Pov Kler

Dormi muito pouco a noite, fiquei perdida em meus pensamentos, não parava de pensar em tudo que fizemos, nos toques dele, nos beijos e em como eu o amava.

Uma parte de mim estava muito feliz, não conseguia acreditar no que tínhamos feito. De manhã quando levantei era visível a minha felicidade, sai do meu quarto esperando estar sozinha e com um sorriso no rosto, mas acabei trombando com a minha mãe no caminho.

— Kler, olhe por onde anda! — minha mãe esbravejou e logo olhou pra mim, pude notar quando ela percebeu a felicidade escancarada no meu rosto, tentei disfarçar mas não passou despercebido por ela.

Ela estreitou os olhos levemente, me analisando com uma atenção que me fez gelar por dentro.

— O que foi isso? — perguntou, cruzando os braços.

— Isso o quê? — tentei parecer natural, desviando dela e indo em direção à cozinha.

— Esse sorriso. — ela respondeu na mesma hora, me seguindo com o olhar — Você não acorda assim… nunca.

Meu coração acelerou.

Peguei um copo qualquer, mais pra ocupar as mãos do que por sede.

— Só… dormi melhor hoje. — menti, sem encará-la.

Ela soltou um “hum” baixo, claramente não convencida.

— Engraçado… — disse, se aproximando devagar — porque ontem você saiu da casa grande bem abalada.

Aquilo me fez travar por um segundo.

Ela tinha percebido.

Claro que tinha.

Minha mãe podia ser dura, mas não era cega.

— Não estava abalada, só não estava bem. — respondi, dando de ombros, tentando soar indiferente.

Ela me encarou em silêncio.

— Sabe quem abandonou o jantar ontem também? — ela disse me encarando com curiosidade e um tom de fofoca.

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

— Não, quem? — comecei, tentando fingir naturalidade

— James. — ela parou me encarando por um minuto tentando avaliar minha reação e continuou. — Ele simplesmente levantou da mesa e saiu, o senhor Marshal ficou furioso, é claro.

Ela parou e me encarou como se quisesse me perguntar algo mais direto. Pesei em desviar o assunto.

— Nossa, que surpresa! — tentei soar indiferente. — Achei que você fosse dormir na casa grande ontem. — tentei mudar o assunto.

— Dormi, mas voltei no meio da noite, queria ver se você estava bem então voltei pra casa. — ela disse

Aquilo fez meu estômago revirar.

No meio da noite.

Meu coração disparou de novo, mas dessa vez não era só nervosismo… era medo.

Ela poderia ter visto.

Ou pior… ouvido.

Tentei manter a calma, mas minhas mãos ficaram levemente trêmulas.

— E… você me viu? — perguntei, tentando parecer casual demais.

Ela franziu a testa, como se achasse a pergunta estranha.

— Não. — respondeu — Você estava dormindo quando cheguei.

Soltei o ar devagar, tentando disfarçar o alívio que quase escapou.

Mas ela não desviou o olhar.

— Por quê? — perguntou, mais direta agora.

Engoli seco.

— Nada… só perguntei.

Silêncio.

Ela cruzou os braços novamente.

— Kler… — começou, mais séria — tem alguma coisa acontecendo?

Meu coração bateu tão forte que achei que ela pudesse ouvir.

Pensei em mentir.

Negar.

Desviar.

Mas as palavras não saíam.

— Não. — respondi por fim, baixo demais — Não tem nada.

Ela continuou me encarando.

Por segundos longos demais.

E então suspirou.

— Espero que não tenha mesmo. — disse, virando de costas — Porque você sabe como as coisas são por aqui.

Sim.

Eu sabia.

Melhor do que ninguém.

— Se envolve com gente que não é do seu mundo… — ela continuou, sem me olhar — e quem paga o preço não é só você.

Aquilo doeu.

Porque ela não sabia.

Mas, mesmo assim… acertou.

— Eu não sou criança, mãe. — falei, tentando manter a firmeza.

Ela deu um riso curto.

— É exatamente isso que me preocupa.

E saiu.

Me deixando sozinha na cozinha.

Com o silêncio.

Levei a mão ao rosto, fechando os olhos por um instante.

— Isso vai dar errado… — sussurrei.

Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo.

Mas era impossível.

Porque ele tinha ido embora do jantar.

Por mim.

Ele tinha enfrentado o pai.

Por mim.

E isso… não era pouca coisa.

Encostei na bancada, respirando fundo.

