Karakuri Burst
80 Xeque-mate.
Notas iniciais

LEN POV'S ON
Hoje é o exemplo perfeito de um dia de merda.
E eu tinha ela comigo ali.
Com a mão dela presa na minha, eu não dava escolha, e muito menos liberdade dela se afastar de mim. Puta merda. Eu sabia que sempre seria assim. Ela sabia que sempre seria assim. Não conseguia evitar. Ou impedir. Não agora.
Sentia seus dedos se esfregarem nos meus. As pontas encostavam nas costas da minha mão, indo e voltando. Ela não me enganava. Era sempre a mesma história. Rin fazia isso pra me acalmar.
Se eu estava a machucando?
Com certeza.
Eu não tinha dúvidas sobre isso.
Não dá pra medir forças com essa garota. Ela sabe que esse não é meu forte. Demora um certo tempo até que eu perceba o que estou fazendo. E mesmo a conhecendo, e ela a mim, eu tinha certeza que dessa vez ela não iria reclamar. Completamente contrário ao seu normal. Eu não conheço minha própria força. Mas tinha noção que dessa vez era pior do que qualquer outra.
Sua outra mão parou encima das nossas. Da minha, que prendia a outra. Rin não fez mais do que isso, apenas juntou nossas mãos e ficou em silêncio. Isso já era o suficiente para chamar minha atenção. Embora a ideia de desviar os olhos da piranha que fodeu a cabeça dela, enquanto eu segurava uma arma, não me fosse a melhor na primeira vista, Rin no fim das contas conseguia o que queria.
Tentei afrouxar o aperto que fazia nela.
Encarei nossas mãos primeiro. Depois, foi a vez dela.
Tinha me esquecido como era agonizante receber certos olhares da Rin. Só conseguia reviver ótimas lembranças essa noite. Impressionante. A última vez que ela me olhou desse jeito, tinha outro filho da puta no meio.
Oliver.
—Você não precisa fingir. Sei que não está bem.
Rin falava tão baixo ás vezes, que me surpreendia eu entender o que ela dizia. Era um hábito mais útil do que incômodo, mas ainda assim, irritante. Admitiria em um dia qualquer a ela.
‘’Não está bem’’.
Você está certa. ‘’Bem’’ é a última coisa que posso estar.
Está tudo uma merda.
Eu não posso te dizer o que eu sinto de verdade. Só o que parece que sinto. Ainda mais porque eu sei que você mesma já não está bem. E o pior, tem todo direito pra isso. Não quero piorar sua confusão. Não quero sua preocupação.
—Estou bem. – Respondo rápido. – Mas, melhor ainda quando essa porra acabar. – Seus olhos insatisfeitos me diziam o que os lábios não se atreviam. Respiro fundo. E embora isso me incomode, resolvo conversar no mesmo tom que ela. – Não se preocupe. Eu vou resolver tudo isso. Logo estaremos em casa.
Não estava disposto a sustentar conversas por muito tempo. Com ninguém. Eu tentava caçar uma exceção para Rin, mas eu reconhecia que tudo o que eu faria só iria a magoar à medida que conversa crescesse. E sinceramente, essa não era a hora de conversar. Embora encarássemos um ao outro agora, eu não sabia como isso seria depois.
Nossa relação estava mais fodida do que aparentava. Mas isso não era o suficiente pra me fazer desistir. Isso acontecia quando dois desastres decidiam se encontrar. Tudo certo pra dar errado. E eu estava olhando exatamente para minha causa e cura de desastres pessoais. E ela me encarava de volta.
Era claro que Rin queria fazer mil e uma perguntas. Esse era o problema. Não queria responder nenhuma. A vontade de a segurar pelas bochechas e a mandar esquecer o que Leon disse era grande demais pra ser ignorada. Mas eu não podia fazer isso. Ainda não. Provavelmente a delicadeza me faltaria como sempre faltou. Minhas mãos estavam, estão sujas. E ocupadas. Não dá pra refazer a cabeça da Rin agora.
Eu não acreditava em praticamente nada do que ele havia dito. Precisava mais do que um sobrenome e uma história pra me provar parentesco. Mas isso já era suficiente para convencer Rin. Eu não conseguia definir se isso importava, ou não, para ela. Teria de descobrir mais tarde. Precisava ter certeza do que ela estava sentindo, mas nem ela mesma parecia poder me responder. E eu não a culpava. Não tinha como exigir nada de Rin no momento.
