Kepler's Farm
5 Medo. (Parte 2)
Notas iniciais
Olá, eu sou a Jennifer, são 3h48 e não tenho notícia dos meus dois irmãos mais novos. Eu estou com meu irmão Théo, sou a mais velha, bom, não preciso dizer muito disso aqui. É, eu acho que vou morrer, não estou doente, não tem um buraco de faca ou de bala no meu corpo, nada disso. Eu estou presa com ele na casa de um homem que conhecia a muito tempo, mas que também fiquei anos sem ver. Vim atrás dele buscar ajuda para meu irmãozinho caçula, mas agora quem precisa de ajuda sou eu. Estou dentro desse cômodo empoeirado e com cheiro de mofo faz pouco mais de vinte minutos, eu acabei de chegar. Minhas pernas estão bambas e por isso não sei se consigo correr mais. O Théo não demonstra cansaço físico, mas acho que ele está mais abalado que eu. Sempre fui mais corajosa que meus irmãos, não sei direito se é força mesmo, ou algum tipo de determinação. Sempre os protegi do meu pai quando ficava irado, ou da minha mãe, mas dessa vez sinto que não posso protegê-los. Sempre os mantive de pertinho, mas a medida que foram crescendo, criando responsabilidades, foram ficando frios em relação a isso. Hoje devem dizer que não sou uma boa irmã, mas acredite, eu tentei. Tá, eu tenho que contar do início, então segura o tempo, guarda o momento, e vamos voltar algumas horas:
Eram 16h53 quando desliguei minha chamada com meu namorado, Billy. Eu fiquei chateada pois as coisas estavam muito ruins. Tipo, um ataque terrorista em ShadesVille! Meus pais estão lá! Pra piorar algumas coisas sinistras estão acontecendo, tipo, a “parada” da TV ou os barulhos durante a noite. Eu estava detestando aquele lugar, e as coisas só pareciam piorar. Os minutos foram passando e começou a chover, foi quando eu lembrei que Bel estava brincando lá fora, e nesse momento... Foi nesse momento que as coisas ficaram horríveis. Saí na varanda e fiquei chamando ele, mas ele não respondia. Peguei o guarda-chuva e fui andar até o quintal pra ver se conseguia enxergar ele em algum canto se escondendo da água fria e do vento congelante. Mas ele não estava lá. Eu me desesperei pois é uma fazenda enorme e lá no final é aberta para a vegetação. Fora que de vez em quando passam pessoas ali, principalmente quando começa a anoitecer. Eu forçava minha visão tentando enxergar alguma coisa, mas de relance, vi um homem correndo para a mata adentro, pensei que fosse o Bel, mas sabia que não era. Não era ele pois era uma pessoa mais alto, vestia um terno preto e Bel estava de jeans. Eu prometi a mim mesma que ficaria quieta a respeito disso. Foi aí que eu olhei para trás, vi a porta do celeiro se abrir sozinha. Eu tentei fingir que aquilo não era nada, mas eu ouvi o choro do meu irmão. Então eu decidi ir lá e quando entrei eu o encontrei caído no chão. Peguei ele no colo, e quando levantei meus olhos, vi uma moça enforcada em uma das colunas de lá. Foi eu piscar meus olhos e ela já não estava lá. Eu corri, coloquei Bel no colo e saí disparada pra dentro. Quando abri a porta, Théo parecia estar assustado com algo, pedi para que ficasse com o Bel pois ele tinha um ferimento na testa, ele não estava desacordado nem sangrava muito, mas mesmo assim, qualquer machucado na testa é um perigo. Subi as escadas rapidamente e entrei no quarto do Enzo pedindo a caixa de primeiros socorros, mas ninguém havia tirado ela do carro. Eu ainda procurei alguma coisa no quarto dele, mas não achei nada para usar. Estavam todos na sala, cuidando do Bel quando a luz caiu, e cara, isso não era o pior. Ele estava com febre, que só aumentava. Eu pedi para que Théo procurasse sinal de celular em algum lugar da casa, mas ele não encontrou nada e a bateria do celular dele estava acabando. Eu tinha que levar Bel no hospital, e foi aí que o Enzo teve uma ideia que parecia boa na hora, ir na casa do Ruy pedir uma carona. Ah, esse cara. Eu conheço ele desde novinha. Quando só era eu e Théo, minha mãe vinha mais vezes visitar meus avós. Ele cuidava da casa. Eu tinha uma certa timidez em relação a ele. Quando eu fiz meus 11 anos, Théo tinha quase 6. A gente adorava passar o verão aqui por causa da piscina. Ruy ficava me olhando. Quando eu saía do banho, ainda com a toalha enrolada no corpo, ele sempre estava nas escadas. Eu tentava procurar na porta se havia algum buraco, o mínimo que fosse para que ele pudesse me espionar, mas nunca achei nada. Fui crescendo e deixei de ligar para essas coisas, achei que era coisa da minha cabeça. Quando fiz 15, levei Billy para conhecer minha avó. A gente estava namorando tinham quase três meses, então achei que era importante levar ele lá. Foi aí que Ruy parou de me olhar, se é que olhava. Bom, voltando ao assunto, ele me alertou que a casa dele era longe, mas a gente não imaginava que seria tão longe. Eu pedi para que Théo pegasse algumas de suas coisas, e a gente foi pra rua. A medida que íamos nos distanciando da casa, mais a cidade parecia assustadora. Não só pelo fato da chuva fria, de ser perto das 19h e por ter acabado a luz, mas por estar vazia. Não havia barulho, nem de TV’s, rádios ou