— AGORA EU TE PEGO, ILYA! Já te faço engolir todas as suas piadinhas!

Keisha Uraki e Ilya Wolf treinavam no simulador de batalhas de Mobile Suits da colônia estudantil de Arcadia. Ambos eram versados em luta de Mobile Fighter, um tipo de robô de batalha que usa principalmente movimentos físicos, como se fosse um gigantesco lutador de artes marciais. Esse tipo de Mobile Suit foi recentemente aperfeiçoado, reproduzindo fielmente os próprios movimentos e impulsos psíquicos do piloto através dos sistemas Psyco-Frame e Zero System, não obedecendo somente a controles. Isso tornava a batalha bastante interessante, pois os soldados tinham que aprender a lutar com seu próprio corpo para poder usar uma destas máquinas com maestria. Keisha treinava boxe e aikidô, enquanto Ilya era estudante de kung fu.

— Olha, eu estou mesmo com fome, mas… não, obrigado, Keisha. Como minhas piadas são ruins, então devem ter um gosto ruim.

— Que bom que pelo menos você admite…

— Mas é por isso que minhas piadas são boas. São algo ruim de boa qualidade.

A luta estava equilibrada; os adversários se conheciam bem, por treinarem juntos com frequência. Keisha era ponderado e estratégico, tinha a técnica de luta bem desenvolvida, enquanto Ilya contava com o elemento surpresa de decisões tomadas rapidamente, algo de vital importância em uma luta entre duas pessoas que tinham acesso à mente uma da outra. Quando parecia que o garoto Uraki estava encurralando o adversário, este percebia rapidamente o ponto fraco na estratégia, e quebrava a linha de ação, equilibrando o conflito de novo. Keisha, em uma sequência de socos e chutes, conseguiu acertar um chute no cockpit do Mobile Suit rival; este aproveitou a oportunidade, e rapidamente, agarrou a perna do robô, atirou-o para cima, foi até ele com os foguetes propulsores, e deu uma grande pancada que jogou Uraki para baixo. O garoto teve que usar seus próprios foguetes propulsores para fugir dos novos golpes de Ilya e estabilizar sua máquina novamente. Os dois investiram um contra o outro, ligando e cruzando suas espadas laser. Tomaram posições defensivas. Quase ao mesmo tempo, um quebrou a defesa do outro, e ambos desferiram o mesmo ataque, uma técnica especial dos Mobile Fighters:

— SHINING FINGER!

As mãos de cada robô começaram a emitir ondas elétricas douradas, que danificavam o oponente. Um se agarrou ao outro, e nenhum dos dois soltaria até que o outro estivesse completamente destruído. Por fim, o simulador avisou que a batalha acabou. Não ficou claro qual dos dois vencera; os membros da Watchtower, que estavam assistindo ao treino, esperavam ansiosamente a confirmação do resultado dado pela máquina. Depois de alguns segundos, o resultado foi divulgado: empate. Os dois Mobile Fighters foram destruídos ao mesmo tempo.

— Justo – comentou Kouga – eu não imaginava que o resultado fosse outro.

— EMPATE? — resmungou Siren. — Ah, fala sério, depois de toda a emoção da luta? Que sem graça!

— Olha, é BEM raro conseguir um empate perfeito – ponderou Karma.- Isso indica que a disputa foi de um nível bom, os dois pilotos estavam dando tudo de si… eu não consideraria isso “sem graça”.

Keisha e Ilya saíram ofegantes das cabines. Pareciam satisfeitos, apesar de tudo.

— Olha – comentou Edward – se nenhum de vocês dois resolver perder o contato e largar os treinos, o resultado vai ser sempre esse. Não preciso ser Newtype pra saber. Estão acostumadíssimos com a mente e o estilo de batalha do outro; enquanto lutarem um com o outro, sempre vai haver sintonia e equilíbrio.

— Poxa, desse jeito você nos compromete – brincou Ilya – se alguém não se dá ao trabalho de entrar em nossa mente, vê nós dois saindo ofegantes de uma cabine fechada e falando em “sintonia”, vai pensar algo errado!

Todos riram.

