— Olha só, o Trenzinho da Alegria está reunido! — comentou Wario, ironicamente.

— Por que a surpresa? — comentou Nix, secamente. — Eu senti vocês dois se aproximando, então vocês devem ter sentido o mesmo.

— É, eu também senti que vocês estavam por aí. Só queria ver como vocês estavam. Se tinham ficado mais adultos, ou continuam utópicos como sempre... sonhando com um mundinho perfeito... esquecendo-se totalmente do lado prático da vida. Pelo que eu estou vendo nas cabecinhas de vocês, infelizmente ainda é a segunda opção.

— Eu posso saber o que você estão fazendo SOLTOS, andando livremente por Arcadia? — perguntou Estel, pondo as mãos na cintura. — Porque, pelo que me lembro, vocês atacaram esta colônia. E fomos nós, os utópicos, junto com outros estudantes, que tivemos que defendê-la de pessoas sem moral, sem honra e sem senso de justiça como vocês. Que droga, Wario... você era um dos meus melhores amigos... por que se degenerou deste jeito?

— Vocês foram... inocentados? — perguntou Keisha, tentando rastrear os pensamentos dos dois recém-chegados. — Mesmo com várias testemunhas?

— Estávamos seguindo ordens, por isso recebemos uma pena branda – explicou Wilbur. — Viram nosso futuro, e perceberam possibilidade de usar nossas habilidades de outra maneira. O Esquadrão Deathscythe W4 foi desfeito. William se afastou de nós, Wladimir também.

— “Estar seguindo ordens” não é desculpa para nada desde o julgamento de Nuremberg, ocorrido na era pré espacial – ironizou Karma.

— Estávamos só trabalhando – retrucou Wario – ou você queria que eu ficasse para sempre com a vida difícil que tínhamos na Terra, Estel? Desculpe se eu não nasci com a bunda virada para a Lua como você, e não fui sorteado para estudar em Arcadia. Pra você é fácil falar em justiça, em moral... esse tipo de coisa é só pra doutrinar crianças. Depois que cresci, cheguei à conclusão de que “certo” e “errado” são coisas em que os fracos, incapazes e não ambiciosos se escoram para conseguir sobreviver. Não passam de truques de seleção natural como quaisquer outros. O que realmente existe é o que uma pessoa pode fazer, e o que ela não pode. Por mais máscaras que as pessoas coloquem nesta realidade. Isso ficou ainda mais claro para mim depois que eu me voluntariei em um laboratório e me tornei um Cyber-Newtype, tendo contato com a mente das pessoas. Aliás, Wilbur, já que você mencionou Wladimir... sabia, Estel, que ele está com aquela sua namoradinha que você chutou, a Taiga Kobayashi? E quanto à Rebecca House, vai chutá-la também, depois que você consegui-la e enjoar dela?

— Você é desprezível – exclamou Edward.

Karma fazia para o amigo insultado gestos de “acalme-se, ele quer justamente lhe ver nervoso”. Para surpresa de Estel, Daiya também tentava ampará-lo e aconselhá-lo nesse sentido.

— Eu não “chutei” ninguém – retrucou o rapaz da Terra, fazendo o máximo de esforço para não explodir de raiva. — Eu apenas percebi, com o tempo, que meu caminho não devia andar mais junto com o dela. Nunca desejei mal a ela, espero que Wladimir a trate bem.

— Ele vai cuidar bem dela – comentou Wilbur – eu até previ os dois tendo um filho. Falando nisso... você por acaso não era aquela namoradinha do William?

Ele apontava para Daiya. Esta esquecera de se ocultar enquanto tentava acalmar Estel. Encolheu-se, dando dois passos para trás.

— Acho que é ela mesma – respondeu Wario. — Mas... você não disse que ela tinha engravidado? Se sim, por que o bebê não está com ela?

— A Senhorita Inverno aqui, namorada de William Maxwell? Vocês devem ter tomado os remédios errados – brincou Ilya, referindo-se às drogas que Cyber-Newtypes deviam tomar regularmente para não sentir dores ou preservar sua sanidade mental. — Depois eu sou o piadista.