Eu não acreditava em praticamente nada do que ele havia dito.
‘’Praticamente nada’’.
Tinha algo.
Mãe.
Não queria pensar nisso. Muito menos falar sobre isso. Mas chegou a um certo ponto que se tornava inevitável. Achei que o tempo me faria esquecer. A esquecer. Só que o tempo não cura porra nenhuma, e eu já sabia disso. Esse era só o caminho mais fácil, não o melhor. Rin estava certa, afinal. Fingir era um saco. Não que eu fosse me debulhar em lágrimas. Eu já passei disso. Estava mais puto do que qualquer coisa, na verdade. Mas ainda tinha aquela parte de mim que queria a abraçar, e ficar em silêncio, por quanto tempo eu precisasse.
Droga.
Não era mesmo a hora de pensar na minha mãe. Eu já tive a minha infância inteira pra isso. É mais do que suficiente. Preciso me importar com quem está aqui, agora. Eu aguentei essa merda por dezoito anos. Consigo por mais tempo. Supostamente deveria ser fácil pra mim. Supostamente. Eu não deveria sentir falta daquilo que nunca tive. Mesmo já querendo uma mãe, querendo Annelise, pensar por anos que não ter uma mãe era meu mérito por uma morte, já bastava pra me fazer achar que eu não merecia ter alguém pra chamar assim.
Então, ao final, eu não a matei.
Ótimo. De verdade.
Mas ao mesmo passo que era inútil. Não alterava nada. Não adiantava em nada.
Não mais.
Meu tempo de ser criança acabou há muito tempo. E querendo ou não, eu preciso encarar a minha realidade. Eu não quero uma mãe. Eu não preciso dela. Não mais. Hoje, mais do que nunca, eu entendi que o passado está no passado. E ele acabou. Não posso mudar nada do que aconteceu. Não importa o quanto eu queira. Eu nem sei dizer se a amo, ou amei, algum dia. Não a conheci. E nunca vou. Jamais irei saber. Não há nada que possa fazer.
É por isso que...
Céus, como eu odiava falar disso.
É por isso que quis tanto ter a Aya.
Porque eu nunca senti, ou soube o que era amor paterno e materno. Mãe morta. Pai ausente. Que te odeia. Talvez o único jeito que possa sentir e saber, tenha que partir de mim. E dela. A Rin se tornou a minha única esperança sem ao menos saber. E eu, sinceramente, não posso simplesmente jogar minhas expectativas nela.
A culpa que sempre me puxou para o chão formou a raiva que me fez puxar o gatilho sete vezes. E eu não me arrependia de nenhuma. Eu precisava disso. Por três minutos, eu não era assassino. Não tinha matado ninguém. Não de propósito. Todos os anos, as coisas que não tive coragem de fazer. Ou então as palavras que não tive coragem de dizer. E quando esses três minutos se foram, eu fiz o que tinha de fazer. Eu precisava acabar com isso. Eu fazia questão de acabar com a minha família.
E ao mesmo tempo, proteger a única que me sobrou.
A dívida que tinha com Annelise acabou.
Eu matei meu pai.
Por mim.
E pela minha mãe.
—Obrigada pelo conselho querido. – Hatsune levava as mãos ao cabelo, tentando consertar aquela desgraça. – Mas eu não te perguntei absolutamente nada. Você acha mesmo que está em posição de me ameaçar? – Ela fechou os olhos, e sorriu. – Você é mesmo um problema. Kaito tinha que ter acabado com você quando teve chance. Por que é que deixamos você vivo mesmo? Que dor de cabeça. – Tornou a abrir os olhos, depois de respirar fundo. Parecia procurar paciência. Ela encarou Rin e deixou o ar escapar pelo nariz, como se tivesse encontrado algo engraçado no lugar. – Já percebeu que você é o culpado de tudo isso? Eu achei que o teatrinho com seu pai fosse te comover, nem que fosse só um pouquinho. Perda de tempo.
