Karakuri Burst
81 Memento Mori.
Notas iniciais

RIN POV'S ON
Larguei a cabeça dela no chão.
Meu passado constantemente destruía o meu presente, e o que restava do meu futuro. Eu precisava parar de o encontrar. Dar um fim definitivo. As coisas estavam erradas. Eu nunca achei que fosse entender o que era a confusão dentro da minha cabeça.
Eu estava errada, talvez.
Minhas mãos estavam vermelhas. As costas estavam destruídas. Ardia. A pele encima dos meus ossos ameaçava a abrir. As palmas estavam ensanguentadas. Entre meus dedos e embaixo das minhas unhas não havia muito mais que sangue. Não conseguia mais mexer uma delas.
Os fios de cabelo que eu havia arrancado se deitavam em meu colo. As mechas estavam espalhadas pelo chão feito um longo tapete. Meus joelhos ardiam contra o frio do piso, e com o tempo passado nele. Minhas roupas tinham respingos e pingos que escorriam por mim, até acertarem o chão. Minhas pernas lentamente eram acolhidas pelo calor da poça de sangue que se formava ao redor de nós.
Meu cabelo escorregava pelos meus ombros até os fios encontrarem minhas costas. Eu apertava a katana entre minhas mãos com força o suficiente para cortar meus dedos. As palmas vacilavam por estarem pegajosas, e ao mesmo tempo, escorregadias.
Os dedos dela tocavam minhas pernas. Alguns apenas estavam à mercê da poça que nos envolvia. E um ainda preso a katana pelos tendões. A mão que havia perdido os cinco dedos, e alojava uma bala entre os ossos e os músculos, não se atrevia ao movimento. Nos lugares onde as partes que lhe foram arrancadas por mim, o sangue escorria alimentando a poça. O buraco feito pelo disparo, parecia rejeitar aquele líquido grosso, e o expulsar para fora do corpo.
Eu não estava doente. Não estava presa a uma cama de hospital.
Mas estava morrendo.
Presa na prisão sem grades que existia dentro de mim.
Presa na minha cabeça.
O que eu estava fazendo era atirar as peças para fora do tabuleiro. Miku não precisava de um rei, porque ela era a rainha do próprio jogo. Xeque-mate era uma ameaça direta a sua pessoa. Era um aviso de um futuro próximo. Não era por um motivo simples que eu queria a derrubar. Mas eu não podia continuar a fazer o que estava fazendo. Não se tratava de ‘’um tiro no pé’’, e sim de um na testa.
O mundo é injusto.
E fazer ‘’justiça’’ com as próprias mãos não era justiça de verdade.
Era vingança.
Eu estava parada do lado de um corpo quase sem vida. Ajoelhada numa poça de sangue de alguém que eu precisava manter viva, para viver.
Precisava da pessoa que praticamente destruiu a minha vida, para salvar os restos que haviam sobrado de mim.
Era injusto.
A esse ponto, eu já deveria saber. A única coisa que fazia da vida injusta, era um dia ter acreditado que ela já foi justa. E eu sabia que isso era mentira. Ela nunca foi.
Eu odiava o cheiro que o sangue tinha. Mais do que qualquer coisa. E agora eu tinha as consequências dos meus, dos nossos atos grudando meus dedos. Eu estava a matando, e por isso, eu estava morrendo. O jogo poderia estar nas minhas mãos, mas elas estavam ensanguentadas, e ele iria escorregar. Eu estava atirando as peças para fora do tabuleiro.
Ela não parava de sangrar.
Eu iria a matar por hemorragia.
E ela sabia disso.
Nós nos encarávamos. Parcialmente. Eu havia enfiado minhas unhas nos olhos dela, e só tinha parado quando estourei um deles. O que sobrou, arranhei enquanto meus dedos ainda estavam lá. Ele estava vermelho. Eu gostava dessa cor. Eu tinha dado um motivo pra essa puta começar a chorar. Tinha forçado um motivo, com meus polegares. Os olhos mal se abriam. De um deles escorria sangue, do outro, lágrimas. Mesmo assim, isso não parecia desafiador o suficiente para impedir que nos encarássemos.
