Pov Kler

Quando acordei hoje não imaginei que começaria a planejar minha festa de noivado, não imaginava que o James iria tão longe e do jeito que foi, eu nem avisei meus pais, nem a ninguém.

— Vamos falar com seus pais agora? — James disse me tirando do devaneio.

— Tenho que te contar uma coisa. — disse pensativa.

Com tanta coisa acontecendo me esqueci que sábado supostamente era para ser a oficialização forçada do meu não compromisso com o Rafael.

— Você sabe que meus pais querem me casar com o Rafael. No sábado eles planejam fazer um jantar lá em casa com a família do Rafael, na tentativa de oficializar algo entre a gente. Não sei se é uma boa contar para eles sobre o noivado agora, temos 3 dias ainda pra organizar tudo. — falei preocupada, eu sabia que nem meu pai nem minha mãe iria aceitar que eu fosse embora com ele.

— Acha que eles vão tentar impedir a gente? — ele perguntou pensativo.

— Tenho certeza. Meu pai não vai admitir que eu saia daqui assim, e ele já prometeu a minha mão para o Rafael, ele não vai querer voltar atrás.

Paramos um momento nos entreolhando, pensando em uma solução para aquilo tudo.

— Vamos fazer uma surpresa para eles, então. Deixe eles organizarem esse jantar. Vamos agir como se nada tivesse acontecido até lá. — James falou calculando tudo.

— E se alguém tiver ouvido a gente aqui e no campo? — eu sabia que alguém poderia ter ouvido.

— Acho que o maior problema são os Maisel. Vou pedir a minha mãe para falar com sua mãe e tentar manter vocês duas longe deles por enquanto, vamos dar um jeito.

James estava decidido e firme em tudo que ele falava.

— Onde você vai ficar até sábado? — perguntei preocupada.

— Tem o Rodrigo na fazenda aqui do lado, somos amigos, vou pedir para ficar até sábado se as coisas não se acalmarem. Vou arrumar minha mala agora.

— Eu te ajudo com as malas. — eu queria ficar perto dele, queria cuidar dele e garantir que ele estaria bem.

— Não precisa, assim que puder arrume suas coisas também, deixa uma mala pronta só com essencial. Deixa meu pai achar que estou só esfriando a cabeça, eu volto para te ver até sábado, mas sem ninguém saber. Quero que ele pense que estamos distantes e não quero dar chance para ninguém estragar nada. Tudo bem? — ele disse me olhando fixamente.

— Acha que seu pai vai acreditar que você está só esfriando a cabeça?

— Vai se minha mãe falar com ele. Não se preocupe, vamos ficar juntos, eu prometo. — ele disse e beijou minha testa carinhosamente.

— Eu confio em você, James. — falei e dei um pequeno beijo nos lábios dele.

Saí da sala e me dirigi até a área de serviço, encontrei minha mãe lá lavando roupa.

— Kler, onde você estava? Te procurei faz tempo e não te achei. — ela disse brava.

— Desculpa, mãe. Acabei me enrolando no curral. — disse já me direcionando para ajudá-la.

— Engraçado te procurei lá e não achei...

— Ah é que me chamaram para ajudar em algumas coisas na sala. — tentei inventar qualquer coisa rápido.

Ela apenas me olhou e ficou calada enquanto lavava a roupa.

— Encomendei um vestido lindo para você com dona Eumira da fazenda aqui do lado. Deve ficar pronto amanhã. Você tem que estar linda sábado. — ela disse sorridente.

— E qual vai ser a programação? Vão me amarrar ao Rafael antes ou depois do jantar? — perguntei sarcástica.

— Kler, minha filha, a gente só quer o seu bem, o Rafael é um homem trabalhador, é de família boa. Eles já tem até um puxadinho na casa deles, perfeito para vocês dois, quando se casarem. É mais do que eu e seu pai tínhamos quando nos casamos.

Ela falava orgulhosa e animada como se desejasse aquela vida para ela.

— E muito menos do que eu quero para mim. — pensei em voz alta.

— Querer não é poder, Kler! No futuro você vai entender isso e vai me agradecer.- ela disse em um tom maternal.

Fiquei em silêncio.

O resto do dia passou devagar e arrastado. Minha mãe fez o almoço com a Joana, e dona Clarice pediu especificamente que Joana e Francisca, empregadas da fazenda, servirem o almoço.