— Você precisa se controlar. — murmurei pra mim mesma — Não pode confiar só nisso.

Mas mesmo tentando ser racional meu coração já tinha escolhido.

E eu sabia.

Hoje alguma coisa ia acontecer.

Porque quando duas pessoas decidem enfrentar tudo o mundo sempre reage.

E eu não tinha ideia do quanto.

Pov James

Acordei com o sol no meu rosto, eu sabia que o dia seria longo e que a família Maisel iria continuar na fazenda para ver o gado, e me avaliar como candidato a marido da Madison.

O senhor Maisel iria ficar na fazenda até sábado e avaliar nossos processos, o gado e se a fazenda seria um bom investimento para ele, e com bom investimento quero dizer uma família boa para a filha dele. Eles vieram de muito longe e por isso ficarão hospedados com a gente.

Resolvi levantar e tentar falar com minha mãe antes do café da manhã que eu sabia que não seria fácil. Revolvi procurá-la no jardim, eu sabia que ela acordava cedo e sempre ia até o jardim, o lugar favorito dela na casa.

— Dona Ester sempre com as plantinhas, né?! — falei implicando com ela enquanto ela mexia em um vaso de plantas.

— Que susto, meu filho! — ela disse dando uma risada. — Chegou de mansinho... Como foi ontem com seu pai quando voltou? Vi que ele ficou te aguardando por um longo tempo ontem. — dona Ester era doce, mas muito direta.

Passei a mão na nuca, soltando um suspiro curto.

— Foi… intenso. — respondi, sem rodeios.

Ela me olhou de lado, com aquele olhar calmo que parecia enxergar além do que eu dizia.

— Isso quer dizer que você bateu de frente com ele. — afirmou, mais do que perguntou.

Soltei um riso baixo.

— Pela primeira vez de verdade.

Ela voltou a mexer na terra do vaso, mas eu percebi o leve enrijecer dos ombros dela.

— E sobre o quê exatamente foi essa “primeira vez”? — perguntou, ainda com a voz suave.

Chegou o momento.

Respirei fundo.

— Eu disse que não vou me casar com a Madison.

A mão dela parou.

Por um segundo.

Silêncio.

O tipo de silêncio que diz muita coisa.

Ela não levantou o olhar imediatamente.

— Entendo… — disse por fim, com calma demais — E imagino que seu pai não tenha reagido bem.

— Não reagiu. — respondi — E não vai reagir.

Ela soltou um suspiro leve, limpando as mãos na saia antes de finalmente me encarar.

— James… — começou — você sabe o que isso significa, não sabe?

Assenti.

— Sei.

Mas ela estreitou os olhos.

— Sabe mesmo?

Dei um passo mais perto.

— Eu sei que ele vai fazer de tudo pra me forçar. Sei que isso envolve dinheiro, a fazenda, o nome da família… — parei por um segundo — Mas eu também sei que eu não vou ceder.

Ela me analisou com atenção.

E então…

— Tem alguém? — disse.

Direto.

Fechei os olhos por um instante.

— Tem.

— Quem é?

Dessa vez… não desviei.

— Kler.

O nome saiu firme.

Sem vergonha.

Sem medo.

Mas o efeito foi imediato.

Minha mãe ficou imóvel.

Os olhos dela mudaram.

Não era raiva.

Era… preocupação.

— James… — disse mais baixo agora — você tem noção do que está dizendo?

— Tenho.

— Não, meu filho… — ela deu um passo na minha direção — você não tem.

Aquilo me irritou.

— Eu sei exatamente o que eu sinto por ela.

— Eu não duvido disso. — ela respondeu rápido — Eu duvido das consequências. Me preocupo com vocês dois.

Silêncio.

Ela passou a mão pelo rosto, claramente pensando.

— Seu pai nunca vai aceitar isso. — disse — Nunca.

— Eu sei.

— A família Maisel… — ela continuou — isso pode comprometer qualquer chance de acordo.

— Eu sei. — repeti, mais firme.

Ela me encarou.

— Então por que você está fazendo isso?

Dei um passo mais perto.

— Porque eu amo ela.

Simples.

Direto.

Aquilo a atingiu.

Eu vi.

Minha mãe levou alguns segundos pra responder.

— E ela? — perguntou — Sabe onde está se metendo?

Engoli seco.

— Sabe.

— E mesmo assim aceitou?

— Não foi uma decisão leve pra ela. — respondi — Pra nenhum de nós.

Ela desviou o olhar por um momento.