— Senhorita... Inverno?

— É, Keisha, não ficou bonitinho?

— O bebê... está morto – murmurou Daiya, tomando a frente do grupo.

Todos silenciaram bruscamente, e olharam para ela assustados, até mesmo os dois ex membros do Esquadrão Deathscythe W4.

— Depois que eu contei a você sobre a gravidez, Wilbur, e pedi que você fizesse contato com William e contasse a ele, continuei morando nas ruínas daquela colônia abandonada que vocês faziam de quartel general, esperando que ele fizesse contato assim que possível – continuou a moça. — Não houve nenhuma resposta dele. Lá mesmo eu tive meu filho, que chamei de Hector, escrevendo seu nome na gravata de um ursinho de pelúcia com que ele brincava, quase nunca largando-o. Então, um dia... um meteoro despedaçou a colônia, fazendo as ruínas desmoronarem. Lembro-me de ter visto luzes estranhas, um fluxo de energia anormal. Eu me machuquei, mas consegui sobreviver... não estava com meu filho no momento, e não pude salvá-lo. Ele, pelo jeito, foi esmagado pelos escombros. Não encontrei nenhum sinal dele, nem do ursinho. Não cheguei a ouvir nenhum choro... e, como não desenvolvi a energia Newtype, não pude procurá-lo pela presença. Então, fui desesperada atrás de Cyber-Guards, usando um sinalizador que guardei para alguma ocasião de emergência, porque a corporação não pareceu sentir que havia pessoas ali. Infelizmente, eles não sentiram a presença de nenhuma pessoa viva sob os escombros. O ursinho também não foi encontrado. Meu filho estava morto e soterrado.

— Isso... isso é horrível – falou Zaina, colocando sua mão no combro de Daiya.

— Mas como você pôde namorar uma pessoa como William Maxwell? — indagou Estel. — Não sabia de tudo o que ele fazia, de suas atividades como mercenário terrorista? Você... não colaborou com ele, colaborou? Não entenda como se eu estivesse te culpando por isso, mas...

— Eu sabia de suas atividades como soldado mercenário, junto com o Esquadrão... mas desconhecia a natureza das missões e incursões. Inclusive, quando eu contei tudo para os Cyber-Guards, eles me interrogaram, tentaram ver em minha mente se encontravam algo a respeito dele... mas não encontraram nada. Como viram que eu era inocente, contaram-me sobre as atividades ilícitas dele e do Deathscythe W4. Eu pedi para vê-lo; estava muito abalada, tanto pela morte do meu filho quanto por estas revelações. Trouxeram-me para Arcadia, pois o ataque a esta colônia havia recém acontecido. Eu precisava olhar nos olhos dele e conversar pessoalmente, querendo saber também porque ele não havia dado notícias desde que partiu da colônia abandonada. Com um restinho de dinheiro que eu tinha, comprei ingredientes para fazer um bolo, caso o encontrasse e nos consolássemos juntos.

— Acredito que você não tenha nos encontrado, pois não entrou em contato...

— Não, Wilbur, eu encontrei vocês. Num dia em que você e Wladimir estavam bebendo e conversando. E o que eu ouvi... me fez concluir que eu nem deveria estar ali.

(Música – Inverno, 3º Movimento)

— É feio ficar ouvindo conversa dos outros, sabia? — ironizou Wario.

— Cale essa sua boca imunda antes que eu te encha de pancadas – berrou Siren. — Continue, Daiya. O que eles disseram?

FLASHBACK

Com uma sacola de ingredientes para fazer bolo, Daiya andava por Arcadia a esmo, tentando procurar William ou alguém do Esquadrão Deathscythe W4. A colônia ainda estava agitada, alguns lugares bombardeados devido ao recente conflito. Viu então Wladimir Wallach andando tranquilamente, com uma garrafa de conhaque nas mãos, dando pequenos goles de vez em quando. Seguiu-o até uma pequena casa térrea, onde Wilbur estava.

