Lúcifer
4 Respostas - parte 1
Em um estranho domingo:
— Coragem
— Menos preguiça
— Mais coragem
Coragem para levantar da cama. E coragem para ir com Lúcifer para um lugar desconhecido. Pelo menos levantar eu consegui e, provavelmente iria ao tal lugar com lúcifer também.
Após lavar o rosto e escovar os dentes, desci de pijama até a cozinha para tomar café da manhã. Eram 10:40 da matina e pelas janelas da sala e da cozinha, pude ver que hoje havia claridade do sol lá fora, mas parecia estar um pouco frio ainda.
Daniel — meu pai, que eu via mais nos fins de semanas, porque trabalhava nos dias úteis e chegava tarde — e Sara estavam comendo panquecas doces e bebiam café.
— Bom dia — disse puxando uma cadeira para me sentar também.
— Cada vez acordando mais tarde — afirmou Daniel balançando a cabeça.
— Vocês que acordam cedo demais. Cadê o Bryan?
— Não sei. Passou a noite em casa, mas deve ter saído de madrugada — disse Sara.
Bryan tem 20 anos de idade e é meu único irmão. Ele trabalha por meio período apenas, das 7:00 as 13:00 horas de segunda à sexta, como segurança, mas não fica muito em casa. Como é maior de idade e tem seu próprio dinheiro, ninguém se importa com suas saídas repentinas sem dar satisfação. Ele é alto, tem cabelos negros, pele clara, forte e todos dizem que é muito parecido com Daniel.
— Ah! A tia Ana me mandou uma mensagem ontem chamando todos pra almoçar na casa dela — contei me lembrando do recado.
— Já sabia disso, ela me ligou ontem a noite. — respondeu Sara levando seu prato e a caneca suja para a pia — Você vai também?
— Não, acho que vou ficar em casa.
— Vamos Alice, faz tempo que não sai com a gente — completou Daniel.
Na verdade, não faz tempo que saí com Sara, só com ele que eu quase não via. Mas hoje não podia, queria esperar por Lúcifer.
— Hoje não pai — disse bocejando preguiçosamente.
— Ah, tudo bem. Se mudar de ideia aparece por lá depois — sugeriu.
— Tá.
* * *
Lúcifer disse que iria chegar por volta da 13:00 da tarde, e agora era meio dia. Eu já estava pronta e sentada na sala, olhando para as paredes, esperando alguma coisa acontecer.
Meus pais já tinham saído e eu fiquei sozinha em casa casa. Até que de repente a porta de entrada, perto do sofá onde eu estava, se abriu e eu me assustei com o barulho.
— Oi Alice! — disse Bryan, jogando uma mochila que parecia pesada no chão. Depois se sentou no piso de madeira encostado no batente da porta, parecia muito cansado.
— Oi!
— Pensando na vida? — indagou rindo ao me ver sozinha e entediada ali. Eu assenti ironicamente — Cadê o pai e a mãe?
— Foram na casa da tia Ana.
— Ah. Vou subir e tomar um banho — colocou a mochila nas costas, se levantou e foi caminhando em direção a escada, mas em seguida parou e se virou para o meu lado — Tudo bem com você?
— Tudo. E com você? —perguntei.
— Claro — ele sorriu e depois subiu para o quarto.
Eu não perguntei onde ele estava, e ele não quis saber o motivo de eu não ter almoçado com nossos pais. Com Bryan as coisas eram assim.
Resolvi deitar e dormir no sofá. Só acordei quando a campainha tocou as 13:20 da tarde. Com sono e preguiça, fui até o quintal ver quem era.
— Bom dia! — disse Lúcifer quando abri o portão.
— Boa tarde. — Corrigi — Espera um pouco.
Entrei correndo dentro de casa para pegar o celular e as chaves. Não avisei ninguém sobre minha saída, pois achei que não ia demorar. Nem mesmo Bryan ficou sabendo, simplesmente tranquei o portão e saí.
Caminhamos até a pista de carros, onde terminava meu bairro, e atravessamos a passarela para chegar ao outro lado. Estávamos em frente à estrada rodeada por árvores, a qual tinha visto Lúcifer entrar anteontem quando fora embora. Ainda não sabia que lugar era aquele e, mesmo de perto, se parecia uma grande floresta. Parei ali mesmo e fiquei observando a paisagem, Lúcifer percebeu os barulhos dos meus passos terminarem e direcionou seu olhar a mim.
— Alice?
— Que lugar é esse? — indaguei ainda olhando os detalhes do local.
— Algumas pessoas moram aqui, outras alugam casas e chácaras. Vamos, lá eu explico melhor.
— Lá aonde? Você mora aqui?
— Vem Alice! — disse rindo — Ficou com medo de entrar?
— Não — forcei um sorriso leve.