O silêncio entre nós duraria pouco. Ambas sabíamos disso. Aquela era, provavelmente, a última vez que nós duas nos encararíamos, cara a cara. Porque na próxima vez, simplesmente não iria existir vez para ser próxima. Uma de nós iria morrer, senão as duas. Se as coisas continuassem assim, eu iria matar a nós duas, e disso, nós sabíamos.
Culpa que era dela, mas que também era minha.
—Você. – Ela balbuciou. Havia acertado a cabeça dela no chão umas cinco vezes. Eu esperava frases mais desconexas. – Você é patética. – O ar mais saía do que entrava. – Você chama de isso de ‘’vitória’’? Eu chamo de suicídio.
—Você não é nada. – Apertava a katana em minhas mãos. – Chama isso de estratégia? Acha que pode me testar? Você não consegue me fazer te odiar mais do que já odeio. Não duvide da minha inteligência. Não vou nos matar porque a puta não calou a boca. – Ri. – ‘’Estratégia’’. Eu chamo de perda de tempo.
—Isso o que você está fazendo se chama idiotice, não ‘’vingança’’. — Ela grunhiu. – Você não está vingando a porra das suas amiguinhas ridículas. Muito menos a idiota que você considera como mãe. Elas estão mortas por uma boa razão. Os fracos sempre são inúteis. E os inúteis sempre morrem. Você não está vingando ninguém. Você é só uma vadia inconformada.
—Você não sabe o que é isso. Você não tem amigas. Você não tem mãe. Você matou o próprio pai. E seu pai matou a sua mãe. Você não tem família. Você não tem seu cabelo. Você não tem seus olhos. Você não tem nada. Tudo o que você tem sou eu, e você está longe de ser tudo o que eu tenho. Eu sinceramente pouco me fodo pra você. – Meus lábios formavam um sorriso à medida que eu falava. Não só pelo sadismo da situação, mas também por serem coisas que eu sempre quis falar, e até então, eram tão difíceis de dizer. – Mas você está certa. ‘’Os inúteis sempre morrem’’. Eu preciso de você porque é útil. Mas quando essa merda sair da minha cabeça, você vai perder tudo o que te resta. Eu, – Olho-a com desprezo. – e a sua vida. E é aí que você vira a vadia inconformada.
Ela tentava me responder.
Mas não conseguia.
A voz simplesmente não saía.
Meus olhos desviaram em direção ao barulho cortante do metal no chão. Um isqueiro bateu na minha perna antes de parar. Atravessou o sangue, e deixou uma trilha de ondulações para trás. Ergui o olhar, refazendo o caminho do que havia arranhado o piso lentamente.
Meiko.
Não era simples, mas era a coisa mais próxima da solução.
‘’Apenas faça. ’’
Soltei a katana no chão. O isqueiro me cutucava a pele com o frio do metal. O peguei antes que a poça o consumisse. Deslizei meus dedos pelas pontas para conseguir abri-lo, e meu dedão pelas engrenagens, para conseguir acendê-lo.
—Eu vou acabar com isso. – Anunciei a Hatsune. – Você precisa parar de sangrar. – Agarrei seu pulso e o puxei para mim. A força daquilo fez o sangue espirrar em meu colo. As pontas de sua mão, onde deveriam ser seus dedos, pingavam em minhas roupas, e escorriam pela sua palma, até me encontrarem. Minhas mãos estavam péssimas. E eu estava confiando naquela que Len praticamente havia destruído para segurar o fogo. – Sei o que está fazendo. – Aproximei o isqueiro a sua palma. — E não vai funcionar. – As chamas atacavam sua pele. – Pare de tentar. – O sangue borbulhava antes de enegrecer e queimar. – Porque se tentar, — Ela puxava a mão, mas eu tinha mais força do que ela. – É isso o que vai acontecer.