— Edward disse bem – falou Christine – lutar um COM o outro, e não CONTRA o outro. Acredito que se vocês duelassem em dupla contra outra dupla, aproveitariam melhor seu potencial do que lutando entre si. É uma ideia um tanto óbvia, mas como Keisha é um tonto que não raciocina direito…

O garoto Uraki ia abrir a boca para protestar, mas foi interrompido por Estel.

— Se vocês dois não estiverem cansados, gostaria de colocar isso em prática agora mesmo. Eu e mais um de nós desafiaremos vocês dois. Vem comigo, Karma?

— Hmmm… acho que não. Sinto que há grande probabilidade deles vencerem, e eu não costumo entrar em batalhas em que eu não tenho certeza de que vou vencer.

O garoto da Terra olhou feio para o amigo. Nix tomou a iniciativa e resolveu formar a dupla com Estel. Os quatro se prepararam para o combate, cada um na sua cabine. Escolheram o espaço como cenário.

— Keisha Uraki, Burning Gundam, lançar!

— Ilya Wolf, Master Gundam, lançar!

— Estel Fortuna, Qubeley Mark II, lançar!

— Nix Cello, Double X, lançar!

(Música: Eclipse – Tema de batalha de Nix)

— Ele INSISTE em usar um Qubeley – exclamou Karma – sendo que ele sabe muito bem que nunca vai conseguir guiar os Funnels da maneira correta.

— Nix só escolheu o Double X por causa daquele mega Satellite Cannon – desdenhou Kouga. — Ouvi falar que, na potência máxima, ele pode destruir uma colônia inteira. Com uma coisa dessas, é fácil vencer.

— Parece-me que ele tem quase a mesma potência do que o Solar System usado pela Federação da Terra na Batalha de Solomon, na Guerra de Um Ano. Quem sabe um dia eu consiga adaptar o Solar System para ser usado do mesmo jeito que o Satellite Cannon, em um Mobile Suit só. Assim, a energia da máquina não seria consumida no ataque, já que este seria de energia solar.

— Solar System… é aquele jogo de centenas de espelhos que captam a energia do Sol e disparam contra o inimigo, não é, Siren?

— Isso, Zaina. Dizem que metade das tropas de Zeon foi destruída só com aquilo, nessa batalha. E a outra metade.. bem…

— Amuro Ray, o primeiro “White Devil” — resmungou Karma, contrariado. — Seu querido parente distante. Se não fosse por aquele babacão, Anavel Gato e Dozle Zabi teriam dado uma surra na Federação da Terra na fortaleza de Solomon, com ou sem Solar System.

— Não vai me dizer que você queria que Zeon ganhasse aquela guerra – retrucou Christine – eles eram uma droga de uma DITADURA! Uma ditadura que matou o SEU antepassado, Zeon Zum Deikun!

— Ditadura ou não, dava boas condições de vida para os Spacenoids (habitantes do espaço), e tinham todo o direito de querer independência da Terra. A Federação não tinha conhecimento praticamente nenhum sobre a vida no espaço para entender quais eram as reais necessidades dos moradores das colônias.

— Regimes autoritários NUNCA são bons – bufou a garota ruiva de cabelos curtos.

Enquanto isso, todos assistiam à batalha simulada. Keisha e Ilya realmente tinham uma sincronia quase perfeita lutando juntos, exatamente como Christine tinha dito. Era como se cada um complementasse as falhas do outro. Os dois decidiram, por telepatia Newtype, focar seus ataques primeiro em Estel. Todos ficaram impressionados quando Keisha repeliu com precisãoos funnels do Qubeley com a rapidez dos punhos do seu Mobile Fighter. Ilya pressentiu o momento de surpresa de Estel, dando um golpe certeiro e letal no momento de fraqueza, seguido de um Shining Finger, que venceu o adversário. Nix pressentiu nisso uma oportunidade de contra-atacar: enquanto a dupla de Mobile Fighters estava ocupada com Estel, o Double X deu um tiro na cabeça do robô de Keisha e, quase ao mesmo tempo, cortou com a espada laser o braço da máquina de Ilya, que destruíra o Qubeley.

— Não esqueçam, eu também sou seu oponente – ponderou o rapaz de longos cabelos negros.