—Juro que já cansei da sua voz. – Respondo. – Espero que saiba que a antipatia é mútua. Só que no meu caso, pior. Afinal, enquanto eu não te conhecia, você assistia sentada a destruição da minha vida. Obrigado por isso. Mas sabe como é. Agora preciso retribuir o favor.
—Isso era pra me intimidar? Desculpa querido, não funcionou. Eu sei que não vai atirar. E você também sabe disso. Não pode me matar, porque sabe que no momento em que puxar esse gatilho, ela vai junto. Xeque-mate. — Voltou a sorrir. – Você precisa de mim. – Olhou em volta. – Vocês precisam de mim. Você não fez isso a toa. Não deixou a Megpoid levar um tiro a toa. Não deixou a Megurine sangrando no chão a toa. Não deixou a Sakine quebrar o próprio coração à toa. Tudo isso é por uma única pessoa. Tudo isso é pela Rin. E você não vai a matar. Não consegue.
Não havia me esquecido do chip na cabeça dela. Isso me atormentava mais do que qualquer coisa. Eu tentava criar uma solução pra isso na minha cabeça, sem que desse merda. Era impossível. Não dava pra evitar. Tudo o que evitava, voltava para mim ainda pior. Odiava quando as coisas fugiam do controle desse jeito. Odiava pensar que ela só mantinha a Rin viva, porque queria. E quando não quisesse mais, a mataria, simplesmente porque não a queria.
Seria instantâneo. Rin não sentiria.
Sinto meus dedos serem esmagados por ela. Rin apertava minha mão, me chamando.
Desvio minha atenção de Hatsune para ela em pouquíssimo tempo. Nossos olhos se cruzam com a certeza de que essa não era a melhor opção. Porra. Eu sabia o que tinha de ser feito. E ela também. Não precisávamos de palavras para entender um ao outro. Mas precisava dizer para ela que não queria a perder. Não agora. Não de novo. Precisava dizer que isso, definitivamente, não era fácil de fazer.
Olho para ela dos pés a cabeça, parecido com a primeira vez que a vi. Não enquanto esperávamos a chuva passar embaixo do ponto de ônibus, mas enquanto estava preso no escritório de Gakupo. Talvez eu devesse pensar que essa seria a segunda vez que nos encontramos. Mas agora, não conseguia deixar de pensar que foi a primeira. Deixaria o encontro conveniente do beco como segunda.
Estava tudo tão diferente. E estranho. Nós não éramos os mesmos. Antes eu não me importaria de a matar. Talvez ficasse até feliz. Comemorasse com meus amigos depois. E agora, parece que eu estou entregando a vida deles pela dela. E talvez ficasse até feliz. Afinal ela estaria bem, e isso é tudo o que importa. Esse inferno finalmente teria acabado, e eu ficaria com ela depois.
Volto a olhar Hatsune. Os olhos convencidos em meio a um rosto deformado pelos punhos de Luka, quase se destacavam. Quase. Eu iria arrancar isso dela.
Os dedos de Rin apertam as costas da minha mão, a ponto de sentir suas unhas arranharem minha pele. A esse ponto, pouco me fodia pra minha resistência a dor. Ela enfiou um estilete no meu braço, afinal. Fraqueza nunca ajudou em nada. E pra completar, eu não tinha tempo, nem vontade, pra isso.
Olho para Rin uma última vez, na esperança que me pedisse para parar. Mas eu sabia que ela não faria isso. Sabia o que aconteceria. Enquanto observava ela concordar com a cabeça em silêncio, repensava no que iria fazer. Não tínhamos mais opções. Tinha certeza, que tanto eu, como ela, não aguentávamos mais isso.
Respiro fundo. Aquela garota sempre seria assim.
Encaro Miku, então arqueando a sobrancelha.
Ajeito a mira.
—Você não me conhece.
Puxo o gatilho.
Um.
Rin segura minha mão com mais força. Os arranhões crescem e quase sobem para meu pulso.
Dois.
Tudo bem, Rin. Só não me solte. Ainda não.
Três.
Abaixo a arma devagar. O cheiro de pólvora sobe juntamente com a fumaça.
Ela solta minha mão, assim como eu solto a dela. Eu e Rin não tínhamos muito mais tempo. Os saltos que ela usava batiam contra o chão incontáveis vezes á medida que andava. Seus passos seriam o único som que ouviria, se não estivesse escutando os meus próprios, e os grunhidos da Hatsune. Rin andava na minha frente. Eu poderia andar bem mais rápido. Correr bem mais rápido. Mas não me atrevia. Me preocupava daquela ser a última visão que teria dela.