Fechei a tampa do isqueiro.
Eu havia fechado as pontas da mão sem dedos.
Ou melhor, queimado.
Aquele era o único jeito de estancar o sangramento. Atear fogo nas feridas faz parte da história. Só não achava que faria parte da minha história. Aquilo era uma merda. Deixava queimaduras dos maiores graus, mas eu não me importava. Miku estava tentando nos matar, forçando as hemorragias.
Isso não resolvia.
Ela foi baleada três vezes.
Inicialmente, não era pra matar.
Posteriormente, é isso o que a fará morrer.
Não sabia se eu estava adiando o inevitável, ou contornando todas as merdas que a situação me entregava. Eu não podia vacilar. Precisava jogar bem. E não era isso o que estava fazendo. Talvez tenha resolvido o problema que eu mesma criei, mas havia deixado os outros três á deriva.
Len respirou fundo, impaciente.
Então puxou a trava da arma, a apontando para Kaito.
—Eu não estou contando com a sua ‘’boa vontade’’. – Ele pôs os dedos no gatilho. – E sim com a sua vontade de viver. Nosso tempo é extremamente limitado. – Len apontou para mim com a cabeça. – Assim como a minha paciência. Eu estou muito próximo de te matar, então é melhor que faça a porra do seu trabalho e obedeça ao que eu digo. Eu não confio em você, mas é claro que eu não tenho opção. – Ele se aproximava de mim. – Você vai dizer o que eu tenho que destruir, e quem eu tenho que matar pra manter a Rin viva. Porque se alguma acontecer com ela, — Len então apontou a Colt para a cabeça de Kaito. – você pode ter certeza que eu vou te matar.
Kaito, que até então estava no chão junto com a Sakine, se levantou devagar, trazendo ela consigo.
—Não é tão simples assim.
—Ele tem razão. – Meiko puxou o braço dele. — Len tem razão. Nós viemos aqui pela Rin. Pra salvar ela. E é isso o que eu vou fazer. Se for só uma questão de tempo para que ela morra, — Ela o segurou. – então é melhor que você se apresse. Porque se ela morrer, você e aquela filha da puta também vão.
—Estão monitorando a pulsação da Miku. Assim que ela morrer, a Rin também vai. De dentro pra fora. Vai ser instantâneo. É por isso que ela está presa. Não vai conseguir viver de verdade até que tire isso da cabeça. – Ele respirou fundo. – A autodestruição do chip vai destruir as funções cerebrais dela. E até onde eu sei, — Seus olhos foram parar em mim e na Hatsune. Na poça de sangue, especificamente. – isso já pode estar acontecendo.
—Não me surpreende que vocês sejam da mesma merda de família. – Len comenta, antes de se virar para mim. – Eu não sei quem está monitorando essa filha da puta. Muito menos quando vão... – Deixou a frase morrer. Ele me estendeu a mão. – Vamos. Eu vou cuidar disso.
Olhei para a mão dele por um momento, antes de me virar para Miku.
—Não posso deixá-la aqui. – Len franziu as sobrancelhas. – Você sabe por quê.
—É só um peso morto. – Ele fala, irritado. — Literalmente. Mas você tem razão. Não dá pra largar ela aqui. Ainda não.
—Eu te ajudo com isso. – Meiko fala comigo.
Ela larga o braço de Kaito com violência, e enfim vem em minha direção. Eu e Meiko não éramos exatamente o que se pode chamar de ‘’próximas’’, mas definitivamente éramos amigas. As pessoas nas quais eu poderia confiar eram menos do que se pode contar nos dedos.
Mas Meiko era uma delas.
Eu entreguei o isqueiro a ela, assim que chegou perto de mim. As mãos enluvadas a protegia do sangue que pingava das minhas mãos nuas. Ela apertou o objeto em sua palma, formando um punho, antes de guardá-lo num dos bolsos do casaco. Observou a Hatsune, agonizando, mas ainda viva. Contornou seu corpo, até chegar em seus ombros, e a ergueu por debaixo de um de seus braços.
