(Música: Tema de Arcadia)

— Olhem só o que eu consegui para nós – disse Christine Gato, entrando feliz na Watchtower com alguns ingressos na mão. — Vou abrir um um show na Wonderland, cantando uma música. Tem pra todos nós e ainda sobra.

— Presente dado pela reitora em pessoa? — exclamou Zaina, animada. — De quem é o show?

— Da violinista Kaori Angel.

— Wonderland? Não é aquele puteiro que tem perto do campus de Exatas?

— Boate, Karma, boate – corrigiram juntos Estel e Christine.

— Nossa, da Kaori Angel? Quero ir, já ouvi falar muito dela, se eu não me engano ela também canta junto com o violino – comentou Keisha.

— Se não tivesse sequer ouvido falar de alguém como ela – disse Christine, distribuindo os ingressos – eu duvidaria da sua capacidade mental.

— Ouvi dizer que ela tem excelentes habilidades de pilotagem também – comentou Siren.

Nix Cello olhava para o ingresso com os olhos vazios, como se fitasse o nada.

— O que foi, cara? — perguntou Edward. — Alguma memória desagradável?

— Eu... não devo ir. Tenho a forte sensação de que não devo ir.

— Algum pressentimento ruim? — indagou Ilya.

— Ah, não, cara – retrucou Estel, nervoso – não vai estragar tudo por causa de uma maldita visão de novo. É só um show, o que pode acontecer lá?

— Não sei ainda. Só sei que... vai me trazer uma angústia enorme. É algo muito bom, que vai me causar epifania... mas ao mesmo tempo muito ruim.

— É por causa desse tipo de coisa que eu não tenho inveja NENHUMA de vocês Newtypes. Deixa de ser tonto e vá ao show. Aconteça o que acontecer, estaremos do seu lado pra te ajudar.

— Olhe – disse Karma para o amigo – se eu fosse você eu também ficaria “esperto” no show... talvez você encontre alguém importante lá. Vai acontecer algo bom.

— EU... NÃO... QUERO... SABER! Já disse, Karma, se você ver algo sobre mim, fique com a sua boca bem fechada, não tenho interesse nenhum em saber do futuro! E você não dá um passo sequer sem ter certeza absoluta de tudo... credo, não sei como você consegue viver assim.

— Também não entendo como as pessoas conseguem viver no acaso. Eu só tomo iniciativas quando tenho certeza absoluta de que vão dar certo.

— Christine, você disse que dá ingresso pra todos nós e ainda sobra, não é? Porque não damos um pra garota da Colônia dos Doces? Esqueci o nome dela...

— Convidar a Daiya é uma boa ideia, Siren. Pode providenciar isso, Karma?

— Posso sim, Nix. Só não sei se ela vai aceitar ou não, não consigo intuir isso.

— Apenas convide – exclamou Estel, controlando-se para não perder a paciência – o máximo que você vai ouvir é um ”não”.

Fez-se uma pausa. Kouga resolveu desviar o assunto para aliviar a tensão, comentando:

— Você previu que seu pai vem para Arcadia assistir ao show, não é?

— É, um pouco do meu mau humor é por causa disso mesmo, Kouga. Ele vem trazer minha irmã pra ver o show... vê-la vai ser bom... mas junto com ela vão vir meu pai e muitas cobranças.

A Wonderland era uma casa noturna de Arcadia, com uma decoração inspirada em Alice no País das Maravilhas. Os seguranças do local eram Cyber-Guards que usavam uniformes inspirados em cartas de baralho. Os garçons e garçonetes, também Cyber-Newtypes, utilizavam suas habilidades para intuir os pedidos dos clientes, e usavam orelhas de coelho. Nos pratos, estava escrito “Coma-me”, e nos copos, “Beba-me”. As mesas tinham todas um vaso com rosas brancas pintadas de vermelho, uma chaleira em forma de chapéu, e os chás no local eram cortesia da casa. O desenho do chão do palco era similar a um campo de críquete. A cortina era vermelho escarlate, com desenhos de corações. Daiya, Siren e os membros da República da Watchtower entraram no recinto e escolheram uma mesa. O guarda Phillip estava lá também, para reforçar a segurança, e sentou com o grupo. Só Christine não estava na mesa, pois estava na coxia do palco, aguardando sua hora de cantar. Poucos minutos antes do show começar, uma garota ruiva se aproximou do grupo da Watchtower.

— Rebecca? — exclamou Zaina, logo reconhecendo a colega da faculdade de Medicina.