— Poxa, Wladimir... é séria essa história de que você vai embora?

— Sim, eu tenho outros planos daqui em diante. Pelo que tudo indica, seremos julgados, e nosso Esquadrão será desfeito. Mas continuaremos com nossas atividades de mercenários separadamente. É uma pena, formávamos um time legal. Mas nada é para sempre. O importante... é que vencemos. Pegue um copo e tome um pouco de conhaque para comemorarmos.

— Você tá brincando, né? Nós perdemos a batalha, somos fortes, mas eram dezenas de estudantes Newtypes lutando contra nós...

— Lembra que o objetivo não era vencer, mas “dar um susto” nas pessoas? E fizemos isso muito bem, os pirralhos estão perdidos até agora! Foi divertido dar um passeio pela colônia tomando meu conhaque, sem ninguém saber quem eu era, e ouvindo vários comentários da galera apavorada e paranoica com o nosso ataque.

— Tem notícias do William?

— Não faço ideia.

— Será que ele voltou para aquela ex-namoradinha dele? Espero que não, ele consegue arranjar coisa melhor.

— Bom, fui eu que o aconselhei para namorar uma garota não Newtype. São boas para se divertir, porque não ficam adivinhando nossas intenções. Podemos sumir da vida delas a hora que quisermos. Lembro que, há alguns meses atrás, você me disse que ela tinha engravidado...

— Sim, a própria Daiya me contou, pedindo para eu dizer ao William. Eu disse, e é claro que ele não gostou muito da ideia. Ter filhos não estava nos planos dele... não no momento, pelo menos. Eu o aconselhei a se afastar definitivamente dela; ele já estava pensando em fazer isso mesmo, e agora seria a hora perfeita. Depois de alguns anos, quando a criança já estivesse grandinha, ele poderia aparecer e se identificar como pai.

Daiya ouviu tudo aquilo em silêncio, tremendo de angústia. Não, eles não saberiam que seu amado bebê havia morrido. Não, eles não mereciam que ela fizesse um bolo. Respirou fundo, afastou-se dali a passos pesados e, depois de muito andar, sentou perto do lago (o mesmo lago onde estava no momento presente). Lembrou-se dos ingredientes que comprara. O que ia fazer com eles? Como iria sobreviver ali? Estava agora completamente sozinha. Resolveu então procurar alguma casa vazia que tivesse fogão e utensílios de cozinha, para preparar o bolo mesmo assim, para tentar vender, e recuperar o dinheiro que gastara.

FIM DO FLASHBACK

— Daiya – perguntou Estel – tem ideia do que Wladimir quis dizer quando ele disse que o Deathscythe W4 “venceu”? É quase como se... alguém estivesse por trás do ataque.

— Pelo que me lembro – comentou Kouga – os Cyber-Guards e investigadores Newtypes do caso não encontraram nenhum mandante na mente de nenhum dos quatro, então concluíram que a ação foi de iniciativa própria do Esquadrão.

Edward Oleg lançou um olhar de desdém e descrença. Nix fechou os olhos e tentou sentir algo, não encontrando nada suspeito.

— É... eu realmente não sinto em vocês nada do que todos já sabem.

— E depois de termos sido vencidos pelos estudantes, e julgados – exclamou Wilbur – estamos aqui numa boa, nos divertindo, sem culpa e de cabeça erguida.