Ele tinha habilidades notáveis, sem dúvida. Lutava de igual para igual com a dupla, tendo excelentes reflexos para desviar e repelir os golpes físicos. Era quase como se Nix conseguisse perceber, em câmera lenta, de onde vinha cada soco e cada chute. Por isso, a dupla começou a atacá-lo de longe, tentando miná-lo. Keisha pressentiu, então, que o oponente estava carregando o Satellite Cannon para disparar.

— Ilya, temos que pará-lo – disse Uraki, por telepatia – antes que ele dispare essa coisa!

Os dois Mobile Fighters investiram ao mesmo tempo contra o Double X. Quando estes já estavam bem próximos um do outro, Nix fez um movimento rápido de afastamento, alinhando o Satellite Cannon e disparando contra os dois. A arma não pegou em cheio, mas fez um estrago considerável: ambos os robôs de Keisha e Ilya começaram a soltar faíscas. (Música – Tema de Kaori) A vitória do Double X seria certa… se Nix não houvesse sentido uma presença forte e intensa se aproximando. Kaori Angel estava a caminho do simulador. O rapaz ficou alguns segundos perturbado, quase que paralisado, por ter sentido a energia da aproximação da violinista. Segundos suficientes para que fosse nocauteado por Keisha e Ilya. A máquina anunciou a vitória da dupla de Mobile Fighters. Estes iam sair de suas cabines, mas foram interrompidos por Kaori.

— Fiquem onde estão – disse ela, por telepatia, ainda a pouco mais de cem metros do local – quero lutar contra vocês.

Ela estava com uma roupa casual: uma camiseta com o desenho da carta da Rainha de Copas, um short jeans e tênis vermelhos. Phillip a acompanhava: explicou que os Cyber Guards haviam recebido ordens de cuidar da segurança da artista durante sua estadia em Arcadia.

— Como ele é praticamente um membro do grupo de vocês, escolhi-o para que me acompanhasse – explicou Kaori. Dirigiu-se a Nix, em um tom meio malicioso, meio debochado. — Sinto muito pelo distúrbio que lhe causei, nobre cavaleiro. Já que morreu por minha causa… irei vingar sua morte.

Dirigiu-se à cabine. O rapaz de cabelos longos a segurou pelo braço.

— Não precisa se preocupar comigo. Eu sei me cuidar. Só quero me divertir um pouco.

— É só um simulador – disse Zaina calmamente, pondo a mão no ombro de Nix – não vai acontecer nada de ruim com ela.

— Eu sei – respondeu o rapaz, soltando o braço da violinista, que fechou-se na cabine – mas a simples ideia de qualquer pessoa machucando-a… é insuportável para mim.

— Olha, isso vai ser interessante – comentou Kouga – ela escolheu o Deathscythe para lutar. Será que é fã do esquadrão Deathscythe W4?

— Será que ela dá conta dos dois sozinha? Parece estar bem confiante – falou Edward.

— Kaori Angel, Gundam Deathscythe, lançar! — bradou a moça de longos cabelos vermelhos.

Como iniciou-se outro duelo, os dois Mobile Fighters estavam em ótimas condições novamente. Kaori tinha um diferencial: não só tinha bons reflexos, como a maioria dos Newtypes bem treinados, mas também atrapalhava o inimigo com sua presença energética poderosa, dificultando os ataques. Keisha e Ilya tentaram acertá-la várias vezes com os braços e pernas dos seu robôs, sem conseguir fazer um arranhão sequer no Deathscythe. Keisha tentou usar o Shining Finger; Kaori desviou-se tão habilmente e tão rápido que foi quase como se tivesse se teletransportado. Ficou perfeitamente colocada para desferir o duplo golpe que acabaria com a batalha: cortou, com a foice do seu Mobile Suit, as cabeças de ambos os adversários, em um intervalo de poucos segundos entre um corte e outro. Ilya foi pego primeiro, quando ia para perto do colega para dar apoio. Keisha tentou reagir, mas hesitou perante a poderosa energia da artista. Após ter tido a cabeça do Burning Gundam cortada, Keisha teve o seu cockpit cortado ao meio pela foice. Ilya foi nocauteado com um tiro à queima roupa no cockpit do Master Gundam: tinha dificuldades em se localizar só com a intuição Newtype, sem a câmera que ficava na cabeça do robô. O tiro foi dado com a mão que não segurava a foice; esta estava ocupada fatiando o robô de Keisha. Todos ficaram impressionados, principalmente Nix.