Ao ouvir este nome, Estel, que estava de costas, virou-se bruscamente, batendo o cotovelo na mesa, e por milímetros não derrubou o vaso e o bule de chá.

— Há quanto tempo, pessoas. Pressenti que vocês viriam.

— Ué, mas você não... está... zangada comigo? — perguntou Estel, hesitante.

Rebecca House chegou a morar um tempo na Watchtower com o grupo, mas se afastou devido a discussões com o rapaz da Terra.

— Mudei de ideia. Não vale a pena ficar me estressando à toa. Surpreende-me você me dirigir a palavra, depois de ter explodido e me dado uma lição de moral.

— O que você fez é errado, sabe disso. Mas algumas ações erradas não me fazem deixar de te querer bem e me preocupar com você. E... você sabe que eu não consigo controlar bem minha raiva. Mas passado o momento, fico sendo o mesmo bobo alegre de sempre.

— É, estou vendo isso claramente – comentou Rebecca – mas eu nem precisaria da minha intuição Newtype para saber que você é um bobo alegre.

— Essa é nossa boa e velha Rebecca, sarcástica como sempre – disse Ilya. — Se um não Newtype quisesse saber quem é a verdadeira se fizessem um clone seu, era só ver qual das suas tem a língua mais afiada.

Zaina subitamente teve uma visão de Rebecca e Estel se aproximando, com uma aura de união entre os dois. Então, a ruiva virou-se e se afastou.

— Vou voltar para a minha mesa agora. Nós nos falamos, Estel.

O rapaz da Terra ficou olhando para o vazio quando ela se afastou.

— Não se preocupe – comentou Karma, colocando a mão no ombro do amigo – ela vai voltar para nós. Eu a vejo voltando para a Watchtower. Embora, eu não tenha certeza se ela vai ficar muito tempo... esteja preparado para mais tensões. Não vejo ela fixa em sua vida. Eu a vejo indo e voltando, indo e voltando... instável.

Levou um tapa na cara de um Estel furioso.

— Eu... já... falei... pra você... que o futuro... não me interessa! Não quero viver como um robô, refém de visões estranhas e de um futuro definido. Principalmente ao que se refere à Rebecca. Mesmo se eu não ficar com ela... mesmo se formos brigar de novo algum dia... quero aproveitar o tempo que tenho ao lado dela da melhor forma possível.

— Desculpe, eu só quis ajudar – retrucou Karma, afastando-se. — Com licença, meu pai e minha irmã estão chegando... volto daqui a pouco.

Daiya estava circulando pelo salão à procura de garçons para fazer seus pedidos, pois nenhum deles conseguia detectá-los através da intuição. Estava um pouco envergonhada; não estava acostumada a se arrumar e frequentar ambientes assim (Zaina emprestou um vestido de festa a ela). Viu o encontro de Karma com sua família, quando ouviu uma menina gritando entusiasmada, pendurando-se no amigo.

— ONIIIII-SAAAAAAAN!

— Belle! Quantas vezes eu te disse pra não fazer isso? Está me agarrando na frente de todo mundo... eu não esperava por isso!

— Claro que não esperava... minha vontade de te apertar é espontânea, oni-san! Estava com saudades! E eu sei que no fundo você adora quando eu faço isso, eu vejo em sua mente!

— Mentirosa – retrucou Karma, desajeitado. — O papai te trouxe aqui porque você tirou notas boas, não é?

— Sim, eu sempre quis ver o show da Kaori! Papai é bem chato, eu e você achamos isso... mas de vez em quando ele é legal. E aí, eu abuso dele!

Nisso, Julius Von Deikun se aproximou, encarrando os dois filhos. Belle continuou abraçando o irmão, colocando-se um pouco à frente dele, como se quisesse protegê-lo.

— A que devo a honra de Vossa Magnânima Presença no meu humilde recinto de estudos? — disse Karma, sarcástico.

— Não posso querer levar minha filha para passear, e ver meu filho que está vivendo longe de casa?

— Eu não sou bobo, pai. Sei que trazer Belle aqui para esse puteiro pra ver o show foi só uma desculpa. E sei também que não viria aqui para “matar as saudades”. Você... teve uma visão sobre mim e veio me questionar sobre ela pessoalmente.

— Até que seu nível Newtype não está tão ruim quanto eu esperava – retrucou o homem, secamente. — É isso mesmo. Tenho te monitorado, e detectei que você está em dúvidas sobre a continuidade dos seus estudos. Que quer largar sua faculdade de Direito.

— Sim, eu realmente estou em dúvida se continuo o curso. Mas não pretendo parar os estudos; talvez eu escolha outro curso, como História ou Psicologia.