Agarrei a katana de Len.
Então, fiz o mesmo.
Levantar a Miku foi digno de náuseas. O cabelo dela, agora curto, não passava do queixo. Torto, parava nas bochechas em um dos lados. Com o rosto inchado, não parecia ser a tal Hatsune. Do nariz e de um dos olhos, escorria sangue com certo esforço. Meiko havia pegado o ombro que havia levado um tiro, e por isso, as manchas que faziam na roupa aumentavam. Por estar deitada na poça do próprio sangue, a levantar exigiu deixar escorrer todo aquele líquido pegajoso entre nós.
Do que estava falando?
Eu não estava muito melhor que isso.
Len não abaixou a arma. A mira, ainda fixa na cabeça de Kaito, parecia não querer mudar de alvo por um bom tempo. Ele, que jamais havia concordado com qualquer coisa que Len impôs, se viu obrigado a se submeter às ordens dele. Se perder a própria vida não era ameaçador, ou incentivador o suficiente, talvez a mulher que amava preferir ajudar outro homem e a sua namorada fodida, fosse.
Miku deitou a cabeça em meu ombro.
—Você não vai conseguir. – Ela sussurrou. – Você não consegue fazer nada sem que te mandem.
A empurrei.
—O que você pensa de mim, não tem nada a ver com quem eu sou.
—Térreo. – Kaito nos interrompeu. – Térreo. Agora. É pra onde temos que ir. Não pelo elevador, mas pelas escadas. Se desativarem a energia enquanto estivermos lá dentro, vamos ficar presos. E eventualmente, elas duas irão morrer. Estamos perdendo tempo.
—Mostre o caminho. – Len então olhou para mim. – Mas não esqueça que tem uma arma apontada para sua cabeça.
Kaito atravessou a porta e foi em direção ao corredor. Len foi logo atrás. Sentindo que ficaríamos mais para trás do que estávamos, eu e Meiko começamos a andar enquanto carregávamos a Miku.
Não achava que seria capaz de atravessar aquela porta tão facilmente, sem carregar a culpa comigo, juntamente com a Hatsune. Grande parte da minha vida estava sendo deixada para trás, ali naquele cômodo. Ver quem eu fui, quem eu sou, e quem serei parecia brincadeira na mão das pessoas que me usaram. Quis gritar por Len, antes que o fizesse, mas ele já estava longe. Eu não conseguia simplesmente esquecer que seu pai, meu tio, estava ali.
Mas Len sim.
Então eu devia fazer o mesmo.
E enfim o deixar para trás.
Ao chegar no corredor, Kaito e Len já faziam as curvas que contornavam o andar. Eu não devia temer ficar atrasada em relação a eles. Eu cresci aqui, afinal. Sei para onde ir, mas não em qual exata sala chegar. Era um pouco assustador pensar que além de culpa, e da Hatsune, eu também estava carregando o resto da minha vida por aí, uma vez que a maior parte foi deixada para trás, e que precisava correr, para não a deixar cair. E por fim, acabar.
Escutamos o barulho de uma sexta pessoa antes de alcançarmos os dois. Mas ao chegarmos à porta corta-fogo que levava as escadas, ela já estava morta, com um corte de ponta a ponta no pescoço. Não era ninguém que aparentava ser da segurança, ou algo do tipo, apenas um mal afortunado, que havia se metido no caminho de duas pessoas irritadas, como eles estavam.
Era essa a estratégia dos dois. Matar quem quer que fosse.
Mas sem espalhar o pânico. Ou o caos.
Não, isso era o que menos precisávamos no momento.
E com o caminho relativamente livre, eu e Meiko poderíamos carregar a Miku por aí.
Os lances da escada quase pareciam intermináveis. Eu sabia que não se estendiam ao inferno, porque nele nós já estávamos. O fato de ter que carregar mais um peso, um peso morto, como Len havia definido, realmente passava a sensação de fardo. Cansava, mais do que o necessário, mais do que seria considerado normal.