— Eu nunca perdi uma batalha tão rapidamente – exclamou Ilya, limpando o suor com uma toalha de papel. — Ah, esqueci, seu cabelo é vermelho… por isso você é três vezes mais rápida.

— Ei, o Cometa Vermelho aqui sou eu, não roubem meu título – protestou Karma.

— Ela é a RAINHA vermelha, olhem a camiseta dela – sugeriu Philip.

— Rainha Vermelha… hmmm, gostei – sorriu a violinista.

— E posso saber por que Vossa Majestade veio se misturar com os plebeus? — perguntou Kouga.

— Queria fazer algo… diferente. Estar com pessoas diferentes… que me vissem como uma igual. Na minha apresentação, senti que vocês poderiam me proporcionar isso. Sinceramente, ver pessoas lhe reverenciando onde quer que você vá cansa um pouco. Você se perde, esquece de ser você mesma, como se você fosse diluída na multidão… como se você fosse menos humana. E também, Terráqueo – ela dirigia-se a Estel – quero participar deste RPG que você está planejando fazer nestas férias.

— Mas como é que você sabe… ah, claro, MALDITOS Newtypes, você deve ter visto em minha mente… mas… n-não me leve a mal, eu não te chamei de maldita, foi só força de expressão…

— Como ousa insultar a Rainha? Cooooortem a cabeça! — brincou Ilya, apontando para Estel.

— E você pode participar sim do RPG – falou o rapaz da Terra – faremos a primeira discussão sobre os personagens hoje à noite, na Watchtower. Será muito bem-vinda.

— Vocês… vão fazer um RPG? — comentou Daiya Winter, falando baixinho. Até o momento, ninguém percebera que ela havia chegado.

— Vamos sim, o tema é Vigilantes de Gotham – respondeu Zaina Addill.

“Eu queria participar também”, pensou a recém-chegada, sem coragem de dizê-lo.

— E avise quando for aparecer de repente, pra não nos matar de susto – reclamou Karma.

— Ué, Nix não sentiu Kaori chegando quando ela ainda estava longe? — indagou Keisha. — como é que ele também não sentiu a Daiya?

— Ela não é Newtype, então a presença dela não é tão óbvia – explicou Kouga.

“Não táo óbvia? Você quer dizer praticamente inexistente”, retrucou Karma, em pensamento. “É quase como se ela não estivesse aqui se eu fechasse os olhos”.

Passaram a conversar sobre assuntos variados nos sofás do local, descansando, enquanto outras pessoas usavam o simulador. Ao cair da tarde, Phillip e Christine pegaram suas pílulas para tomar; todo Cyber-Newtype precisava tomar remédios variados regularmente, pois o processo para se tornar um era um tanto violento para a condição física de uma pessoa. Daiya tentava desviar seus pensamentos do seu desejo de entrar no jogo com seus novos amigos. Não queria incomodar, não queria desrespeitar o espaço de ninguém, principalmente o de Karma. Ficou olhando fixamente para as pílulas de Christine, enquanto ela as tirava do frasco. Depois, observou as de Philip. Foi quando descobriu algo estranho.

— Christine, espere – pediu Daiya – não tome seus remédios ainda. Você também não, Phillip. Quero verificar uma coisa.

Contou os comprimidos de ambos.

— Você… você toma um remédio a mais do que o normal? — perguntou a garota ao Cyber-Guard. O rapaz arregalou os olhos. E respondeu:

— N… não que eu saiba. Nunca pressenti isso com a intuição, nem ninguém nunca me falou nada. Mas agora que você disse… eu sempre tive mais problemas de personalidade do que seria normal para um Cyber-Newtype. Será que este remédio a mais é alguma ferramenta de… controle? Algum bloqueador de memórias… ou algum hormônio de alteração de personalidade? Será que se eu parar de tomá-lo… irei descobrir mais sobre quem eu sou?