Pensativa.

— James… — voltou a me encarar — você entende que isso não afeta só você, não é?

— Entendo.

— Afeta ela muito mais. — disse, agora mais séria — Muito mais.

Aquilo me acertou.

Porque eu sabia.

Mas ouvir em voz alta pesava diferente.

— Eu não vou deixar nada acontecer com ela. — falei, firme.

Minha mãe suspirou.

— Você acha que consegue controlar isso?

Não respondi.

Porque… não tinha certeza.

Ela se aproximou mais, colocando a mão no meu rosto com carinho.

— Você cresceu… — disse, quase em um sussurro — mas o mundo continua sendo duro do mesmo jeito.

Senti o peso daquelas palavras.

Mas não recuei.

— Então eu vou ser mais duro que ele.

Ela soltou um leve sorriso triste.

— Eu espero que sim.

Silêncio.

— O que você pretende fazer? — perguntou por fim.

Respirei fundo.

— Vou falar com meu pai de novo.

— E a família Maisel?

— Não me importo.

Ela me encarou por alguns segundos.

E então assentiu devagar.

— Seu pai vai te pressionar na frente deles hoje.

— Eu sei.

— Vai ser pior do que ontem.

— Eu sei.

— E mesmo assim… você vai sustentar isso?

Segurei o olhar dela.

Sem hesitar.

— Vou.

Ela fechou os olhos por um instante.

Como se estivesse aceitando algo que não podia impedir.

E quando abriu…

— Então faça direito. — disse — Porque meia escolha não existe nesse tipo de situação.

— Ou você assume… — ela continuou — ou você destrói a vida de vocês dois.

Meu peito apertou.

Mas minha resposta veio firme.

— Eu vou assumir.

Ela assentiu.

Mas antes que eu pudesse sair…

— James.

Parei.

— Se você realmente ama essa garota…

Virei o rosto.

— Proteja ela primeiro.

Silêncio.

— Mesmo que isso signifique… não escolhê-la. Você sabe que amo a Kler, não tenho problemas com você casando com ela, mas seu pai... vai cuidar pra que a vida dela seja um inferno. — ela disse com olhar pesaroso.

Aquilo me travou.

Por um segundo.

Mas logo respondi.

— Eu vou protegê-la, mas não abro mão dela.

E saí.

No café da manhã tinha uma mesa posta com muita comida, raramente o café da manhã era tão farto. Mas hoje era um dia especial. Pai, mãe e filha Maisel estavam presentes, observando, julgando...

Me sentei a mesa apressado, por mais que meu pai não me deixasse me envolver nas finanças da fazenda, eu trabalhava no campo, lidava alguns fornecedores da cidade, lidava com a venda do leite e do queijo.

Meu plano era comer algo rápido, dizer oi para as visitas pra não parecer mal educado e sair.

Logo a família Maisel chegou a mesa, todos apresentando uma simpatia com tom de curiosidade ao me cumprimentarem.

— James, bom dia! Está mais disposto hoje? — Disse Madison sorridente se sentando ao meu lado.

— Sim, espero que tenham um ótimo dia na fazenda hoje, meu pai e minha mãe irão mostrar tudo a vocês. — tentei ser simpático, mas impor um limite.

— Ah não acredito que você não vai me acompanhar, James! — disse Madison com uma voz que esboçava manipulação. — Conversamos tão pouco ontem, eu exijo ter sua companhia hoje, não é mamãe? — ela disse tentando buscar apoio da mãe.

— Sim, James. Estamos ansiosos pra te conhecer melhor! — disse a mãe dela esboçando alegria.

— É claro que o James vai acompanhar a gente na fazenda hoje, ele é muito dedicado a fazenda, mas já garanti que hoje ele está livre para o nosso tour. — disse meu pai adentrando a sala, quase como um politico.

Minha mãe veio logo atrás e me olhou quase me pedindo desculpas por não poder fazer nada.

— Pai, temos um cliente importante hoje vindo para buscar os produtos e eu preciso coordenar a operação. — tentei me esquivar.

— Não se preocupe, o Rafael irá cuidar disso. — meu pai disse sorrindo, mas com o olhar frio me avisando para ficar calado.

Decidi não força a barra agora, preferi terminar o café e torcer para escapar daquilo tudo.

Terminei o café rápido demais, quase sem sentir o gosto de nada.

Meu pai conversava animado com o senhor Maisel, explicando sobre o rebanho, os lucros, os planos de expansão… como se tudo estivesse perfeito.

