Kepler's Farm
4 Medo. (Parte 1)
Notas iniciais
Já era pouco mais de 17h14 quando começou a chover bastante, Jennifer foi buscar Bel que ainda estava brincando no quintal e Théo começou a reclamar pelos quatro cantos do mundo que estava sem sinal. Eu fiz um café e me sentei na janela do meu quarto que ficava de frente pra estrada, fiquei olhando a grama se encher de lama, como nos velhos tempos em que meus avós estavam vivos. Quando alguém abriu minha porta... Era Jennifer, desesperada: "Você pegou a caixa de remédio com o kit de primeiros socorros? Me diz que sim!"
— Oi?! O quê? Não me lembro... O que houve? — Perguntei.
— É o Bel, eu não encontrava ele em lugar algum, achei ele no celeiro caído no chão com um corte na testa. Preciso que encontre o kit logo! — Respondeu ela, abrindo os armários e as gavetas correndo.
— Mas era responsabilidade do Théo isso. Cadê o Bel? — Respondi, me levantando rápido e derrubando a xícara no chão.
— Puta merda, rápido, me ajuda a achar alguma coisa pra fazer o sangramento parar. — Disse ela pegando uma toalha que estava jogada na minha cama. — Ele está lá embaixo com o Théo.
Desci as escadas correndo, fui na cozinha e achei um remédio para dor. Bel estava no colo do Théo. Ele dizia nõ lembrar o que aconteceu, mas parecia ter escorregado em alguma coisa e caído no chão. O ferimento deixou ele meio abalado, que começou a sentir febre. A medida que ia anoitecendo, ele parecia piorar mais. Jennifer pediu para que Théo procurasse encontrar sinal em algum lugar da casa, enquanto eu procurava remédio. Até que a luz acabou caindo:
— Ótimo, só faltava isso. Théo, achou sinal? — Perguntou Jennifer.
— Não, e minha bateria já tá no 35%, melhor esperar para que não acabe. — Respondeu.
— Gente, onde o Ruy disse que morava? Ele tem uma caminhonete, não pode nos levar ao hospital? — Perguntei.
— É verdade, Jennifer. O mongol até que tem razão. Vamos andar vinte quilômetros a pé, com o Bel no estado que está, GÊNIO!- Disse Théo, me provocando.
— Cala a boca, Théo, ele teve uma boa ideia. Vamos eu e você até lá, deve dar uma hora e meia andando mais ou menos. O Enzo vai ficar aqui e cuidar dele. Vamos trancar toda a casa. Enzo, não sai de perto dele por favor, e não saia da casa em hipótese alguma. Ele precisa que você fique aqui. Leva ele pro seu quarto, que fica de frente pra rua e você nos verá chegando, ok? — Disse Jennifer se levantando e pegando um casaco.
— Mas e se alguém entrar aqui? — Perguntei, me sentindo assustado.
— Não vão entrar, fique tranquilo. Théo, pega as suas coisas. A gente vai andar muito agora, preciso que vá ao meu quarto e pegue a lanterna de emergência que está debaixo da minha cama. — Respondeu, mostrando coragem e segurança.
Fui até as escadas com eles, que trancaram a porta da cozinha e todas as janelas,minha irmã fechou a porta da frente e trancou, jogou pelo buraco no vidro, a chave que caiu perto da estante. Me virei e fui de volta ao meu quarto. Fiquei esperando um tempo, olhei no meu celular e eram 19h30. Os minutos passavam devagar e Bel parecia estar dormindo. Decidi não acordá-lo e sentei perto da janela. A chuva não passava, e o clima ficava cada vez mais frio. Olhei para a árvore que eu costumava a sentar, e parecia ter alguém ali. Fui franzindo a testa e forçando meus olhos a tentar identificar aquilo, quando ouvi um barulho forte vindo da cozinha. Parecia que a cadeira tinha sido empurrada. Fui até a escada, desci alguns degraus e, pelo lado de fora, parecia ter alguém olhando pelo vidro da porta. Fui descendo mais devagar, e quando cheguei ao meio da escada, o vidro da porta começou a trincar. Fiquei apavorado, subi as escadas correndo e encontrei Bel sentado na cama, ainda dormindo. Eu sabia que ele tinha sonambulismo as vezes, então tentei me acalmar para não acordar ele. Fechei a porta e puxei a cômoda bem devagar para fazer uma espécie de barreira. Sentei ao lado de Bel, e ficava repetindo: "Não é real, é a sua imaginação. Você está com medo, só isso." Foi quando Bel me chamou, bem baixinho. "Enzo?"
— Bel? Volta a dormir, você tá machucado, fica dormindo tá? — Respondi, levantando devagar.
— Enzo, não me deixa aqui sozinho de novo, por favor. — Disse, com ar de choro.
— O quê? Por quê? — Perguntei, me aproximando da cama.
— Tem alguém do seu lado. Ele sorriu pra mim. — Disse ele, começando a chorar.
— Não, Bel, não tem ninguém aqui. — Disse isso, evitando virar para o lado.