Entre lances e outros, precisávamos bater nela para mantê-la acordada.
Estávamos deixando uma trilha de sangue para trás, para quem quisesse seguir, seguisse. Não era intencional, mas aparentemente, não havia como impedir ou cobrir os rastros.
A chegada até o térreo não foi exatamente ‘’turbulenta’’, ou então problemática, mas não passou em limpo. Entre alguns passos e outros, ouvíamos barulhos de uma espécie de protótipo de briga.
‘’Protótipo’’, porque não passava de uns meros segundos.
E no fim, era só mais um corpo.
Sequer chegava a me perguntar se algum deles se sentia mal por isso. Levando em conta a quantidade de pessoas e coisas que matei, num impulso desenfreado, acho que não fazia sentido questionar uma coisa dessas.
Era bom.
Mas agora, era terrível.
Andar pelos corredores do térreo era desconfortável em vários aspectos. Nostálgico, mas horrível. Era forçada a rever tudo o que já aconteceu. Pensar nas brincadeiras mais inúteis que eu, IA e Miki inventávamos para mascarar as coisas que fazíamos ou vivíamos, era como uma tortura que eu fazia comigo mesma. As piores partes eram remetentes a lembrar da minha mãe, Lily, na forma como as memórias me atacavam.
Pelo corredor estar em linha reta, e não em curvas, agora, Len fazia parte do meu campo de visão.
Vezes ou outras, ele virava a cabeça para trás, e espiava sobre seu ombro para ver se estava tudo bem.
Quando eles pararam, a ansiedade me encontrou. Mas já era tarde demais para ter qualquer tipo de sentimento que fosse me atrapalhar a prosseguir. Olhei para Len, que me acenou com a cabeça em direção a porta. Larguei a Hatsune, na esperança que ela acertasse o chão com tudo, mas Meiko tinha força o suficiente para segurá-la por conta própria.
Me aproximei dele, e segurei seu braço.
Len me fez o soltar, para então agarrar sua mão. Apertei seus dedos na minha palma.
Atrás dessa porta estava a única pessoa que me impedia de viver. Junto da única coisa que podia me matar.
E depois?
Acabaria.
Len abriu a porta com chute do lado da maçaneta, a forçando a abrir.
A arma permanecia apontada.
Sentado em frente a uma única tela de computador, estava a pessoa responsável pela loucura da minha cabeça.
Mikuo Hatsune.
Ele se virou devagar, calmo. No fundo, parecia já saber o que iria acontecer. Ele sabia que tinha estragado uma vida. Ele sabia que eu era uma experiência falhada. A experiência falhada dele.
Eu nunca havia conhecido o irmão mais velho de Miku.
Então era estranho estar cara a cara, com quem me fez desse jeito.
Se fosse em qualquer outro momento, seria diferente. Eu teria tantas perguntas para ele.
Mas agora, eu só queria que ele morresse.
—Foi ele. – Murmurei para Len. – Foi ele que fez isso comigo.
Len virou a Colt, e usou o cabo da arma para acertar a cara dele. Foram umas sete vezes que ele usou a ponta de metal para socar o rosto de Mikuo. Eu sequer entendia alguma coisa que ele dizia. Talvez fosse para que Len parasse, ou então procurando redenção a mim. Eu não me importava. Não mais.
Andei em direção a Mikuo, e pus a mão no ombro de Len, pedindo indiretamente que parasse.
—Acabe com isso. Foi você que criou o que está na minha cabeça. Você é o culpado de tudo isso. Essa experiência só deu errado por sua causa. E você sabe disso. Eu não mereço morrer.
Era incrível o estrago que Len fazia na cara das pessoas em poucos segundos. Onde o cabo da Colt acertou, fortes hematomas apareciam. Acima da sobrancelha, onde a pele era mais fina, ele havia conseguido abrir a cabeça do irmão de Miku.
