L'amour toujours
1 The Scientist
Notas iniciais
O dia estava nublado, como muitos desde a separação. Andei até seu prédio, pois precisava vê-lo, ao menos. Interfonei e não obtive resposta. Claro.
Não importava que não tivéssemos mais nada a tratar, eu queria que você soubesse que vim te visitar, que queria pedir desculpas e te dizer o quão amável era. Queria que você soubesse que eu preciso de você. Ainda.
Sentei-me nos degraus da escada que era entrada do seu prédio e comecei a relembrar quando tudo começou. Como eu gostaria de voltar para o início.
Éramos entusiasmados, todos os dias nos interessavam saber os segredos um do outro, assim como fazermo-nos perguntas, das mais simples como “Qual a sua cor favorita?” até as mais complexas relacionadas à ciência — que você adorava —, ou à origem do universo, sobre filosofia e alma.
Flashback on.
Estávamos no meu quarto tentando fazer um trabalho de ciências, em que tínhamos que criar uma célula com todos os seus componentes. Logo, havíamos finalmente terminado de pintar a bola de isopor e, na verdade, muitas partes do meu quarto também.
Eu estava deitada na cama segurando nosso projeto delicadamente com apenas dois dedos, pois ainda não estava seca a tinta, e os braços esticados para cima, olhando fixamente para a célula.
— Depois de tanto pintar, fiquei curioso... — ele começou dizendo, em pé ao lado da cama, limpando as mãos num pano — Qual a sua cor favorita? — e sorriu maliciosamente.
— Azul. — respondi, inocentemente. E sorri olhando para a célula, que era da mesma cor.
— Isso facilita o meu trabalho.
Antes que eu percebesse, ele estava em cima da cama e tinha empurrado a célula para o meu rosto que logo saiu rolando até a porta, deixando um rastro azul pelo cobertor, e pelo chão e, provavelmente, por todo o meu rosto.
Não pensei duas vezes e pulei em cima dele. Logo estávamos rolando na cama, eu tentando bater nele e ele rindo e me segurando. De repente, ele conseguiu prender meus braços ao lado da minha cabeça e falou ainda sorrindo:
— Se acalmou?
Eu virei o rosto, fazendo um biquinho para mostrar que estava emburrada, mas ele novamente respondeu à minha reação de um jeito particularmente seu:
— Ótimo! — e, sem parar de sorrir, soltou meus punhos, que ao mesmo tempo em que percebi que estavam com uma marca azul, senti, na minha bochecha, ele passar as mãos sem parar. E voltou a rir.
Não me contive e ri também. Segurei seu rosto com os meus punhos, de modo que meus dedos entrelaçaram seus cabelos pretos. Suas bochechas rapidamente ficaram azuis. Aproximei-o de mim e nos beijamos.
Flashback off.
Algumas lágrimas começaram a escorrer de meus olhos, mas deixei-as, até que se misturaram com as gotas de chuva que levemente começaram a cair numa fina garoa. Ninguém disse que era fácil, não é?
Lembrei-me, também, das brigas, em que recusávamos a nos entender “Eu não entendo as mulheres mesmo”.
Flashback on.
Ele corria atrás de mim na chuva gritando meu nome e, como eu estava de salto, não foi difícil para ele me alcançar, mas não parei de andar.
— Olha... — ele tentava falar enquanto eu continuava andando e o ignorando. — Eu não sei... Marina, dá para você parar de andar? — e ele se colocou na minha frente.
Estava como eu, encharcado dos pés à cabeça. Colocou seu paletó sobre os meus ombros.
— Eu queria que você, ao menos, me explicasse o que eu fiz de errado.
— Você deveria saber! — praticamente gritei em resposta.
— Eu não entendo as mulheres mesmo... — ele começou, colocando uma das mãos na testa — Você acha que eu leio seus pensamentos? Fale comigo! — praticamente implorou — Você nunca foi de não dizer o que pensa.
Comecei a chorar desesperadamente e ele me abraçou, deixando-me chorar em seu peito, não que molhasse sua camisa mais do que a chuva, então não dei importância para isso.
— Na verdade você não fez nada errado... Eu só... — comecei a falar com um nó na garganta — estou tão atarefada e... Não tenho dado atenção para mim mesma ou para você. Acho que devemos terminar.
— O quê? — ele perguntou pasmo, soltando-me.
— Eu ouvi várias pessoas dizendo que eu não te mereço, somos tão diferentes e...
Ele calou a minha boca com um beijo.
— Você não faz sentido nenhum, sabia? — disse ele, derramando, inclusive, algumas lágrimas. — Você é a minha namorada não só para os momentos felizes, nós estamos nisso juntos para passar por tudo. A não ser, é claro, que você queira ser minha namorada para tempos felizes, só que terei que arranjar uma para os tristes, isso vai ser meio complicado...
Bati em seu peito e ele riu. Olhamo-nos nos olhos e ele, segurando meu queixo com uma das mãos, falou:
— Eu te amo, e quero juntar todas as peças desse quebra-cabeça que é você.
Flashback off.
Finalmente resolvi sair da frente de seu prédio. A chuva agora era incessante, mas não se comparava a quantidade de lágrimas que eu tinha derramado. Às vezes, durante o meu caminho perdido eu tive vontade de simplesmente parar e gritar, desistir. Não só o meu coração doía, mas todo o meu corpo.
Encontrei-me, então, diante de sua lápide, como diversas outras vezes. Perguntei-me, novamente, porque não fui eu que morri, porque eu tinha que aguentar essa angústia. Mas, claro, não tinha resposta para essas questões.
Ninguém disse que seria fácil. Eu só queria ouvir uma palavra sua, ouvir sua voz ou ver seu sorriso. Eu queria acreditar em fantasmas e que você viesse me assombrar. Eu queria voltar para o início.
Perdi a noção das horas ajoelhada em frente ao seu túmulo. O tempo até já tinha melhorado e já se iniciara o pôr do sol.
— Com licença... — falou timidamente um moço alto que parou do meu lado — Pode dar uma pra ele! — agachou-se e me estendeu uma rosa branca, sorrindo.
Eu peguei a rosa, hesitante.
— Obrigada! — falei, por fim.
— Não precisa agradecer. Eu tenho muitas mais. — e apontou para uma lápide não muito longe dali cheia de rosas de todas as cores.
— Você devia amá-la muito... — falei e ele olhou para o lado, tentando afastar a tristeza. — Não disseram que seria tão difícil, não é?
Ele deu um sorriso torto.
— Eu estou voltando para o começo! — e estendeu a mão para me ajudar a levantar.
Olhei para a mão e depois para a rosa. Coloquei-a sobre o túmulo e depois aceitei a mão do moço, sem olhá-lo nos olhos. Agradeci novamente enquanto ele se despediu. Fiquei, porém, para ver o pôr do sol ao lado do meu amado Franja.
Olhei para o moço partindo, olhei para a foto do meu namorado e para o pôr do sol e concluí que só tinha a agradecer, apesar de tudo.
— Obrigada!
Eu também tinha que caminhar para um novo começo.
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