— San.

O garoto parecia cada vez mais desesperado com o estado de sua mãe adotiva e mantinha a atenção redobrada, com medo de ser pego tentando ajudá-la mais uma vez. Ele não queria ser torturado novamente.

— San, pare... — Shmi resmungava.

Ela estava cada vez mais pálida e nem tinha forças para se levantar. O garoto deu um pouco de água, que não era muito limpa, para a mãe, mas ela mal conseguia manter a boca aberta.

— Mãe, eu não vou te perder agora.

Não demorou para que o garoto ouvisse passos do lado de fora. Passos que ele sabia que não eram conhecidos. Olhou rapidamente para Shmi, que segurou sua mão com o pouco que restava de suas forças.

— Se esconda, San. Por favor.

— Não! Eu preciso te tirar daqui — sussurrou o garoto, enquanto as lágrimas molhavam seu rosto.

Shmi deu um fraco sorriso:

— Você sempre será meu filho, San, mas não quero que fique preso a mim para morrer. Você terá uma vida se fugir e encontrar as pessoas certas.

— Mãe...

— Eu te amo.

San respirou fundo e assentiu. Aproximou-se da mãe e deu um beijo em sua testa.

— Eu também te amo.

Ele correu para se esconder no canto daquele local, onde havia coisas estranhas cheias de areia e alguns bastões. San pegou um que tinha quase o dobro do seu tamanho e colocou-o à frente do corpo, como se pudesse se esconder atrás dele.

Uma das paredes foi cortada por um objeto desconhecido para San, e um garoto, não tão novo quanto ele, aparentando ter entre 18 e 19 anos, cabelos curtos com uma trança do lado direito, entrou.

— Mãe... — disse aquele jovem estranho.

San franziu a testa.

— Anakin...

Foi como se San tivesse levado um forte soco no estômago. Aquele era Anakin Skywalker, o filho de quem Shmi insistia em falar e com quem sempre o comparava. O garoto que fora levado por um Jedi. Por alguns segundos, San sentiu como se não valesse nada e que aquele jovem salvaria Shmi, algo que ele mesmo não conseguira fazer.

O tal Anakin ajoelhou-se para soltar Shmi, parecendo desesperado. Foi então que San sentiu. Um calafrio estranho fez seu corpo entrar em estado de choque. Era como se uma mão estivesse apoiada em suas costas e alguém sussurrasse em seus ouvidos para que fugisse dali o mais rápido que pudesse. E ele não ignorou aquele aviso.

Levantou-se com todo o cuidado para não fazer barulho, ainda segurando o bastão. Com as costas quase coladas à parede, deu passos curtos até a saída improvisada e pediu para que algo o ajudasse a não ser visto por Anakin ou Shmi, embora o Skywalker mais velho fosse sua prioridade. E se ele me matar? Ele ainda segurava a mãe nos braços e parecia desesperado, mas não estava tentando curá-la, e San não entendeu aquilo.

Seu medo passou quando conseguiu sair e sentiu o vento da noite bater contra seu rosto; fazia um bom tempo que não sabia o que era respirar ar puro. Olhou para os lados: o acampamento do Povo da Areia estava lotado por aqueles seres horríveis, mas ninguém prestou atenção nele. San agradeceu a qualquer coisa que estivesse fazendo aquilo por ele. Olhou uma última vez para a tenda e correu. Correu para longe daquele lugar onde fora aprisionado.

Quando já estava a uma distância considerável, aquela sensação estranha passou e ele ouviu gritos vindos do acampamento. Gritos de puro desespero.

Não olhe para trás.

O deserto de Tatooine não era confiável à noite, ele ouvira isso de Shmi uma vez, quando planejavam fugir juntos. No entanto, San não se importava: simplesmente corria pela areia, caindo algumas vezes ao escorregar nas dunas e quase perdendo seu bastão. Não se deu conta de quanto tempo estava correndo até trombou com alguém.

— Você está bem? — uma voz feminina perguntou.

San respirava com dificuldade por conta da correria e olhou para a mulher em quem tinha trombado.

— Ei, o que houve? Onde estão seus pais?

— Sinto muito, senhorita, eu não a vi.

— Tudo bem. Onde está indo com tanta pressa?

— Estou...

A mulher abaixou-se para ajudar o garoto a se levantar. San limpou suas vestimentas para não parecer um sem-teto, mas rolara tanto na areia que era impossível disfarçar a longa caminhada. Segurou as mãos da mulher, tomou impulso para se levantar e pegou o bastão caído a alguns centímetros.

— Qual é o seu nome, querido? — A mulher abaixou-se para ficar na altura dele e segurou seu rosto com as duas mãos, limpando a areia com os polegares.

— San...

— San o quê? Tem sobrenome?

Não confie em ninguém. Shmi dissera isso várias vezes ao garoto, e revelar detalhes sobre sua vida talvez não fosse uma boa ideia. A mulher esperou pela resposta, mas respirou fundo ao perceber que ele não diria mais nada.

— Tudo bem, San. Meu nome é Padmé. Para onde está indo tão tarde da noite?

— Estou... indo para casa.

Padmé franziu a testa.

— Tem certeza? Você não parece saber o caminho. Deixe-me ajudá-lo, San.

Ele abanou a cabeça.

— Não, eu consigo sozinho. Obrigado pela ajuda, senhorita Padmé.

A mulher sorriu e levantou-se.

— Se precisar de ajuda, volte aqui. Não sei por quanto tempo ficarei, mas Owen e Beru irão ajudá-lo no que precisar. E tome cuidado.

San assentiu e deu um sorriso cansado para Padmé. Afastou-se dela indo em direção a... Bem, ele não sabia dizer para onde, mas continuou a andar. Quando já estava a uma distância considerável, olhou para trás e não viu mais a mulher. Seu coração pareceu ficar mais leve e seus olhos pesaram. Precisava parar logo.

Andou, andou e andou, arrastando o bastão que ficava cada vez mais pesado. Quando menos esperava, um dos dois sóis de Tatooine começou a nascer. Sentiu as pernas tremerem, mas logo avistou um amontoado de pedras e apressou-se. As rochas eram irregulares e havia alguns vãos entre elas. San procurou por um espaço onde coubesse, deitou-se, colocou o bastão sobre a barriga e não demorou a adormecer.