— É, meu personagem vai ser um daqueles detetives à moda antiga, com um cachorro companheiro.

(Música – Tema de Arcadia)

— Ideia muito boa, Kouga. O meu vai ser um pirata que faz trabalho de detetive particular ocasionalmente; espero que Estel deixe-me ter um navio no jogo.

— Vai deixar, Edward – sorriu o outro – só que esse navio precisa de um nome. E, pelo que estou sentindo, você ainda não faz a mínima ideia do nome que dará para ele. Pense em algo aleatório de que você gosta muito, e adapte para o nome do navio.

“Algo de que eu gosto muito?”, refletia Edward Oleg, em silêncio. Fechou os olhos, e a primeira figura que lhe veio à cabeça foi a princesa Arturia de Neo Zeon. Pensou no quanto gostaria de protegê-la se os boatos sobre uma possível nova guerra se cumprissem. Lembrou-se então da história da antepassada da princesa, Mineva Lao Zabi, e Banagher Links.

— Eu pensei em… Unicórnio – murmurou o rapaz – mas só Unicórnio não parece bom, seria bom eu adicionar algo mais ao nome.

— Unicórnio Zumbi? — sugeriu Kouga.

— Mas por que “zumbi”?

— Porque zumbis são legais, e metem medo. Esse nome lembra um pouco as lendas de navios fantasmas. Sou suspeito em dizer isso, pois você sabe que adoro histórias de terror.

— Soa bem… acho que vou ficar com sua sugestão.

— E, falando em piratas, Edward… acho que você se esqueceu da minha encomenda.

— É verdade – respondeu ele, dando um tapinha na testa. — Desculpe, Kouga… eu resolvi entregar para você depois, para despistar o rastreamento dos Cyber Guards… e acabei esquecendo. Vou pegar.

Foi para o seu quarto, e voltou com algumas caixas de remédios.

— Você é meu salvador, cara – exclamou Kouga, pegando as caixas de remédios. — Se não fosse por você, teria que pagar um preço bem mais caro pelos remédios da minha mãe.

Karma entrou na sala da cobertura da Watchtower naquele momento, e comentou:

— Mas… isso não é contrabando?

— Quem se importa? — responderam Edward e Kouga, juntos.

— É que não sinto remorso nenhum nos sentimentos de vocês por estarem fazendo algo contra a lei, e isso me incomoda um pouco. A Ordem existe por um bom motivo. Mas quando eu conquistar o Mundo – retrucou Karma – esse tipo de ato ilegal não será mais necessário.

Daiya estava na oficina de Siren com seus bolos; Karma pediu para ela aguardá-lo ali, para comprar os doces.

— A reunião sobre o RPG do Estel será hoje, não é?

— Sim, Daiya, hoje à noite, na Watchtower. Quer ir?

— Bom, Siren… eu não fui convidada…

— Ué, eu estou te convidando.

— Mas é Estel quem está organizando, e ele não me convidou diretamente. Então… acho melhor eu não ir, não quero invadir o espaço de vocês. Até comecei a pensar em um personagem, mas…

— Olha, Daiya, o Estel pode ter sobrenome italiano e pavio curto, mas ele não morde. Tenho certeza que, se você pedir com jeito, ele vai deixar. E como é a sua personagem?

— É uma mestra dos disfarces; em batalha ninguém conhece seu verdadeiro rosto. Suas armas principais são adagas de vidro, para não serem detectadas pelos rastreadores de metais que existiam antigamente, e um leque, que não aparenta, mas é um leque de batalha.

— Ah, aqueles leques de artes marciais? Que irado! Eu acho que Estel iria gostar, entra bem na ideia dele de mergulharmos fundo em um universo onde ainda não existiam Newtypes. Afinal, disfarces físicos seriam algo que hoje não funcionaria de jeito nenhum.

O rapaz de cabelos pretos continuou mexendo nas peças da sua oficina. Ouviu seu computador (que ele mesmo tinha construído com sucata) sinalizar que um e-mail havia chegado. Quando terminou de ler a mensagem, entrou em estado de fúria e arremessou na parede um motor quebrado.