— Isso não vai ser perigoso para você? — perguntou Ilya, preocupado. — Que eu saiba, vocês são obrigados a tomar estes remédios.

— Que se dane. Já estou cansado de viver com essa angústia de não saber direito quem eu sou… de viver como se… como se esse corpo não fosse meu. É, é essa a sensação que eu tenho.

— O problema é descobrir qual é o remédio – comentou Edward – todos tem o mesmo formato e a mesma cor. Newtypes de plantão, conseguem detectá-lo com a intuição?

— Podemos tentar – respondeu Keisha. Ele, Ilya, Kouga, Karma, Nix e Christine se aproximaram. Tentaram se concentrar o máximo que puderam, mas não obtiveram nenhum sinal de qual seria a pílula diferente que procuravam. Kaori que até ali só observava, afastou-os com um empurrão gentil, exclamando:

(Música – Tema de Kaori)

— Para trás, seus inúteis. Eu cuido disso.

Impôs as mãos sobre as pílulas de Phillip e se concentrou, fechando os olhos. Começou a emanar uma aura vermelha poderosíssima, que fazia alguns dos presentes se encolherem. O espaço parecia distorcido. Depois de alguns segundos que pareceram horas, a violinista abriu os olhos e disse, pegando uma das pílulas e colocando na mão do Cyber-Guard.

— É esta.

Logo depois, desmaiou, sendo segurada por um aflito Nix.

— O que você fez com ela? — berrou o rapaz de cabelos longos para Phillip.

— Ele não fez nada, seu bobão – retrucou Ilya, defendendo o amigo. — Kaori só usou energia demais. Descansando um pouco, vai ficar bem.

— Se você quiser, Phillip – sugeriu Zaina – posso analisar a composição química desta pílula no laboratório do meu campus. Como a saúde nunca pode falhar, ainda aprendemos os métodos tradicionais de exames; podemos usá-los quando nossa intuição não estiver boa.

— Você pode ser presa por isso – disse o guarda, tristemente. — Talvez até seja presa por sequer pensar em fazer isso, mesmo não concretizando o ato. Eu não valho tanto assim.

— Eu quero fazer isso, Phillip. Eu quero te ajudar. Quero fazer algo de útil.

(Música – Chagas da Guerra)

— O… obrigado – murmurou o rapaz de cabelos rosados, abraçando a estudante de medicina.

— Zaina tem um coração enorme – sorriu Estel – não é à toa que ela escolheu estudar Medicina.

— Eu vou junto – declarou Daiya. — Já que fui eu quem identificou a pílula a mais… posso me responsabilizar, se o pior acontecer.

— Posso tentar ajudar a contornar a situação, se os Cyber-Guards nos descobrirem – disse Edward. — Tenho experiência nisso.

— Sabem o que eu acho? — ponderou Kouga, com seu jeito típico de ficar observando a conversa como se não fizesse parte dela, e só falando quando necessário. — A energia que nossa amiga Três Vezes Mais Rápida emanou foi tão forte que acho que até quem está na Terra sentiu. E nenhum Cyber-Guard veio nos perturbar até agora… mesmo conosco fazendo algo contra a lei. E as ações da guarda costumam ser preventivas, a corporação interfere antes mesmo de o crime acontecer.

— Entendi… como ninguém veio até agora, e o “crime” já está consolidado – refletiu Siren – suponho que estejamos tranquilos para prosseguir. Ninguém viu nada de errado no que estamos fazendo.

Zaina, Phillip, Daiya e Edward foram até o laboratório do campus de Ciências Biológicas. A estudante de medicina cortou um pedacinho do comprimido detectado por Kaori, dissolveu-o em uma solução e pôs -se a olhá-lo no microscópio.

— Deixe-me ver… essa molécula tem 19 átomos de carbono… 2 de oxigênio… e 28 de hidrogênio. Parece ser um hormônio do grupo dos esteroides.

— Eu SABIA que era algum hormônio – irritou-se Phillip – deve ser algo pra controlar a personalidade.

— Pelo menos não é nada para bloquear a memória – tentou consolar Daiya. — Apesar de que eu não faço ideia se esse tipo de coisa é feita através de medicamentos.

