Pov James

A noite caiu, mas eu não consegui voltar pra casa.

Fiquei parado ali por muito tempo depois que Kler foi embora, olhando o caminho vazio como se, de alguma forma, ela fosse voltar.

Mas ela não voltou.

E eu sabia que não voltaria.

Passei a mão no rosto, soltando um suspiro pesado. Tudo dentro de mim estava confuso… bagunçado… como se eu tivesse aberto uma porta que não sabia mais fechar.

Eu disse que escolheria ela.

— Droga… — murmurei baixo, chutando uma pedra qualquer no chão.

Comecei a andar sem direção, tentando organizar meus pensamentos, mas quanto mais eu pensava, pior ficava.

Meu pai.

A fazenda.

A tal garota que eu nem conhecia.

E Kler…

Kler, que sempre esteve ali.

E eu só percebi tarde demais.

Quando finalmente voltei pra casa, as luzes ainda estavam acesas. Estranhei. Meu pai não costumava ficar acordado até tarde.

Assim que entrei, encontrei ele na sala, sentado, com um copo de bebida na mão.

Ele levantou os olhos pra mim imediatamente.

— Onde você estava?

— Andando. — respondi seco.

Ele assentiu devagar, como se já esperasse isso.

— Precisamos conversar.

Aquilo nunca era um bom sinal.

Me aproximei, ficando de pé mesmo, sem paciência pra rodeios.

— Sobre o quê?

Ele colocou o copo na mesa com cuidado.

— Eles chegam amanhã.

Senti meu corpo travar.

— Amanhã?

— Sim. — ele respondeu firme — Achei melhor não adiar mais.

Soltei uma risada sem humor.

— Claro… por que me dar tempo pra pensar, não é?

— James, isso não é sobre você apenas! — ele retrucou, elevando o tom — É sobre essa família! Sobre tudo o que construímos!

— E o que eu construí? — rebati na mesma hora — Porque até agora, tudo o que eu vejo é o senhor decidindo minha vida por mim!

O silêncio que veio depois foi pesado.

Ele me encarou… diferente dessa vez.

Cansado.

— Eu estou tentando salvar o seu futuro.

Balancei a cabeça, desacreditado.

— Não… o senhor está tentando controlar ele.

Peguei ar, sentindo a raiva subir.

— Eu não vou me casar com ninguém por interesse.

— Vai sim. — ele disse, firme, sem hesitar.

Aquilo me fez perder o chão por um segundo.

— Como é?

— Você vai fazer o que precisa ser feito. — ele continuou — Porque, goste ou não, você faz parte disso.

Dei um passo pra trás, rindo de nervoso.

— O senhor não pode me obrigar.

Ele levantou devagar.

— Não? — perguntou, se aproximando — Então me diga… o que você vai fazer? Fugir?

Meu coração disparou.

Era como se ele tivesse lido meus pensamentos.

— Porque se for isso… — ele continuou, mais baixo agora — Você vai destruir essa família.

Aquilo me atingiu em cheio.

E ele sabia.

Sabia exatamente onde me ferir.

— Vá dormir. — ele disse por fim — Amanhã você precisa estar apresentável.

Fiquei ali, parado, observando ele sair da sala como se nada tivesse acontecido.

Como se ele não tivesse acabado de colocar o peso do mundo nas minhas costas.

Subi pro meu quarto sem dizer mais nada.

Mas dormir… não era uma opção.

Porque pela primeira vez na minha vida…

Eu tinha uma escolha.

E qualquer uma delas…

Ia me custar tudo.

Pov Kler

Acordei me sentindo indisposta, meio nauseada e com uma baita dor de cabeça, me levantei e tentei fazer um chá. Minha mãe logo levantou e vendo que eu não parecia me sentir bem perguntou como eu estava.

— Eu não sei, acordei com uma baita dor de cabeça. — falei enquanto me sentava pra tomar o chá.