Eu não conseguia imaginar um ‘’Prazer em te conhecer’’ mais adequado.
—Eu sei. Não faça discursos. – Ele passou a mão na testa e depois esfregou os dedos, limpando o sangue da mão. – Sei por que está aqui. Não precisava mandar seu primo me atacar. – Mikuo olhou para Len. – Ponha isso na sua cabeça. A experiência só deu errado, porque você foi a criança errada. Se tivessem pegado ele, jamais teria dado qualquer tipo de erro.
—Não. – Len o cortou. – A família doente de vocês precisa entender que não conseguem viver a vida da nossa.
Ele riu.
—Vocês não valem a pena. Qualquer Kagamine tem esse problema. – Balançou a cabeça. — Não se preocupem, a autodestruição da Rin está estagnada. Eu não vou te destruir. Não sou eu que vou te matar. – Ele me encarou. – Simplesmente não vale a pena. Você não está livre de nós. Pode me matar. Matar a Miku. Matar quem você quiser, mas enquanto você tiver algo que é meu dentro de você, você vai pertencer a um Hatsune. Não te destruir agora, não impede que ninguém mais vá fazer isso. – Ele ergue as mãos. – Vá em frente. Faça o que te programei pra fazer.
—Todo Hatsune tem esse defeito. – Len diz, impaciente. – Vocês falam demais.
Ouço o barulho do tiro.
Foi alto o suficiente para que as pessoas de fora tenham escutado. No entanto, ninguém havia entrado na sala. Aquela briga não era mais só minha, era nossa. Depois de descobrir a razão do meu esquecimento de tudo, ele se sentia ainda mais responsável pelo o que havia acontecido comigo. Se eu era a ‘’criança errada’’ e ele a ‘’criança certa’’, só piorava a noção do que era certo, e do que era errado pra ele.
E era por isso que Len tomava a frente das mortes.
Mas tinha algo que ele não poderia me tomar.
Só faltava uma coisa.
Ela.
Andei para fora da sala, no silêncio em que só meus saltos batendo no chão eram ouvidos. O barulho do disparo tinha calado a boca de qualquer um ali. Isso poderia apavorar as pessoas, mas pra mim, era demasiadamente normal. Empurrei a porta com a minha mão, voltando ao corredor.
Eu não tinha deixado a katana de Len na sala da Miku por um bom motivo.
A agarrei pela blusa, a empurrando dos ombros de Meiko. Bati com suas costas nas paredes brancas. Ela tentou reagir, esfregando as mãos nas paredes, fazendo uma mancha enorme atrás de si.
Mas ela não tinha mais força.
-Você é uma filha da puta.
—Talvez.— Ajeitei a katana nas minhas mãos. — Meu pai foi assassinado pelo meu tio. Minha tia foi morta porque minha mãe quis. Meus avós morreram sem eu nunca sequer saber que eram meus. Eu fui separada da pessoa que eu mais amava na infância, e que era o meu vizinho. Sendo que esse vizinho, o tempo todo, era meu primo. Eu fazia tudo certo, e me tornei uma criminosa. Ele fazia tudo errado, e se tornou um agente da lei. Durante quase dez anos eu acreditei que estava sozinha. Depois de quase dez anos eu percebi que nunca estive. Meu primo matou meu tio. Minha mãe vai morrer numa cama de hospital, sozinha. A minha única família é meu primo, e eu namoro com ele há mais de um ano, sem saber que era ele o meu vizinho. Eu sou criminosa, e namoro com um agente. Eu quase tive uma filha, mas ela morreu. – Levo a katana até a altura de seu pescoço. – E mesmo assim, eu continuo aqui. Infernizando a sua vida. Se isso me faz filha da puta? Talvez. Mas não sua.
Enfio a lâmina na traqueia da Hatsune.
Não estava a decapitando.
Estava enfiando a katana no pescoço dela com o máximo de força que eu tinha.
A pressão arterial da traqueia faz o resto do pouco sangue que havia nela espirrar e escorrer.
