Lúcifer

3 Aniversário


Em um sábado agitado:

— bom humor

— um presente

— criatividade

Corri para o quarto e comecei a me arrumar. Não fiz nada no cabelo, o qual estava castanho escuro, liso e ondulado em partes, com o comprimento um pouco abaixo dos ombros e franja reta. Passei rímel, lápis de olho preto, como sempre, e batom vermelho. Coloquei também uma calça legging preta, uma camiseta grande branca e calcei coturnos. Achei muito simples depois, mas não troquei de roupa.

Peguei as chaves de casa e avisei Sara que talvez voltaria tarde, pois o aniversario começava as 19 horas e provavelmente iria durar a noite inteira. Ela concordou porque conhecia Carol, só não sabia o tipo de festa que ela iria fazer. Ou sabia e mesmo assim não se importou.

19:20h cheguei na casa de Carol e mesmo antes de entrar, pude ouvir a musica alta. Presente? Não, não comprei nada porque não tinha ideia do que dar, mas sabia que Carol não ia se importar por receber seu presente atrasado. Eu sei, podia ter comprado qualquer coisa para não aparecer de mãos vazias, mas não queria dar "qualquer coisa" a ela.

Quando a vi, corri e abracei com força, desejando Feliz Aniversario, contando sobre o porque não a presenteei e ela riu me chamando de idiota. Depois fomos para dentro de sua casa e vi que já havia uma quantidade considerável de pessoas ali, e começou a me contar como preparou tudo aquilo.

Tinham muitas luzes coloridas, musicas alternativas e eletrônicas tocando, pessoas bebendo, dançando e esses tipos de coisas. Eu conhecia a maioria daqueles adolescentes, mas metade dos que eu conhecia nem sabiam meu nome.

Carol me levou até onde estavam meus colegas de sala da escola, e eles estavam rindo e se divertindo. Mais pessoas começaram a chegar, a festa passou a ser bem agitada, mas eu sempre ficara mais no meu canto. Havia muita gente se beijando, dançando, rindo, bebendo, fumando...

— Você quer? — disse Lucas, me oferecendo um baseado.

— Não, valeu.

Amanda e Lucas riram e depois me chamaram para beber alguma coisa. Os dois estudavam comigo há 2 anos e eram bem legais. Faziam o tipo de aluno inteligente que tira boas notas mas leva muitas advertências por caçoar de professores e tumultuar em sala de aula. Ambos tinham 17 anos e eu 16, logo faria 17 também. Depois chegaram Vitor, Alex e Isabella, que também eram da mesma classe.

Aquilo estava uma bagunça, haviam adolescentes em todos os cantos do quintal e da casa, que era enorme e muito bonita, mas ficaria imunda com certeza. Nem se parecia com um aniversario. E uma hora depois, vi que todos meus colegas já estavam bêbados e falavam coisas idiotas e sem lógica alguma.

Decidi procurar por Carol no meio de todas aquelas pessoas, e preferia não ter achado quando encontrei. Ela estava com meu ex namorado e os dois se beijavam muito. Não sei o que me deu, mas me senti estranha quando vi aquilo. Depois ele pegou a mão dela e a levou para algum lugar que não pude ver por causa da muvuca por ali.

Se eu me senti mal? Sim, mas não sabia porque, pois não gostava mais dele. Alias, não gostava mesmo, talvez eu até tivesse raiva dele, mas não tinha um bom motivo para isso, nós nem brigamos quando terminamos. Já estava me enojando ficar naquele lugar. Portanto, as 9:30 decidi ir embora e me despedi dos colegas:

— Tchau gente.

— Mas já? — fizeram quase um coral quando falaram ao mesmo tempo e riram de si mesmos, porque agora estavam rindo de tudo.

— Sim. E me da isso aí — disse pegando o baseado que Amanda tinha acabado de acender, deixando todos rindo do que fiz e do resto.

* * *

Felizmente o tempo era frio, mas não tanto a ponto de eu me arrepender de estar sem blusa. Fiquei andando pelas ruas e tragando aos poucos o cigarro, o qual me fez tossir, pois eu só tinha fumado maconha duas ou três vezes, e já fazia um tempo. Não queria voltar para casa, muito menos para a festa. E agora? Olhei meu celular e vi que tinham diversas mensagens de hoje não lidas:


... [11:50 am] Tia Ana: Alice, avisa sua mãe que estou chamando a família pra almoçar aqui em casa amanhã e quero que vocês vão também, ok? Obrigada, bjs.


... [01:44 pm] Alex: Alice?


... [02:17 pm] Amanda: Hey, preciso falar com você.
... [02:18 pm] Amanda: Alice me responde porra!
... [02:32 pm] Amanda: Aff, não precisa mais :p


... [03:15 pm] Lúcifer: Oi

Não demorei mais que 10 segundos para responder Lúcifer, mesmo que sua mensagem fora recebida há mais de 6 horas. Nem me lembrava de ter passado meu numero a ele. Parei em uma praça e me sentei no primeiro banco, mas não queria ficar ali também, parecia perigoso e tinham muitas pessoas estranhas, apesar do lugar ser bem iluminado. Fiquei mandando mensagens para Lúcifer.