— Exatamente, bem lembrado – completou Wario. — Não ficamos aqui choramingando nossas derrotas, encolhendo-nos ou escondendo-nos, com medo ou vergonha do nosso passado (olhava para Daiya enquanto falava isto). Agimos como adultos psicologicamente desenvolvidos que conseguem se responsabilizar pelos próprios atos, não colocando a culpa de nossas desgraças em ninguém além de nós mesmos. Veja o caso de Daiya, por exemplo. O que houve com ela foi uma fatalidade? Foi. William estava ausente, e poderia prever a tragédia com seus poderes Newtype, evitando-a? Poderia. Mas, por mais que tente fugir, Daiya sabe que a culpa da morte do bebê foi exclusivamente dela, pois não conseguiu protegê-lo na hora. Sabia muito bem que William não estava lá, sendo totalmente dela a responsabilidade pelos cuidados com seu filho. No mundo real, tudo é mérito, meus caros. Tudo é sucesso ou fracasso. O que você tem depende da sua capacidade de se adaptar à realidade. Não existe “tentativa”, não existe “boa intenção”; estas são apenas abstrações que desviam as pessoas da verdade. Se Daiya foi abandonada pelo seu ex-namorado e perdeu seu filho, foi porque ela não teve sucesso em se adaptar às circunstâncias de sua vida. Quando ela entender isso, vai parar de ficar tentando se esconder do passado, vai amadurecer e vai finalmente ter sucesso em seus empreendimentos. Coisa que ela não conseguirá se ficar andando com Polianas desvairadas como você, Estel.

O rapaz da Terra estava espumando de raiva, e estava a ponto de espancar o ex-amigo até não aguentar mais. Karma se antecipou a isso, e andou alguns passos na direção de Wario.

— Escolha – perguntou o rapaz loiro – direita ou esquerda?

O ex-Deathscythe W4 olhou para ele sem entender.

— Como assim, “direita ou esquerda?” Não estou conseguindo sentir o que você quer dizer com isso, Von Deikun.

— Direita ou esquerda? — Karma repetiu a pergunta, colocando os braços na cintura.

— Bom, seja lá que loucura for essa... direita, eu escolho direita, se isso te sossegar.

Levou um tapa fortíssimo no rosto com a mão direita, quase sendo derrubado. Wilbur segurou o colega, dizendo:

— Admiro-me de nenhum Cyber-Guard ter detectado isto, e não ter vindo abortar o confronto físico. Acho que já vamos... eles perderam a razão porque não tem argumentos contra nós, estão em maior número, além do fato de haver dois lutadores de Mobile Fighter entre eles.

— É, Wilbur, vamos indo. Confesso que eu já estava me entediando. Mas vamos ver daqui a alguns anos, na próxima guerra, quem vai virar bucha de canhão: nós, guerreiros experientes que sabem como a vida funciona de fato, ou os ursinhos carinhosos guardiões da justiça.

Viraram as costas e se afastaram. Estel ainda queria bater nos dois, dando alguns passos em direção a eles. Zaina segurou seu braço.

— Não vale a pena, deixe eles irem. Continuar essa discussão não vai trazer nada de bom pra ninguém... principalmente para a Daiya.

(Música – Tema gentil de Daiya – Inverno, 2º Movimento)

Estel fitou o olhar assustado e murcho da vendedora de bolos, e viu que Zaina tinha razão. Pediu desculpas.

— Quando eu me deixo levar pela raiva, eu tenho medo de mim mesmo. Tenho medo de, pelo impulso, machucar pessoas em minhas crises de ira. Perdoe-me, Daiya, perdoe-me.

— Soltar sua ira faz bem – sorriu a vendedora de bolos, com a voz terna e calma, colocando a mão no ombro do rapaz – desde que essa ira nunca faça você se esquecer de quem realmente é, de quais são os seus verdadeiros propósitos. Coloque-a a favor do seu verdadeiro Eu, não contra.

— Eu me lembrarei disso, Daiya, prometo. Muito, muito obrigado – respondeu o rapaz, tremendo um pouco, com o rosto ainda vermelho e quente do seu momento de raiva.

— Do jeito que Wario falou – comentou Edward – até parece que ele “sabe” que vai haver uma guerra daqui a alguns anos, tendo certeza absoluta disso. Sendo que a Princesa Arturia de Neo Zeon está fazendo todo o possível para evitar conflitos, preservando a prosperidade do povo.

— Você vive falando nela, até parece que você tem uma “queda” pela princesa Zabi – disse Nix. — E sim... vai haver uma guerra daqui a um tempo. Às vezes sinto isso... de maneira remota ainda, mas sinto. Temos poucos anos de paz pela frente.

