Pov Kler

Fiquei ali, deitada sobre o peito dele, ouvindo o coração dele bater.

Forte.

Acelerado.

Quase no mesmo ritmo que o meu.

Por alguns minutos… tudo ficou em silêncio.

Um silêncio diferente.

Não angustiante.

Como se aquele momento tivesse preenchido algo dentro de mim que sempre esteve vazio.

Passei a mão devagar pelo peito dele, sentindo a respiração dele ainda irregular.

— Você tá bem? — ele perguntou baixo, deslizando a mão pelo meu braço com cuidado.

Assenti levemente.

— Tô… — respondi, ainda tentando recuperar o fôlego — só… tentando entender o que acabou de acontecer.

Ele soltou um riso baixo.

— Eu posso resumir se quiser.

Levantei o rosto pra olhar pra ele.

— Nem tenta.

Ele sorriu de canto… daquele jeito que sempre me desmontava.

Mas dessa vez foi diferente.

Porque agora… eu sabia exatamente como era estar com ele.

De verdade.

E isso tornava tudo mais intenso.

O silêncio voltou.

Mas não demorou muito pra realidade bater.

Me levantei devagar, puxando o lençol comigo pra cobrir o corpo.

— James… — falei, sem olhar diretamente pra ele — isso muda tudo.

Ele apoiou o corpo nos cotovelos, me observando.

— Eu sei.

— Não… — virei pra encará-lo — você não sabe.

Respirei fundo.

— Se alguém descobre isso… acabou.

Ele franziu a testa.

— Acabou o quê?

Soltei uma risada fraca.

— Pra mim, tudo. — respondi — Minha família, meu trabalho, minha reputação… tudo.

Ele ficou em silêncio por um instante.

E eu vi.

Pela primeira vez…

Ele realmente entendeu o tamanho da diferença entre nós.

— Eu não vou deixar isso acontecer, vamos ficar juntos. Quero você comigo pra sempre, quero me casar com você. — ele disse, mais sério agora.

Balancei a cabeça devagar.

— Não depende só de você.

Silêncio.

— E se depender de mim? — ele insistiu.

Olhei pra ele.

Direto.

— Então você vai ter que fazer mais do que prometer.

Aquilo atingiu ele.

Eu sabia que ia.

Mas precisava.

— Eu não posso ser um segredo, James. — continuei — Não depois disso.

Ele passou a mão pelos cabelos, claramente sentindo o peso daquilo.

— Você não é.

— Ainda sou. — respondi firme — Porque ninguém sabe que você está aqui.

Mais silêncio.

Mais verdade.

— Amanhã… — comecei — quando você acordar… tudo isso aqui vai continuar existindo.

Apontei entre nós.

— Mas o resto também vai.

Ele se levantou da cama, agora mais próximo de mim.

— Então eu resolvo o resto.

— Como? — perguntei, sem suavizar — Vai chegar lá e dizer pro seu pai que dormiu com a filha dos empregados e que vai ficar com ela?

As palavras saíram mais duras do que eu queria.

Mas eram necessárias.

Ele travou por um segundo.

— Vou sim, não com essas palavras, mas você vai virar oficialmente minha noiva. — ele falou confiante sem duvidas no olhar.

Senti meu peito apertar de medo e excitação.

Ele se aproximou mais, segurando meu rosto com cuidado.

— Eu vou dar um jeito. — disse, mais baixo agora — Mas eu não vou voltar atrás.

Quis acreditar.

— Você precisa ir. — falei, me afastando devagar.

Ele me olhou, surpreso.

— Agora?

Assenti.

— Antes que alguém perceba que você sumiu.

Ele ficou me encarando por alguns segundos.

Como se não quisesse ir.

Como se soubesse que sair por aquela porta…

mudava tudo.

Vagarosamente ele começou a colocar a roupa, então se aproximou uma última vez e me beijou.

Pov James

Como uma noite tão sufocante pode ter se tornado a mais feliz da minha vida? Eu sou completamente louco pela Kler, eu a quero mais que tudo, e eu vou lutar por ela, custe o que custar. Sair da casa dela foi muito difícil, não queria deixá-la. Queria dormir com ela no meu peito, abraçada a mim. Caminhar de volta para o casarão foi um martírio, não queria pisar os pés lá, me sentia leve e feliz, não queria tá ali.

Cada passo parecia me puxar de volta pra uma vida que já não fazia mais sentido.

Minhas mãos ainda guardavam o toque dela.

Minha mente… o jeito como ela me olhou.

E meu peito…

Nunca esteve tão cheio.

Nunca.

Parei por um instante antes de chegar na entrada principal.

Olhei para o casarão iluminado.

Imponente.

Frio.

Sempre foi meu lar.

Mas naquela noite…

Parecia uma prisão.

Soltei um suspiro longo, passando a mão pelos cabelos.

— Agora você resolve. — murmurei pra mim mesmo.

Porque não dava mais pra voltar atrás.

