Kler, a garota que encontrou mais que a liberdade
5 Cruzamos a linha
Pov James
O silêncio entre nós não era desconfortável…
Olhei de relance para Kler. O vento brincava com o cabelo dela, e por um instante, tudo pareceu calmo demais… como se o mundo lá fora não estivesse desmoronando.
Mas estava.
—Kler… —chamei, quase sem perceber.
Ela virou o rosto devagar, me olhando com aqueles olhos que sempre pareciam enxergar mais do que eu dizia.
—Você já pensou em fugir?
Assim que as palavras saíram da minha boca, senti meu próprio coração acelerar. Aquilo não era só uma pergunta… era um desejo.
Ela franziu levemente a testa, surpresa.
—Fugir?
—É… —dei um sorriso sem humor— ir pra um lugar onde ninguém diga com quem você deve casar… ou como deve viver.
Ela desviou o olhar para o horizonte novamente. O sol já estava quase desaparecendo, pintando o céu de laranja e dourado.
—Todos os dias.
A resposta dela veio baixa… mas carregada de verdade.
Aquilo me atingiu de um jeito que eu não esperava.
—E por que não foge? —perguntei.
Ela soltou uma leve risada, mas não havia alegria nela.
—Porque não é tão simples assim, James… A gente sempre deixa alguma coisa pra trás.
Engoli seco.
—E se… —hesitei por um momento, sentindo que estava prestes a cruzar uma linha sem volta— …você tivesse alguém pra ir junto?
Ela virou o rosto rapidamente pra mim.
Dessa vez, o silêncio foi diferente.
Mais intenso.
—Você está falando sério? —ela perguntou, quase num sussurro.
Senti meu peito apertar.
Era agora.
—Eu não sei mais o que é certo —admiti— Só sei que… a ideia de viver uma vida inteira sem escolher por mim mesmo… me sufoca.
Ela me encarou por alguns segundos. E então, pela primeira vez, vi algo diferente no olhar dela.
Não era só compreensão.
Era medo.
E… esperança.
—James… —ela começou, mas parou no meio da frase.
—O quê?
Ela abaixou o olhar, apertando levemente as próprias mãos.
—Se a gente fizer isso… não tem volta.
Meu coração bateu mais forte.
—Talvez seja exatamente disso que a gente precise.
O vento soprou mais forte naquele momento, como se o próprio mundo estivesse reagindo ao que estávamos dizendo.
Ela levantou os olhos novamente… e dessa vez não desviou.
—Então por que parece que você ainda está preso?
A pergunta dela me atingiu em cheio.
E ela estava certa.
Eu ainda estava.
Preso ao meu pai.
À responsabilidade.
Ao medo de perder tudo.
Suspirei, passando a mão pelos cabelos.
—Porque eu não sabia o que eu sentia por você...
Assim que falei, percebi.
Tinha ido longe demais, declarei o que nem tive tempo de saber que sentia, minha boca foi mais rápida do que o meu pensamento. Confessei que ela era o objeto do meu desejo, sem ao menos saber que ela era.
Mas já era tarde.
Kler ficou imóvel.
Os olhos dela se arregalaram levemente… e por um segundo, pensei ter visto seu coração se abrir — e se fechar ao mesmo tempo.
—Entendi… —ela disse, em um tom baixo demais.
E aquilo doeu mais do que qualquer outra coisa. Ela voltou a admirar o o fim do pôr do sol, eu sabia que para ela aquele momento era arte, e mais que isso, era refugio.
Após horas ou talvez minutos, não sei ao certo, ela olhou para mim com gratidão nos olhos.
— Obrigada, James! Por um minuto você me permitiu sair daqui e ir pra outro lugar. — ela disse pesarosa mas sorrindo.
— Eu falei sério antes. — falei olhando nos olhos dela, implorando para que ela tomasse essa decisão por mim, quase suplicante.
— Eu sei que sim, mas nós dois sabemos que você não vai fazer isso e que eu não vou fazer isso. — ela parou um minuto e olhou para as próprias mão como se procurasse ali o que dizer para mim. — Não somos mais crianças, James.
Nesse momento me levantei e estendi a mão para ajudá-la a levantar também. A noite já havia chegado e precisávamos ir cada um pra sua casa.
— Vou te acompanhar até sua casa. — disse enquanto a puxava pra ir embora.