' (Música – Inverno, 3º Movimento)

— Se você tem dúvidas – retrucou Julius secamente – é porque sua intuição está pouco desenvolvida. Você não se empenha para aumentar seus poderes, é preguiçoso, imaturo e fraco. Só Newtypes fracos, ou que acabaram de descobrir suas habilidades, possuem tantas dúvidas assim sobre a vida. Não é à toa que você perdeu uma luta contra um simples rapaz da Terra batalhando sozinho. E algo assim é inadmissível para um descendente de Char Aznable.

Karma cerrou o punho, tentando controlar a raiva. Sua irmã colocou mais ainda o seu corpo à frente dele, fuzilando o pai com o olhar.

— Vim aqui para lhe dizer pessoalmente – continuou Julius – que, se você largar sua faculdade, e continuar com tanta dúvida e hesitação, eu irei lhe deserdar. Não irei mais lhe considerar meu filho. Terá que pagar seus estudos sozinho, e todos os meus bens irão para a Belle. Não vou desperdiçar meu investimento em alguém que só me traz desgosto.

— Você não vai comprar o oni-san com isso – exclamou Belle, em tom de desafio. — Ele não está nem aí pra herança. E, pra ser sincera, eu também não. Pode me deserdar junto. Já tenho 13 anos, acho que posso dar um jeito de me virar sozinha.

— Não interfira, minha filha. Isso é uma conversa entre homens. Ou pelo menos assim eu esperava que fosse. Mas seu irmão ainda está muito longe de ser um homem... se ele ainda não consegue visualizar seu futuro de forma definida, com clareza, sem dúvidas ou hesitação.

Depois de alguns minutos de silêncio, Karma suspirou e deu de ombros:

— Certo, já entendi. Não sou nada pra você, você me acha um lixo, acha que eu não tenho potencial nenhum. Veio até aqui, e não me disse nada de novo. Agora com licença, se já terminou, vou voltar para a minha mesa, ficar com meus amigos.

Virou-se e afastou-se. A menina fez menção de ir junto, mas o pai a segurou pelo braço.

— Ele é um mau exemplo para você. É até melhor que ele more longe por uns tempos. Estou sentindo raiva em você, Belle... mas eu sei o que estou fazendo. Diferentemente dele, eu não tenho dúvidas e hesitações. Eu não sou fraco, meu futuro está bem definido. Além disso, no fundo, eu sinto que Karma sabe que eu tenho razão sobre ele. Espero que ele tome atitudes a respeito.

A menina estava tentando com esforço reprimir suas lágrimas por não ter podido dar mais um abraço no irmão ao ver que ele estava angustiado. Disse a ele por telepatia Newtype: “Não ligue pra ele, oni-san. Pra mim, você é bem forte e bem legal, eu gosto muito de você, por isso adoro te irritar. Você ainda vai ser muito feliz, eu sinto isso”. “Eu sei, Belle. Obrigada” retribuiu o rapaz loiro, também por telepatia.

Daiya havia ouvido cada palavra física daquela conversa, sem ser notada. Perguntou ao amigo se ele precisava de ajuda, mas recebeu um “não” seco e ríspido como resposta. Em um momento que a irmã de Karma havia ido ao banheiro, a vendedora de bolos passou ao lado de Julius von Deikun e murmurou, retirando-se em seguida:

— Um dia, eu vou te destruir.

O homem fechou os olhos, tentando sentir alguma ameaça real vinda daquela frase; mas não pressentiu nada, então ignorou o fato.

— Quem era aquela moça que falou com você, papai? — perguntou a menina, saindo do banheiro.

— Ninguém relevante. Não senti nada na mente dela.

Finalmente, as luzes da Wonderland se apagaram, sinalizando que o show ia começar. Daiya e Karma já tinham retornado à mesa do grupo da Watchtower. As cortinas se abriram, e os dançarinos da casa iniciaram a apresentação com sua habitual dança da marcha das cartas, com a música que tocava no filme de Alice no País das Maravilhas. Assim que terminaram e saíram do palco, Christine entrou. Estava nervosa; tentava bloquear suas visões de como seria o impacto de sua apresentação, pois tinha medo do que visse.

(Música: Think Of Me)

Cantou uma canção do musical “O Fantasma da Ópera”, um de seus favoritos. Um dançarino da Wonderland cantou a parte masculina. Conforme foi cantando, esqueceu-se do nervosismo, acalmando-se com sua própria voz. Sentia como se o palco fosse sua casa, o lugar a que realmente pertencia. Cantava com o desejo de tocar o coração de cada pessoa presente, enchendo o local de ternura. Phillip estava fascinado; também gostava muito do musical. Keisha também fora tocado de uma maneira peculiar pela apresentação. Como uma garota tão rebelde e agressiva... podia transmitir tanto amor?