Não depois do que aconteceu.

Não depois dela.

Empurrei a porta e entrei.

O silêncio me surpreendeu.

A sala estava vazia.

Mas não por muito tempo.

— Finalmente resolveu aparecer.

A voz do meu pai ecoou pelo ambiente.

Virei o rosto devagar.

Ele estava ali.

Sentado.

Me esperando.

Como eu já imaginava.

— Onde você estava? — perguntou, direto.

Não desviei o olhar.

— Precisava pensar.

Ele soltou um riso curto.

Sem humor.

— Pensar… — repetiu — Engraçado, porque você escolheu fazer isso justamente quando nossos convidados estão aqui.

— Eu não pedi pra eles estarem aqui.

O clima mudou na mesma hora.

Pesou.

— Você está passando dos limites, James. — ele disse, se levantando lentamente.

— Não. — respondi — Eu só estou começando a colocar limites.

Silêncio.

Ele me encarou com uma expressão que eu conhecia bem.

Controle.

Mas por baixo…

Raiva.

— Aquela família está aqui por um motivo. — ele continuou — E você está estragando tudo. Eu e sua mãe fizemos o possível para contornar a vergonha que você nos fez passar. Agora sua noiva e os pais dela estão acomodados, mas você vai precisar desfazer essa impressão horrorosa que você deixou. — ele disse com raiva.

— Eu não vou me casar com ela.

Falei.

Sem rodeio.

Sem medo.

As palavras ficaram no ar.

Pesadas.

Definitivas.

Meu pai ficou imóvel por um segundo.

E então…

— Isso não é uma opção. — parecia que ele ia explodir de tanta raiva.

— Pra mim é.

Dei um passo à frente.

— Eu não vou viver uma vida que eu não escolhi.

— Você não tem esse luxo! — ele rebateu, elevando a voz — Você faz parte dessa família!

— E isso significa que eu tenho que abrir mão da minha vida? — retruquei — Dos meus sentimentos?

— Sentimentos não pagam dívidas! — ele disparou — Sentimentos não salvam essa fazenda!

Aquilo me atingiu.

Mas não me fez recuar.

— Então vende. — falei.

Ele arregalou levemente os olhos.

— O quê?

— Vende a fazenda. — repeti — Se está tudo tão ruim assim, vende. Compra uma casa menor na cidade, começa um outro negócio...

Ele riu.

Dessa vez alto.

Incrédulo.

— Você realmente não entende nada de nada.

— Talvez porque o senhor nunca deixou eu entender, você diz que vou assumir os negócios, mas não deixa que eu veja o que está acontecendo, estudei tanto pra ter meus conhecimentos descartados pelo senhor...

Silêncio.

Mais uma vez.

Mas agora…

Era diferente.

— Tem outra coisa, não tem? — ele disse, estreitando os olhos — Você não estaria reagindo assim por nada.

Não respondi.

Mas não precisava.

Ele viu.

— Tem alguém. — afirmou.

Meu coração bateu mais forte.

Mas não desviei.

— Tem.

Ele me encarou.

Mais atento agora.

— Quem?

Respirei fundo.

Era isso.

O ponto sem volta.

— Isso não importa.

Erro.

Eu vi na hora.

— Importa sim. — ele disse, se aproximando — Porque seja lá quem for… está te fazendo esquecer quem você é.

— Não. — respondi firme — Está me fazendo lembrar.

Aquilo atingiu ele.

Mas não como eu esperava.

Ele endureceu.

— É ela, não é?

Meu corpo travou por um segundo.

— A garota.

Silêncio.

— A filha dos empregados.

Agora foi direto.

Cru.

Sem disfarce.

Senti algo dentro de mim ferver.

— Ela tem nome.

— Não me importa. — ele cortou — Isso não vai acontecer.

Dei um passo à frente.

— Já aconteceu.

O silêncio veio e com ele tensão.

Meu pai me encarou.

Como se estivesse me vendo de verdade pela primeira vez.

— Você não sabe o que está fazendo. — disse, mais baixo agora.

— Sei exatamente. — respondi — Pela primeira vez.

Ele passou a mão pelo rosto, claramente tentando manter o controle.

— Isso acaba agora. — ele disse — Você vai se afastar dela.

Soltei uma risada baixa.

— Não.

Ele levantou o olhar.

E dessa vez…

Não tinha mais paciência ali.

— Então você está escolhendo ela?

Respirei fundo.

Sem hesitar.

— Estou.

Aquilo foi definitivo.

E nós dois sabíamos.

— Então você está escolhendo perder tudo. — ele respondeu.

Sustentei o olhar dele.

— Talvez eu nunca tenha tido nada de verdade antes, agora eu tenho ela.

Silêncio.

E naquele momento…

Eu soube.

A guerra tinha começado.

E não havia mais como sair dela sem perder alguma coisa.

Pov Kler

A noite estava silenciosa demais.