carros. Não haviam barulhos de pássaros, embora eu acredite que nesse horário, realmente não vão aparecer. Mas nós seguimos, até passarmos por uma espécia de carroça. Ela estava quebrada, e no meio da rua, conseguíamos ouvir um choro, mas nós nos aproximamos e não tinha ninguém ali. Théo olhou assutado pra mim, eu falei que podia ser de algum lugar bem distante, mas que ecoou para perto da gente. Ele deu uma olhada lá dentro e pegou um mapa da cidade, pra termos uma noção de onde estamos. Eu comecei a rir pois a gente tinha acabado de começar a nossa jornada. Nós seguimos andando, até que chegamos em uma rua onde uma árvore enorme caiu e bloqueou o caminho, a gente ainda tentou dar uma olhada pra pular, mas não tivemos sucesso. Foi aí que o Théo lembrou do mapa, deu uma olhada e achou uma rua que dava a volta naquela. Voltamos um pouquinho até encontrar a entrada dessa rua. Era estreita, e não haviam casas, apenas um muro de pedra cheio de musgo. Seguimos em frente e encontramos uma placa escrita: “Hospitar Dr. Jensen, memorial das 159.632 vítimas da tuberculose, 1894 – 1933.” Eu engoli aquilo a seco, o foda era que esse hospital abandonado ficava logo ao lado do lago Crystal Lake, que minha vó vivia contando histórias sobre aparições. A gente entrou no jardim do hospital e seguiu até os fundos, pulando uma cerca enferrujada. A porra toda ficou mais complicada de aceitar, quando a gente percebeu que pulou a cerca pra entrar numa espécie de cemitério. Com lápides e estátuas de anjos, sério. Nem eu mesma acredito quando paro pra pensar. Mas Théo viu alguém andando atrás da gente, eu olhei pra trás e realmente tinha alguém lá. Um homem alto e com uma blusa xadrez, segurando um tipo de machado. Quando eu olhei pra trás, ele começou a correr mais rápido, virei para o Théo e falei para ele correr o mais rápido que ele conseguia. Nós seguimos na direção em que o mapa apontava a rua do Ruy, quem sabe ele nos salvaria daquela situação. Quando o homem saiu do meu raio de visão, encontramos uma parte do muro que estava quebrada, passamos por ela e nos deparamos com a rua do Ruy, só faltava achar a casa. Ficamos explorando, o incrível era que todas as casas estavam vazias, em silêncio, e não tinham nem uma luz acesa. Parece que todos os moradores decidiram sair da cidade. Théo achou a casa e me chamou. Entramos na varanda bem rápido, olhei para trás e o homem não estava lá. Nós batemos na porta mas ninguém atendeu. Forcei para abir e não consegui. Pedi para que Théo olhasse envolta da casa enquanto eu olhava o outro lado e não encontramos nada, não haviam janelas abertas, nada que nos ajudasse a entrar. Foi quando eu ouvi Théo gritando meu nome, o cara pegou ele e jogou com tanta força na porta que quebrou e ele caiu pra dentro, o homem levantou sua mão segurando o machado e eu o empurrei. Ele caiu no chão, foi o tempo que tive de levantar Théo, que ele me puxou pelo cabelo. Levei um soco na nuca e apaguei.
Quando acordei, estava nesse cômodo com o Théo, estamos presos e conseguimos ouvir os passos dele no outro lado. Levantei devagar, meu corpo está dolorido e olhei em volta, fiquei procurando alguma coisa que pudesse usar contra ele, abri um armário e achei um álbum aberto, cheio de fotos, e aquelas fotos, são de mim. Corri para a porta, bati com bastante força, implorando para ele me soltar. Ele abriu a porta, me puxou pelo braço e fechou antes que Théo pudesse tentar fugir. É a casa do Ruy, e aquelas mãos... É o Ruy! Ele me jogou no sofá e colocou uma corrente no meu pé direito. Olhou pra mim e passou a ponta dos dedos na minha bochecha: “Você... Tão linda...”
— O que quer de mim? Não tenho nada pra te oferecer, meu irmão tá doente, o Théo tá estranho... Por favor, para! – Tentei convencê-lo a me soltar.
— Por tanto tempo eu fiquei nesse mundo só te olhando, te desejanto... Até vi outro homem te tocar... Mas agora você sabe, você foi feita pra mim, e ninguém pode te tirar de mim! – Dizia ele, me tratando como se eu fosse um troféu.
— Não, Ruy, por favor me solta... Você não tá entendo, você não é um homem ruim... – Falei, tentando me soltar.
Ele se afastou, ligou uma vitrola que tocava uma música de piano. Estendeu a mão na minha direção e pediu para que eu dançasse com ele. Tive que me levantar e dançar, mas na verdade estava tentando encontrar uma maneira de distraí-lo e tirar Théo do quarto para poder sair de lá. Ouvi um barulho muito forte de vidro vindo do quarto, ele me soltou e foi correndo abrir a porta. Em alguns segundos eu fiz o caminho da corrente, que estava presa num cano colado a parede, puxei com força até arrebentar, esperei que ele destrancasse o quarto, quando saí correndo. Ao lado de fora, encontrei Théo, com alguns cacos de vidro enfiados no braço. Ele se jogou na janela pra poder escapar. Ficamos no meio da rua, quando olhamos pra trás e Ruy estava nos seguindo com sua caminhonete. Théo me puxou para o meio do mato, fora da rua. Ali Ruy teria que descer do carro para nos perseguir, mas Ruy seguiu em frente...
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