Mentira.

Tudo mentira.

E eu ali… no meio daquilo.

— Então, James… — Madison voltou a falar, inclinando levemente o corpo na minha direção — você sempre viveu aqui?

Assenti, limpando as mãos no guardanapo.

— Sempre.

— James passou 10 anos na capital estudando, voltou faz pouco tempo, mas seu coração sempre esteve conosco, não é James? — meu disse tentando descontrair o clima.

Olhei pra minha mãe e ela só observava tudo com curiosidade e quase divertimento, ela sabia que meu pai estava ridículo tentando forçar aquela situação.

— Ah que interessante, então você não é apenas um homem do campo. — disse Madison animada.

Quase ri.

— Se você diz.... — respondi curto.

Ela pareceu intrigada.

Mas antes que continuasse…

— Vamos? — meu pai se levantou, animado demais — O dia está perfeito para mostrar a fazenda.

Todos começaram a se levantar.

Menos eu.

Fiquei sentado por um segundo a mais.

Soltei o ar devagar.

E levantei.

— Claro. — falei.

Mas por dentro eu já tinha decidido.

O sol já estava alto quando começamos o tour.

Meu pai ia na frente, falando sem parar.

O senhor Maisel fazia perguntas técnicas.

A esposa dele observava tudo com aquele olhar avaliador e Madison andava ao meu lado.

— Você é mais quieto do que eu esperava. — ela comentou, me analisando.

— E você fala mais do que eu esperava. — respondi.

Ela riu.

Como se fosse charme.

— Eu gosto de pessoas interessantes.

Olhei pra frente.

— Então você está no lugar errado.

Aquilo fez ela ficar desconsertada, mas não respondeu.

Continuamos andando.

Até que vi ao longe, perto do curral.

Kler.

Meu corpo inteiro reagiu na hora.

Ela estava trabalhando, ajudando com os baldes, o cabelo preso, o rosto sério.

Distante.

Como se nada tivesse acontecido.

Como se eu não tivesse estado na cama na ultima noite.

Apertei o maxilar.

— James? — Madison chamou, percebendo que eu tinha parado de andar.

— Um segundo. — falei.

E fui sem pensar.

Sem pedir permissão.

Só fui.

— James! — ouvi meu pai chamar atrás de mim.

Ignorei.

Cada passo em direção a ela fazia meu coração bater mais forte.

Até que parei na frente dela.

Ela não levantou o olhar de imediato.

Mas eu sabia.

Ela sabia que era eu.

— Kler. — chamei.

Baixo.

Mas direto.

Ela parou o que estava fazendo.

Respirou fundo.

E então levantou o olhar.

Fria.

Controlada.

Profissional.

— Senhor James. — respondeu.

Aquilo me irritou.

— Para com isso.

Ela deu um passo pra trás.

— Está precisando de alguma coisa?

Distante.

Como se estivesse me afastando de propósito.

Olhei ao redor.

As pessoas ainda estavam longe.

Mas não o suficiente.

— Preciso falar com você.

— Não agora. — respondeu na mesma hora.

Firme.

Sem hesitar.

— Agora. — insisti.

Ela travou por um segundo.

E então…

— Não faça isso aqui. — sussurrou.

— Só um minuto.

Ela me encarou.

E eu vi.

O conflito.

O medo.

Mas também o mesmo sentimento que estava em mim.

Ela respirou fundo.

— Rápido. — disse por fim.

— Eu falei com meu pai.

Ela travou.

— E?

Dei um passo mais perto.

— Eu disse que não vou me casar com ela.

— James… — ela começou, mas parou.

— Eu escolhi. — continuei — Eu escolhi você.

Os olhos dela tremeram levemente.

Mas ela não sorriu.

— Você não pode falar isso aqui… — disse baixo — Não assim.

— Eu posso. — respondi — E eu estou falando, hoje a noite vou até a sua casa falar com seu pai, pedir sua mão e dizer que a amo.

Ela passou a mão pelo rosto, nervosa

— Eles estão aqui… a família dela… seus pais… isso pode acabar muito mal.

— Já começou a acabar. — falei.

Ela me olhou.

De verdade agora.

— O que você quer que eu faça? — perguntou.

A pergunta me pegou.

Porque dessa vez não era sobre o que eu queria. Era sobre nós dois.

Dei mais um passo.

— Fica do meu lado.

Ela engoliu seco.

— Você está pedindo pra eu enfrentar tudo isso com você…

— Estou.