Não vi mais a família Maisel naquele dia e a minha mãe também não. A tarde me dediquei aos afazeres da casa, limpei alguns quartos e evitei ao máximo as áreas comuns do casarão, não queria esbarrar com ninguém.

A tarde tomei café em casa com a minha mãe, ela seguia tentando me tratar o melhor possível para me persuadir a me casar com o Rafael.

— Achei muito estranho esse pedido da dona Clarice no almoço de pedir para apenas a Francisca e a Joana servirem no salão, ela nunca fez tanta questão de impor quem iria fazer o que. — minha mãe comentou comigo no fim da tarde intrigada.

— Eu acho que ela tá preocupada com a impressão das visitas, só isso. — tentei persuadi-la.

— Pode ser... — ela pareceu acreditar.

— A senhora vai dormir no casarão hoje? — perguntei como quem não quer nada.

— Hoje é seu dia e da Joana, não é? Não quer ficar lá hoje?

Como tinha visita na fazenda, nos reversávamos de dois em dois para dormir no casarão, como tem dois quartos de empregados lá, meu pai dormia com a minha mãe lá nesses dias.

— Vou ficar sim.

— Bom que eu e seu pai dormimos em casa hoje. Os Maisel vão embora só no domingo. Que visita longa, estou achando que sábado vai ter festa.

— Festa? Alguém falou algo? — fiquei preocupada dela saber antes do momento.

— Não, mas é meio óbvio, né? Os Maisel aqui com certeza vão oficializar a união do James com a filha deles.

— É, tem razão. — segui tomando meu café e comendo o bolo de fubá que minha mãe tinha feito.

— Hoje ainda temos que preparar um belo jantar.

— No sábado os Maisel ainda vão estar aqui, como vamos fazer o Jantar aqui em casa? — perguntei querendo pelo mens acabar com esse jantar.

— Eu vou falar com a dona Clarice, iremos adiantar tudo antes, quando tem festa grande sempre vem mais pessoas para ajudar... — minha mão interrompida com batidas na porta. — Tá esperando alguém?

Minha mãe perguntou enquanto se levantava e ia até a porta.

— Não, não.

Ao abrir a porta da sala minha mãe se surpreende ao ver dona Clarice em pé na porta, bem arrumada, cabelos em um coque perfeito e um vestido rosa claro levemente marcado na cintura, as linhas de expressão em seu rosto não apagavam a beleza dela, principalmente por seus olhos de um azul intenso e cabelos ruivos quase castanhos.

— Dona Clarice, aconteceu algo? — disse minha mãe surpresa.

— Não, não, Mary! Vim pedir um favor. Posso entrar? — disse enquanto minha mãe abria caminho para ela entrar em nossa humilde casa.

Antes de começar ela me olhou rapidamente, como quem diz não diga nada.

— Bom, Mary. Sábado teremos uma ocasião muito importante aqui na fazenda. Como vocês já sabem os Maisel estão aqui, e claro o Eduardo quer unir as nossas famílias. — ela deu uma pausa e continuou. — Eu estou com receio da Madison não ter um vestido a altura da ocasião e precisão que vocês vão ao povoado para trazer um vestido para ela.

Dona Clarice era muito inteligente, o povoado ficava a horas de carroça da fazenda levaríamos meio dia pra chegar e ficaríamos tempo o suficiente fora e longe do senhor Marshal.

— Eu mesma iria, mas como o povoado é longe e preciso fazer sala para as visitas, pensei em vocês. A Kler parece ter um corpo com medidas bem parecidas com a da Madison, então poderia servir de modelo para minha modista fazer o vestido.

Ela falava enquanto me olhava quase teatralmente como se olhasse minhas medidas.

— Ah claro, senhora! Não estávamos esperando, mas podemos ir sim, quer que a gente vá quando?

Minha mãe parecia surpresa.

— Vocês podem ir hoje? O Augusto pode ir com vocês duas de carroça. Minha amiga Mariza é uma excelente modista e com meu recado em um dia o vestido fica pronto, vocês domem lá mesmo e sexta estarão de volta. O que acham?

— Sim, senhora! Alguma orientação sobre o vestido? — minha mãe perguntou.

— Só que ele caia perfeitamente na Kler. Tenho bom olho e se ficar perfeito nela irá ficar perfeito na Madison também.

Dona Clarice me olhou como quem diz: "é bom ficar bonita".

— Além disso, confio no bom gosto da Mariza. Levem esse bilhete para ela, por favor. — disse já me entregando um pequeno papel

Após isso concordamos e fomos direto fazer as malas pra viajar, minha mãe fez a mala dela e do meu pai.

