Notas iniciais
Pretty Hurts - Beyoncé https://www.youtube.com/watch?v=NKe3N7HfPGs

A chuva leve molhava a janela de vidro fechada, e a luz fraca do dia nublado deixava o quarto com uma aparência esbranquiçada e sem vida. Exceto pela jovem estirada no chão, pálida e magra, embora não fosse possível identificar se ela ainda estava viva.

O dia anterior estava ensolarado. Era um dia importante para Maria Mello. Havia concorrido desde adolescente em concursos de beleza e miss, ficava sempre entre o segundo ou terceiro lugar, mas nunca em primeira. Mas não hoje. Ela se olhava no espelho procurando qualquer coisa que não estivesse perfeita, mas estava confiante. Começou a se lembrar de quando era criança:

Seu pai seguia todos os padrões de beleza masculinos, era alto, musculoso, tinha olhos claros e cabelos escuros; sua mãe, porém, era obesa, — sua família inteira materna, aliás, tinha essa predisposição — era morena e de olhos escuros, e Maria, sem ter escolha, recebeu as mesmas características. Sofria com isso. Olhava as outras meninas na escola, magras e bonitas e sentia vergonha por não ser como elas, por ser mais parecida com sua mãe do que com seu pai. Não entendia, afinal, porque um homem tão bonito como seu pai estava com aquela mulher.

Ao atingir treze anos de idade, por sua própria conta começou a comer menos e a fazer exercícios para perder peso. Com dezessete anos, algumas semanas antes de terminar o ensino médio, perdeu sua mãe para um ataque cardíaco relacionado à obesidade. Não tinha sido atingida por isso como seu pai, que chorou todos os dias por dois meses seguidos e, mesmo depois, o encontrava chorando escondido ocasionalmente.

Na semana seguinte deste ocorrido, os alunos começaram a coletar fotos antigas para passar na cerimônia de formatura.

— Quem é essa? — perguntou um aluno, apontando para uma menina de uma das fotos que era gorda e irreconhecível.

— Maria Mello — cochichou em resposta o dono da foto e recebeu em resposta um rosto surpreso do amigo.

Maria, que não havia deixado de ouvir, foi irritada até a mesa dos meninos e começou a derrubar tudo o que havia em suas mesas no chão.

— Acham isso engraçado? — perguntou, mas, sem esperar uma resposta, pegou a foto sobre a qual eles haviam falado e rasgou em vários pedaços que ficaram espalhados pelo chão, depois saiu da sala.

Os alunos ficaram assustados, perguntavam-se o que tinha acontecido e comentaram entre si que nunca tinham falado nada de ruim sobre o peso dela, muito menos rido disso. Maria havia ido para o banheiro vomitar, além de já estar magra, a jovem tinha desenvolvido bulimia, mas ninguém sabia. Agachada em frente ao vaso sanitário, limpou a boca com as costas da mão e começou a chorar.

Depois de completar dezoito anos que a sua carreira como modelo começou a aumentar. Nunca quis namorar, embora fosse muito cortejada por homens e mulheres, nunca precisou fazer um curso superior, mesmo que seu pai insistisse. Ela tinha beleza, e considerava suficiente.

Hoje era o último dia que poderia participar de qualquer concurso relacionado à beleza, estaria velha demais para continuar depois disso. Por isso ganharia o primeiro lugar hoje.

Ainda se olhando no espelho, sentiu-se orgulhosa. Colocou as lentes de contato azuis, penteou o cabelo loiro e foi para o local onde aconteceria o concurso, pois era lá onde deveria se arrumar.

Tudo ocorreu como os conformes, cinco minutos, porém, antes de ter que estar pronta para entrar no palco, seu pai entrou no camarim com um sorriso no rosto. Desejou boa sorte e falou:

— Sua mãe estaria muito orgulhosa da pessoa que você se tornou.

— Por quê? — perguntou Maria, surpresa e levemente irritada. — Por que eu não sou como ela? Por que eu consegui ficar magra e bonita?

— Maria, por favor... — o pai a cortou em sua fala antes que ela dissesse algo ainda mais desagradável. Entregou um envelope branco para ela. — Ela ficaria orgulhosa porque você foi atrás dos seus sonhos... Porque você foi feliz.

Deixou Maria com seus pensamentos.

A moça abriu o envelope e reconheceu a caligrafia de sua mãe na carta, que dizia:

“Minha querida Maria,

Não escreverei uma carta gigante, pois nunca iria terminá-la em tempo.

Começarei me desculpando por tudo o que fiz para você que não tenha te agradado, embora fosse comumente para o seu bem.

Pedi para seu pai lhe entregar essa carta no fim de sua carreira, pois sei que pode encontrar algumas dificuldades a partir disso. Mas lembre-se: a tempestade pode parecer eterna, mas numa terra em seca, o que mais se deseja é a chuva. Tudo depende de como você encara as coisas.

Com o tempo, também aprendemos que o que priorizamos, não é necessariamente tudo o que precisávamos.

Seu pai e eu te amamos muito e desejamos sua felicidade.

Com amor,

Mãe.”

A carta ainda continha duas fotos: a primeira de sua mãe muito mais jovem, também em um concurso de beleza — estava magra e linda; tinha ganhado primeiro lugar — e no verso estava escrito com a mesma letra e cor da carta “antes da depressão”; a outra foto era de seus pais juntos (a mãe já acima do peso) com Maria nenê no colo e no verso uma legenda “época mais feliz da minha vida: amores da minha vida. Depois disso nunca mais fui infeliz”.

Dos olhos de Maria saíram algumas lágrimas que ela se apressou em conter, limpando com os dedos rapidamente. Deixou a carta em cima do balcão onde estavam seus produtos de beleza. Logo foi chamada para entrar no palco.

O decorrer do concurso foi o esperado. O apresentador chamou-a para as perguntas.

— Miss, qual é a sua aspiração na vida?

— A minha aspiração na vida... — respondeu sorrindo, mas sua expressão logo se tornou pensativa. Começou a relembrar por tudo o que havia passado. Sua vida inteira se resumiu numa busca pela perfeição, e depois de hoje não tinha um objetivo. Lembrou-se de seus pais e respondeu: — A minha aspiração na vida é ser feliz.

Ficou em segundo lugar nesta competição.

Voltou para o seu apartamento, onde morava sozinha. Assim que entrou, começou a quebrar os vasos, copos, pratos e tudo o que via pelo caminho. Foi para o seu quarto, a cortina estava aberta, embora já passasse de meia-noite. Olhou-se no espelho e jogou seu salto nele, tirou as roupas, ficando só de lingerie de frente para o espelho. Quase todos os ossos de seu corpo eram visíveis. Foi ao banheiro vomitar, mas voltou rapidamente para se olhar no espelho e, ao chegar nele, caiu no chão, desacordada.

O dia seguinte amanheceu chuvoso e nublado, triste como qualquer segunda-feira. A diarista entrou no apartamento e encontrou a dona da casa desmaiada e praticamente nua no chão do quarto. Ligou para a ambulância. Imediatamente após os paramédicos retirarem Maria do quarto, o espelho se quebrou deixando os estilhaços espalhados pelo chão, onde ela, não há muito tempo, estava.

No hospital, horas depois, Maria acordou e um médico ali presente lhe disse:

— Bem vinda de volta. — ela o encarou chocada por um momento, olhou para baixo e sorriu timidamente.

— De volta não... — disse ela, recuperando a consciência — Essa é uma nova vida!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.