Silêncio.

O vento passou entre a gente.

E por um segundo parecia que o mundo inteiro estava esperando a resposta dela.

— James… — ela disse, quase num sussurro — eu estou com medo.

Aquilo me atingiu.

Mas não me fez recuar.

— Então eu protejo você.

Ela soltou um riso fraco.

Sem humor.

— Você não consegue proteger nem a si mesmo ainda.

Verdade.

Doeu.

Mas eu segurei.

— Então aprende comigo.

Ela me encarou.

E então…

— Eles estão olhando. — disse de repente.

Virei o rosto e vi meu pai, minha mãe, senhor e senhora Maisel e Madison, todos observando e naquele momento resolvi ser ousado.

Como ato de rebeldia dei um beijo longo na testa de Kler, um ato de carinho educado, mas que não deixava dúvidas que ela era minha. Tomei coragem segurei a mão dela e a puxei comigo caminhando em direção a todos. Kler parecia desnorteada e parecia não querer tirar os pés do chão, mas eu fui firme.

Chegando perto de todos pude ver o olhar de espanto e indignação de todos.

— Senhores, creio que não apresentei minha futura noiva adequadamente ontem, sinto muito por isso. Essa é a Kler. — disse com um sorriso no rosto, pronto pra qualquer coisa.

Kler parecia querer se esconder a qualquer custo, queria sumir evidentemente.

— James o que é isso? — meu pai perguntou com o rosto tão vermelho quanto um tomate, parecia que iria ter um ataque.

— Papai, o que está acontecendo aqui? — disse Madison com uma voz de menina mimada e se dirigindo ao pai dela como se pedisse pra ele comprar algo numa loja.

— Eduardo, achei que seu filho fosse solteiro. — disse o senho Maisel olhando para o meu pai indignado.

— E logo com ela, essa empregada de quinta, olha pra ela, mamãe! — Madison disse encarando Kler de cima abaixo.

— Não respondo por mim se você ofender a minha noiva mais uma vez, vocês são convidados aqui na fazenda, mas não vou admitir que falem assim com ela.

— Eu preciso ir. — disse Kler baixinho querendo fugir dali.

— Claro, meu amor! — continuei sorrindo e beijei a mão dela. — Mãe, pode acompanhar a Kler, por favor? — olhei suplicante para minha mãe, eu precisava dela como aliada.

— Claro, meu filho. Vamos, Kler! — disse minha mãe a puxando para a casa grande, não antes de me lançar um olhar para mim que dizia "espero que saiba o que está fazendo".

O silêncio que ficou depois que elas saíram foi ensurdecedor.

Mas durou pouco.

— Você enlouqueceu. — meu pai disse, baixo… controlado demais.

Pior do que gritar.

Muito pior.

Mantive o sorriso no rosto por mais alguns segundos, até ter certeza de que Kler já estava longe o suficiente.

Então deixei cair.

E encarei ele.

— Não. — respondi — Eu só não vou fazer esse teatro.

— Isso é uma humilhação. — o senhor Maisel disse, ajeitando o paletó — Viemos aqui para tratar de negócios sérios e somos recebidos com… isso?

— Com a verdade. — retruquei.

— Com falta de respeito! — ele rebateu.

— Não estou entendendo qual a relação se sou solteiro ou não com os negócios. Não vamos ser família da minha parte, mas podemos falar de negócios ainda. — disse de maneira mais cordial possível.

Madison deu um passo à frente, visivelmente irritada.

— Você acha mesmo que pode fazer isso comigo? — ela disse — Me expor assim?

Olhei pra ela, sem paciência.

— Eu não te devo nada.

Aquilo a atingiu em cheio.

— Meu pai e o seu estavam negociando um acordo! — ela insistiu.

— Meu pai. — corrigi — Não eu. De qualquer forma peço desculpa pela confusão e pelo mal entendido.

O clima ficou ainda mais pesado.

— Eduardo… — o senhor Maisel voltou-se para meu pai — isso precisa ser resolvido agora.

Meu pai não respondeu de imediato.

Ele só me encarava.

E naquele olhar tinha tudo.

Raiva.

Decepção.

— Vai ser. — ele disse por fim, sem tirar os olhos de mim — Com licença.

Ele fez um gesto seco com a cabeça, indicando para que eu o seguisse.

— Agora.

Olhei uma última vez para o restante.

Madison estava furiosa.

A mãe dela, chocada.

O senhor Maisel calculando.

