Lágrimas De Crocodilo
10 Capítulo 9
– Waylon? Que merda você fez agora, moleque? Waylon não deu ouvidos aos resmungos bêbados de sua tia. Sua mente estava ocupada e atordoada demais com o que acabara de ocorrer. Por mais que ele estivesse satisfeito consigo mesmo por finalmente ter perpetrado sua tão esperada vingança, ele sabia muito bem que havia ultrapassado todo e qualquer limite e que agora deveria sofrer as consequências de seus atos. Ele sabia que era só uma questão de tempo até que...
–Waylon? Eu tô falando com você, por acaso você está surdo?
...até que eles o alcançassem. E então, só Deus podia saber o que eles iriam fazer com ele. Talvez ele tivesse sorte e fosse mandado para um reformatório. Não, ele...
– Waylon! Eu estou falando com você, seu merda!
– Agora não, tia Marcy!
...Não. Ele iria para a cadeia. Não, sem chance. Eles iriam matá-lo. Ele sempre fora visto como um monstro, uma abominação, e tudo o que eles precisavam, tudo o que eles queriam, era uma boa desculpa para se livrar dele de uma vez por todos. E agora eles....
– Waylon! Eu perguntei que porra você fez agora! Por acaso você é surdo agora, sua aberração?
O sangue de Waylon ferveu novamente. Ele conseguia sentir aquela mesma maré vermelha de antes subindo, tomando conta de cada fibra de seu ser.
"Não," pensou Waylon consigo mesmo. " Você tem que se controlar. Você não pode perder o controle de novo."
–Waylon! Eu....
– AGORA NÃO, MARCY!
Sua voz ecoou como um rugido no quarto pequeno e sujo. Por um instante, a mulher bêbada recuou, assustada, deixando que o silêncio tomasse conta do ambiente. Mas logo depois, seu rosto ficou vermelho como nunca antes e suas mãos tremiam.
– Por acaso isso é jeito de falar comigo?
Sua mão livre estapeou o rosto do garoto. Em condições normais, ela teria sentido a dor por ter estapeado pele de Waylon, mas o álcool em seu sangue atuava como um forte anestésico.
– Hein, sua aberraçãozinha nojenta? Eu que te criei....
Outro tapa acertou em cheio o rosto de Waylon. Agora, o garoto começava a tremer.
–....Que te dei comida e abrigo!
Outro tapa. Waylon tentou sair da sala, mas a mulher o seguiu.
– Sabe de uma coisa? Eu devia ter te deixado morrer quando tive chance! Você só me deu trabalho e desgosto, igualzinho ao merda de seu pai!
Mais um tapa, e agora Waylon lutava para respirar e manter o controle.
– Você é um troço nojento e inútil, igualzinho a puta da sua mãe!
Waylon sequer percebeu aquele último tapa. Sua visão estava nublada e sua mente racional agora foi tomada pela terrível maré vermelha. A raiva, ou melhor, o ódio agora controlava seu corpo, e tudo o que Waylon podia fazer era sentir os seus movimentos como se fosse um telespectador em um filme de TV. Ele sentiu quando avançou para cima de sua tia, rosnando como um animal ensandecido, e sentiu quando suas mãos se fecharam em torno daquela garganta. Ele sentiu o cheiro forte e ocre do tabaco barato misturado com bebida e teria se sentido enojado, não fosse a raiva. Por fim, ele ouviu — mais do que sentiu — um estalo seco como um feixe madeira se partindo quando o pescoço de sua tia se quebrou em suas mãos.
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Nos subterrâneos labirínticos de Gotham, o grande predador desperta, acordado pelo som de um galho seco se partindo. Se ainda houvesse restado algo de racional em sua mente, ele saberia que aquilo que ouvira nada mais fora do que sua memória, mas para ele, memória — assim como passado, presente e futuro — é um conceito sem importância ou sentido e, mesmo que tivesse, ele tem assuntos mais concretos com os quais se preocupar.
Seu estômago ronca, o espectro da fome o espreita. E assim, uma vez mais, o grande predador se joga nas águas do esgoto de Gotham e nada em busca de alimento, agradecendo — sem saber porque — pela oportunidade de retirar o cheiro ocre e forte de tabaco barato misturado com bebida que por alguma razão impregna suas narinas.
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