Raven ainda não tinha conhecimento sobre o seu poder quando seus deslizes aconteciam e ela quebrava quase tudo o que havia em seu quarto. Os raios azulados que saíam dos seus pequenos dedos assustavam a garota, e ela nunca contava a ninguém sobre o que acontecia, nem mesmo o pai sabia. Bem, ela acreditava que Sheev Palpatine não sabia.

Ele não estava na nave naquele momento, e a garota apressou-se para arrumar a bagunça antes que ele chegasse. O Supremo Chanceler não passava muito tempo com a filha desde o início das Guerras Clônicas, e Raven se sentia estranha quanto a isso. Claro que não sabia ao certo o que sentia pelo pai, pois nunca ouvia coisas boas sobre ele.

— Ravenzinha...

A garota olhou para a entrada de seu quarto e viu Yulte Aldob, uma Togruta e sua cuidadora, olhando-a com serenidade e paciência.

— Quebrou mais coisas, querida — suspirou. — Tem que ter mais cuidado.

— Me perdoa, eu não consigo controlar.

Yulte adentrou o quarto e sentou-se à beira da cama de Raven. Usava mais um de seus vestidos longos e de cores exóticas, cores que a pequena Palpatine não saberia nomear, apesar de seus ensinamentos.

— Tenho más notícias.

Raven sentiu como se seu mundo tivesse parado e preparou-se mentalmente para o que a cuidadora diria.

— O que houve?

Yulte respirou fundo e olhou a mais nova com ternura, numa tentativa de acalmá-la:

— Seu pai foi capturado pelo General Grievous.

Raven arregalou os olhos.

— O quê? Não!

— Não se preocupe, minha pequena. O General Kenobi e o General Skywalker irão salvá-lo. Logo ele estará conosco novamente.

— E se não conseguirem trazê-lo de volta?

Yulte estendeu a mão para a garota, que se aproximou e a segurou.

— O Supremo Chanceler voltará, querida. Não se preocupe tanto; eu confio no General Kenobi.

Raven assentiu, tomou impulso para subir na cama e abraçou Yulte. A cuidadora olhou para os cacos de vidro no chão e segurou as lágrimas. Amava Raven como se fosse sua própria filha e sentia-se péssima por não poder contar à pequena quem o pai dela realmente era.

A garota ainda não sabia da existência dos Sith, e o pai explicava muito pouco sobre os Jedi, mas ele sempre dizia que, quando o dia chegasse, a pequena e preciosa Raven saberia de toda a verdade. A verdade que lhe convinha.

•••

A pequena sempre acordava no meio da madrugada por conta de pesadelos estranhos, nos quais via a si mesma e a outra pessoa morrendo. Mas qual era o porquê daquilo? Ela nem sequer conseguia ver o rosto de quem morria ao seu lado.

Um som reconhecido a assustou: o barulho das rodas de seu droide andando pelo quarto chamou sua atenção.

— R3!

O droide preto e laranja apitou freneticamente. Era seu modo de comunicação, que a dona demorara um pouco para aprender.

— Não, eu estou bem. Só tive um pesadelo estranho.

R3-13 aproximou-se da cama e Raven sorriu, levando uma das mãos ao droide para tocá-lo.

— Não precisa se preocupar tanto comigo, R3. Eu só...

Ela respirou fundo e recolheu a mão.

— Tenho medo de o meu pai não voltar. Não entendo por que ninguém me conta nada.

O droide apitou.

— Eu sei, mas eu pelo menos queria entender essa guerra que está acontecendo.

R3 apitou mais uma vez.

— Tudo bem, vou voltar a dormir.

R3-13 retornou ao seu canto.

— E obrigada por se importar.

O droide desativou-se e a garota adormeceu.

•••

Ao abrir os olhos, Raven sentiu que algo aconteceria. Sua intuição era poderosa e dificilmente falhava, o que a assustava mais do que seus próprios poderes. Sentou-se na cama e procurou R3-13 no canto do quarto, mas o droide não estava lá. Estranhou. Como se lesse mentes, ouviu as rodas de R3 vindo do corredor e não demorou para ele entrar.

— Onde você estava, R3?

O droide apitou e Raven franziu a testa.

— Tem certeza?

O droide confirmou e deu meia-volta. A garota praticamente pulou da cama e seguiu R3 até outra ala da nave, que possuía um enorme painel de vidro com vista para a cidade de Coruscant, a capital da República Galáctica. Raven nunca saíra daquela nave, ninguém sabia que ela existia e ela jamais soubera o motivo.