Quando me perguntou o que eu estava fazendo, disse "tentando descobrir um lugar que eu possa ir", e ele me chamou para ir a uma pizzaria. Achei que não era sério, mas quando disse que realmente iria, obviamente aceitei. Ele me passou o endereço do lugar, que era bem perto da praça onde eu estava, e pediu para que eu fosse até lá e esperasse por ele. E foi o que eu fiz, com um pouco de medo de ele acabar não aparecendo, fui até o local, entrei, escolhi uma mesa logo no inicio e me sentei.

Na pizzaria só havia eu, um casal em outra mesa, um quarteto de meninas mais para frente e os funcionários. O lugar era conchegante e bonito. Fiquei vendo mais pessoas entrarem e olhando no celular a cada 20 segundos. As coisas e as pessoas pareciam não parar quietas, não sei, talvez fosse por causa do cigarro ou da agitação da festa, tanto faz.

Mandei outra mensagem para Lúcifer perguntando se ele já estava chegando mas não me respondeu, então decidi que se ele não aparecesse em dentro de 3 minutos eu iria embora. Mas ele chegou, e ao me ver, sorriu vindo em direção a mesa. Eu levantei e o abracei. Porque fiz isso? Fiquei muito envergonhada de inicio, mas depois me senti bem por que abraçar ele foi confortante, eu me senti sei lá, segura? Não sei exatamente, mais foi ótimo. Logo sentamos e ele pediu a pizza, depois ficou me encarando sorrindo.

— Tudo bem? — o sorriso sumiu, mas ele não estava tão sério.

— Sim, e com você?

— Mentira — disse desacreditado em minha resposta.

— Por que acha que menti?

— Porque você não parece bem. Quer me contar o que aconteceu? — questionou com a sua voz calma.

Eu expliquei o que ocorreu. Não fora nada de mais, só me senti um pouco mal, mas ele me entendeu e disse que se eu precisasse de algo, podia contar com ele. Era estranho, Lúcifer falava comigo como se já me conhecesse a bastante tempo, mas gostava disso. A pizza chegou e enquanto comíamos, ele continuou perguntando mais e eu prossegui contando coisas sobre mim e meus amigos.

—... Na verdade, "amigos" eu considero só a Amanda, o Lucas, o Pedro e a Carol, apesar do que ela fez hoje... — pausei para comer mais um pedaço da pizza. Lúcifer cortava sua fatia e me observava, depois continuei — Ah, tô exagerando, ela não fez nada demais... Mas enfim, esses são meus amigos. O restante considero como colegas.

— E qual a diferença?

— Sei lá, amigos são aqueles que você confia, que pode contar com eles quando precisa, que te conhecem bem, essas coisas. Já com os colegas você não leva muito a sério, ri junto e faz coisas legais, mas nem sempre eles vão estar do seu lado. É isso, não sei explicar direito.
— Entendi — ele respondeu.

Lúcifer já tinha terminado suas fatias de pizza e eu estava acabando de comer a ultima. Ele ficou me encarando por um tempo e parecia pensativo, pensei em dizer alguma coisa mas não sabia o que, então continuei em silêncio. Ficou me fitando até finalmente dizer:

— Sou um colega?

Me pegou de surpresa com a pergunta. Acho que não ia ficar chateado se eu dissesse que sim, mas ele era um colega? Sim, claro que sim. Nos conhecíamos pouco, mas parecia que já eramos amigos a muito tempo, eu me sentia tão próxima dele, isso me deixou confusa.

— Sim... Quero dizer, não. Mas sim.

— Hãm? — ele fez uma expressão confusa e nós rimos — Acho que não entendi.

— Sim. Mas as vezes tenho a sensação de que conheço você ha muito tempo, mas nem sei muito sobre sua vida.

— E quer saber? —perguntou virando a cabeça de lado e eu o imitei rindo.

— Claro! — tentei não parecer muito empolgada.

— OK. Sobre o que tem curiosidade?

— Tudo.

— Não dá pra contar tudo, eu levaria minha vida inteira pra contar minha vida inteira. — agora ele não parava de sorrir — Me faça algumas perguntas e eu respondo.

— Tudo bem, vamos começar. — Coloquei os cotovelos pra me apoiar sobre a mesa e chegar mais perto para o encarar. Ele riu — Por que o sol é amarelo?

— Porque ele não é azul.

— Gênio! — rimos outra vez — Agora é sério... O que estava fazendo no cemitério quando te vi pela primeira vez? Como me achou ontem? E como e quando sua mãe morreu?

Soltei tudo de uma vez só, o que fez Lúcifer ficar sério. Droga. Agora ele diz que precisa ir embora e some para nunca mais aparecer, estraguei tudo.

— Desculpa, eu não queria...

— Posso confiar em você? — questionou me interrompendo e voltando a olhar em meus olhos.

— Pode sim.

— Vamos fazer o seguinte: passo na sua casa amanhã, levo você a um lugar e lá te conto tudo. OK? — sugeriu.

— Por que não pode contar aqui? — perguntei por não saber se era uma boa ideia sua proposta.

— Confie em mim que eu confiarei em você também.

Ficamos em silêncio por um tempo. Olhei minhas mãos enquanto estralava os dedos e pensava "e agora?", porque eu queria ir, mas confesso que temia, não sei exatamente o que, mas estava com medo. "Não seja inocente Alice", pensei comigo mesma. Não podia falar que não, minha curiosidade era maior e parecia impossível recusar, portanto não consegui deixar de dizer:

— Tudo bem, eu vou.

Notas finais
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