— Não precisa, eu vou sozinha, meus pais não iam gostar de ver a gente junto. — ela disse enquanto soltava a minha mão e seguia adiante.
Fiquei parado por alguns minutos enquanto a olhava ir embora.
Pov Kler
Enquanto caminhava pra minha casa, um filme passava pela minha cabeça, lembrei de quando eu e o James éramos crianças, de como o mundo era um pouco mais leve, como brincar com ele deixava o dia mais colorido, e hoje mais de dez anos depois não é diferente.
Ouvir ele me propor a fugir, foi no mínimo, como se o mundo parasse de girar, não senti minhas pernas por um ou dois minutos, senti minha respiração travar e meu coração acelerar, e minha pele formigar. Eu estava em puro êxtase. Mas não sou tola, o James muito embora se sinta como eu, ele tem muito mais a perder.
E eu jamais concordaria com uma ideia dessas sem saber que ele está cem por cento certo sobre isso. Afinal, por que ele abriria mão de tudo? Seriamos dois velhos amigos na estrada tentando a vida? Por mais tola que essa ideia seja, eu senti meu coração aquecer só de imaginar. Consigo imaginar uma vida com James, ainda que apenas como amigos, eu estaria feliz em ir pra longe com ele. Mas não posso deixar ele toma essa decisão apenas por um momento de impulso.
Chegando em casa pela primeira vez não ouvi questionamentos de onde eu estava e fazendo o que, minha mãe estava cozinhando meu prato favorito, um ensopado de carne com legumes e meu pai estava deitado na rede. Minha mãe sorriu para mim quando cheguei com um gentileza forçada.
— Kler, que bom que chegou! Estou fazendo sua comida favorita, minha filha. — ela disse enquanto enxugava as mãos em um pano de prato.
— Nossa, a que devo a honra? — perguntei desconfiada do que me aguardava.
— Não posso agradar minha única filha? — ela disse com um sorriso que claramente escondia algo.
Não contestei apenas fui tomar um longo banho e lavar os cabelos pra tentar me livrar de todos os pensamentos que vinham a minha cabeça envolvendo o James. Enquanto a água caia na minha cabeça me lembrei do olhar dele, da boca dele sugerindo que fugíssemos, da mão dele segurando a minha enquanto me levantava. Tudo aquilo fazia meu coração disparar, minha garganta secar e um calor subir do meu baixo ventre até as minhas bochechas. Mesmo com a água fria o calor não passava, era como fogo me consumindo, nunca senti isso antes, acredito não haver no mundo sensação mais desconfortável e angustiante.
Sai do banheiro e penteei meu cabelo e me sentei a mesa para jantar com meus pais.
— Pegue bastante ensopado, Kler! Fiz especialmente pra você. — disse minha mãe colocando uma concha generosa de carne e batata no meu prato.
— Parece delicioso, querida! — disse meu pai tentando puxar assunto.
Comi em silêncio e durante o jantar senti meu pai e minha mãe se entre olharem e se cutucarem por debaixo da mesa.
— Sabe, Kler... Eu e o seu pai conversamos e estamos pensando em fazer um jantar aqui em casa no sábado. — disse minha mãe firme mas lutando para ser gentil.
— Sim... Um jantar com o Rafael e a família dele, sabe? Pra nos conhecermos melhor, estreitar os laços. — disse meu pai tentando ser convincente.
— Não entendi, conhecemos muito bem os pais dele. O senhor Gabriel e a Senhora Beatriz sempre vieram aqui, por que essa formalidade agora?
Eu sabia que estavam tentando formalizar algo que sequer existia, mas eu queria ouvir eles tentarem se explicar desconfortavelmente.
— Você sabe... é que... o... você sabe... O Rafael quer formalizar um noivado, pedir a sua mão e depois de um tempo se conhecendo, no seu tempo é claro, se casar — meu disse gaguejando como nunca.
— Me desculpem, acho que não fui clara com vocês, mas eu não vou me casar com o Rafael, nem hoje, nem semana que vem nem daqui um ano. — disse me irritando profundamente. — E eu espero que vocês me respeitem minimamente quando digo isso.
Sai da mesa e fui para o meu quarto, mas pude ouvir minha mãe dizendo que eu iria mudar de ideia com o tempo e que iria ceder.
Dormi aquela noite angustiada e me sentindo violada.
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