— Siren, o que foi?

— Malditos! MALDITOOOOOOS!

Como não conseguia fazer com que o amigo desse respostas racionais, Daiya resolveu espiar a mensagem. Era um e-mail da mãe do garoto; dizia que a negociação com o banco havia falhado, e se algo urgente não fosse feito ou o dinheiro fosse conseguido, em poucos meses a família perderia a casa. Daiya resolveu, então, esperar a raiva de Siren passar, para então tentar confortá-lo. Quando ele, exausto, sentou-se no chão da oficina, encostando-se na parede, foi abraçado pela moça. Ele não rejeitou o gesto de apoio, mas também não correspondeu a ele, permanecendo inerte, focado em sua frustração.

— Quer… um pedaço de bolo? Não precisa pagar – ofereceu Daiya. O rapaz pegou o bolo, comeu-o; pareceu ficar um pouco mais calmo, mas ainda estava com o olhar vazio, como se estivesse possuído. Conseguiu proferir algumas palavras:

(Música – Chagas da Guerra)

— A última guerra destruiu a antiga casa da minha mãe. Meu pai disse a ela que ia ajudar a pagar as taxas e empréstimos… até que, um belo dia, ele sumiu. Então estamos tendo que nos virar como podemos para conseguir quitar esta dívida, mas nunca conseguíamos o suficiente. Tentamos recentemente uma última negociação para diminuir o valor das parcelas, mas… pelo visto, não deu certo. Desse jeito, vou ter que largar meu trabalho e estudos aqui em Arcadia… e procurar outra ocupação mais rentável. Como eu pelo jeito nunca me tornarei um Newtype, minha estada aqui nessa colônia é inútil… tão inútil quanto eu.

Daiya sabia que, nestas horas, palavras eram inúteis. Dizer “você não é inútil” não adiantaria nada, não iria resolver o problema. Então, simplesmente sentou-se ao lado dele e ficou em silêncio. Resolveu então, para aliviar e distrair o amigo, puxar seu assunto preferido: engenharia de Mobile Suits.

— Siren – perguntou ela – como seria o Mobile Suit perfeito para você? Já pensou nisso?

(Música – Tsuki no Mayu – tema heroico de Daiya)

— Antes de mais nada: teria o formato de algum ser mitológico. Um dragão, uma esfinge, uma fênix, um deus… isso traria confiança para o piloto, e seria algo importante para tornar o Mobile Suit conhecido e temido. E, é claro, teria que ser branco, para carregar o manto do “White Devil”. Seria totalmente branco, a meu ver; talvez com alguns detalhes em prateado. Seu maquinário possibilitaria que ele se transformasse em nave e pudesse viajar pelo espaço de maneira independente, sem precisar pertencer à tripulação de uma nave de comando. Eu colocaria estratégias antigas, como o uso de balões dummy e um potente emissor de partículas Minovsky; prevenção nunca é demais, nunca se sabe quando a percepção dos Newtypes não estará boa e os pilotos tentarão usar métodos antigos de rastreamento. Aliás, eu estenderia o uso do balão para o próprio Mobile Suit; assim ele poderia assumir diferentes formas para se esconder, tomando a forma de um asteroide, ou até de um caça inimigo. Para economizar combustível e alimentar a energia do armamento, haveria placas de bateria solar, o que possibilitaria trajetos longos. Como arma, eu colocaria algo simples: um sabre laser simples de uma mão de um lado, um Beam Rifle do outro. A simplicidade nos equipamentos aumenta a eficiência, a meu ver, além de fazer o inimigo subestimar você.

— Colocaria funnels?