Isso, se não chegássemos a tempo.
Odiava certas ideias que tínhamos.
Hatsune Miku havia tropeçado para trás após o primeiro disparo. Caído, no segundo. No chão, no terceiro. Seletivo. Específico. Tudo o que fazia tinha um motivo. Um tiro no joelho para tropeçar. Outro no ombro para cair. Mais um na mão para que não possa reagir.
Abater. Não matar.
Ainda.
Rin deixou os joelhos baterem no chão quando alcançou o que queria.
Para então, bater na Hatsune.
—Odeio admitir. – Cruzo os braços, indiferente. – Mas você estava certa, Miku. Precisamos de você. Viva.
-Mas não precisamos de você inteira. – Rin parecia esquecer a dor que eu tinha causado, que Miriam tinha causado, para lembrar de tudo o que Hatsune havia feito. Sua mão quebrada lentamente começava a inchar, mas ela não aparentava dar a mínima pra isso. – Eu nunca gostei de você, sua puta. – Ela deu um riso incrédulo. – Eu sempre soube que você não passava disso.
—Você acha mesmo que eu li...
—Cala a boca. – O soco de Rin havia sido entre a ponta do nariz até os lábios. Seus dedos pareciam se encaixar perfeitamente na cara de Miku, os sujando com o sangue que escapou da boca dela. – Não ouse falar enquanto eu estiver falando. Eu não sou mais sua marionete. Eu não sou a mesma criança que você enganou. Eu não preciso te aturar. Não preciso te obedecer. Você não manda mais em mim. A única pessoa que pode decidir a minha vida, é ninguém mais além de eu mesma. – A mão dela estalou na cara da Hatsune. – Seu tempo acabou. Agora é a minha vez. Eu mando, você obedece.
Miku riu.
—E o que te faz pensar nisso? – Fechou os olhos com força. A postura combinada com o orgulho não a deixava gaguejar. Mas depois de três tiros, seu corpo respondia por si mesmo. – Ingrata.— Voltou a abrir os olhos. – Eu vou te matar antes que você me mate.
—Não. Não vai. – Ando devagar até as duas. Rin estava ajoelhada ao lado do corpo e sangue da Hatsune. Enquanto ela se encontrava na direita, fui andando até a esquerda. Mas eu não tinha intenção de a atrapalhar. Pus o pé encima do joelho da Miku, mirando no buraco da bala. – Porque você não tem nada e ninguém pra pedir ajuda. Você está sozinha. E nessa sala, todo mundo te odeia. – Forço meu pé. – Você não vai ligar porra nenhuma.
Me afasto em direção ao tablet que ela havia derrubado alguns minutos atrás. Pego aquele lixo do chão e ponho embaixo do braço. Sabia que não poderia ir mais longe do que isso. Precisava proteger Rin, mesmo que ela não precisasse de proteção nenhuma. Não iria me distanciar. Estávamos nessa juntos.
-Luka, Piko. – Chamo. – Saiam daqui. – Me viro para eles. – Pegue essa porcaria. – Estendo o tablet para Luka, mesmo ela estando relativamente distante de mim. – Parece importante demais para deixar perto da Hatsune. Tente descobrir tudo o que está aí. Mas de forma alguma, destrua. Não sabemos as consequências. – Falava isso enquanto pensava em Rin. — Você está por sua conta nessa de tirar vocês daqui. O Utatane não pode fazer absolutamente nada. Escolte. Pegue o carro dele, e sumam. Nós resolvemos essa merda a partir de agora. Vocês estão fora.
Megurine ainda mantinha uma das mãos na boca. Mesmo que quisesse contestar alguma coisa, não podia. Seus passos até mim foram rápidos. Tomou o tablet de minhas mãos e pôs embaixo do braço que se estendia até a mão que não saía de seus lábios e bochecha. Com a outra palma, puxou a katana da bainha e deu as costas para mim, jogando seu cabelo por cima de seus ombros. Caminhando em direção a Piko e Gumi, eu tinha certeza que a partir desse momento ela não olharia para trás.