Os aplausos foram entusiasmados e demorados. Assim que terminou, Christine localizou a mesa da Watchtower com a sua intuição. Estava tremendo de nervosismo; Phillip a abraçou.

— Você foi perfeita, Christine. Sabe que eu sou bem chato com desempenho artístico alheio; mas eu te digo, você foi simplesmente perfeita. Pode ver em minha mente que não estou lhe fazendo um elogio falso.

— Eu sei, Phillip. Você é um amorzinho. Como eu queria que todos os Cyber-Guards fossem assim...

Começou a chorar de leve. Keisha colocou de leve a mão nos cabelos de Christine, para lhe dar apoio. Ela estava tão entregue, que não reagiu.

(Música: Tema de Kaori)

Então, todas, absolutamente todas as luzes da boate se apagaram. Fez-se silêncio mortal. Nix sentiu algo pulsar dentro de si – sua aura estava reagindo a algo. Estava sentindo a aproximação da artista, ouvindo seus passos como se os saltos de seus sapatos fizessem um barulho enorme. Luzes avermelhadas passeavam pelo palco, mostrando Kaori em partes. Quando a luz passou pelo rosto da violinista, mostrando seu olhar penetrante e etéreo, Nix sentiu-se como se estivesse sido transportado para outra dimensão, ligando-se à artista de uma forma intensa. Todas as pessoas em volta sumiram; o rapaz sentiu-se solto no ar, e o ambiente ficou totalmente vermelho. Kaori flutuava na dimensão paralela; usava um vestido longo e tomara que caia, de cor vermelho escarlate, com um corte lateral mostrando suas pernas. Era como se, para Nix, naquele momento, só existisse ela e nada mais. Quando ela começou a tocar seu violino, o rapaz de Axis sentiu uma angústia enorme... como se, de alguma maneira, a música quisesse transmitir isso. Como se o som agudo do violino equivalesse a milhares de gritos desesperados de horror e angústia... como se Kaori pudesse sumir a qualquer momento em meio ao vermelho, sendo engolida pela energia de desespero. Ele começou a tremer e sentir o ar faltar. Keisha pressentiu, e tentou falar com o amigo:

— Nix! Nix! Fala comigo, cara! Está tudo bem?

— Não adianta – comentou Kouga – ele não vai ouvir. Está em uma conexão Newtype muito forte com a violinista... que não vai cessar tão fácil. Só podemos esperar.

Fisicamente, o rapaz de Axis estava no chão, encolhido em posição fetal. Na visão, ele estava com as mãos na cabeça, como se quisesse arrancar tudo aquilo de sua mente. “Por que tudo isso? Por que toda essa angústia, esse sofrimento?”, perguntou ele. “Eu odeio pessoas”, respondeu a voz ecoante de Kaori. “E quero que elas sofram muito”. “Deixe-me te ajudar”, insistiu Nix. “Se você faz isso é porque sofre também. Eu faria qualquer coisa, eu entregaria até minha alma para tirar esse sofrimento de você”. “NINGUÉM pode me ajudar!”, retrucou a violinista em fúria, tocando uma nota agudíssima que fez com que o rapaz sentisse que estava se partindo ao meio. Sentiu-se arremessado com violência de volta ao seu agora fragilizado corpo físico; acordou da visão ofegando, quando a artista tocava as últimas notas da primeira música do show. Enquanto todos aplaudiam, Siren, que segurava o amigo pelos ombros, perguntou:

— Não é melhor você ir embora? Esse show não está te fazendo bem...

— Não... eu vou... ficar – balbuciou o rapaz de Axis. — Pra falar a verdade... eu não quero... ir embora... nunca mais. Não posso deixá-la... sofrendo... desse jeito. Ajude-me a levantar.

Ilya, Keisha e Siren ajudaram-no a se levantar, e colocaram-no em uma cadeira.

— Tem certeza de que quer ficar? — perguntou Karma, olhando nos olhos de Nix.

— Nunca tive tanta certeza de algo – exclamou ele com uma determinação sem igual. Agora façam silêncio, não permitirei nenhum barulho impertinente durante este show.