Todos ficaram em silêncio por alguns segundos.

— O que eu me pergunto agora – desconversou Karma, executando seu tique de colocar a mão no queixo – é como Wario não percebeu qual era minha intenção quando eu perguntei “direita ou esquerda”. Ele é um Cyber-Newtype bem treinado, perceberia facilmente em minha mente o que eu pretendia. Bom, talvez porque eu seja tão magnânimo, tão poderoso, esteja realmente destinado a conquistar o Mundo e ser o Supremo Senhor de toda a Existência! Minha energia Newtype está tão forte, que consigo controlar e perceber tudo à minha volta, e...

Nisso, deu um passo para trás, tropeçando na perda de Daiya, que estava estendida. Como foi pego de surpresa, perdeu completamente o equilíbrio, e caiu no lago. Todos gargalharam.

— Consegue perceber e controlar tudo à sua volta, é? Tem certeza? — zombou Keisha.

— E agora, Sr. Ex-Futuro Supremo Senhor de toda a Existência – brincou Ilya, imitando a apresentadora e dona da TV Orwell, Carlotta Kane, estendendo um microfone imaginário para Karma – diga-nos, como se sente no momento da sua queda?

— Você fez de propósito – exclamou Karma, apontando para Daiya, ainda sentado na parte rasa do lado, com água até a metade do seu tronco. — Confesse, você fez de propósito.

O rapaz disse isso em um leve tom brincalhão, mas Daiya quase entrou em pânico por causa do sentimento de culpa que a acometeu.

— N... não, eu juro, não fiz de propósito, não fazia ideia de que você podia tropeçar em mim! D... deixe-me eu te ajudar a levantar... eu... não quis fazer isso... mil perdões, Karma, desculpe-me, desculpe-me!

Estendeu as duas mãos para Von Deikun levantar, o que ele fez com alguma dificuldade. Assim que se recobrou totalmente, apontou para Daiya e disse:

— Eu te odeio. Perdoo você, sei que não fez de propósito, mas te odeio.

— Bom... falemos de coisas mais agradáveis – disse Siren para a vendedora de bolos. — É uma pena que você não tenha vindo da Colônia dos Doces. Veio da Lua, não é? De que cidade?

— Da cidade de Anaheim. Meu pai era engenheiro de Mobile Suits da Anaheim Electronics.

— SÉRIO? Sério que você é de lá? — exclamou o baixinho de cabelos pretos ondulados, empolgadíssimo. — Então... você deve saber algo sobre o projeto Turn A!

Ninguém percebeu, mas Daiya tremeu de angústia ao ouvir a expressão “projeto Turn A”.

— Lá vem você com essa sua obsessão de novo – ralhou Nix, suspirando de impaciência. — Quantas vezes eu tenho que te dizer que esse projeto foi uma farsa?

— Não pode ter sido uma farsa, não depois do poder destrutivo dele ter sido tão divulgado. Eu me recuso a acreditar nisso. Um dia eu quero ter algo com aquele nível de poder nas minhas mãos! Nano partículas que fazem praticamente qualquer material virar poeira! Conte-nos, Daiya. Deve ter acompanhado isso de perto, deve saber de algo que ninguém mais sabe!

— Eu... não sei de nada além do que todos sabem – desconversou a moça. — Sinto desapontá-lo, Siren, mas eu era uma criança, não me interessava pelos assuntos da fábrica.

— Eu também era uma criança, e me interessava – retrucou o baixinho.

— Ela realmente não sabe de nada, seu bobão – exclamou Karma, depois de fechar os olhos e tentar ler os pensamentos de Daiya. — Não há nada na mente dela sobre isso.

— Droga – berrou Siren, dando um soco no ar. A vendedora de bolos reprimiu um suspiro de alívio. — Mas não importa. Se ninguém inventou as nanopartículas, eu vou estudar muito, e um dia vou inventá-las! Vou criar o melhor Mobile Suit que já existiu até hoje!

