábios.
- Deus... te devo uma.
- Kami-chaaan! — gritou Klaha, de dentro do estabelecimento. — O Mana-chan vai comer tudo se você não vier logo!
- Vamos pegá-lo, Klaha! — e corri
Não importava quantos perigos eu ainda enfrentaria no futuro. Não importava quantos "puta merda" eu ainda diria, nem quanto café eu ainda deixaria de tomar.
Ninguém nasceu para ser infeliz a vida toda.
Eu não nasci pra isso.
E agora, acho que já posso transformar minha história de vida num livro. Vai virar best-seller, você vai ver, só!
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