— Fique em casa por essa manhã, tome o chá e deita mais um pouco. — disse ela enquanto colocava a mão na minha testa tentando ver se a minha temperatura estava normal. — Você parece com febre, não vai poder trabalhar hoje. Vou deixar uma sopa pronta pra você, você fica em casa e dorme um pouco. Mais tarde eu volto pra ver como você está.

Eu concordei bebericando meu chá, não estava em condições de nada mesmo. Terminei o chá e voltei pra cama. Dormi um sono pesado e profundo e acordei com alguém me chamando. Abri os olhos lentamente e vi que tinha alguém na janela do meu quarto, esfreguei meus olhos embaçados e vi que era James. Então me levantei e abri a janela.

— O que você tá fazendo aqui? — perguntei com os olhos semicerrados pela claridade e com uma mão tentando me proteger meus olhos.

— Ouvi sua mãe dizer que você estava doente e vim aqui te ver. — ele disse analisando o meu rosto.

— É... acho que algo não me caiu bem, mas já vou melhorar. — percebi que ele estava do lado de fora da casa e resolvi chamá-lo para entrar. — Vem, entra aqui, vou fazer um chá pra gente.

Ele deu a volta na casa e logo estava na porta da frente, abri a porta pra ele e fui até a cozinha.

— Deixa que eu faço o chá, é você quem está doente. — ele disse pegando a chaleira da minha mão e fazendo sinal pra eu sentar. Eu cedi, estava fraca demais pra discutir.

— Não sabia que você sabia fazer chá. — eu disse provocativa.

— Ora, eu não sou um inútil na cozinha, posso não ter seus dotes culinários, mas sei me virar. — ele disse com um ar brincalhão e indignado.

— Me desculpe, chefe! — falei dando uma gargalhada.

— Você comeu algo hoje? — ele perguntou enquanto tirava a chaleira do fogo e colocava as ervas em uma xícara que ele achou.

— Só chá, eu estava muito nauseada, acho que o ensopado que a minha mãe fez ontem não caiu bem. — eu disse rindo levemente.

— Não é possível, o ensopado da sua mãe é o melhor. Impossível que seja isso. — ele me serviu o chá e colocou a mão na minha testa pra ver se eu estava com febre.

Minha pele formigou instantaneamente quando ele me tocou, eu reagi desconfortável, tenho certeza que corei violentamente.

— Ér.... você não tá tão quente, mas tem que se cuidar. — ele disse e pareceu envergonhado também. — Vou te fazer uma omelete, o que acha?

— Nossa, além de chá, sabe fazer omelete também? É um homem e tanto, senhor James. — eu disse dando uma piscadela e um sorriso de canto.

— Eu tenho os meus talentos, Senhorita.

Ele se levantou e começou a abrir a geladeira e olhar os armários, logo foi encontrando os ingredientes e os utensílios. Observei enquanto ele preparava a omelete, James era muito bonito fisicamente, o jeito dele divertido e brincalhão é o verdadeiro charme dele. Tenho certeza que a mulher que se casar com ele será a mais sortuda de todas.

— Tá preocupada que eu coloque fogo na sua cozinha? — ele disse rindo e olhando diretamente pra mim. — Não para de me olhar hahaha.

— Não... é... tava curiosa. Não é todo dia que vejo você na minha cozinha fazendo omelete pra mim, isso é novo. — fiquei nervosa por um minuto.

— Sei sei... — ele disse sorrindo e fazendo cara de quem está sendo convencido.

Ele terminou a omelete, colocou 2 pratos na mesa e serviu a omelete pra gente.

— Nunca confie em um cozinheiro que não come da própria comida. — ele disse sorrindo.

— Parece ótima. — realmente parecia ótima, me surpreendeu.

— Eu tenho meus talentos, Kler! — ele disse convencido com um pedaço de omelete na boca.

Eu sorri enquanto comia a omelete. Fazia muito tempo que eu não me sentia em casa, mas com o James ali aquela tarde... Tinha algo de tão familiar, reconfortante, eu estava em casa mesmo.