— Não. Funnels são inúteis se você não tiver um nível Newtype muito elevado, ou se você não conseguir prestar atenção neles e no inimigo ao mesmo tempo. Para a maioria dos pilotos, só atrapalham. Este Mobile Suit não seria algo destinado a um Newtype fodão; não teria sistema Psycommu, ou Psyco-Frame. Seria algo feito para qualquer pessoa determinada, até um terráqueo Oldtype obsoleto como eu, conseguir tornar-se um piloto de elite e chutar muitas bundas, seja no espaço, seja na Terra. Aliás, algo importante seria meios mecânicos de adaptar a máquina para ambos os ambientes.

— Colocaria mais algum armamento além da espada laser e do Beam Rifle?

— Colocaria uma coisa legal que até hoje não vi em lugar nenhum: garras. Garras laser. Seriam algo interessante caso haja choque físico de máquinas, e, como é uma arma contra a qual Newtypes não estão acostumados a lutar, funcionaria como elemento surpresa. Seria algo também muito útil se o piloto perdesse o sabre por algum motivo, ou acabasse a munição da arma de longa distância. Outra coisa divertida seria… um arco e flecha adaptado para Mobile Suits. Muitos subestimariam por ser uma arma “pré-histórica”, e aí estaria o trunfo: o psicológico do piloto adversário ficaria seriamente abalado ao ver a derrota sendo desencadeada por uma arma dessas. Newtypes são particularmente sensíveis a nível psicológico, portanto abordagens nesse sentido fariam um bom efeito. E, por último e não menos importante: as nanopartículas do projeto Turn A. Como seria um Mobile Suit que faria muitas missões solitárias, seria importante que tivesse aquele sistema de autorregeneração, para não depender de mecânicos externos. E, é claro, o modo de destruição das nanopartículas, que conseguem transformar qualquer matéria, orgânica ou inorgânica, em poeira.

— Moonlight Butterfly – murmurou Daiya, sem que o amigo ouvisse.

— Desculpe, você disse algo?

— N… não, Siren, eu não disse nada, só estava tentando visualizar o que você estava dizendo – desconversou ela. — Como o projeto Turn A nunca foi visto em ação, eu não faço ideia de como seria…

— Eu também não faço ideia. Mas gosto de imaginar. E adoraria ver isto funcionando um dia, mesmo sabendo que a tecnologia para este Mobile Suit seria caríssima e muito avançada; algo dispendioso até mesmo para a própria Anaheim Electronics.

Os negros e abissais olhos de Siren brilhavam de satisfação no final da conversa. “Pelo menos a ideia do projeto Turn A serviu para algo bom”, sorria Daiya, satisfeita por ter conseguido aliviar um pouco, pelo menos por alguns momentos, a tristeza do amigo.

(Música – O esplendor do espaço; passam belas imagens da Via Láctea, da Terra, da Lua, para depois focalizar na colônia de Neo Zeon)

Após o retorno de sua visita à Terra, a princesa Arturia reunia-se com seus colaboradores.

— Isso é inadmissível – esbravejava a moça, dando uma palmada na mesa. — Tudo o que minha mente detectou na Terra foram lamentos, desolação, desespero por ajuda… havia coisas boas ocorrendo, mas as emoções ruins eram bem mais fortes e presentes. Quando me viam, era como se vissem em mim alguma esperança… sem falar nada, era como se implorassem pela minha ajuda.

— Depois da guerra contra os Iluminati, a Terra está sendo regida por um governo provisório sob a tutela de Axis, o grande vencedor da guerra – explicou Donner Turm, empresário do ramo imobiliário. — Interferir seria algo visto com maus olhos pela política externa, seria intervencionismo.

— A organização de Cyber-Guards faz o que pode para manter a ordem e segurar a ordem de violência – explicou-se Johanna Flanagan, líder do Instituto Flanagan, centro de pesquisa especializado em Newtypes – mas não podemos fazer nada em relação aos procedimentos políticos necessários para a melhoria dos cidadãos da Terra. Seria uma violação das liberdades democráticas.

— Mas… porque os processos necessários à melhoria da vida do povo demoram tanto? — questionou a princesa. — Não podem agilizar o trâmite? Enquanto o serviço público discute os projetos, há pessoas passando necessidades!

