Kurt, Interrompido
13 Mudança de quarto.
Notas iniciais
“Por que não transou com ele?” Pergunta Wes, estamos só nos dois no refeitório.
“Abaixa a voz!” Me acostumei com a paranoia de enfermeiras bisbilhotando conversas.
“Vocês deviam ter transado desde a primeira noite que ele dormiu na sua cama e falou do pássaro morto.”
“Espere ai. Você estava acordado?!”
“Ahm, talvez?” Enterro a cara nas mãos. “Relaxa, cara. Eu não vi nada, mas tava quase pedindo pra vocês irem logo com isso.”
“Meu deus Wes.”
“Enfim, façamos o seguinte: Eu vou dar uma volta no Bloco D para visitar Austin, você pode tentar a sorte e-“
“Eu já falei, Wes! Não vou transar com Blaine. Não nesse dormitório, pelo menos.”
“As revisões que as enfermeiras fazem a noite são de 20 em vinte minutos, uma rapidinha, você consegue.”
“Para com isso, Wes!” Estou mais vermelho que a própria cor, tenho certeza.
“Torrada?” Ele me oferece, eu digo que não, obrigado.
“Wes Chang?” Incrível como ter seu nome chamado por uma dessas enfermeiras consegue ser pior que tudo que já lhe ocorreu neste hospital.
“Meu nome é Wes Lee!” Blaine tem razão, Wes só mente para os que trancam ele aqui.
“Wes tanto faz o segundo nome” Ela responde, entrega um papel pra ele e vai embora, quero jogar a torrada nela.
“Ah, não.” Ele diz.
“O que foi?”
“Vao me mudar de dormitório.”
“Não acredito. Pra qual?”
“Vou ficar com Austin e Steves” Steves era um catatônico que normalmente não saia da cama.
“Que pena, Wes.”
“Pena de você! O Jeff vai ficar no seu quarto agora.” Ele me entrega o papel.
“Não sei por que isso seria algo ruim, Jeff é quieto, quase não fala.” Pra falar a verdade, Jeff me dava arrepios, mesmo que fosse injusto ser assim com ele, não posso evitar ver algo estranho nele.
“Isso é verdade.” Ele concorda.
Estamos do lado de fora do hospital, algumas arvores e alguns seguranças para impedir nossa fuga. Blaine segura a minha mão enquanto Wes enterra o caixão de Pavarotti na terra macia.
“Adeus, Parotti.” Diz Wes, quando acaba de cavar.
“É Pavarotti.” Eu corrijo.
“Sim, ele mesmo.”
Dizemos algumas palavras, de como foi ele cantava bem, como sentiríamos a falta dele.
“Eu agradeço você ter me dado um motivo pra poder ficar na cama do Kurt.” Reviro os olhos e deixo os dois sozinhos lá, rindo em cima do tumulo de Pavarotti.
Jeff já estava desempacando quando cheguei no dormitório. Me ofereci pra ajudar mas ele se recusou, seus olhos me acompanharam ate sentar na cama. Fiquei meia hora vendo ele separar sua pouca roupa em ordem de cor e tamanho.
Blaine entra no quarto e olha pra Jeff.
“Me alegra que Wes tenha te avisado que a cama da parede é minha.”
Jeff não responde, só acena a cabeça freneticamente, volta a organizar suas coisas.
“Nem sei pra que você quer tanto a cama da parede se você só dorme na minha.” Não me preocupo que Jeff escute.
“É uma questão de dominância. Você pode dormir comigo na minha se quiser.”
Jeff deixa seus lápis de cor caírem e rolarem por todo o chão. De novo, não nos deixa ajudar.
“Enfim, eu pensei na sua proposta de ser seu acompanhante.” Ele ignora a presença de Jeff completamente, e eu admito que prefiro fazer isso do que tentar conversar com ele, ele é impossível.
“E ai?”
“Vou com você.” Ele sorri. “Qualquer chance pra me deixarem sair daqui melhor.”
“Vai fugir de novo?”
“Não sei se quero fugir de novo, sei lá. Este lugar ficou melhor quando você chegou.”