No meio do meu devaneio escuto alguém na porta da frente e me lembro que minha mãe iria voltar pra ver como eu estava. Entrei em pânico, ela não podia ver o James ali.

— Ah não, você tem se esconder. — eu disse sussurrando e me levantando e puxando ele.

— Não, o que está fazendo? Tá tudo bem, eu resolvo.- ele disse me puxando de volta.

— Kler! Tá acordada? Cheguei. — os passos da minha mãe ecoavam em direção a cozinha e as batidas do meu coração estavam tão fortes e rápidas que tenho quase certeza que dava pra ouvir. — Kler, você já levan....- minha mãe parou no meio da frase ao ver James na cozinha.

— Boa tarde, dona Mary! Me desculpe vir aqui sem avisar, mas eu queria saber como a Kler estava. — disse James sorrindo e sendo o mais simpático possível.

— Ah, sim! Não esperava te ver aqui, James! Ainda mais que hoje é um grande dia pra vocês. — minha mãe disse com uma sobrancelha arqueada.

Olhei para James sem entender e ele parecia sem graça e desconfortável.

— Sim, claro! Bom, eu já vou indo. — Ele olhou pra mim e se levantou lentamente. — Melhoras, Kler. E dona Mary, eu que vim aqui e procurei a Kler, desculpa o incomodo. — ele disse claramente tentando me poupar.

— Tudo bem, James. Você é bem-vindo em nossa casa. — disse minha mãe forçando uma simpatia, mas me fuzilando com os olhos.

Minha mãe acompanhou James até a porta e ele foi embora.

— O que você está pensando, Kler? — disse minha mãe assim que colocou os pés na cozinha.

— Nada, ele queria ver como eu estava e veio aqui, nada aconteceu. — disse na defensiva.

— Então, o filho dos patrões resolveu vir aqui do nada pra te ver e comer com você e isso não é nada? — ela disse olhando a mesa e vendo que tinha dois pratos.

— Bom, ele quis cozinhar pra mim porque eu não estava bem e fez uma omelete. — me arrependi no instante que falei isso.

— Ah, então agora o filho dos patrões também serve você? Me desculpe madame, como devo chamá-la agora?- ela disse ironicamente e com raiva. — Você acha que eu sou idiota? Acha que não estou percebendo que você está tentando seduzir o James? Pois saiba que hoje a noite ele vai conhecer a futura esposa dele, uma moça rica, educada e muito bonita. — ela suspirou fundo e continuou. — Então, minha filha, por favor não seja tola, não crie fantasias. Ele não é pra você, o que ele ia ver em você? No máximo iria te usar e jogar fora antes de se casar com essa moça chique!

Eu ouvi tudo em silêncio e completo espanto, não sabia que o James já iria conhecer alguém tão rápido. Foi uma faca no meu coração, doeu muito, principalmente por saber que boa parte do que a minha mãe dizia e espraguejava era verdade. Eu não queria ficar ali, eu não podia ficar ali, então me levantei, olhei pra minha mãe como quem diz já chega.

— Eu já disse não aconteceu nada, pode ficar tranquila, eu e o James somos apenas bons amigos e nada além disso. — disse engolindo em seco e indo pro meu quarto.

Precisava de um banho, um longo banho. Então tirei a roupa e fui para meu banheiro, liguei a água e deixei ela cair sobre meu corpo, não pude deixar de chorar, as lágrimas caíram sem permissão.

Nesse momento percebi que sentia algo muito profundo por James, talvez o amasse? Mas como poderia amá-lo? Estar presa aqui já era ruim e ainda tendo um amor impossível?

Olhando agora, percebo que sempre o amei, só deixei esse sentimento adormecido. Como não amar alguém tão gentil, que sempre me protegeu e secou minhas lágrimas quando eu caia e me machucava na infância. James é um homem bom, e quando digo bom é bom de verdade, queria que não fosse bom demais pra mim.

Depois de tomar banho, me senti melhor fisicamente e resolvi ajudar minha mãe na casa dos patrões, afinal era um dia com visitas e tinha que estar tudo impecável.