Após alguns minutos meu pai chegou em casa dizendo que falaram com ele que éramos para ir até a cidade.

Meu pai entrou pela porta ainda tirando o chapéu, com o cenho franzido de quem foi chamado às pressas para algo que não entende.

— Disseram lá no curral que temos que ir ao povoado hoje mesmo. O que está acontecendo?

Minha mãe foi rápida em responder, como sempre era quando via uma oportunidade de agradar aos patrões.

— É um pedido da dona Clarice. Precisam de um vestido para a moça chique… algo importante pro sábado.

Meu pai assentiu devagar, mas os olhos dele passaram por mim com atenção demais.

A carroça partiu antes do sol descer por completo. O rangido das rodas no chão de terra batida parecia mais alto do que o normal, ou talvez fosse só o peso do que eu carregava dentro do peito.

Eu não estava indo apenas buscar um vestido.

Eu estava sendo retirada do tabuleiro.

E pela primeira vez, não era meu pai quem fazia o movimento.

O caminho até o povoado era longo, cercado por campos que eu conhecia desde criança, mas que naquela noite pareciam diferentes, como se eu estivesse me despedindo sem ter dito adeus.

Minha mãe falava sobre tecidos, cortes, sobre como aquele vestido precisava impressionar. Meu pai dirigia em silêncio. E eu… eu só pensava no James.

Se tudo desse certo, aquele seria o último caminho que eu faria como filha obediente.

Chegamos já com o céu tingido de azul claro, com o sol já aparente no inicio da manhã. O povoado era simples, mas vivo. O inicio da manhã acompanhava algumas pessoas se movimentando pela rua. Era estranho como aquele lugar parecia tão vivo comparado à fazenda.

O atelier da Mariza ficava no fim de uma rua estreita, com janelas grandes e tecidos pendurados como bandeiras coloridas.

Ela nos recebeu com um sorriso curioso, como quem já esperava nossa chegada.

— Olá! No que posso ajudar? — disse, me olhando dos pés à cabeça com um olhar técnico, quase artístico.

— Dona Clarice nos enviou aqui. — minha mãe disse já entregando o bilhete que dona Clarice nos deu.

Mariza leu curiosa e me olhou de cima a baixo.

Minha mãe pareceu orgulhosa. Eu, desconfortável.

— Preciso que fique perfeita — minha mãe disse. — O vestido.

— Vai ficar — Mariza respondeu com segurança. — Mas não é só o vestido que precisa servir, não é?

Ela me olhou de um jeito diferente dessa vez. Como se enxergasse além do que estava sendo dito.

Não respondi.

Mas senti.

As medidas começaram. Fita passando pela minha cintura, pelos ombros, pelos braços… tudo muito rápido, muito preciso.

Mais tarde, já instalados no pequeno quarto que nos foi oferecido, minha mãe dormiu rápido, cansada da viagem. Meu pai demorou mais, mas o silêncio acabou vencendo ele também.

Eu não consegui.

Fiquei olhando para o teto, sentindo o mundo girar mais rápido do que eu conseguia acompanhar.

Decidi levantar e ir até o atelier e olhar como Mariza trabalhava.

— Não quis descansar? — disse ela sentada na máquina de costura sem me olhar.

— É, não consegui dormir agora, talvez de noite.

Olhei o atelier curiosa, vi alguns manequins com vestidos lindos e pomposos, vários retalhos em uma mesa grande.

— E o noivado? Ansiosa? — ela perguntou me olhando por cima dos óculos.

— É... vai ser um grande evento para os Marshal... — disse tentando disfarçar.

— E para você também não é? — ela me deu uma piscadela como quem confidencia um segredo.

Ela seguiu costurando e analisando o vestido. Parecia em transe enquanto apertava, bordava e enfeitava o vestido.

Sai um pouco do atelier para andar na cidade, queria conhecer mais o lugar.

Passei em frente a uma padaria que tinha um cheiro delicioso de pão e café fresquinho, com vários doces que pareciam deliciosos na vitrine, também passei por uma livraria abarrotada de livros e entrei para ler um pouco.

Por mais caótico que fosse o lugar, era desconfortavelmente confortável.

Voltando para o atelier distraída e acabei trombando em alguém.

— Desculpe, senhorita!

Era ele.

Paralisei.

— James? O que faz aqui?


Pov James


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.