(Música – Tsuki no Mayu – tema heroico de Daiya)

Logo, o grupo mudou de assunto novamente. A moça estava em silêncio, prestando atenção na conversa, mas sua mente estava longe. “Desculpem-me, meus amigos”, pensava ela, “mas isso eu não posso contar a vocês. É um segredo mortal demais para ser revelado”.

FLASHBACK

Após correr um bom tempo sem ver para onde estava indo, a pequena Daiya parou para descansar e olhou o horizonte, depois de sair correndo da sua casa fugindo da ambulância que veio levá-la para um laboratório Newtype, chamada pelos seus pais. Ainda não fazia ideia do que poderia fazer naquela situação: não queria voltar para casa, mas ao mesmo tempo tinha medo de virar uma menina de rua, viver sozinha. Viu, ao longe, os contornos da sede da Anaheim Electronics, lugar onde seu pai, George Winter, trabalhava. Resolveu entrar lá, para dar uma última olhada no homem, se realmente decidisse sumir no mundo. Entrou no complexo subindo pelos tubos de ventilação, sem ser detectada ou vista pelos Cyber-Guards. Após muito engatinhar pelos tubos, finalmente chegou à sala de seu pai, que estava com a mesa toda bagunçada com anotações numéricas. Mexia em um aparelho que emanava ondas de luz iridescentes, alternando os testes práticos com as anotações. Às vezes, colocava materiais aleatórios em contato com a luz iridescente, e ficava zangado porque supostamente o experimento não estava dando certo. Ficou fazendo isso por um bom tempo, até que, finalmente, depois de muitos ajustes na fórmula matemática e no aparelho, George colocou uma enorme viga de aço em contato com a energia que emanava do aparelho, e ela virou pó. O mesmo ocorreu com um lote de tijolos, e um pedaço de carne. O engenheiro gritou de júbilo, gargalhando, eufórico.

— Eu consegui! FINALMENTE CONSEGUI! Enfim, serei o grande gênio do projeto Turn A! Sempre soube que dava para aproveitar minha criação, as nanopartículas de regeneração do Mobile Suit de alguma outra maneira. Invertendo sua lógica de funcionamento, elas passam a desintegrar, ao invés de regenerar a matéria. Através desta fórmula que criei, é possível fazer isto. Esta energia desenvolvida em grande escala... sendo usada como uma arma de destruição em massa pelo piloto do Mobile Suit... pode destruir cidades inteiras em alguns minutos! E sem deixar a terra infectada por radiação, que é a desvantagem das armas nucleares. É só construir uma versão maior deste aparelho aqui. A forma com que a luz iridescente se irradia lembra as asas de uma borboleta... então vou chamar esta técnica de... Moonlight Butterfly. Uma arma bela e letal. Serei o engenheiro mais famoso da Anaheim Electronics de todos os tempos! Pessoas tremerão só de ouvir meu nome! Nações inteiras se curvarão perante a minha criação!

George Winter dizia tudo isso em estado de epifania, quase como se estivesse possuído pela sensação de poder. O coração da pequena Daiya se apertava ao ver seu pai tão feliz por estar prestes a virar um genocida. Conforme ele falava e se empolgava com seu projeto, destruindo com a Moonlight Butterfly praticamente todos os objetos que estavam na sala, a tristeza da menina se transformava em determinação. “Não posso deixar”, pensava ela, “não posso deixar que o papai vire um assassino. Eu... tenho que sumir com essa máquina e com essa fórmula. Você vai ficar triste... vai ficar bravo... mas é para o seu bem, papai. Vou fazer isso porque te amo. E também porque não quero ver pessoas morrendo por causa da arma que você inventou”.