Pov James

O dia parecia mais longo do que deveria.

Tudo estava sendo preparado com um cuidado irritante. Empregados andando de um lado pro outro, meu pai supervisionando cada detalhe como se aquele jantar fosse decidir o destino do mundo.

Talvez fosse mesmo.

Eu já estava pronto, vestindo uma roupa que mal parecia minha. Tudo impecável… tudo no lugar.

Menos eu.

— Endireite isso. — meu pai disse, puxando levemente a gola da minha camisa.

Afastei a mão dele.

— Já está bom.

Ele me lançou um olhar de reprovação, mas não insistiu.

— Eles chegam a qualquer momento.

Assenti, sem dizer nada.

Mas minha cabeça não estava ali.

Estava na casa de Kler.

No jeito que ela sorriu.

No jeito que ela me olhou…

E principalmente… no jeito que ela se afastou.

Eu tinha estragado tudo.

Ou talvez… eu só tivesse sido sincero tarde demais.

— James. — meu pai chamou, mais sério dessa vez — Hoje você precisa fazer a coisa certa.

Soltei um riso baixo.

— A coisa certa pra quem?

Ele não respondeu.

Porque nós dois sabíamos.

O som de carruagens se aproximando cortou o silêncio.

Era isso.

Respirei fundo.

Sem saída.

Fomos até a entrada principal, e logo a carruagem parou. Meu pai abriu um sorriso que eu nunca tinha visto antes — um sorriso de negócio, não de felicidade.

A porta se abriu.

Um homem desceu primeiro, elegante, postura firme. Depois, uma mulher com olhar avaliador… e por último…

Ela.

A tal garota.

Por um segundo, eu realmente tentei me importar.

Mas não senti nada.

Nem curiosidade.

Nem interesse.

Nada.

— Seja bem-vindo! — meu pai disse animado, apertando a mão do homem.

Eu apenas observava.

Até que…

— Boa tarde, senhor. — a voz dela chegou até mim.

Educação perfeita.

Postura impecável.

Ela estendeu a mão levemente.

— É um prazer finalmente conhecê-lo, James.

Segurei a mão dela por educação.

— O prazer é meu.

Mentira.

E pela primeira vez… percebi que viver assim seria exatamente isso:

Uma sequência de mentiras bem educadas.

Pov Kler

A casa dos patrões estava mais movimentada do que nunca.

Tudo precisava estar perfeito.

E eu… precisava agir como se nada estivesse acontecendo.

Como se meu coração não estivesse em pedaços.

— Kler, limpe aquela mesa e depois ajude na cozinha. — minha mãe disse firme, voltando ao trabalho como se nada tivesse acontecido entre nós.

Assenti em silêncio.

Era melhor assim.

Sem discussões.

Sem sentimentos.

Peguei o pano e comecei a limpar a mesa da sala principal… a mesma onde o jantar aconteceria.

A mesma onde ele estaria.

Respirei fundo.

Não pense nele.

Não pense nele.

Não pense nele.

— Eles chegaram! — alguém disse ao fundo.

Meu corpo inteiro travou.

Por impulso… olhei.

E foi aí que eu vi.

James.

Impecável.

Distante.

E ao lado dele…

Ela.

Bonita.

Elegante.

Exatamente como minha mãe descreveu.

Meu estômago revirou na mesma hora.

Mas não era só isso.

O pior…

Foi quando ele olhou na minha direção.

Nossos olhos se encontraram por um segundo.

Um segundo que pareceu durar uma eternidade.

E naquele olhar…

Tinha tudo.

Confusão.

Culpa.

E algo que ele claramente estava tentando esconder.

Desviei o olhar imediatamente, voltando a limpar a mesa como se aquilo não tivesse me afetado.

Mas tinha.

E muito.

— Kler! — minha mãe chamou, mais baixo dessa vez — Ande logo com isso!

Assenti, engolindo tudo.

Porque ela estava certa.

Aquele não era o meu lugar.

Nunca foi.

E agora…

Nunca seria.