Kill Me

6 Cap 6 - Justiça de Sangue


Na noite de domingo, quando o sino da igreja tocou a terceira badalada, uma procissão de vultos negros encapuzados passaram enfileirados e silenciosos pelo largo portão da frente da mansão. Era noite de culto a Lilith. Como Cristo havia sido ressuscitado no domingo sagrado, às 3 da tarde, 3 da madrugada era tradicionalmente o horário em que os demônios se erguiam, e o momento perfeito para realizar aquela missa invertida, direcionada a deusa-demônio, a grande Lilith.

Lilith Delacour caminhava a frente dos outros, vestido uma manta vermelha para diferenciá-la. Ao seu lado, outras vestidas como ela, todas mulheres, lideravam o grupo exclusivo das Sacerdotisas. Lilith preferiria não estar entre elas, mas era sua obrigação, e a mãe a supervisionava atentamente para que ela cumprisse. As outras murmuravam preces silenciosas a entidade enquanto caminhavam em direção ao templo, mas Lilith se mantinha em silêncio, com a cabeça em outro lugar.

O tal santuário era uma capela esquecida em um cemitério antigo. Os vampiros o adaptaram de forma que deixasse de ser um terreno sagrado e pudesse recebê-los, simplesmente posicionando a cruz do altar de cabeça pra baixo, transformando um símbolo da religião católica em um demoníaco. Os súcubos se agruparam no interior da igrejinha, tão discretos e silenciosos que, no escuro absoluto que preenchia o lugar, pareciam apenas sombras a mais em meio ao breu. A Sacerdotisa-chefe acendeu uma vela de cera vermelha que emitia um brilho lânguido e sobrenatural, iluminando todo o local. Aquela era a vela de sangue, e representava a presença da entidade demoníaca entre eles, coisa que soava propositadamente intimidante.

Morella, que era a principal sacerdotisa e também a mãe de Lilith, começou a recitar cânticos em latim, interpretando o papel de um padre naquela missa macabra. Ela abriu uma gaiola que estava ao lado do altar e agarrou um bode que esperneava desesperado. Deitou-o sobre uma mesa madeira manchada e, sem hesitar, cravou uma adaga em seu coração. Depois passou a servir seu sangue em pequenas taças que distribuiu aos outros, antes de continuar a rezar. O sacrifício a Lilith estava feito, e assim o demônio ficaria satisfeito e continuaria a auxiliar seus filhos.

Mas aquela cerimônia estava incompleta, pois nem todos os vampiros da comunidade estavam ali presentes. Lilith parecia ter sido a única que notou sua ausência. Caleb não havia aprendido aquela lição e continuava rebelde, aparentemente. Ele sabia como eram punidos os que faltavam aos cultos. Lilith não estava envolvida nos rituais, na verdade, estava tentada a sair correndo dali para procura-lo. Sua mãe pareceu perceber e se aproximou dela com um sorriso cínico se formando nos lábios.

– Onde está aquele garoto, seu aprendiz?

– Eu estava me perguntando a mesma coisa... – Não havia porque esconder. A mãe dela podia ser cruel e mal intencionada, mas ainda assim iria ajuda-la, pois queria bem a ela... Certo?

– Ele deve continuar com aquela rebeldia idiota. Você é a responsável por ele. Deveria obriga-lo a vir. Ele não entende que isso fará mal a ele, a reputação da nossa comunidade...

Aquele sermão não estava ajudando em nada. Lilith suspirou. Não estava preocupada com a rebeldia dele, mas sim com a sua segurança. Ele estava arrasado, quase autodestrutivo. Lilith não tinha ideia de onde ele estava, do que podia estar acontecendo com ele. As possibilidades ruins eram infinitas.

Naquele exato momento, como se em resposta, a pequena entrada da capela se abriu e um vulto passou por ela, caminhando com passos pesados e tristes. Todos se viraram para olhar. Geralmente os atrasados sentiam-se envergonhados por ter de interromper o culto, e às vezes nem entravam, mas o incubo atravessou a igreja sem levantar os olhos, e sentou-se silenciosamente ao lado de Lilith.

Era Caleb. Ele não estava ferido, mas parecia péssimo. Tremia sem parar e seus olhos inchados revelavam que ele havia chorado muito. Parecia que ele havia sobrevivido a algum ataque. Lilith começou a questioná-lo ali mesmo, aos sussurros. Estava aliviada demais para lhe dar uma bronca por chegar atrasado à missa, um problema que parecia menor diante da situação. Mal notou que a mãe continuava ao seu lado, observando e ouvindo a conversa atentamente.

– Delilah... – Caleb tentou dizer entre soluços.

Lilith tinha a impressão de que ele não estava chorando tanto assim simplesmente porque estava magoado por não poder ver a namorada. Ela passou um braço em volta do seu corpo delgado, tentando incentivá-lo.

– O que aconteceu com ela? – Lilith perguntou após um breve silêncio. Em sua voz havia preocupação genuína.