—Luka. – Minha voz não impedia seus passos. — Obrigado.
Ela apenas concorda com a cabeça.
Me viro de costas para eles, voltando a encarar Rin e Hatsune. Eu precisava tirar aqueles três daqui. De nada eles eram úteis naquela condição, mas não era isso o que estava pensando. Tinha dois feridos. E se o tempo para mim e para Rin ameaçava acabar a cada reviravolta, o deles era menor ainda.
—Utatane, eu não quero baixas. – Respiro fundo, vivendo com a pequena possibilidade dele não ter escutado. Ele deve ter entendido. Deixo os segundos passarem, para então falar com Sakine. – Meiko, eu preciso de você aqui. E eu não acho que vá querer sair. Ainda não. Temos assuntos inacabados nesse lugar.
—Você só pode estar brincando. – Miku recomeça a rir. Mais fraco dessa vez. – Eu não vou deixar essa gente sair daqui viva. A Rin não era a única pessoa que escolhi para matar outras.
A cabeça dela é jogada contra o chão, a forçando a calar a boca pela segunda vez.
—Você e eu não terminamos. – Rin solta os fios de cabelo que enroscaram em seus dedos quando a agarrou. – Você não sabe o que é sofrer. Você só sabe o que é dor. Dor é isso.— Ela fecha a mão no rosto da Hatsune, socando os ossos da bochecha. A garota grita. — E isso. – Rin enfia os dedos no buraco da bala no ombro de Miku, o abrindo. Se tivesse o estilete de volta, seria isso o que ela enfiaria ali. – Mas sofrer? Você não sabe o que é sofrer. Suas dores são momentâneas. Sofrimento é duradouro. Não há como curar ou consertar o que aconteceu. Ou esquecer.
Era possível ver a raiva nos olhares das duas.
—Sua filha da puta.
—Ah não, querida, não tem como. – Rin sorriu, achando graça. – E você sabe por quê. Você me arrancou da minha mãe biológica. Você me fez matar minha mãe adotiva. Então não imagino de quem esteja falando. – Ela pôs as mãos na testa da Hatsune, enterrando suas unhas ali. Deixou suas palmas escorregarem pelo resto do rosto dela, deixando gigantes riscos vermelhos de seus arranhões. Os dedos que entraram no ombro da garota terminavam de sujar sua cara. Talvez fosse essa a intenção da Rin. Se limpar. – Tudo o que você fez nessa sua vida de merda foi estragar a minha. Você me tirou tudo e todos que eu amei ou gostei, simplesmente porque quis. E isso, isso é sofrimento. Só me sobrou apenas uma única pessoa. E eu quase, quase, matei ele. Por sua culpa.
Miku fechou os olhos, cedendo a dor.
Nada é dito.
Rin puxou suas pálpebras pra cima.
—A culpa é sua. Agora trate de olhar pra mim. Gosta de ter esses olhos claros? – Ela não espera resposta. – Eu também gostava. Mas você só me viu como cobaia, e não como uma pessoa. Isso— Ela aponta para os olhos. – foi o que você fez comigo. Eu não consigo curar, consertar, esquecer ou perdoar. Toda vez que eu tiver de olhar no espelho, é de você que serei obrigada a lembrar. Chega disso. Você precisa aprender o que é sofrimento de verdade.
Rin segura o rosto de Hatsune estalando suas palmas nele. Pareciam dois tapas. Seus polegares param exatamente encima da vista da garota.
Não demora muito tempo para que eu entenda o que ela iria fazer.
—Você mexeu com a pessoa errada. – Comenta, sem emoção. – É a sua vez de se olhar no espelho e se lembrar de mim.
Rin afunda os polegares nos olhos abertos de Miku. Ela grita alto o suficiente para que qualquer um possa escutar. Mas isso não faz Rin parar. Ela consegue fechar um dos olhos, e o dedo de Rin escorrega de volta para sua pálpebra. Embora isso não a desmotive.
Ela só para quando escuta algo parecido com um pequeno estouro.
Rin sacode os dedos no ar, com nojo. Não do que fez, mas dos fluídos pegajosos que grudaram em sua pele. Mas eu entendia que aquilo não era suficiente. Não era só uma pessoa a se vingar. Ela tinha que vingar a mãe. As amigas. Todos que ela já matou. E um olho, definitivamente não era suficiente. Rin me estende a mão, esperando que eu entendesse o recado. Puxo a katana do cinto, deixando-a com bainha de qualquer forma, e entrego para ela.