A apresentação prosseguiu. Kaori era realmente fantástica: não só tocava extremamente bem (em uma das músicas executou uma peça difícil perfeitamente com as luzes totalmente apagadas, contando apenas com seus reflexos), mas também dançava, e às vezes cantava. Passado o estupor inicial, Nix começou a desfrutar racionalmente da apresentação. E sua mente racional também se encantou pela exímia artista. Queria que o show durasse eternamente, e ele nunca deixasse de admirar aqueles longos cabelos vermelhos esvoaçando. Assim que o espetáculo terminou, Nix pediu para que todos ficassem mais alguns minutos antes de irem embora.

— Engraçado... pelo que eu sinto, você está perfeitamente bem... mas está triste – disse Zaina. — Pessoal, vamos ficar mais um pouco, até que ele se sinta bem para ir.

— Na verdade é bem o contrário... fisicamente estou esgotado, mas emocionalmente eu nunca me senti em um estado de epifania tão grande.

— Eu não estou com pressa – comentou Karma. — Até que esse puteiro é bem simpático.

— Devo informar-lhe que o nome correto é “boate”, rapazinho.

Todos viraram-se bruscamente; Kaori Angel havia ido até a mesa da Watchtower.

— Olhe, seu violino também é vermelho, como sua roupa... só agora que reparei – comentou Ilya. — Por isso você toca três vezes mais rápido.

— A cor do meu instrumento é inspirado no filme “O Violino Vermelho”. Na história, ele foi pintado com o sangue da falecida esposa do construtor do violino. E todas as pessoas que tiveram-no nas mãos tiveram uma vida intensa e trágica, morrendo cedo, ou entrando em grande angústia.

Ao ouvir isso, Nix levantou bruscamente, dando um tapa no violino, jogando-o longe. A artista, ao invés de ficar brava, começou a gargalhar, fitando o rapaz com um olhar malicioso:

— Que pessoa interessante. Escute, eu vou ficar por alguns meses em Arcadia... vim aqui para fazer um curso de aperfeiçoamento de técnica de palco. Quero batalhar contra você um dia no simulador da Anaheim, Nix Cello. Seu desempenho deve ser muito bom.

— Eu... só não sei se conseguiria lutar contra você. Mesmo em um simulador. E... eu confesso que não imagino alguém delicada como você em um campo de batalha.

Kaori gargalhou novamente. Tirou do seu vestido um broche em formato de rosa vermelha. Segurou-o fortemente em suas mãos, espetando-se com o alfinete, sangrando de leve.

(Música – Ternura e Promessa)

— Tem tanto medo assim de ver meu sangue derramado? — indagou ela, entregando o broche a Nix. — Se o vermelho do meu sangue é tão precioso assim para você... fique com ele. Não se aflija, nós nos veremos de novo em breve.

O rapaz de Axis pegou o broche, e prendeu-o em sua roupa, em cima de seu coração, para nunca mais deixar de usá-lo. Assim que Kaori se afastou e o grupo da Watchtower voltou para a república, Karma comentou com o amigo:

— Olha, Nix... eu sei que você sentiu uma atração muito forte por ela... mas eu não sinto futuro nenhum nessa relação. Só vejo vazio e sofrimento no seu caminho com ela. Desista, se não quiser se martirizar à toa por algo que nunca vai dar certo.

Estel ia abrir a boca para protestar, mas o rapaz de Axis deu uma resposta que calou qualquer conjectura sobre o assunto:

— Eu sei disso. E não me importo. Isso são meros detalhes. Mesmo que o destino disso seja um grande abismo... mesmo que a aflição de não tê-la a meu lado me traga sentimentos de dor mortal... enquanto eu a amar... não mudarei minha direção. Não há espaço em mim para medo, hesitação, autopreservação ou dúvida. O que existe em mim agora é grande demais para que esses sentimentos inferiores tenham espaço. Só existe Ela... e nada mais.

Apertou o broche na sua mão como Kaori fez, e também sangrou.

— Se é assim – sorriu Estel, colocando a mão no ombro do amigo – sinta-se como se eu também sangrasse contigo. E acredito que todos nós faremos o mesmo. Sinto uma união muito forte entre nós... e se um de nós se corta, todos sangram.

Todos, inclusive, Daiya, acenaram afirmativamente.

Notas finais
Nas férias de Arcadia, Kaori encontra o grupo no simulador de batalhas de Mobile Suits. Estel convida-a para participar do RPG que começará em breve, mestrando para os seus colegas de república. Daiya percebe algo estranho no coquetel de remédios de Phillip. Estaria ele sendo manipulado quimicamente? Não perca o próximo episódio de Kidou Senshi VP Gundam! A sombra do Caos está à espreita.