— Pesquisando aqui no computador – continuou Zaina – o hormônio que tem essa composição química é… testosterona.

Todos fizeram silêncio, perplexos.

— Eu convivi com três Cyber-Newtypes, Wilbur, Wario e Wladimir – ponderou Daiya – e nenhum deles precisava tomar isto no coquetel.

— E eu estou longe de ser um exemplo de “macho alfa”… muito pelo contrário – comentou Phillip. — Se isso aí é testosterona, juntando com a que eu produzo naturalmente, era para eu ser quase um animal selvagem, um marombado maníaco por sexo, ou algo assim.

— Talvez o seu corpo não produza o hormônio por alguma razão – sugeriu Zaina. — Eu, por exemplo, nasci sem a glândula tireoide, e preciso tomar os hormônios.

— É, pode ser. MAS POR QUE ESCONDER ISSO DE MIM? — berrou o guarda. — Qual é o problema de eu saber que tenho algum problema hormonal? Kaori teve que fazer um esforço enorme para detectar a pílula… todo o pessoal da Watchtower não foi capaz de fazer isso… será alguma informação confidencial?

— Talvez um teste genético responda à sua pergunta – disse uma voz feminina que se aproximava da sala em que o grupo estava.

— Rebecca – cumprimentou Zaina, vendo a moça ruiva se aproximar.

— Peço perdão pela intromissão, mas eu ouvi tudo. O ideal seria, antes de mais nada, analisarmos seus cromossomos, para ver se não é esta a origem do problema. Pode existir algum gene bloqueado no seu cromossomo Y, por exemplo, algum defeito genético causado pelos processos pelos quais os Cyber-Newtypes passam. Descartada esta hipótese, podemos partir para outros possíveis diagnósticos.

— Pode fazer isso? Pode analisar meus genes?

— Sem dúvida; posso fazer agora mesmo uma pequena coleta do seu sangue, e dentro de poucos dias lhe direi o resultado.

(Música – Incerteza)

Rebecca House foi pegar o coletor de sangue, que retirava a quantidade necessária com uma “picadinha” rápida. Phillip parecia abatido.

— O que foi? — perguntou Daiya, tentando consolá-lo.

— Pergunto-me agora o que estou fazendo aqui. Estou me sentindo um idiota. Talvez o que eu tenha seja só um problema hormonal sem importância. Estou fazendo todos vocês correrem risco para descobrir uma porcaria de um problema hormonal, que não vai dizer nada sobre quem eu sou… só vai dizer que sou um homem defeituoso, algum tipo de aberração. E vou continuar depressivo e problemático como sempre fui. Talvez eu até me sinta pior do que eu me sinto hoje.

— Eu não vejo assim – respondeu a garota. — O que você fez hoje foi um ato de coragem. Foi um pequeno passo… o primeiro empurrão. Talvez o resultado realmente não seja significativo no momento, mas pode abrir portas. Com ele, você pode ir descobrindo outras coisas… até chegar na resposta que você quer.

— Esse é o problema, Daiya. Eu não faço a mínima ideia do que eu quero. Eu só sei que não quero continuar como estou.

— Já é um bom começo. Já passei por vários momentos assim, em que apenas o Nada se coloca na nossa frente, em que tudo é incerteza, em que só existe o Vazio. E a única solução nestes momentos é… abraçar este Vazio. Atirar-se no abismo como se estivesse destinada a ele, como se ele fosse toda a sua vida. Ver o Nada como se ele fosse Tudo. Eis que então, um dia… ele se transforma em Tudo.

Notas finais
Quando Rebecca vai levar o resultado do exame de Phillip, confronta-se com Estel. Arturia retorna de sua viagem à terra desolada com o estado da população do planeta. O RPG de Vigilantes de Gotham começa; Daiya, hesitante, pede para participar, mas depois se arrepende, com medo de estar invadindo o espaço do grupo sem ser desejada ali. Como progredirá a interação dela com o grupo da Watchtower, principalmente com Karma? Não perca o próximo episódio de Kidou Senshi VP Gundam! A sombra do Caos está à espreita.