– Ela... Morreu. Foi assassinada. Eu tinha ido até a casa dela para dizer adeus e... – Ele havia recomeçado a chorar. Estava inconsolável. Os olhos de Lilith também marejaram, ela não sabia que ainda era capaz daquilo. Tristeza, compaixão? Por uma humana? Não era simplesmente uma humana... Caleb respirou fundo e começou a descrever a cena.

– Foi horrível. Tanto sangue. Eu achei que estivesse acostumado. Algum monstro rasgou o pescoço dela e os pulsos também. Eu sei que foi um vampiro, dava para ver pelos ferimentos. Mas então por que não se alimentou do sangue? – Ele deu uma pausa. Ainda estava tentando processar a visão. – Será que foi... Um deles?

Lilith não teve tempo de responder. Ela o enlaçou em silêncio, tentando em vão consolá-lo, enquanto a mãe se levantava e transmitia a mensagem a todos em plenos pulmões, sem ninguém ter lhe pedido.

– Temos um assassino entre nós! – A sacerdotisa exclamou, fazendo com que todos os íncubos e súcubos estremecessem em seus assentos. Todos eles eram assassinos de certa forma, porém aquela era apenas sua natureza, e eles cumpriam as regras. Ou seja, matavam apenas para se alimentar. Nada os impedia fisicamente de massacrar os frágeis humanos, exceto as ordens das autoridades vampíricas. Quem saía dos eixos, era punido com algo pior que a morte.

– Vocês sabem muito bem porque não podemos simplesmente destruir esses humanos sonsos e reerguer a glória de Lilith. – Ela continuou, certificando-se de que todos os presentes a ouviriam. Os anjos ofanins estão sempre nos vigiando. Eles protegem os humanos a mando de Deus. Não queremos outra guerra com eles. Mal temos licença para nos alimentar. Pensei que todos soubessem que não se deve matar humanos por prazer. Mas hoje... – Ela fez um gesto teatral em direção a Caleb, que continuava a chorar como um garotinho encolhido debaixo da saia de Lilith. — ... descobri que estava enganada.

– Mas sei que a maioria dos membros dessa comunidade são corretos. Eu mesma eduquei boa parte de vocês. Não é de vocês que desconfio. É dos rebeldes, aqueles que decidiram por livre-arbítrio viver uma vida fora da lei, cometendo crimes apenas para provar que não são submissos a grande Lilith. O que aconteceu hoje foi uma prova de que precisamos encontrar e deter esses marginais. – Morella deu uma pausa no discurso para respirar fundo e retomar a compostura. Havia uma fúria selvagem em seu tom de voz, como se seus objetivos quanto aquilo fossem além de manter a ordem. – O linchamento nunca é suficiente para eles. Quero sacrifica-los aqui mesmo. Então, confio a vocês uma missão: descubram quem é o assassino e tragam-no até mim, de preferência ainda vivo. Mas precisam ser rápidos. Uma coisa eu garanto: essa morte será a primeira de várias.

Todos ali concordaram em silêncio, e o evento foi encerrado. Lilith sentiu uma necessidade gritante de ser a única daquela missa a protestar contra sua mãe, mas sabia que aquilo não era o mais sábio a se fazer. A palavra dela, mesmo que absurda, era sempre uma ordem. Parecia que a Sacerdotisa estava com preguiça de ir atrás do culpado. Ela sabia muito bem que não devia confiar uma tarefa assim a um grupo de vampiros, boa parte apenas aprendizes. Porque muitos deles não sabiam controlar seus instintos e adoravam um caos. Alguns estavam apenas esperando uma desculpa para atacar seus inimigos pessoais. Aquele massacre geraria outro massacre, e no fim todos sairiam impunes.

O único motivo pelo qual Lilith aceitaria se tornar Sacerdotisa é que elas não eram apenas figuras religiosas. Eram as julgadas mais sábias por ali, portanto, líderes, apesar de que ninguém realmente as elegera. Era um cargo hereditário. Porém, algumas delas, como a mãe de Lilith, se revelavam péssimas governantes, ditadoras, cruéis e egoístas. Lilith não seria assim, mas por enquanto ela não tinha direito nem de expressar sua opinião. E sofria quieta. Agora teria de orientar os outros membros a perseguir e matar seus irmãos renegados, mesmo sabendo que ninguém obedeceria as suas ordens. Aquilo já acontecera antes, e Lilith tinha a impressão de que fora em uma dessas guerras desordenadas que seu pai desaparecera misteriosamente. Portanto, tinha um motivo pessoal para odiar a situação.

O que mais lhe preocupava, porém, era o que seria de Caleb. Ela continuava com o braço em volta dele quando deixaram a capela juntos e foram caminhando rapidamente de volta para a Mansão, levemente separados do grupo. Ele era apenas uma criança, e tinha muita dificuldade em se controlar. Lilith nunca o vira tão arrasado e alterado. Ele estivera chorando histericamente pouco antes, e agora arreganhava as presas de tanta raiva. De todos os vampiros, ele seria o primeiro a se voluntariar para punir os assassinos, e com certeza seria com ele que Lilith teria de tomar mais cuidado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.