Kill Me

5 Cap 5 - Predador


Lilith acordou sobressaltada com um estrondo vindo da janela, que se encontrava escancarada apesar de ela ter certeza que a havia deixado totalmente fechada quando foi dormir. A luz do sol invadiu o cômodo, e ela se apressou em bloqueá-la. Só então examinou o quarto, em busca do que causara o tão súbito ruído. Inicialmente, viu apenas uma figura escura encolhida sobre o chão e gemendo de dor baixinho. Não parecia um invasor perigoso. Teve que se aproximar e tocá-lo para reconhecê-lo.

Era Caleb, com uma grave queimadura solar na bochecha esquerda. Ele estava quase inconsciente devido a dor. Lilith deixaria para lhe dar uma bronca por ter fugido mais tarde. No momento precisava de cuidados, e rápido, pois corria risco de vida. Vampiros eram capazes de se regenerar em segundos de qualquer ferimento, exceto queimaduras causadas por luz do sol e punhaladas feitas por lâminas específicas. O menor ferimento podia matar. Felizmente havia uma cura caso fosse tratado imediatamente, e aquela marca em Caleb parecia ser bem recente. Lilith estava prevenida com um pote de unguento de beladona abençoado por uma Sacerdotisa para emergências como aquela. Espalhou uma quantidade generosa na ferida e deitou Caleb em sua cama, esperando ao lado dele até o remédio começar a fazer efeito.

Logo a dor for diminuindo. A queimadura cicatrizada visivelmente. Ele estava fora de perigo. Mas ainda estava metido em uma bela confusão. Ele olhou para Lilith, que o encarava com uma expressão séria e furiosa, sentada ao seu lado. Ela nem precisava falar. Seus olhos cor de carvão cobravam uma explicação o mais sincera possível. Não havia porque mentir.

– Eu fui ver Delilah. Achei que conseguiria voltar antes do amanhecer.

Lilith suspirou. Já não era a primeira vez. Caleb precisava entender uma coisa. Ele já não era mais humano e precisava esquecer sua humanidade.

– Você sabe o que eu, e a comunidade inteira, pensamos sobre isso. — Lilith começou, no seu tom severo de professora, enquanto Caleb apenas assentia melancolicamente. — Vampiros não amam. Simples assim. Você um dia vai perceber que isso serve apenas para te atrapalhar. Você tem coisas mais importantes nas quais focar. E, acima de tudo, você é agora um predador e não precisa de sentimentos.

Caleb se manteve em silêncio, mas agora lágrimas escorriam pelas suas bochechas. Talvez Lilith tenha sido dura demais. Ela baixou os olhos e segurou sua mão, tentando transmitir força.

– Com o tempo você irá aprender. Agora descanse, para o seu próprio bem. Se você conseguir se recuperar, hoje a noite será sua primeira caçada. — Ela acrescentou, tentando animá-lo em vão, e saiu do quarto, pois não queria vê-lo chorar assim como ele não queria ser visto.

Caleb se recostou no travesseiro e fechou os olhos. Estava tão exausto após sua mais nova desventura que dormiu quase imediatamente. Quanto acordou, já era início de noite. Não havia esquecido, mas o sono lhe fez bem. E da queimadura quase fatal, não sobrara praticamente nada. Após alguns minutos pensando na vida, sem vontade de sair da cama, ele conseguiu o ânimo de se levantar e ir procurar Lilith. Afinal, ele tinha um compromisso. Sua primeira caçada como o predador que ele era agora. Não devia ser legal?

Lilith estava sentada em um sofá desgastado no hall da mansão, imersa em um livro que lia a luz de uma vela. Mal notou quando Caleb surgiu do corredor e sentou-se ao lado dela. Ainda parecia abatido, embora o ferimento estivesse quase curado. Ela não medira as palavras ao repreendê-lo, e agora se perguntava, culpada, o quanto o havia magoado. Mas iria evitar tocar no assunto.

– Está melhor? — Ela perguntou em tom suave.

Por um segundo Caleb se perguntou em que sentido ela havia dito aquilo. Fisicamente ele estava perfeitamente bem, porém emocionalmente estava arrasado. Não exatamente devido ao que Lilith dissera, mas pela forma como aquilo o fizera refletir sobre sua situação, e terminou não apenas magoado, mas como um incubo em crise existencial. Soava ridículo. Resolveu dar uma resposta neutra, pois não queria preocupá-la.

– É, estou bem. Obrigado por cuidar de mim.

Lilith abriu um sorriso cansado porém sincero.

– Ok, desde que você não faça de novo.

– Não farei. — Ele não tinha mais certeza se estava dizendo a verdade. — Mas não está na hora da tal caçada? — Caleb perguntou, tentando parecer animado.

– É... Eu tinha esquecido. Vamos sair pelos fundos. Leve seu canivete. — Lilith respondeu, já se levantando.

Caleb hesitou apenas na hora H, quando teve que cravar as presas na pele macia de sua primeira vítima, mais um garoto azarado que Lilith havia seduzido. Tentou lembrar de que aquela era sua nova natureza, não havia nada de errado em ferir os humanos. Quando sentiu o sabor metálico do sangue, que preencheu todos os seus sentidos, não conseguiu pensar em nada. Mas depois de sair do torpor, sentiu um estranho peso na consciência, que lhe deu a força de vontade necessária para deixar o rapaz partir com vida e desmemoriado.

Lilith não aprovou aquilo de imediato. Ela não era do tipo que massacrava os frágeis mortais apenas por prazer, mas estava ensinando Caleb a não ter piedade. Deixou passar daquela vez e ambos voltaram para casa, saciados por mais um dia.