E então segui meu pai até em casa e entramos no escritório.

A porta se fechou com força atrás de mim.

— O que você acha que está fazendo?! — ele explodiu, finalmente.

— Assumindo a minha vida. — respondi no mesmo tom.

— Isso não é a sua vida! — ele rebateu — Isso é um capricho!

— Não é.

— É uma empregada, James! — ele disparou — Uma garota sem nome, sem posição, sem...

— Chega. — cortei.

O silêncio caiu pesado.

— Não fala dela assim.

Ele riu.

Sem humor.

— Você vai jogar tudo fora por causa disso?

— Não é “isso”. — respondi firme — É ela.

— Você não sabe nada sobre o mundo! — ele continuou — Não sabe o que está em jogo!

— Então me explica. — desafiei — Porque até agora o senhor só decidiu por mim.

Aquilo o fez travar por um segundo.

Mas logo voltou.

— Dívidas. — disse, direto — É isso que está em jogo.

Aquilo me fez franzir a testa.

— Dívidas grandes. — continuou — Muito maiores do que você imagina.

Senti o chão balançar levemente.

— O acordo com os Maisel… — ele seguiu — não era só casamento. Era sobrevivência.

Silêncio.

— E você acabou de destruir isso.

Respirei fundo.

Processando.

— Então vende a fazenda. — repeti.

— Não é tão simples! — ele rebateu — Essa terra é tudo o que temos!

— Então por que esconder isso de mim?

Ele não respondeu.

E ali…

eu entendi.

— O senhor não confiava em mim. — falei.

— Eu estava tentando te proteger. — disse, mais baixo agora.

— Não. — balancei a cabeça — Estava tentando me controlar e me usar como moeda de troca.

Silêncio.

— E agora? — perguntei — Vai fazer o quê?

Ele me encarou.

E a resposta veio fria.

— Você vai consertar isso. Somos uma família!

— Não vou.

— Vai sim. — ele disse, firme — Vai voltar lá fora, pedir desculpas e esquecer essa… ideia ridícula.

Senti a raiva subir.

— Eu não vou pedir desculpa por amar alguém.

— Amor não paga dívida! — ele gritou.

— Mas também não vou vender minha vida por dinheiro!

Os dois em silêncio agora.

Respirações pesadas.

— Se você continuar com isso… — ele disse, mais baixo — você não é mais meu filho.

Aquilo bateu.

Forte.

Mas eu não recuei.

— Então talvez o senhor nunca tenha sido meu pai de verdade.

As palavras saíram antes que eu pudesse pensar.

Ele ficou imóvel.

Como se eu tivesse atravessado algo que não podia.

— Sai. — disse por fim.

Frio.

— Sai da minha casa.

Segurei o olhar dele por mais um segundo.

E então virei.

E saí.

Do lado de fora o ar parecia mais pesado.

Mas também mais… livre.

Passei a mão pelos cabelos, respirando fundo.

Mas uma coisa ainda faltava.

Kler.

Porque não adiantava eu ter escolhido se aquilo destruísse ela.

Caminhei rápido até a sala.

E assim que entrei ouvi vozes.

Minha mãe e Kler.

— Você precisa ir embora daqui. — minha mãe dizia, séria — Agora.

Meu coração disparou.

Parei antes de ser visto.

— Ele está enfrentando o pai por sua causa. — minha mãe continuou — E isso vai cair em você.

Silêncio.

— Eu não quero que ele perca tudo por minha causa. — a voz de Kler veio baixa.

Aquilo apertou meu peito.

— Então não deixa isso acontecer. — minha mãe respondeu — Porque o pai dele não vai parar.

Mais silêncio.

E naquele momento eu percebi.

A luta não era só contra meu pai.

Era contra o medo dela também.

— Eu também não vou parar. — disse já entrando.

Kler olhou para mim surpresa, mas parecia feliz em me ver.

Havia algo de sagrado naquele instante, como se o tempo, por um capricho raro, tivesse decidido se curvar à vontade de dois corações que finalmente ousavam se reconhecer.

Kler me olhou como quem desperta de um sonho inesperado. Os olhos ainda carregavam o susto, mas havia ali também um brilho novo, quente, o tipo de luz que nasce quando alguém percebe que não está mais sozinho.

— Mãe… — chamei, sem tirar os olhos dela — te pedi ajuda para acompanhá-la, não para afastar minha noiva de mim.

O tom leve disfarçava mal a firmeza por trás das palavras.

Minha mãe parou.

