Lágrimas De Crocodilo
13 Capítulo 12
Notas iniciais
Seis meses. Seis meses de fuga; seis meses de terror e pânico; seis meses de noites mal dormidas e de fome; seis meses desde que Waylon Jones matara sua tia e iniciara uma desesperada fuga pelo interior.
Por infindáveis dias e noites o garoto correu por entre estradas e matas, fugindo de cidades e todo e qualquer som que lembrasse pessoas ou sirenes. A comida era escassa. Com muita sorte, ele conseguia caçar um pequeno animal e se alimentar de sua carne crua — pois uma fogueira poderia trair sua localização e, com o tempo e a fome, o gosto se tornava uma frivolidade — mas isso nem sempre acontecia, de modo que a fome era sua companheira de viagem. A sede, por outro lado, era um problema menor, uma vez que as chuvas eram bastante frequentes e os pequenos riachos ou poças sempre podiam ser encontrados. Quando não eram, sempre havia alguma fazenda isolada com algum poço. Era um tremendo risco, mas esse ele precisava correr.
O sono, por sua vez, era evitado devido à necessidade incessante de fugir e o medo de ser pego. Mas essa não era nem de longe a verdadeira razão pela qual Waylon fugia, ou a razão pela qual ele se recusava a fechar os olhos.
A culpa era dela.
Toda vez que Waylon fechava seus olhos, ou relaxava o bastante, ele conseguia vê-la naquele momento final e sempre, sempre, com aquele som de um galho seco se partindo e aquilo o apavorava. Suas mãos tremiam toda vez que via o rosto de sua tia, os olhos cheios de raiva e, lá no fundo, medo e confusão, não acreditando que um garoto teria aquela força ou todo aquele ódio dentro de si — e elas tremiam porque ele ainda conseguia sentir a pele oleosa e enrugada contra a sua pele, assim como a força que as fechava involuntariamente. E nessas horas, ele sentia um estranho prazer vibrando em cada célula de seu corpo.
E nessas horas, ele corria.
Agora, após seis meses dessa loucura, Waylon Jones começava a fraquejar. Seu estômago roncava furiosamente por causa da fome, atiçado pela doença de todas as vezes que ele se viu forçado a beber a água de uma fonte incerta. Seu corpo tremia pelo cansaço, pela falta de descanso e pela fome. Ele sabia que não poderia continuar mais correndo, mas ele não iria parar por causa disso.
Correndo por uma estrada rural, ele forçava suas pernas a seguirem em frente, mesmo elas reclamassem com cãibras e dormência. Nesses casos ele as esmurrava, mas, sem força, era o mesmo que nada.
Sua mente implorava por descanso. Seu corpo gemia de dor. Mas ele tinha que se forçar. Tinha que continuar correndo. Correndo, sempre em frente, sem olhar para trás. Correndo. Correndo e corrend.....
Seu corpo caiu no chão sem fazer qualquer barulho e, mesmo que o tivesse feito, não haveria ninguém ali para ouvi-lo. Esgotado, Waylon Jones apagara bem no meio da estrada, mesmo com medo de ser preso, e com medo de rever sua tia e da estranha sensação, ele não tinha mais forças para continuar em frente. Ainda assim, se lhe fosse permitido ter alguma noção da inconsciência, ele teria gostado daquele estranho sono sem sonhos.
Se lhe fosse permitido ter noção do ambiente que o cercava, Waylon teria percebido que, muitas horas após seu apagão, um pequeno comboio circense passava pelo local. E que, ao vê-lo, todo o comboio parou e, do carro principal, um corcunda vestindo um fraque vermelho, mancou até seu corpo inconsciente e, após uma breve exclamação de surpresa e pesar, chamou um homem incrivelmente forte e, juntos, o levaram para dentro do carro principal.
No entanto, não havia como Waylon Jones ter esse conhecimento.
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