Continuamos andando. A estrada parecia grande, mas nem era tanto. No final dela, haviam dois caminhos, um para o lado esquerdo e outro para o direito. Fomos para a esquerda, e eu já me sentia em um labirinto estranho. Lúcifer passou quase o tempo todo calado, o que me estava dando agonia, então tentei quebrar o silêncio:
— Já estamos chegando?
— Sim. — houve uma pausa e mais silêncio, porém, logo depois ele começou a me contar algumas coisas — É uma pequena casa do meu pai. Quero dizer, minha agora. Mas eu não moro aqui, só venho quando quero ficar sozinho.
Paramos em frente a um grande e grosso portão de madeira. Lúcifer tirou chaves de seu bolso da calça e abriu o portão para entrarmos ali. Mais pinheiros e apenas um caminho que seguia reto, até chegar a uma casa de madeira, que se parecia mais com um pequeno chalé.
Quando nos aproximamos ao lugar, vi que a casa era muito bonita e parecia ser bem antiga. Entramos na residencia. Fiquei encantada com a decoração e tudo mais.
A sala ganhava claridade pelas três janelas grandes em uma das paredes. Moveis, pisos, portas e teto de madeira. Em outra parede, se encontrava uma estante de livros de aproximadamente um metro de largura e comprimento que preenchia do chão até quase o teto, combinando com a escrivaninha antiga ao lado, usada como suporte de um toca-disco de vinil. E para completar, havia uma pequena lareira.
— Uau! — sussurrei olhando para tudo aquilo. Lúcifer riu ao ver minha reação.
A entrada para a cozinha não era muito grande, fazendo possível a visualização apenas de um armário que se estendia. Lúcifer sentou em um sofá e eu no outro que ficava encostado na parede das janelas, desse modo, ficamos frente a frente. Depois ele pegou algo por cima da escrivaninha e entregou em minhas mãos. Era uma fotografia, que mostrava um casal fazendo careta — uma mulher loira e baixa que usava um vestido branco com estampa floral e um homem grande usando óculos e vestindo uma camiseta preta —, pareciam felizes. O cenário da foto era uma avenida cheia de prédios, carros e pessoas em volta, não reconheci o lugar.
— Quem são? — perguntei.
— Meus pais. E quarta passada fez dois anos desde o dia que morreram.
— Seu pai também morreu? Meu Deus, sinto muito... — fiquei envergonhada por estar me intrometendo na vida dele, nem conseguia me imaginar sem meus pais. Olhei para ele e parecia bem. Talvez já tivesse superado, afinal, faziam dois anos. Tomei coragem de perguntar — Como aconteceu?
— Nós íamos viajar para o Canadá, onde meu irmão mora com a mulher há três anos. Já tínhamos tudo preparado, só faltava pegar o dinheiro no banco. Mas tudo deu errado, porque um desgraçado atirou em meus pais para roubarem o dinheiro que eles sacaram. Não sei como aconteceu, se atiraram porque meus pais reagiram ou foi só para não ter problemas depois. A câmera na frente do banco filmou o crime, mas não conseguiram reconhecer o assassino, e a policia inútil nem tentou investigar de outro jeito — explicou. Mesmo contando com sua voz calma, eu podia sentir a revolta que tinha em suas palavras.
— Até hoje não descobriram nada? — questionei para que continuasse.
— A policia não.
— E você? — Outra vez insisti por causa das respostas curtas dele.
— Calma Alice, precisamos começar do início. — respondeu sorrindo — Se eu te contar a última parte, não vai querer ouvir a primeira. Então vamos devagar.
Ele nunca alterava seu tom de voz, sempre calmo e sereno, e isso me tranquilizava, mesmo não estando muito segura com o rumo que a história poderia tomar. E apesar das coisas que me contava, Lúcifer parecia bem e forte, como se já tivesse aceitado e se acostumado com aquilo. Voltei a questionar para que prosseguisse:
— Hum... Onde mora agora?
— Com meus tios. Pensei que talvez pudesse morar com meu irmão, mas ele só veio me ver no dia do velório dos nossos pais. — mais uma vez falara normal, mas parecia decepcionado com isso — O crime foi parar no jornal, na televisão e na internet, por isso, todos que eu conhecia ficaram sabendo. Foi o que me fez parar de ir pra escola, já era dificil superar a perda dos meus pais, não queria ouvir as pessoas comentando. Comecei a ter aulas em casa e ir ao psicólogo. — Lúcifer pareceu se abalar um pouco. Mesmo assim, continuou contando, porém olhando para baixo — Mas isso já passou, só tenho aulas em casa ainda porque me acostumei e preferi continuar assim.
— Entendi... Eu sinto muito mesmo. Não sabia que era tão sério, desculpa, acho que fui muito curiosa — admiti meu erro, apesar de não me arrepender de ter ido até ali e ficar sabendo dessas coisas.
— Tudo bem, já faz tempo, eu não me importo mais de falar sobre isso. — ele sorriu tentando me tranquilizar, pois eu fiquei bastante tensa depois de ouvir aquelas coisas — Mas enfim, agora vem a parte vingativa da história...
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