Rin deita a espada e a aperta contra o pescoço de Hatsune, a sufocando.
—Não estou ouvindo. – Ela força o peso de suas mãos sobre a katana. A garota engasgava. Miku tentava buscar ar, mas ele não vinha. – Está pedindo ‘’desculpas’’?
Elas se encaram. Parcialmente, na verdade. As lágrimas colavam as mechas nas bochechas de Hatsune. Um dos olhos sequer abria. Já o outro, que conseguiu escapar dos dedos de Rin, estava vermelho e irritado. Não conseguia se manter aberto por muito tempo.
Antes que ela ficasse inconsciente, Rin tira a espada de cima do pescoço dela.
Ela a queria acordada.
—Eu não trabalho com ‘’piedade’’. — Miku aproveita a brecha para respirar. Ela inspira com tanta força, que me surpreende a garganta não secar. – Estamos só começando. Até porque, — Rin puxa a katana da bainha. – você gosta tanto desse cabelo, não é mesmo? – Ela riu. – Quantos anos esperou pra que ficasse desse jeito? Não, não responda. Eu não me importo.
Rin puxa Hatsune pelo cabelo. O rabo de cavalo no topo da cabeça da garota parecia a corda pessoal de Rin. Ela pôs a espada rente aos fios.
—Sempre te achei feia com esse cabelo preso.
A katana arranca os fios da cabeça de Miku. Rin termina de puxar o cabelo dela com as próprias mãos. Ao final, ela tinha praticamente toda extensão do cabelo da Hatsune em suas palmas. Desde onde ela tinha o prendido, até a última mecha.
Rin estendeu a mão no ar, e olhou para o rabo de cavalo, preso por um elástico, que ela tinha arrancado, por poucos segundos. Logo depois, jogou em um canto qualquer da sala.
Ela arqueou a sobrancelha antes de se voltar a Hatsune.
—É horrível. Ter algo que você gosta tirado de você. Mas isso não chega nem perto do que você fez.
Rin posicionou a espada ao lado dos dedos da mão baleada de Miku.
—Chega.
—Ah, sim.— Rin concorda com a cabeça. – ‘’Chega’’. Estava duvidando se você era esse nível de burra, mas não. É muito pior do que eu pensava. Sabe, — Ela levantou a katana encima do mindinho da garota. – Você me fez matar a Miki.— Então a abaixou com toda a sua força, cortando fora o dedo de Hatsune. Ela levantou a espada mais uma vez. – Você me fez matar a IA. Sophia.— A katana bateu contra o chão, depois de atravessar o dedo anelar de Miku. – E também, me fez matar animais. Eu não gostei disso. Eu nunca quis isso. – Foi a vez do dedo do meio. – Eu vou fazer você sentir na pele o que eu senti. Sua mãe teve sorte de ser enforcada. Se não, eu mesma faria isso. – Ela colocou a espada sobre o indicador. – Eu nunca vou esquecer o que me fez fazer com Lily. – Lâmina de volta ao chão, arrancando-o. – Porque eu vou fazer o mesmo com você.
—Me arrependo. – A Hatsune levanta a voz. – De não ter feito pior.
—Acho que você não me conhece. – Rin põe a mão no ralo cabelo de Miku. Seus dedos se prendem aos fios curtos. Parecia que não passavam do queixo. – Você me fez esquecer da minha própria vida. Você merece o mesmo tipo de tratamento. – Rin levanta a cabeça de Hatsune e bate no chão. Mas diferente das outras vezes, ela não solta. Ela repete. De novo. De novo. E de novo. – Esqueça a piranha que você é. – Mais uma vez. – Esqueça que me conheceu. – Ela não parava. – Esqueça sua família. Esqueça seus amigos. Esqueça as palavras.
Miku gritou. Tentou bater em Rin, mas ela não tinha força.
—Só se lembre de uma coisa: Eu cansei de você. E quando essa merda sair da minha cabeça, o seu tempo acaba. Você precisa de mim. O seu jogo acabou. E a última jogada é minha.
‘’Xeque-mate’’.
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