R3 apitou.

— R3, você não está brincando comigo, está?

— Não, ele não está.

Raven virou-se para a esquerda e viu, sentado em uma poltrona vermelha, o Supremo Chanceler com um enorme sorriso no rosto. A garota sorriu e correu para abraçá-lo, sendo prontamente correspondida.

— Pensei que você nunca mais voltaria!

— Nunca duvide de mim, querida.

R3 comunicou algo e retirou-se antes que pudessem dizer mais alguma coisa.

— Pai...

Palpatine olhou para a filha com curiosidade. Sentia o poder da Força nela, cada vez mais expansivo.

— Sim, querida?

Raven engoliu em seco.

— O que essa guerra significa? Por que você foi capturado? Quem são os Jedi? Por que ninguém sabe que eu existo?

O homem respirou fundo.

— Sente-se, querida. Irei lhe contar toda a verdade.

Raven assentiu, sentou-se na poltrona ao lado do pai e esperou ansiosamente. O Supremo Chanceler queria que a filha soubesse de tudo quando fosse mais velha, mas via nela um grande potencial desde cedo.

— Querida, o que eu já lhe disse sobre os Jedi?

A garota pensou por alguns segundos.

— Você disse que os Jedi estão dispostos a ajudar a República, mesmo sem tomarem posição em decisões importantes, e que ajudariam na guerra.

— Bem, agora, com a morte do Conde Dookan, o General Grievous é o último líder separatista e já está sendo caçado. Podemos considerar que a guerra está perto do fim.

— Você matou o Conde?

Palpatine negou.

— Infelizmente, eu estava incapaz de fazer qualquer coisa, mas fui salvo por um Cavaleiro Jedi, Anakin Skywalker, que logo será um grande aliado. E é sobre isso que quero falar.

Raven franziu a testa.

— Existe algo incrível e quase inexplicável chamado a Força. Ela concede habilidades impressionantes a quem é sensível a ela. Os Jedi usam a Força para lutar em guerras, destruir exércitos...

A garota parecia cada vez mais interessada e inclinou-se para a frente, como se quisesse ouvir melhor.

— Mas os Jedi são frios e escolhem a dedo quem irão ajudar. O que você pensa sobre isso, minha querida?

Ela nunca tivera uma opinião formada sobre aquilo, além de ser jovem demais para assuntos tão complexos.

— Acho que... eles deveriam ajudar qualquer um. Se eles escolhem, então não são tão bons assim.

Palpatine sorriu.

— Exatamente. E é por isso que existe outra ordem para aqueles que usam a Força.

— Pensei que os Jedi fossem os únicos.

— Não — ele abanou a cabeça. — Querida, os Jedi usam apenas uma parte da Força. Aqueles que a utilizam em sua plenitude são os Sith.

— Qual é a diferença, pai?

— Os Jedi usam o Lado Luminoso da Força. Já os Sith são mais sábios e usam o Lado Sombrio. A diferença é que os Jedi preferem ficar presos em uma sala de reuniões ou treinando aprendizes em vez de buscarem novos caminhos. Os Sith, além de treinar os jovens, buscam expandir constantemente suas habilidades.

Raven lembrou-se vagamente dos objetos que costumava quebrar em seu quarto ou pela nave. Palpatine abriu um sorriso largo.

— O poder ilimitado é a maior ambição de um Sith.

— Então... os Jedi são uma farsa?

O Supremo Chanceler riu.

— Você entendeu bem, minha filha. E logo, quando for mais velha, poderei ensiná-la mais sobre o Lado Sombrio.

— Então...

A garota olhou para as próprias mãos.

— Você é um Sith, pai?

Ele assentiu.

— Logo terei o poder que tanto quero. Se tudo sair como planejo, Skywalker estará do nosso lado e poderei treiná-lo para, no futuro, treinar você.

Raven sorriu para o pai.

— Eu quero ser uma Sith!

— E você será.

Raven olhou de relance para a entrada da sala e viu Yulte parada ali, com lágrimas nos olhos. A garota não entendeu aquela reação, então voltou o olhar para o pai e sorriu enquanto ele começava a contar tudo sobre a Ordem Sith.

Pela primeira vez em sua vida, Raven não sentiu que o pai fosse um homem mau, como sua cuidadora insistia em dizer.