— É verdade Enzo, ele tem um rosto feio. Ele falou que quer o Théo, mas se contenta em levar você. — Falou, parecendo estar assustado. Aquilo gelou minha alma até meu cú fazer bico. Um arrepio frio passou pelos meus braços. Virei pra trás e tinha algo mais escuro naquela direção. O coração bateu forte, um ar ficou pesado, o espaço entre uma parede, a que a sombra parecia estar, e a outra, a da cama, parecia infinito. Caí no chão e comecei a chorar, eu estava morrendo de medo. Quando do nada Bel gritou: "Não, sai daqui, deixa ele em paz, solta ele, SOLTAAA!" Eu fui puxado para o lado e em uma pequena fração de segundos, a penumbra que eu conseguia ver se mexeu. Indo rapidamente para o outro canto do quarto, quando, do meio da escuridão total, um rosto esquisito parecia surgir e fazendo apenas a forma de um sorriso que ia de ponta a ponta e quanto mais se aproximava, mais eu jurava que iria desmaiar ali e ser levado para o inferno. Foi quando Bel gritou "SAAAAAAI" e a cômoda que estava segurando a porta foi jogada para frente, a porta se abriu, e as coisas pareciam ter voltado ao normal. Olhei pra ele, mas estava tão assustado e cansado que acabei desmaiando e tendo um sonho.
Era minha tia, ela abria a porta do quarto em que eu estava e eu me levantava. Olhei para a cama e Bel estava deitado. Olhei para onde eu estava e me vi deitado no chão. Andei na direção dela, ela passou a mão nos meus cabelos e sorriu. Segurou minhas mãos e me levou para fora de casa, abriu a porta do porão, e desceu as escadas. Eu fiquei apreensivo, pois sabia que havia algo ali. Ela me olhou com um olhar de "Venha, estou te chamando." Desci as escadas, ela me levou até a caixa e apontou. Depois parecia sumir, como se não fosse nada além de um fenômeno de luz. Ficou tudo escuro, um breu inimaginável. Senti novamente uma presença ali, sabia que não ia dar certo. Me agachei, olhei para caixa e pensei: "Puta merda, aquilo de novo não." Puxei a caixa com toda a minha força, consegui tirar ela de lá, e assim que me levantei, havia uma menina na minha frente. Ela tinha olhos amargurados, uma expressão séria. Sua boca estava roxa e parecia gélida. Seu corpo estava pútrido e fétido. Não vi ela se mexer, mas entre uma fração de segundos, ela colocou a mão na caixa, deu um grito agudo e ensurdecedor e logo apareceu debaixo da mesa. Parecia não querer que eu pegasse aquela caixa, quando me virei, tinha ali um velho, usando roupas de padre, olhando para a porta que tinha um armário na frente. Uma senhora, segurando um crucifixo, e um rapaz segurando uma espécie de mordaça. Uma luz amarelada tomou o lugar, e o porão virou outro lugar. Eram as mesmas dimensões, mas estava arrumado. Tinha um sofá velho e empoeirado, uma mesa com três cadeiras. O armário estava cheio de frutas. A porta estava trancada com três correntes. Não havia ninguém lá. Tomei a liberdade de abrir aquela porta e era um corredor, sujo, com baratas. Na outra extremidade vi uma porta de ferro, com uma brecha. Me aproximei e era um quarto, o mesmo que vi na TV. Abri a porta e tinha um rapaz, com uma tatuagem no braço direito. Ele segurava um livro e lia para uma menina que vestia branco. Os dois olharam pra mim, mas não se moveram.
Foi quando acordei, Bel estava gemendo de dor de novo. Olhei em volta e ainda estava de noite, tudo escuro. Rapidamente levantei, peguei a toalha que estava na testa dele e molhei no balde com água gelada. Fiz a compressa que minha irmã pediu. Sentei na cama e fiquei com ele. “Tá com fome? Precisa ir ao banheiro?” Mas ele não respondia. Me levantei, olhei pela janela e haviam sete pessoas atravessando a rua. Fiquei interessado e continuei olhando. Um senhor que a atravessava virou para a janela do meu quarto, vestia uma roupa hospitalar. Arregalei os olhos e lembrei da história do meu irmão, de que as vítimas da epidemia ainda estavam vagando por ali. Peguei meu celular e vi as horas, já eram 21h48 e meus irmãos ainda não tinham chegado. Acessei o aplicativo de mapas offline e vi, que demoraria cerca de quatro horas para que Jennifer voltasse para casa. Fiquei desesperado, até que horas eu aguentaria aquele lugar?
Bel acordou, disse estar com fome. Suspirei fundo, abri a porta. Estava um gelo, mas parecia calmo. Desci as escadas rapido e em silêncio. Entrei na cozinha, abri o armário, peguei biscoitos e fiz um copo de leite pra ele. Quando ia sair de lá, ele estava na porta.
— Quem é? – Perguntou.
— Hã? – Olhei pra ele, colocando as coisas na mesa. – Você me assustou, por que não disse que ia descer comigo?
— Enzo, quem é? – Continuou perguntando.
— Quem é o que, Bel? Não tem ninguém aqui. – Respondi.
— A moça na porta... Quem é? – Disse ele, apontando para a porta da cozinha, que dava na parte de trás da casa.
Me virei e não havia ninguém lá. Peguei as minhas coisas, levantei e pedi para que Bel subisse comigo. Sentamos na cama, comemos e ficamos conversando. Bel perguntou onde Jennifer e Théo tinham ido, e eu contei que foram até a casa do Ruy. Ele ficou meio tranquilo, mas preocupado se eles voltariam bem. Conversamos bastante, até perto de 22h10, quando ele pegou no sono. Eu estava mais tranquilo, ele me acalmou um pouco. Fechei as portas, peguei meu bloco de anotações e fiquei escrevendo algumas coisas. Foi quando eu também cochilei, e quando acordei, Bel não estava na cama. Saí procurando por ele nos quartos do segundo andar, depois, no terceiro andar. Fiquei desesperado, pois num descuido, Bel já não estava mais lá. Saí correndo para o primeiro andar, e tamém não o encontrei lá. Fui para fora de casa, escorreguei no barro e olhei para o celeiro, a porta estava aberta...
Fale com o autor