— Esse é o proceder de uma república – explicou Solomon Gato, didaticamente. — Os processos são demorados para não silenciarem ninguém que deseja opinar. Afinal, uma república deve dar voz a todos.

— Mesmo que o preço dessa demora seja a carência do povo?

— Sim, Hime-Sama. Em um governo republicano, a liberdade é o princípio supremo, e está acima de todos os outros. Para os defensores deste regime, a aceleração dos processos políticos seria nociva para o povo, pois silenciaria vozes que defenderiam interesses possivelmente legítimos.

Desta vez, Arturia ficou em silêncio, refletindo sobre o fato de um governo republicano ser na verdade algo ruim para os cidadãos, sustentando-se sob uma bandeira demagógica de liberdade. Seria Neo Zeon uma nação próspera porque era… uma monarquia?

— Falando sobre Axis e República… sabem de algo sobre as eleições em Axis Zeon?

— Parece-me que Yu Wong vai ganhar este ano – respondeu Feliz Samsara, um importante líder religioso. Ele perdeu as duas últimas eleições, mas este ano os fiéis pressentem que a vitória será dele.

— Ele é o candidato da Anaheim Electronics, não é? Qual é a posição dele em relação à Terra? — perguntou Kimberly Kagachi, empresária líder do ramo de mineração.

— Como Wong é o candidato apoiado pela minha principal concorrente, tenho-o acompanhado de perto – comentou Solomon Gato. — Pelo que tenho visto… ele não possui grandes planos em relação à Terra. Deseja deixá-la como está; acha que interferências só irão piorar ainda mais a situação, enfraquecendo a recente democracia que tenta se instalar no planeta.

Arturia nada disse; apenas fechou os olhos e colocou as duas mãos sobre o rosto, recordando-se das mensagens mentais de apelo que recebia em sua visita.

— Olha, Karma, não sei se posso aprovar esse seu personagem.

— Por que não? Ah, já entendi – disse o garoto para Estel, detectando a resposta na mente deste. — Você acha que um advogado com um bracelete detector de mentiras e um pingente que detecta se alguém está escondendo um segredo é algo equivalente ao poder Newtype.

— Exatamente. E eu resolvi fazer este RPG de Vigilantes de Gotham com o intuito de imaginar um universo SEM esse tipo de habilidade. Parece que você criou um personagem assim como desculpa para não desgrudar da sua intuição.

— Deixe-o fazer dessa forma – comentou Kaori, maliciosa – será algo no mínimo interessante. Ao menos para mim, será divertido e muito satisfatório derrotar um personagem com intuição sobre-humana em um universo onde isto praticamente não existe.

— Agora entendi porque fez uma vilã – falou Edward. — Combina com você.

— Vilã e dona de um puteiro – zombou Karma.

— Não me faça querer cortar a cabeça do seu personagem e colocá-la de enfeite em um vidro de formol, escrevendo BOATE na testa com o sangue.

— Você tem um ponto – sorriu Estel – será interessante ver como os outros personagens lidam com isso. Acho que vou aprovar o tal “Dr. D”.

— Daiya, seu bolo é realmente muito bom – exclamou Keisha, com o redor da boca todo sujo de recheio de chocolate. — Devíamos ter encomendado dois bolos para comermos hoje, não um só.

(Música – Tema melancólico de Daiya)

— Talvez na próxima sessão ela traga mais um bolo, se você não se sujar todo e não falar de boca cheia, não é, Daiya? – resmungou Christine. — Daiya... que cara é essa? Está tudo bem?

A vendedora de bolos estava em um assento isolado do sofá arredondado da sala, constrangida por ter ido ao encontro sem ser convidada. Amassava e rasgava um pedaço de guardanapo em vários pedacinhos, sentindo-se ansiosa. Não tinha coragem nenhuma para dizer que também havia criado uma personagem para o RPG; achava que assim estaria forçando a entrada em um lugar que não lhe pertencia. Isso principalmente porque notava que Karma, apesar de dar demonstrações de abertura e amizade, às vezes parecia se sentir incomodado com a presença dela, agindo com certa frieza.

