Lado escuro

1 1 - Olhos Vermelhos Como Sangue.


E lá estava, sentada no velho balanço da árvore da colina, olhando para o vácuo que existia no ar, as mãos delicadas e frágeis segurando as correntes enferrujadas pelo tempo, os pés cruzados e o vento se divertindo em seus cabelos que tanto queria tocar.

“ –Por que não me olha?”

“ –Não posso... –ela fez uma pausa. –não posso destruir sua vida...”

“ –Por favor... Não estragará nada... Apenas... Deixe-me ver seus olhos.”

“ –Chega! Já disse que não posso!”

“ –Ao menos uma vez...”

E ela fez uma pausa, seguida de um longo suspiro.

“ –Tudo bem...”

Quando ela virou-se para me olhar, a única coisa que vi foi o vislumbre de olhos... Olhos Vermelhos como Sangue.

Então o senhor Morris pode nos dizer como foi o sono! –disse o homem baixinho que encontrava-se a frente de um quadro negro com o dobro de seu tamanho. Não estou certo, sr. Morris?

Scott levantou a cabeça assustado, ele havia dormido de novo na mesma semana, suspirando profundamente ele olhou para o professor.

Desculpe, sr. Sarose, não sei do está falando.

E todos riram de Scott, menos seu melhor amigo, Noah Sleven, seu amigo desde o jardim de infância.

Ele lançou um olhar para Scott do tipo “Cara, o que está acontecendo com você?” e Scott apenas balançou a cabeça e coçou os olhos com as costas das mãos.

Para a diretoria agora! – o baixinho gritou em um ruído estrondoso que ecoou pela sala de aula.

Scott, já acostumado com a situação, jogou os livros que estavam sobre a mesa em sua mochila e se levantou. O que diabos está acontecendo comigo? – pensou ele ao fazer o caminho que já conhecia muito bem.

Quando ele chegou a diretoria falou com a vice diretora, uma mulher de no máximo 32 anos, loira, olhos verdes e de uma inteligência que poucos teriam.

Bom dia, senhorita Collins. –ele disse quando a vice diretora passou e dando um pequeno sorriso, ela voltou.

De novo aqui, Scott? Pensei que estava tudo bem.

E está... Só tenho tido problemas com o sono e acabo dormindo nas aulas... Mas é só uma fase ruim, eu tenho certeza.

Assim espero, você tem um futuro muito bom pela frente e deve aproveitá-lo bem.

Farei isso sim. –ela sorriu com a resposta do garoto e saiu da sala.

Passou alguns minutos desde que Scott havia chegado e já estava ficando impaciente, nunca havia demorado tanto para falar com o diretor, até que ouviu a maçaneta girar e a porta abrir, e sem olhar para quem saía, ele foi logo entrando.

Livros para um lado, mochila para o outro e cabelos espalhados por um rosto que se sobressaía pela palidez excessiva de sua dona.

Idiota! –a garota reclamou ao se levantar do chão e retirar o cabelo do rosto. –Esqueceu de olhar por onde anda?

Foi mal. –ele se abaixou para pegar seus livros e a garota fez o mesmo, porém ao mesmo tempo, e as cabeças se chocaram, os fazendo cair no chão mais uma vez.

Só pra você saber, ficar jogada no chão não é o meu hobbie. –ela suspirou ao ficar de pé novamente, só que dessa vez os livros já estavam em suas mãos. Scott ficou olhando fixamente para a garota, conhecia aquelas mãos de algum lugar. –Hey seu estranho! É falta de educação olhar para as mãos das pessoas sem permissão.

Ele esboçou um sorriso e riu, logo depois correu os olhos para encontrar o rosto da garota, mas ela já havia passado por ele e já atravessava a porta. Scott, intrigado com a garota, tentou segui-la mas só viu um pequeno vislumbre de mechas negras pelo corredor, que logo sumiram no meio da multidão.

...

No último tempo de aula, ele voltou para a sala, havia pego dois dias de detenção mas ficaria até o fim das aulas daquele dia.

Ele voltou e se sentou em seu lugar novamente, Noah estranhou e foi até o amigo para saber o que havia ocorrido.

Cara, o que tá fazendo aqui? Pensei que iria para casa.

Eu peguei dois dias de detenção –ele rolou olhos , mas vou ficar até o fim da aula, não sei por quê.

– Posto de conveniências depois? –perguntou Noah, que era um pretexto para “Vamos beber, fumar e paquerar a moça do caixa”. Scott sorriu com a proposta do amigo e assentiu.

Depois do curto diálogo, os amigos voltaram sua atenção ao professor de Geografia, o Sr. Brandom. Um homem que não passava dos trinta e dois anos, era sábio com as palavras e uma pessoa muito legal, Scott gostava da aula dele.

– Então, galera, vocês compreenderam o que eu disse? –e a turma respondeu em uníssono fazendo o professor dar um sorriso discreto entretanto orgulhoso. – Desse jeito vão passar na faculdade rápido!

O sinal que indicava que as aulas haviam chegado ao fim foi soado e todos se levantaram rapidamente; ninguém gostava de ficar mais do que necessário na escola.