Por um breve segundo, o mundo inteiro pareceu suspenso naquele gesto simples, ela parada entre nós dois, como uma fronteira viva entre o que éramos e o que estávamos prestes a nos tornar.

Os olhos dela foram de mim para Kler.

Lentos.

Atentos.

Kler permaneceu imóvel ao meu lado, como se ainda não acreditasse que podia ocupar aquele lugar. Segurei a mão dela e seus dedos estavam tensos entre os meus, frios… mas não recuaram.

E isso bastou.

Minha mãe respirou fundo.

Havia mil coisas naquele suspiro: medo, dúvida, memória… e algo mais profundo. Algo que talvez só uma mulher que já amou de verdade poderia reconhecer.

— Eu não estou afugentando ninguém… — disse por fim, com a voz mais baixa, porém carregada de intenção — só estava tentando evitar que você piorasse ainda mais a situação.

— Já passei da fase de evitar. — respondi, dando um pequeno passo à frente.

O olhar dela endureceu por um instante… mas não de raiva.

Era respeito.

Relutante.

Mas real.

Ela voltou a olhar para Kler, dessa vez com menos julgamento.

Como se, pela primeira vez, a enxergasse não como “a filha dos empregados”… mas como alguém que tinha conseguido algo que nem mesmo ela, com toda a sua experiência, poderia controlar:

Meu coração.

— Você tem noção do que está fazendo? — ela perguntou, não para mim… mas para Kler.

Kler engoliu seco. Senti o leve tremor nos dedos dela, mas então… ela respirou fundo.

E não soltou minha mão.

— Tenho. — respondeu, com uma coragem que me fez querer sorrir ali mesmo — E mesmo assim… eu fico.

Simples.

Direto.

Minha mãe sustentou o olhar por mais alguns segundos… e então, muito devagar, assentiu.

O vento atravessava a janela da sala com uma força estranha, fazendo as cortinas tremerem como se soubessem que algo havia mudado, não apenas naquela casa, mas em tudo o que vinha depois dela.

Eu ainda sentia o peso das palavras do meu pai nos ombros.

Expulso.

A palavra ecoava dentro de mim com uma frieza quase irreal. Como se não fosse sobre mim. Como se fosse sobre outro homem…

Mas não era.

Era sobre mim.

E eu não queria voltar atrás.

— Ele me expulsou. — disse, finalmente.

Minha voz saiu firme. Mais firme do que eu esperava.

Minha mãe fechou os olhos por um breve instante como se, no fundo, ela já soubesse que aquele dia chegaria.

— Eu imaginei que isso aconteceria… — murmurou, quase para si mesma.

Kler ao meu lado ficou em silêncio.

Mas eu senti.

O aperto leve dos dedos dela nos meus.

Minha mãe abriu os olhos e nos encarou.

Diferente agora.

Não como alguém que tenta impedir.

Mas como alguém que mede forças com a realidade.

— E o que você pretende fazer, James? — perguntou.

Era uma pergunta simples.

Mas carregava o peso de um mundo inteiro.

Respirei fundo.

Olhei para Kler.

E então respondi:

— Viver.

— Viver não é um plano. — ela disse, cruzando os braços — É uma intenção.

— Eu tenho um plano também. — retruquei, agora mais direto — Eu tenho dinheiro guardado. Anos trabalhando, negociando… eu não fui só um filho obediente.

Ela arqueou levemente a sobrancelha.

Interessada.

— Quanto?

— O suficiente pra começar. Tenho alguns amigos na capital que posso recorrer — respondi — Não é luxo… mas é liberdade e vamos ficar bem.

A palavra pairou no ar como uma promessa.

Liberdade.

Vi Kler baixar o olhar por um instante.

E ali… pela primeira vez… não era só medo.

Ela respirou fundo antes de falar.

— E depois? — a voz dela saiu mais baixa, mas firme — A gente vai pra onde? Faz o quê? Vive de quê?

Não era dúvida sobre mim.

Era sobre o mundo.

Sobre o que existia além dos muros daquela fazenda.

E ela tinha razão em perguntar.

Dei um passo mais perto dela.

— A gente dá um jeito. — disse, com calma — Eu posso trabalhar em qualquer lugar. Campo, cidade… não importa. E você… pode estudar, Kler...

Parei por um segundo.

Não por falta de resposta.

Mas porque queria dizer aquilo direito.

— Você nunca foi feita pra viver escondida em cozinha nenhuma, Kler. Eu vou cuidar de você.