Quando tinha certeza que Moonlight Butterfly estava funcionando, o engenheiro foi chamar o presidente da empresa para mostrar seu progresso. Daiya tinha que agir rápido, pois se o comando da empresa visse o experimento e o analisasse, estaria tudo acabado. Saiu do tubo de ventilação, usando um objeto pesado para quebrar o aparelho em alguns pedaços. Derramou um vidro inteiro de ácido concentrado em cima de cada um dos pedaços do aparelho, fazendo-o virar um monte de metal disforme, impedindo assim que as nanopartículas o regenerassem. A menina ouviu, então, passos apressados indo até o escritório; provavelmente alguém ouviu o barulho feito ali. Então, ela pegou rapidamente os papeis da fórmula de funcionamento do equipamento, e entrou novamente no tubo de ventilação, bem a tempo de se ocultar novamente. Sumiu dali, com medo de que alguém a pressentisse e encontrasse a fórmula. Quando George Winter entrou na sala, não encontrou seus papeis e viu seu precioso invento reduzido a um monte de metal disforme, quase enlouqueceu. Fechava os olhos e tentava se concentrar para encontrar os estudos da fórmula das nanopartículas, mas não conseguia sentir sua localização de forma nenhuma. Exclamava, em desespero:

— Eu... fui... sabotado! Não ouviu o barulho, Sr. Louis Anaheim? Alguém invadiu minha sala e destruiu meu projeto! Provavelmente algum colega que detectou mentalmente o que descobri e quis destruir por inveja.

O jovem CEO da empresa fitava o engenheiro com frieza e descrença.

— Nem eu nem os Cyber-Guards conseguimos sentir a presença de outra pessoa além de você nesta sala, tampouco não encontramos sua tão falada fórmula das nanopartículas. Só estou vendo muito pó e pedaços de metal derretido por ácido. O que me resta acreditar... é que você está louco, e seu tão falado projeto Turn A nunca existiu de fato. Ou você está brincando comigo. E aqui não toleramos esse tipo de brincadeira, Sr. Winter, somos uma empresa séria.

— Não! Não! NÃÃÃÃÃO!

Daiya voltou a correr para longe de sua cidade natal, novamente sem rumo. Corria olhando para as fórmulas escritas nos papeis, desejando ardentemente que ela fosse esquecida por todos. Tinha em suas mãos algo que podia destruir o mundo, e por mais que tivesse medo de viver por sua conta dali por diante, sabia que era o que precisava fazer para salvar a todos. Não podia deixar que ninguém encontrasse aqueles números mortais em sua mente. Tinha que viver sozinha, deixar de ter contato estreito com pessoas. Assim que se afastou o suficiente da cidade, fitou os papeis por mais alguns minutos, e queimou-os.

No dia seguinte, os jornais bombardeavam manchetes sobre o ocorrido: “Projeto Turn A: uma Farsa”, “Anaheim Electronics aterroriza população em vão”, “Engenheiro da Anaheim Electronics enlouquece e se suicida”. Refugiando-se da chuva embaixo de uma marquise de loja, a pequena Daiya usava estes jornais como seu cobertor. Uma tímida lágrima escorria de seus olhos antes que ela adormecesse.

FIM DO FLASHBACK – Dias depois, Side 3, reino de Neo Zeon

— Que bom que você finalmente está dormindo melhor, Karma – dizia o pai do menino, Julius Von Deikun. — É só parar de fritar seu cérebro com videogames que você passa a dormir melhor.

— Não é isso, pai. Que mania que você tem de botar a culpa de tudo nos meus jogos. É que os pesadelos que eu tinha com a borboleta gigante destruindo o mundo pararam. Não sei por que, mas pararam. E espero que não voltem nunca mais.

Notas finais
No próximo episódio: Daiya finalmente se une ao grupo de amigos da Watchtower. Como irá se desenvolver seu relacionamento com as pessoas do grupo, em especial com Karma? Após o último dia das provas, a TV Orwell traz, como atração para os estudantes de Arcadia, a talentosa violinista Kaori Angel, que se apresentará na boate Wonderland. Este encontro promete ser muito mais do que apenas uma apresentação musical, principalmente para Nix Cello. Não percam o próximo episódio de Kidou Senshi VP Gundam! A sombra do Caos está à espreita.