“Deixa de ser idiota.” Solto uma gargalhada.
“Mas falo serio, não vou porque quero fugir. Vou porque quero ser a sua companhia.”
Sorrio, eu também quero que ele seja minha companhia.
Olho pra Jeff, se retorcendo como uma michoca no chão sujo, queria achar um jeito de ajudar ele ou fazer ele se sentir melhor.
“O que eu devo vestir?” Blaine atrai minha atenção novamente.
“Hm, tem roupa de gala?”
“O que é roupa de gala?”
“Esquece. Eu te empresto um.” Sou mais alto que Blaine, Imagino as calcas e o Blazer ficando folgados nele, seria uma gracinha.
“Visita pra Kurt Hummel.” Jeff bate a cabeça na quina da cama enquanto estava abaixado juntando seus lápis. Também me assusto com a entrada súbita da enfermeira no quarto.
“Da pra ter cuidado da próxima vez? Jeff quase abre um buraco na própria cabeça!” Blaine, como sempre, um doce com as enfermeiras. Ela o ignora e vai embora.
“Vem comigo?” Pego a mão dele, ainda é estranho e ao mesmo tempo tão natural. Não somos um casal, mas ao mesmo tempo parece que namoramos desde o primeiro dia dele aqui.
“Na verdade, agora tenho que ir ver a Dra. Sylvester. Mas se quiser eu não vou.”
“Não, vai nessa. Convence a velha que você não é doido.”
Fico na duvida se devo beijar ele com Jeff no quarto ou não. Ele resolve a questão me dando um selinho rápido e saindo pela porta. Eu rio e Jeff me olha sem entender.
Não é meu pai nem Finn. Adam esta apoiado em um dos balcões sorrindo pra mim. Ele esta bem aqui. Na minha frente.
Ele tenta me abracar, mas desvio, pergunto a mesma coisa que sempre pergunto as minhas visitas.
“O que você esta fazendo aqui?”
“Ver meu namorado.”
“Namorado, virgula. Quem te disse onde estava?”
Ele suspira e encara o chão.
“Vejo que você não esta melhor.”
“Estava melhor quando você não estava aqui.”
“Olha, Kurt. Eu sei que faz um tempão e eu não vim te visitar, eu nem sabia que você estava na Dalton. Achei que tinha saído de férias.”
Belas férias.
“Finn me falou que estava preocupado com você e...”
“Espera, Finn? Finn falou com você?”
Ele acente.
“Não acredito nisso. Não pode ser possível.”
“Vocês dois podem levar a briga de casal lá pro pátio? Estamos trabalhando aqui.” Diz uma das enfermeiras, enquanto lixa de unha nas mãos.
Bufo, arrasto Adam pro pátio. Posso ver o conversível dele estacionado daqui.
“Quer dar uma volta nele?” Ele pergunta, chegando perto de mim.
“Você podia ir sozinho.”
“Eu quero ir com você.”
Não digo nada, isto é uma chance para escapar, sair de vez deste lugar.
“Você não tem que ficar trancado aqui, Kurt. Você não pertence a este lugar.”
“Não, não pertenço.” Continuo com o olhar fixo no carro.
“Vem comigo! Foge comigo! Olha Kurt, eles estão me chamando pra me alistar.”
“Você foi convocado?”
Penso nas chances que Adam teria no campo de batalha. Sinto pena dele.
“Vamos construir uma vida juntos, só eu e você.”
Eu penso, por um minuto inteiro, na possibilidade. Não amo Adam, mas fugir daqui é tudo o que quero. Imagino-me envelhecer com ele em alguma cabana escondida na floresta. Vivendo de animais de caca e frutas e plantio. Ele voltando pra mim todas as noites para jantar. Eu tomando conta de um lar e pertencendo a alguém para sempre.
“Desculpe, Adam. Não vou com você.”
Ele não diz mais nada. Parte em seu carro conversível. Eu fico parado no pátio tentando apagar a vida no campo da cabeça.
Volto para o dormitório, Jeff já esta deitado na cama, mesmo que sejam três da tarde.
Eu me sento e espero Blaine chegar.
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