Ela me olhou.

E acertou em cheio.

Porque não era só sobre amor.

Era sobre quem ela podia ser.

Minha mãe observava em silêncio.

Atenta.

Calculando cada palavra, cada gesto… como se estivesse vendo um jogo sendo jogado pela primeira vez sem poder interferir.

— Vocês estão falando como se o mundo fosse simples. — ela disse por fim — Não é.

— A gente sabe. — respondi.

— Não, vocês sentem. — ela corrigiu — Saber… vem depois que dói.

Silêncio.

Honesto.

Mas eu não recuei.

— Então a gente aprende. — falei — Mas aprende junto.

Kler apertou minha mão de novo.

Dessa vez mais forte.

Mas havia algo novo ali também.

Coragem.

Misturada com medo.

— Eu tenho medo… — ela admitiu, quase num sussurro.

Olhei pra ela.

— Eu também.

Ela não desviou.

— Mas eu prefiro sentir medo com você… — ela continuou, respirando fundo — do que viver segura… sem você.

Minha mãe soltou um longo suspiro.

E então, ela sorriu.

Não um sorriso leve.

Mas um daqueles raros.

Que nascem quando alguém reconhece algo inevitável.

— Então vocês são mais corajosos do que eu pensei. — disse.

Trocamos um olhar rápido.

Sem entender exatamente o que vinha a seguir.

E foi aí que ela disse:

— Se vão sair… não vão sair como fugitivos. E James, tenho um apartamento simples na cidade, ele é meu e vocês podem ficar lá por quanto tempo quiserem. Mas vocês só vão embora depois do noivado. Como seu pai te expulsou teremos que ser rápidos. Vamos fazer uma festa no sábado.

Silêncio.

Kler piscou, confusa.

— Uma… festa?

— Um noivado grande, e querido vamos chamar o máximo de pessoas possível. — minha mãe corrigiu — Hoje à noite.

Aquilo me pegou desprevenido.

— Mãe… ninguém vai vir é em cima da hora, hoje já é quarta-feira.

— Os velhos fazendeiros nunca tem nada para fazer mesmo e seu pai pode ter te expulsado… — ela continuou, firme — mas você ainda é meu filho. E eu não vou deixar você sair daqui desse jeito.

O coração bateu mais forte.

— Você quer oficializar isso? — perguntei.

— Quero que o mundo veja. — ela respondeu — Quero que você crie conexões, sem seu pai você estará sozinho, amigos são tudo nos negócios. É seu noivado, mas também uma festa de negócios. Quanto aos Maisel, James, tente ser maleável com eles, o senhor Maisel não precisa te amar, mas tente desfazer o ódio dele, eu também vou fazer o que eu puder, isso vai facilitar sua vida. — ela falava enquanto andava apressada de um lado pro outro.

Olhei para Kler.

Ela estava imóvel.

Os olhos marejados… mas brilhando.

Entre o sonho e o medo.

— Isso é loucura… — ela sussurrou.

— É. — concordei.

E então sorri.

— Mas é a nossa.

Ela soltou uma pequena risada.

Fraca.

Mas verdadeira.

— E depois da festa? — perguntou, ainda insegura.

Segurei o rosto dela com cuidado.

— Depois… a gente vai embora.

— Como já disse podem ir para o meu apartamento, James. Não vão ficar sem teto. Tenho umas economias também para te ajudar. — minha mãe continuava falando apressada como se estivesse com um urgência. — Temos muito o que fazer. — disse, já virando em direção à casa — Se é pra desafiar o mundo… pelo menos façam isso bem vestidos.

— Mas como vamos fazer isso? O senhor Marshal expulsou o James. Como vamos fazer uma festa de noivado aqui? — Kler perguntou preocupada.

— Não se preocupe, querida. Eu darei um jeito, ele não saberá que é um noivado até a festa, isso fica entre a gente. — minha mãe disse dando uma piscadela.

E saiu.

Como uma general que acabara de declarar guerra.

Fiquei ali por um instante.

Com Kler diante de mim.

O mundo inteiro prestes a desabar…

E, ainda assim…

Nunca pareceu tão certo.

— Você ainda pode desistir. — falei, baixo.

Ela negou na mesma hora.

— Agora? — um leve sorriso surgiu — Agora já é tarde demais.

Aproximei minha testa da dela.

— Ainda bem.

E naquele momento…

Entre o medo do futuro e a coragem do presente…

Nós dois demos um grande passo.