— Não, não é nada, só estava… fazendo algumas contas sobre meu capital para compra de ingredientes, calculando quanto ganho por encomendas ou vendas imediatas…

— Agora não é hora de pensar em contas – disse Estel, colocando a mão no ombro da amiga – é hora de relaxar, de curtir. Sei que deve ser difícil para desligar-se de seus problemas… mas estamos aqui, gostamos de você e tentaremos te animar.

— Aproveite e conte a ele sobre sua personagem – sugeriu Siren – vai ajudá-la a se distrair.

A sugestão do rapaz baixinho de cabelos pretos e bagunçados teve em Daiya o efeito de um alfinete gigante espetando-a de súbito. Levantou bruscamente e deu um tapa no rosto de Siren, olhando feio para o amigo. Tentou consertar o problema, recompondo-se e disfarçando:

— N… não foi bem isso que eu lhe disse na oficina, Siren. Você me relatou o objetivo do encontro, e eu comentei que tipo de personagem eu faria se algum dia eu jogasse RPG.

— Conte-me – pediu Estel, sorrindo – você me deixou curioso.

— N… não vale a pena, não foi… não foi nada importante. Eu só disse que seria um personagem furtivo, que usaria sutileza e sedução como armas, teria cabelos ruivos, olhos cinzentos, usaria um colar de lua crescente dado de presente por seu namorado que morreu em um incêndio, teria poderes de congelar uma pessoa em dez segundos se fixasse o olhar…

— Ou seja, você de fato criou uma personagem – concluiu o mestre do RPG. — Olha, confesso que eu não esperava sua entrada, isso me pegou desprevenido… mas eu vejo se consigo te encaixar. Mestrar uma história par Newtypes exige que eu seja um ás na arte do improviso… e eu não estaria preparado para comandar este jogo se eu não aceitar este desafio. Surpresas me estimulam. Assim que possível, dê para mim mais detalhes sobre sua personagem.

Daiya quis chorar; só não saiu correndo porque não queria deixar transparecer seu estado emocional. Deu mais uma olhada furiosa e machucada para Siren, e se não tivesse o autocontrole enorme que tinha, teria realmente chorado na frente de todos. Fingiu que se sentia melhor e mais tranquila, apesar de ser o contrário, e voltou a sentar-se no sofá. Siren percebeu que a moça ainda não estava bem, e desculpou-se:

— Sei que você está se sentindo traída por mim, e com razão. Só fiz isso para tentar te ajudar, para “quebrar o gelo”, mas pelo jeito acabei atrapalhando. Ah, eu não presto para nada mesmo…

— Não, Siren. Você não tem culpa nenhuma. O problema sou eu. Eu… não deveria nem estar aqui, para começo de conversa. Estel me aceitou no jogo por educação, ou por piedade.

Nisso, a porta do apartamento se abre; era Rebecca.

— Phillip, senti que você estaria aqui escoltando Kaori. O resultado do seu exame genético acabou de sair, e eu quis entregá-lo a você o quanto antes.

O Cyber-Guard levantou-se em um salto, arrancou o exame da mão de Rebecca, pôs-se a ler os textos e a olhar as fotografias microscópicas, mas não compreendeu quase nada.

— Como… como você entrou aqui? — murmurou Estel, com os olhos arregalados de tensão.

— Aposto que para ESSA surpresa você não estava preparado – murmurou Kouga, irônico.

— Tenho a chave. Já morei aqui, lembra? — retrucou a estudante de medicina, ríspida. — Enfim, vamos ao que interessa. Phillip, não encontrei nenhuma anomalia nos seus cromossomos. Seu cariótipo é o de um ser humano normal… ou, melhor dizendo, de uma mulher normal.

— Como assim? Que brincadeira é essa? — exclamou o guarda, quase sacudindo Rebecca.

— Seus cromossomos sexuais são XX. Isso quer dizer que, geneticamente, você é uma mulher.