Fiquei algum tempo parada no meio do quarto depois que James saiu, ainda sentindo o calor do corpo dele no meu… como se ele não tivesse ido completamente embora.

Levei a mão aos meus lábios.

Ainda ardendo.

Ainda… dele.

Mas junto com aquilo veio outra coisa.

Medo.

Muito mais forte do que antes.

Me sentei na beira da cama devagar, puxando o lençol contra o corpo como se aquilo pudesse me proteger de alguma coisa.

— O que a gente fez… — sussurrei, mais pra mim mesma do que pra qualquer outra coisa.

Não era arrependimento.

Não.

Se eu pudesse voltar… faria tudo de novo.

Mas agora não era mais só sentimento.

Era consequência.

Levantei e comecei a andar pelo quarto, inquieta.

— Ele disse que vai enfrentar… — murmurei

O pai dele não era um homem que aceitava “não” como resposta.

E eu sabia disso melhor do que ninguém.

Parei diante da janela.

O casarão ainda estava iluminado à distância.

Imponente.

Intocável.

Um mundo que nunca foi meu.

— Você vai mesmo fazer isso, James…? — falei baixo, olhando na direção dele — Ou foi só… o momento?

A dúvida doía.

Porque agora… acreditar nele significava arriscar tudo.

E não só pra mim.

Passei a mão pelos cabelos, respirando fundo.

— Eu não posso ser a escolha errada dele… — murmurei — Não posso ser o erro que vai destruir a vida dele.

O coração ainda acelerado.

Mas agora por outro motivo.

— Se ele voltar atrás… — falei baixo — eu não vou sobreviver a isso.

Fechei os olhos com força.

Mas não dormi.

Pov James

O silêncio depois da discussão com meu pai foi ensurdecedor.

Mas não durou muito.

— Você perdeu o juízo. — ele disse por fim, a voz mais baixa… mais fria.

— Não. — respondi — Eu só parei de fingir.

Ele me encarou por longos segundos.

Como se estivesse me avaliando.

Como se estivesse decidindo algo.

— Você acha que isso é amor? — ele perguntou.

Não hesitei.

— Eu tenho certeza.

Ele soltou um riso curto.

— Amor não sustenta uma vida, James.

— Talvez… — respondi — mas viver sem ele não é viver.

Aquilo pareceu irritá-lo mais do que qualquer outra coisa que eu tinha dito.

Ele caminhou até a mesa, serviu mais bebida, virou o copo de uma vez só.

— Você está disposto a jogar tudo fora… por uma garota?

Respirei fundo.

— Não é “uma garota”.

Ele virou o rosto devagar.

— Então o que ela é?

Segurei o olhar dele.

Firme.

Sem medo.

— Ela é a minha escolha.

Silêncio.

Dessa vez… longo.

Pesado.

Irreversível.

— Então escuta bem o que eu vou te dizer. — ele falou, cada palavra controlada — Se você seguir com isso… você não volta atrás.

Não respondi.

— Você perde o seu lugar aqui. — ele continuou — O seu nome… o seu futuro… tudo.

Meu coração bateu forte.

Mas não recuei.

— Então eu construo outro.

Aquilo foi o limite.

— Você não faz ideia do mundo lá fora! — ele elevou a voz — Você acha que é simples? Que basta querer?

— Não. — respondi — Mas é melhor tentar… do que viver preso aqui.

Ele me olhou como se eu fosse um estranho.

E talvez eu fosse mesmo.

— Vá dormir. — disse por fim, cansado — Porque amanhã… você vai precisar pensar melhor.

Balancei a cabeça.

— Eu já pensei.

Subi as escadas sem esperar resposta.

Cada passo… mais leve.

Mas ao mesmo tempo… mais real.

Quando entrei no meu quarto, fechei a porta e encostei nela por alguns segundos.

Respiração pesada.

Coração acelerado.

— Não tem volta… — murmurei.

Caminhei até a janela.

E, sem pensar, olhei na direção da casa dela.

Escura.

Silenciosa.

Mas eu sabia.

Ela estava lá.

E pela primeira vez…

Não era só um pensamento distante.

Não era só um “e se”.

Era real.

Passei a mão no rosto, soltando o ar devagar.

— Eu vou até o fim com isso… — falei baixo.

Mas então uma dúvida surgiu.

Rápida.

Incômoda.

— E se ela não quiser… pagar esse preço?

Aquilo me fez travar.

Porque lutar por ela era uma coisa.

Mas arrastar ela pra uma guerra… era outra completamente diferente.

Fechei os olhos por um instante.

E ali… sozinho no quarto…

Pela primeira vez desde que saí da casa dela…

O medo apareceu de verdade.

Mas dessa vez…

Eu não recuei.

— Amanhã… tudo muda.

E no fundo…

Eu sabia.

Não era só uma decisão.

Era o começo de algo muito maior.

E muito mais difícil do que qualquer um de nós estava preparado pra enfrentar.