Lágrimas De Crocodilo
12 Capítulo 11
– Veja bem, guri...não é que você escreva mal. Sério, seu material dá de dez a zero em muita coisa que eu recebo de outros autores por aqui. E autores com longo tempo de casa! O grande problema é que...bem, eu não sei como disser isso....não me leve a mal, mas é que seu trabalho não é comercial.
Aquelas não eram palavras novas ao jovem Howard Grant. De fato, ele já as ouvira antes — não no mesmo tom gentil e carinhoso — nas demais editoras que visitara. Sempre uma leva de elogios, aos quais se seguiam o golpe de misericórida. Ainda assim, ele não pode deixar de se sentir abalado. Aquela era a sua última esperança de ver sua história publicada em algum lugar, e, agora nada mais lhe restava.
Seymour Hepburn, o velho editor da Atlas, não pode deixar de sentir pena do garoto. Sua história era realmente muito boa, não boa como aquele lixo adolescente que ele vinha publicando recentemente, mas boa de verdade. Boa como os antigos livros que ele costumava ler quando era mais novo. De fato, fazia tempo que ele não lia um material tão bom quanto aquele. Infelizmente, aquele livro não iria vender.
"O Ninho do Abutre", como fora batizado, era complexo demais — experimental demais, para render algo. Além disso, sua temática, um denso mergulho psicológico na história de um serial killer que canibalizava suas vítimas, não ajudava em nada quando a principal tendência do mercado são histórias de amor adocicadas com finais felizes e previsíveis.
Seymour gostaria que houvesse algo que ele pudesse fazer pelo garoto, e foi então que ele se lembrou que havia.
– Olha, já há alguns anos eu vinha fomentando a ideia de criar um selo editorial para jovens autores. Veja bem, eu não estou prometendo nada, mas amanhã eu posso fazer uma reunião com todos os meus sócios e ver se consigo colocar esse projeto para frente. Não é uma promessa, mas caso isso de certo, eu gostaria que o seu livro fosse o primeiro a ser publicado.
Ao notar o largo sorriso no rosto do jovem Grant, Seymour se viu forçado a emendar o mais depressa possível, afinal, ele não queria dar ao jovem falsas esperanças.
– Veja bem, mesmo que o seu livro seja aprovado nesse suposto "novo" selo, não será grande coisa. Digo, será uma tiragem bem pequena, algo bem próximo de um livro de bolso. Então, não vá se animando muito.
Os dois se despediram com um acalorado aperto de mãos e com uma promessa de retorno sobre a futura publicação.
Grant mal podia se conter quando saiu do velho prédio da editora. Enfim, após tantos anos de trabalho árduo, das infinitas zombarias e desafios, ele tinha a chance de publicar seu livro. Não seria um senhor livro, mas, para o homem que não tem nada, qualquer coisa já é o suficiente.
Nem mesmo o grosso temporal que caiu sobre sua cabeça foi o bastante para fazer com que ele se desanimasse. Pegando seu velho guarda-chuva, o jovem caminhou satisfeito por entre as ruas da parte baixa de Gotham em direção ao metrô.
Ele já estava na metade do caminho quando um som chamou sua atenção. Parando para ouvir mais atentamente, já não havia mais som.
"-Estranho," pensou Grant consigo mesmo enquanto se esforçava para ver algo em meio as pesadas gotas de água. "por um instante eu poderia jurar que ouvi um barulho de algo metálico sendo arrastado. Deve ser a chuva...."
Foi então que Grant o viu.
Por um instante, a gigantesca criatura pareceu ser apenas um borrão, um efeito provavelmente gerado pela água sendo empurrada pelo vento. Mas quando o borrão se moveu em sua direção, de uma maneira absurdamente rápida para o seu tamanho, ele percebeu que aquilo era de fato um ser vivo.
A medida em que a criatura se aproximava, Grant percebeu quem — ou o que– era aquilo e, junto com a percepção, uma onda do mais puro terror invadiu sua mente. Ele tentou gritar, mas sua garganta não produziu nenhum som. Desesperado, Grant iniciou uma corrida frenética em direção ao metrô, mas, percebendo que jamais alcançaria o refúgio antes da criatura, resolveu tentar despistá-la.
Correndo o mais rápido que suas pernas permitiam, Grant se lançou em direção ao beco mais próximo e, em seguida, serpenteou alucinadamente pelas galerias que se formavam por entre os prédios. Somente quando não viu mais sinal da criatura foi que o jovem resolveu dar um pouco de descanso a si mesmo.
Seu coração batia freneticamente e seus pulmões pareciam arder em chamas. Seu corpo inteiro tremia devido ao medo e à adrenalina e um suor frio se misturava com as águas das chuvas em seu rosto.
Ainda assim, ele havia sobrevivido.
Não havia como a criatura ter conseguido segui-lo, os becos daquela seção da cidade formavam um labirinto tão intrincado que levaria horas para que a coisa o encontrasse, isso se tivesse sorte.
Com esse pensamento em mente, Grant respirou aliviado, sem perceber que, atrás dele, uma sombra furtiva caminhava em sua direção.
Foi o som de uma lata de lixo sendo derrubada que avisou Grant de que ele não estava sozinho, mas quando ele se virou para olhar, já era tarde demais.
Com um movimento absurdamente rápido para algo de seu tamanho, a criatura já havia se lançado sobre o jovem e, instintivamente, estraçalhado sua jugular com seus dentes afiados.
Agora, era hora do Crocodilo se alimentar.
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O Crocodilo já havia se servido de sua presa e retornava para seu lar subterrâneo quando algo no beco chamou sua atenção. Lentamente, ele se aproximou de uma parede que desembocava na rua e viu um velho e apagado cartaz colorido. Ele não saberia dizer o significado de todas aquelas cores berrantes e letras espalhafatosas, ou o que aquele homem de maquiagem e nariz vermelho fazia ou porque ele apontava para uma dupla de pessoas suspensas em pleno ar por um tênue cabo.
Mas, dentro daquilo que deveria ser uma mente, aquele cartaz conseguia evocar coisas há muito esquecidas.
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