— Provavelmente quem receitou seu coquetel sabia disso – completou Zaina – por isso receitou testosterona a você.

Phillip ficou estupefato, e não conseguia dizer nada. Todos ficaram em silêncio, respeitando o momento chocante. “Eu… uma mulher?” pensava o rapaz de cabelo rosado, olhando para suas mãos e o seu corpo. Depois de muito repetir a frase mentalmente, rasgou o exame em vários pedaços e jogou no chão.

— O que você fez, seu animal? — berrou Estel, furioso. — Rebecca arriscou-se para fazer este exame para você, sabendo que poderia sofrer sanções ou até ser presa por conspirar contra os Cyber-Guards! Sendo mulher ou homem, EU VOU DAR UM MURRO NA SUA CARA!

A estudante de medicina segurou a mão cerrada de Estel, que estava prestes a voar no rosto de Phillip. Fez um gesto negativo com a cabeça, e disse mentalmente: “Espere, veja o que ele tem a dizer”.

— NÃO É… UMA DROGA… DE UM CÓDIGO GENÉTICO… NEM UM MONTE DE MOLÉCULAS IDIOTAS CHAMADAS HORMÔNIOS… QUE VÃO DIZER SE EU SOU HOMEM OU MULHER!

— Exatamente – sorriu a Srta. House. — Você pode escolher. Se quiser continuar como homem, é só continuar a tomar os hormônios. Se quiser tornar-se uma mulher, pare de tomá-los e deixe sua genética natural fazer o trabalho. Mas será o seu coração, e nenhum outro fator, que tomará esta decisão por você.

— Se você optar pela segunda opção – sugeriu Zaina – conheço um líquido reagente que muda de cor em contato com a testosterona. Com isso, você pode encontrar o comprimido correto e descartá-lo sem precisar utilizar a intuição Newtype.

— Eu só me pergunto – murmurou Daiya, observando tudo do seu lugar no sofá – por que fizeram isso com você, Phillip. Existe a corporação feminina de Cyber-Guards… se o objetivo era que você se tornasse um, não precisavam mudar seu gênero.

Novamente, fez-se silêncio.

— Não faço a mínima ideia – respondeu o guarda, determinado. — Mas eu vou descobrir. Nem que isso custe a minha vida e a minha pouca sanidade.

(Música — Ternura e promessa)

— Conte comigo para isso – sorriu Ilya, colocando a mão no ombro do amigo.

— Comigo também – falou Christine.

Um a um, todos foram se prontificando a ajudar.

— Seria isso uma missão para os Vigilantes? — indagou Kouga.

— Não seja idiota – replicou Ilya. — Isso é vida real, não é parte do jogo.

— Vida real ou não, é uma missão que se apresenta para nós… assim como quando tivemos que lutar contra o Esquadrão Deathscythe W4 – falou Nix. — Aliás, Vigilantes é um bom nome para a nossa república. Até agora, fomos conhecidos como o “grupo do topo da Watchtower”… precisamos de um nome para nós.

— Faz sentido – completou Phillip – ainda mais porque Watchtower significa “torre de vigilância”.

Com poucas objeções, o grupo concordou em se autodenominar daquela forma. Todos os presentes na reunião – Karma, Estel, Nix, Siren, Kouga, Edward, Zaina, Rebecca, Kaori, Ilya, Keisha, Christine, Phillip e Daiya – até mesmo os que não residiam na Watchtower foram “batizados” como Vigilantes.

Notas finais
Depois da bombástica revelação, qual será a decisão de Phillip sobre seu gênero? Seu coração lhe dirá que ele é um homem ou uma mulher? O RPG prossegue com sucesso. Chega o Natal, e os Vigilantes viajam, em excursão paga pela reitoria da colônia, para a casa de Albertina Travis, antiga amiga de Estel que morava na Noruega. Ela conta aos Vigilantes várias lendas da sua região, incluindo uma lenda sobre a criação do mundo. Não perca o próximo episódio de Kidou Senshi VP Gundam! A sombra do Caos está à espreita.