Solto a blusa dela.
Mas a katana atravessada em seu pescoço e presa a parede a faz ficar de pé.
Sua cabeça tomba com o peso, e por estar com uma espada na traqueia, seu queixo bate na lâmina.
E assim ela fica, estática.
Sem se mexer,
Sem respirar,
Sem vida.
Leva alguns segundos até eu fazer alguma coisa. Não conseguia soltar o cabo da katana. Olho para trás, procurando Len. Ele está parado atrás de mim, me olhando em silêncio. Sinto minha respiração fraquejar quando percebo o que aconteceu.
Acabou.
E a porta da saída está há alguns poucos metros de nós.
Len anda até mim. Põe a mão dele por cima da minha, a que não conseguia soltar a katana, e muito menos a soltar da parede. Os dedos dele cobrem os meus, e os seguram com força. Sinto dor pelos poucos segundos que ele levou para puxar a lâmina da parede, e de dentro da Miku.
O corpo dela atinge o chão.
Ele tira a mão de cima da minha, e me deixa segurar sua espada.
Me agarra pelo braço, e me puxa pelo corredor.
Mas antes, ele tira a Colt a bolso do casaco.
Se vira para trás,
E atira.
—Você pôde escolher, — Ele falava, enquanto assistia Kaito por a mão no abdome, e se escorrer pela parede até encontrar o chão. Meiko correu para seu amparo. Ela pôs as mãos por cima das dele, e fez mais pressão, desesperada. – entre ficar do meu lado, ou na porra do meu caminho. Você pôde escolher entre me contar a verdade, ou acobertar a merda da sua família. E o mais importante. – Ele guardou a arma de volta. – Você pôde escolher entre manter eu e a Rin juntos, ou nos separar. — Len se virou para Meiko. – Quanto a você, você pode escolher entre ficar com esse filho da puta, ou ir. Mas eu e ela, — Voltou a olhar para frente, me puxando pelo braço. – nós vamos embora. De uma vez por todas.
Fiquei sem reação, enquanto era levada por Len.
Ao atravessarmos a porta, e o ar fresco da noite balançar meus cabelos, é que me recobrei os sentidos.
A longe, conseguia ver seu carro, todas as estrelas do céu, e todas as luzes de Tokyo.
Me virei para trás, mas sem sinal algum de Meiko.
Parei.
Ele olhou para mim, não soltando meu braço.
Balanço minha cabeça, e pergunto.
—Sabe o que isso significa?
Len sorriu.
—Você não vai morrer.
Olho para a katana dele em minha mão. Ele também segue esse olhar, e volta a por a mão nos bolsos.
Porém, dessa vez, é o meu revólver que ele tira de lá.
—Você pegou... – Comento.
—Não quis te devolver algo vazio. – Ele sorri de canto. – Mas agora é diferente.
Len pega a katana de minha mão e me olha nos olhos.
Depois, então, ele segura os dois objetos.
E os arremessa para o lugar mais longe que consegue.
Além dos limites da Burst.
Len puxa seu tapa-olho do rosto, arrebentando as cordas que o mantinham preso, e o joga no chão.
Vejo seus dois olhos pela primeira vez, em anos.
Ele coloca as mãos ao redor da minha cabeça.
Eu sabia o que Len iria fazer.
Tento o impedir por reflexo.
Mas minhas mãos escorregam pelos seus braços, e o deixo fazer aquilo.
Fecho os olhos.
Sinto-o mexer no nó das minhas bandagens.
Pouco a pouco, ele desenrola todas as voltas que estavam ao redor da minha cabeça.
Espero em silêncio, até que ele me diga que poderia abrir.
A frase é dita.
As coisas estão embaçadas.
Pisco várias vezes, a tempo de o ver jogar minhas bandagens no chão.
Len me estende a mão.
Eu a seguro.
As balançamos, como um primeiro encontro.
—Bom te ver novamente, Laranjinha.
—Senti sua falta, garoto estranho.
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