Scott, que mal havia aproveitado o dia para qualquer coisa, foi um dos últimos a sair mas seu professor o chamou até sua mesa.

– Scott, venha cá um momento... –disse o sr. Brandom e o garoto obedeceu, indo até ele.

– O que eu fiz?

– Bem, nada... Mas queria conversar com você. Os professores andam muito preocupados com você, indo na diretoria quase todos os dias da semana, dormindo nas aulas, suas notas despencando. Só queria saber o que está acontecendo. Você não é assim.

Ele coçou a nuca e suspirou, nem ele mesmo sabia o que estava acontecendo.

– Não é nada, Sr. Brandom. É só uma fase ruim. Logo vai mudar.

O professor franziu a testa e seu olhar correu até o dele.

– Tudo bem, pode ir. Está liberado... E Scott, sua vida ainda vai ser muito complicada mas vai melhorar. Acredite.

– Hãn... Tudo bem.

E ele saiu da sala confuso com as palavras do professor.

...

Depois da escola, Scott e Noah foram até o posto de conveniências para comprar bebidas e fumar, além de paquerar a moça do caixa, que já estava habituada com as cantadas escrotas de Noah.

– Oi garotos. –ela disse acenando e logo depois dando um sorrisinho.

– Eai, Liss. –disse Scott e foi até o corredor de bebidas. O nome da moça era Lisa, mas eles acabaram se conhecendo, e quando digo se conhecer, ela já havia dormido com Scott umas duas ou três vezes, mas acabaram virando amigos depois, mas Noah insistia em jogar cantadas para ela na tentativa de repetir o ato do amigo.

– Liss, doeu? –Noah aproximou-se dela e debruçou-se no balcão, fazendo Lisa dar um passo para trás e revirar os olhos.

– Doeu o quê, Noah?

– Quando você caiu do céu, Anjo. –ele piscou para ela e tentou, repito tentou, dar o sorriso mais sedutor que poderia.

– Eu que pergunto se doeu, Noah. –disse Liss com uma expressão de pena.

– O que doeu? –ele franziu a testa.

– Quando sua mãe te jogou da janela do quarto. –Scott, que ouvia a conversa dos dois, não aguentou e começou a ri de um modo descontrolado.

– Que toco! –ele disse voltando com uma garrafa de tequila na mão e um engradado de Redbul na outra.

– Vá a merda, Morris. –disse Noah revirando os olhos e indo em direção a saída da loja. –E pegue os malditos cigarros! –ele disse antes de bater a porta do lugar.

– Pode deixar, Acidentado. –Scott disse rindo, o que teve como resposta um dedo do meio erguido do lado de fora da loja mas que podia ser visto pelas vidraças do local.

– Depois passa, -disse Liss. –mas enquanto isso, relaxa, ele vai fumar e vai ficar tudo bem. Deu U$ 13,50.

Scott levou a mão até o bolso de trás e pegou a carteira, logo abrindo e pagando as compras.

– Valeu, Liss. –ele disse se despedindo e pegando as sacolas. Logo estava do lado de fora e empurrou Noah. – Qualé, cara? Vai ficar com cara de bunda mesmo? Você sabe que sempre leva um fora da Liss toda vez, não seria mais fácil apenas chamar ela pra sair ou dizer algo gentil para ela?

– Cara, você diz isso porque pra você é fácil. Todas, todas te querem! – Noah disse suspirando. De certa forma era verdade, Scott sempre foi o “sonho de consumo” de toda garota de West Ville High. Afinal, ele era um garota bronzeado, cabelos castanhos e lisos, olhos verdes e um sorriso que qualquer garota ficaria babando. Mas ele não gostava de ser assim. Noah era bem diferente de Scott, era mais magro e introvertido, era o garoto que, mesmo sendo amigo de Scott Morris, ainda era zoado pelo time da escola.

– Cara, e quem disse que eu gosto disso? – ele suspirou, logo depois abriu a tequila e deu um longo gole, sentindo a bebida queimar sua garganta. – É horrível ser o centro das atenções, ainda mais daquelas garotas que só tem água oxigenada na cabeça. Eu só não viro gay porque meu melhor amigo não me olha dessa maneira e mantenho minha paixão encubada e super secreta no meu diário onde eu prevejo um lindo futuro para nós.

Ambos caíram na gargalhada após a frase idiota de Scott. Noah deu um soco no ombro do amigo, pegou a garrafa, bebeu alguns goles e olhou para Scott.

– Mas é sério, eu só queria uma única garota.

– Você vai encontrar, cara.

– Mas se não rolar, vou acabar ficando com você.

E riram novamente.

...

Seus olhos são lindos...”

Eles são a destruição do seu lar, da sua família, do seu mundo... A sua destruição e a minha...”

Eu te protejo... De tudo... Não precisa temer nada. Eu vou estar com você.”

Se uma rosa é amarela, ela perde o aroma?”

Creio que não... Mas essa pergunta não tem sentido... “

Eu sou um monstro, Scott. Eu sou um monstro.”

Notas finais
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